quarta-feira, 12 de julho de 2017

UM COPO DE VINHO



Como lembrar a França sem mencionar o vinho, bebida que faz parte do cotidiano do povo? Em Paris há pelo menos dois lugares onde se pode aprender muito sobre a bebida: Musée du Vin (5 Rue des Eaux - Square Charles Dickens) e Les Caves du Louvre (2 Rue de l’Arbre Sec, 1er arrondissement).
Fui ao Museu do Vinho de Paris em 2010. Há um ingresso que dá direito a um copo de vinho. É possível também ir para o almoço, servido das 12h às 15h de terça a sábado. O Museu, próximo à Estação Passy do metrô, ocupa o prédio que abrigou o Convento da Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula, construído no século XV com o apoio da rainha Anne da Bretanha, mulher do Rei Luis XI. O convento era cercado por jardins, pomares e vinhas que  cobriam a colina descendo até rio Sena. Os frades produziam um vinho tinto saboroso. Bom o bastante para que o rei fizesse uma parada no convento para bebê-lo, quando retornava da caça no Bois Boulogne. As três salas abobadas, que abrigam o museu, eram usadas pelos religiosos para armazenar o vinho. Dessa época restou apenas o nome das ruas próximas – Rue Vineuse e Rue du Vin.
          Havia outro atrativo na região: as águas de Passy. Ferruginosas e laxativas, elas estiveram em moda no século XVII, e foram exploradas até o II Império, atraindo burgueses e nobres, artistas e intelectuais. O único vestígio desse tempo é o nome da rua (Rue des Eaux) onde se localiza o Museu e o poço em frente ao prédio.
Com a Revolução Francesa, o convento de Passy foi abandonado e destruído; a área reurbanizada é, atualmente, um bairro tranquilo, com forte presença islâmica. No século passado, as galerias foram utilizadas como cave pelo restaurante da Torre Eiffel. O Museu foi criado pelo Conseil des Echansons de France, uma confraria fundada em 1954 e um dos principais objetivos é cuidar das tradições relacionadas ao vinho francês. 

As galerias do convento foram escavadas na parte inferior de antigas pedreiras de calcário, exploradas entre os séculos XIII e XVIII para fornecer as pedras usadas na construção de Paris.  O visitante envereda pela história do vinho desde a mitologia greco-romana e conhece melhor a arte da vinicultura francesa, começando pelo vinicultor, passando pela vindima até os diversos tipos de vinho produzidos na França. Lá estão relacionados vendedores e consumidores, famosos ou anônimos.
O cientista Louis Pasteur (1822-1895) deu sua contribuição à vinicultura, com pesquisa para combater uma doença que atacou as vinhas francesas. O vinho preferido de Napoleão Bonaparte era o Chambertin. Com dezenas de ditos populares, quase sempre vinculando santos e meteorologia ao vinho, é possível avaliar a forte presença da bebida na cultura do país.
Na II Guerra Mundial, entre julho de 1942 e fevereiro de 1943, os alemães compraram cerca de dez milhões de garrafas de vinho no mercado negro, usando marcos supervalorizados. O governo de Vichy, seriamente preocupado com a situação, assumiu o controle de tudo que se relacionava com o comércio do vinho; porém, a medida, além de irritar os produtores, aumentou o mercado negro.
Os vinicultores também fizeram sua guerra para preservação do melhor vinho, emparedando parte das caves ou destinando aos alemães produtos inferiores. O champagne destinado ao inimigo tinha no rótulo o aviso: Reservado para a Wehrmacht.  

E para terminar com bom humor duas quadras de autores desconhecidos.

CLIENT, MON AMI.

Souviens-toi que quatre verres font un litre, et deux litres font une tournée.
Deux tournées une discussion, et une discussion une querelle.
Une querelle, une bataille, et une bataille deux gendarmes.
Une juge de paix, un greffier, un huissier, font une amende ou quelques jour de prison, plus le frais.
Les frais mènent à la ruine, la ruine mène au suicide, le suicide mène à la mort.
La mort cause des veuves joyeuses, et des belles mères en joie.
A part cela, viens ici,
bois modérèment,
paie honorablement,
pars amicalement.
Rentrez chez toi tranquillement
et fais une tendre bise à ta femme
en pensant à celle des autres
.
    
