terça-feira, 13 de dezembro de 2016

 DIA DO MARINHEIRO

O lado bom de não ser historiador é que se pode brincar com fatos e situações pouco reveladores de um acontecimento histórico. Lembro-me de um anúncio da VARIG, nos anos 60, sobre a chegada dos portugueses ao Brasil em que mostrava um solitário marinheiro na gávea, avisando a tripulação de que havia “Terra à vista!”.
 Na carta ao Rei de Portugal, Caminha escreve “Neste mesmo dia à hora de vésperas, avistamos terra.”  Assim, graças a esse plural oficial, nunca soubemos nem saberemos quem avistou primeiro as terras a que o capitão foi logo nomeando de Terra de Santa Cruz. Quem se importou algum dia com esse marinheiro desconhecido?  Este dia do marinheiro é uma boa oportunidade para se lembrar dele e de todos os outros que servem na Marinha Mercante ou de Guerra do Brasil.
Sem esquecer três marinheiros brasileiros: Marcílio Dias (1838? -1865), Antonio Cândido Felisberto (1880-1969) e Artur Bispo do Rosário (1909?-1989). Três histórias bem diferentes.
Gaúcho de Rio Grande, negro, Marcílio Dias entrou na Marinha por força de uma ordem  do juiz municipal para o capitão do porto em 30 de julho de 1855. Prestou juramento à Bandeira Nacional no quartel-general da Marinha Imperial, na Ilha de Villegaignon, no Rio de Janeiro para onde fora levado e como grumete foi embarcou na fragata Constituição. Sempre teve comportamento exemplar e uma década depois foi promovido a marinheiro de primeira classe (cabo). Marcílio Dias participou de duas batalhas decisivas da Guerra do Paraguai e em ambas demonstrou a coragem que o notabilizaria como herói: a de Paissandu (1864) e a de Riachuelo (1855). Na batalha de Riachuelo, a bordo da fragata Parnayba, ele morreu enfrentando os inimigos à espada. No dia seguinte, o corpo “foi sepultado com rigorosa formalidade no rio Paraná”, segundo o livro de bordo da embarcação.
Antonio Cândido Felisberto, gaúcho de Encruzilhada, planejou e protagonizou a Revolta da Chibata com 2.400 marinheiros na baia da Guanabara entre os dias 22 e 27 de novembro de 1910. Os castigos físicos eram norma na Marinha do Brasil* e foram abolidos com a República; entretanto, um  decreto de 1890 (não publicado) restabeleceu as punições físicas. Faltas graves eram castigadas com 25 chibatadas, no mínimo.  Ao contrário de Marcílio Dias, ele se alistou na Marinha e também se destacou no serviço. No final do governo de Nilo Peçanha, enquanto João Cândido reivindicava o fim das punições e a melhoria das condições de trabalho dos marujos junto ao governo republicano, já se organizava um movimento conspiratório.
          A punição de um marinheiro do encouraçado Minas Gerais com 250 chibatadas foi a gota d’água para a explosão da revolta. A rebelião estendeu-se aos seis navios da esquadra. João Cândido assumiu o comando do Minas Gerais e de toda a esquadra e por quatro dias o Rio de Janeiro ficou sob a mira dos canhões. No ultimato dirigido ao recém-empossado presidente Hermes da Fonseca os revoltosos declararam: "Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha brasileira". Foi uma luta e tanto, mas quem quiser saber dos detalhes pode ler o livro do jornalista Edmar Morel, escrito em 1959: “A Revolta da Chibata”.
          O sergipano Arthur Bispo do Rosário foi marinheiro entre 1925 e 1933, mas enjoou do mar e foi trabalhar para uma família tradicional do Rio de Janeiro. Em 1938 teve o surto que provocou sua  internação no Hospício Pedro II; mais tarde, diagnosticado como “esquizofrênico paranoico”,  foi removido para a Colônia Juliano Moreira, no subúrbio de Jacarepaguá, onde viveu por mais de 50 anos.  Nesse longo período, Arthur Bispo do Rosário usou lixo e sucata para produzir  objetos que foram reconhecidos como arte e até mesmo comparados à obra de Marcel Duchamp (1887-1968). A obra mais conhecida é o Manto da Apresentação, que ele deveria usar no dia do Juízo Final. Quem visitou a Bienal de São Paulo de 2012 teve oportunidade de ver parte do fantástico  trabalho desse marinheiro enlouquecido, que não esqueceu as suas origens.  A obra dele está reunida no Museu Bispo do Rosário, na antiga colônia Juliano Moreira.
Obra de  Arthur Bispo do Rosário na Bienal de São Paulo, 2012.

Manto da Apresentação para Bispo se apresentar no Dia do Juízo Final.


(Publicado originalmente em 13/12/2012.)