PRIÈRE DU BORDELAIS
Mon Dieu,
Donnez moi la santé pour longtemps
De l'amour de temps en temps
Du boulot, pas trop souvent
Mais du bordeaux tout les temps.

 (Foto: site do Museu.)

Semana francesa.

terça-feira, 11 de julho de 2017

LE PONT ST. BÉNÉZET


Quem diria que um dia eu ainda iria conhecer a Pont St. Bénézet, nome oficial da célebre Pont d’Avignon cuja existência descobri nas aulas de francês do Liceu Feminino Santista... Nossa professora, Anne Marie Louise, era uma senhora alta de cabelos grisalhos e dona de olhos verdes perfurantes, capazes de ler o mais recôndito pensamento das alunas. Bem, pelo menos eu achava que podiam. Usava com maestria o sarcasmo para mostrar-nos a desaprovação à indisciplina ou ao desleixo nos estudos ou mesmo com a aparência.
Minha primeira professora de francês. Houve mais dois mestres – uma professora no Colégio Canadá e um professor particular; entretanto, Dona Anne Marie foi inigualável. Se os cadernos se perderam ao longo dos anos, os livros de Irma Aragonez Forjaz estão bem guardados no armário, amarelecidos pelo tempo e um deles me diz que foi em 1959 que ouvi falar pela primeira vez da Ponte de Avignon. Lá está o refrão de “Sur le pont d’Avignon”, música que  remonta ao século XV: 

Sur le pont d'Avignon,
L’ on y danse, l’on y danse
Sur le pont d'Avignon
L’ on y danse tout en rond.


O que ela nunca nos disse é que ninguém dançava sobre a ponte, que foi construída no século XII e tinha cerca de 900m de extensão e 22 arcos. Uma enchente do rio Rhône (Ródano) em 1660 destruiu praticamente toda a ponte, deixando apenas quatro arcos.  É uma visão estranha: uma ponte que não leva a lugar nenhum. Certamente, é encantadora.
Pont St. Bénézet ou D"Avignon. Foto: Hilda Araújo, 2012.



Avignon, conhecida como a cidade dos Papas, fica perto de Marselha. No século XIV era propriedade do rei de Nápoles. Quando o Papa Clemente V lá se instalou em 1309, a igreja católica passava por uma grande crise de poder que se estendeu até 1377, ano em que Roma voltou a ser sede da igreja. Nesse período, Avignon foi residência de sete papas: Bento XII, Clemente VI, Inocêncio VI, Urbano V, Gregório XI e Bento XIII.




Para sede da igreja foi construído um palácio em estilo gótico entre 1335 e 1364; em 1348, o Papa Clemente VI comprou a cidade, que permaneceu propriedade da igreja até 1791, quando foi incorporada à França. O Palácio dos Papas sobreviveu às turbulências políticas francesas e tornou-se um belo museu. O centro histórico da cidade faz parte do patrimônio mundial da UNESCO desde 1995. 
Assim, a visita a Avignon em 2012 foi também uma boa lembrança da adolescência e de uma ótima professora. 

O livro de francês, 1959.















Semana francesa.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

O ABAJUR LILÁS

Francês já foi a língua estrangeira mais falada no Brasil e só foi suplantada pelo inglês após a II Guerra, quando a predominância norte-americana se estabeleceu no Ocidente. Falar francês era elegante e os galicismos se infiltraram no Português, enlouquecendo professores como Dona Zulmira Campos (Liceu Feminino Santista), que os varria das redações com sua assustadora caneta vermelha.

Vamos galicismar:

Madama depois de fazer a maquilagem – batom vermelho vivo e um toque de ruge nas bochechas – vestiu o tailleur marrom, depois apanhou o mantô para enfrentar o frio incomum. Sonhou por um momento com o calor e se lembrou do maiô que vislumbrara em uma vitrina meses atrás. Toalete completa. Antes de sair desligou o abajur. O chofer, encostado ao chassi do carro, a esperava junto à porta do chalé.

Dona Zulmira teria me dado zero, depois de uma descompostura. A garota teimosa poderia ter continuado a descrição.

O destino de madama era um cabaré ou boate, onde sonhava saborear um champanhe, aproveitar o bufê e flertar com o aviador de brevê novo e pincenê antigo, muito chique em seu paletó de percalina, que ela conhecera dias antes. O garçom a receberia com um buquê de rosas e a levaria para a mesa especial de onde poderia admirar a cantora que fazia jus ao cachê e à corbelha com que era saudada ao fim de cada apresentação.

A essa altura a mestra teria realmente desmaiado – tanto pelos galicismos quanto pelo cabaré, ambiente pouco recomendado para adolescentes. Ao se recuperar, certamente, enviaria a fedelha para a diretoria, recomendando uma séria conversa com os responsáveis. Dona Zulmira costumava verificar todos os dias a lição de casa das garotas, que abriam os cadernos sobre as carteiras para ela colocar o visto enquanto ia dizendo que seus olhos sempre batiam nos erros. Ameaça apavorante para todas. Foi uma ótima professora. Hoje estaria assombrada com os anglicanismos que invadem a vida de todos nós... 


(Semana francesa.)

domingo, 9 de julho de 2017

SÃO PAULO, NOVE DE JULHO.
Marcha, soldado paulista,
Marca o teu passo na história!
Deixa na terra uma pista:
Deixa um rastilho de glória!
Vê, soldado, que grande tu és!
Tua terra se atira aos teus pés!*

“Não se trata de um movimento separatista como caluniosamente propalam, e São Paulo jamais cogitou de quebrar a integridade nacional. Está de pé pelo Brasil unido e com o Brasil.” Pedro de Toledo. Entretanto, é verdade que houve um grupo radical que propôs a separação, mas a ideia não foi sequer considerada pela liderança do movimento. Para os céticos: basta observar que o Brasil nunca deixou a bandeira paulista.

*CANÇÃO do Soldado Constitucionalista, de Guilherme de ALMEIDA.

segunda-feira, 3 de julho de 2017


GALERIA
MEMÓRIAS DO JORNAL CIDADE DE SANTOS

O diário santista  circulou de 1º de julho de 1967 a 15 de setembro de 1987. 






  
                                             

Athié Jorge Coury (1904-1992) foi jogador de futebol, presidente do Santos Futebol Clube e deputado federal.  

Cobertura do incêndio na Vila São José em Cubatão recebeu prêmio "Saturnino de Brito", concedido pela SABESP. Jornal noticiou os riscos alguns anos antes. 

  
 


sábado, 1 de julho de 2017

JORNAL CIDADE DE SANTOS

NOTÍCIAS VOAM PELAS RODOVIAS
Se as redações de jornal caracterizam-se pela corrida contra o tempo – coletar informação, redigir, preparar e enviar para a oficina (gráfica), imprimir, distribuir e chegar à banca com o novo dia – como um jornal poderia ser produzido em uma cidade, impresso em outra e voltar a tempo de competir com publicação local? Este talvez tenha sido o desafio maior para todos os envolvidos na criação do novo diário.
O plano montado funcionou perfeitamente nos vinte anos de existência do jornal. Uma equipe de repórteres e copies produzia uma parte do material até 13 horas e um carro levava o malote para São Paulo por volta das 14 horas. A produção da equipe da tarde era levada para a redação paulistana pelo malote das 20 horas. Após um acidente grave na Via Anchieta, por um período esse serviço foi feito pela empresa Expresso Luxo, vizinha do jornal, que fazia o transporte de passageiros e de encomendas entre Santos e São Paulo em automóveis modernos em 40 minutos! A maior parte do frete era coberta com permuta de publicidade, graças a um acordo obtido por Caldeira.
A empresa FOLHA DA MANHÃ mantinha em Santos uma grande frota de veículos para a distribuição dos jornais do grupo no Litoral Paulista. Caminhões partiam de São Paulo de madrugada com as edições da Folha de S. Paulo, Notícias Populares, Gazeta Esportiva, Ultima Hora e CIDADE DE SANTOS e retornavam para a Capital com o encalhe. Os jornais eram descarregados na Rua do Comércio de manhã bem cedo e distribuídos por outros veículos que zarpavam para o Litoral Sul, Guarujá e Bertioga a toda velocidade. Tornaram-se famosos os carros amarelos da FOLHA DE S. PAULO e do CIDADE DE SANTOS que cruzavam as estradas do estado de São Paulo.
Fundamental nesse esquema diário de ganhar tempo eram a telefoto e o telex. Fotografias urgentes eram passadas para São Paulo por linhas telefônicas – num aparelho precursor do fax – num processo demorado. O telex começava a funcionar no início da tarde, transmitindo matérias para a secretaria paulistana, que funcionava a partir das 18 horas com um pequeno, mas importante, time: secretário, subsecretário, diagramadores, copies e office-boys. Cabia ao grupo preparar as páginas nacional e internacional, e acompanhar o fechamento do jornal junto à gráfica.
OFFSET DE PRIMEIRA
Em matéria de tecnologia, o jornal CIDADE DE SANTOS foi privilegiado. Com a decisão dos proprietários do grupo FOLHA de rodar o jornal em São Paulo, o novo diário dispôs do que havia de melhor em tecnologia de comunicação. No complexo da Alameda Barão de Limeira, 425 (Campos Elíseos), na Foto-mecânica, destacavam-se as rotativas GOSS URBANITE compradas nos Estados Unidos com financiamento do programa “Aliança para o Progresso”. Com elas o CIDADE DE SANTOS tornou-se o primeiro jornal brasileiro em offset. Na década de 1970, as GOSS URBANITE passaram a rodar ao lado da GOSS METROPOLITAN, última palavra no gênero offset. “Era fenomenal. Ela foi importada e a FOLHA DA TARDE teve a honra de estrear. Eram máquinas sem similar no Brasil, capazes de imprimir com excelência centenas de páginas em cores ao mesmo tempo” diz Ággio Jr.
O CIDADE DE SANTOS estreou a revolucionária “composição a frio” e, na década de 1970, seguiu a FOLHA DA TARDE na informatização da redação com os terminais de grandes “mainframes” importados.
No início de junho de 1967, o quadro de funcionários estava completo. JOÃO SAMPAIO DE MOREIRA NETO (“João Gordo”) fora selecionado nos testes coletivos. Apesar de recém-saído da Faculdade de Comunicações, era excelente e foi escolhido para a editoria de Política. O primeiro Secretário de Redação foi Fraterno Vieira, que teve carta branca para praticar suas concepções gráficas inovadoras.
Contrário a pautas por considerar uma camisa de força, Ággio Jr. conta que sugeriu dezenas de temas de reportagem. “Eram ideias e indicações simples, que a minha vivência profissional me permitia dar.” A equipe começou a preparar a edição inaugural. “Não lembro bem quantas páginas rendeu, mas foi inacreditável para uma equipe que, um mês antes, ouvira explicações até sobre o que era uma lauda.” As matérias locais foram elaboradas em Santos, enquanto as nacionais e internacionais correram por conta da Secretaria de São Paulo, graças à Agência Folha, Associated Press (AP), United Press International (UPI) e France Presse (AFP) e mais tarde a Reuters. “Custavam uma fortuna” – comenta Ággio Jr.
Textos e fotos (Geral e Porto) eram entregues à Chefia da Reportagem e aos editores de seções (Sindical, Esportes, Polícia, Variedades). Na Secretaria, o material passava pela copidescagem (norma: textos curtos e objetivos) e em seguida ia para a diagramação na banca integrada pelo Horley.
 “Depois de apenas 30 dias e sem rodar sequer um número zero, conseguimos por nas ruas a primeira edição do jornal CIDADE DE SANTOS.” A foto aérea da primeira página mostrava a orla da praia a partir da Ponta da Praia com a legenda: “Você está acostumado a ver Santos como nesta foto. Mas a partir de hoje vamos mostrá-la de todos os ângulos.” O exemplar custava NCR$ 0,15 ou Cr$150. Ággio Jr. não se lembra da tiragem, mas a venda foi um recorde superado apenas na edição de 1.º aniversário.
Ággio Jr. e Freddi com Esmeraldo Taquínio.


O PRIMEIRO EDITORIAL
PARA SERVIR
Cada jornal que se abre há de ser, pelos próprios objetivos da imprensa, uma trincheira a mais na defesa da dignidade do homem e das instituições por ele criadas para garantia da vida comum, na paz e no entendimento, assim como daquelas outras instituições que, transcendendo o humano, refletem e guardam as mensagens e o exemplo deixado por Deus na terra.
Assim se explica havermos colocado junto ao nome deste jornal, para que diariamente penetre, com ele, todos os olhos e alcance todos os corações, o brasão da altiva e generosa cidade de Santos, que justamente se orgulha de sua tradição de ensinar não apenas o amor pela pátria, mas também a grande virtude da caridade.
CIDADE DE SANTOS chega para, em harmonia com os demais que sobre seus ombros tomaram o alto mister do jornalismo no grande porto do café, assim como em todas as áreas que com ele formam a grande metrópole os frutos primordiais da Imprensa, que são, conforme consagrou sua Santidade o Papa Paulo VI, a informação e formação.
Forcejaremos para que o jornal que agora se apresenta à ordeira e laboriosa população santista esteja à altura daquelas tradições que o emblema do município ressalta. A informação imparcial, o comentário sereno, a total independência, a preocupação de ajuntar aos fatos o complemento cultural que contribua para o aperfeiçoamento intelectual, a certeza de que nossas portas e colunas estarão abertas ao diálogo, o empenho em dar à notícia de Santos a divulgação que ela merece, a férrea disposição de defender a justiça social – eis um pouco da matéria-prima de que será feita a CIDADE DE SANTOS.
Contamos, para isso, com o apoio dos leitores, das grandes massas de trabalhadores e dos empresários, veículo que o jornal dos interesses das mensagens de uns e outros. Juntos, haveremos de servir à Pátria e ajudar os homens na sementeira do Amor, a grande força construtiva.

ACERTOS PARA VENCER. Superado o impacto de lançamento, a tiragem do jornal não cresceu por causa dos limites de encalhe. A rotina editorial envolvia denúncias de descalabros na Prefeitura de Santos, de corrupção, especialmente nas empresas públicas e nos postos de gasolina, sem contar golpes imobiliários como o que resultou na grilagem de parte da praia do José Menino, divisa com São Vicente. Todo esse cenário era apresentado ao leitor com a criatividade gráfica de Fraterno.
A tiragem era realmente baixa, apesar do esforço dos repórteres e colunistas. Frias e Caldeira cobravam resultados de Aggio Jr.; Adolfo (Circulação) e de Pires (Publicidade) o pressionavam. “Precisávamos descobrir o que estava acontecendo, pois, teoricamente, tínhamos tudo para crescer.” Diante do problema o triunvirato foi às ruas pesquisar. Freddi, Adolfo e Ággio Jr. ouviram leitores, não leitores e, principalmente, jornaleiros – os que escutam o leitor em primeira mão. E foi uma portuguesa, dona de uma das principais bancas da cidade, quem elucidou o enigma. “Ela apontou para um exemplar do jornal pendurado na banca e, com linguajar rude e direto, proclamou: ‘É vonitinho, mas ordinário. Não tem letras, só vranco. E vranco ninguém lê’.”
Eles voltaram para a Redação e tentaram mostrar a realidade a Fraterno Vieira. Inutilmente. Com muito custo extraíram dele uma pequena alteração nas páginas internas, mas nada de alterar a cara do jornal. A verdadeira modificação aconteceria algum tempo depois, após uma crise interna provocada por Fraterno e que resultou na saída dele. Horley e Torres assumiram a responsabilidade de mudar a apresentação do jornal a partir das próprias concepções gráficas, com resultados positivos nas vendas.

Mais tarde dois profissionais de peso deixaram A Tribuna para se juntar ao novo periódico: o cronista esportivo DE VANEY e o chargista J. C. LÔBO.
ALGUNS FATOS RELEVANTES
#Esmeraldo Soares Tarquínio de Campos Filho, ou simplesmente Esmeraldo Tarquínio (1927-1982) teve uma participação importante na vida do jornal CIDADE DE SANTOS. Flávio Ribas conta que as eleições municipais de 1968 se aproximavam e Sérgio Paulo Freddi tentava em vão conversar com Carlos Caldeira Filho para definir a linha de atuação do jornal. Flávio cobria Porto, onde encontrou Caldeira se preparando para embarcar para Buenos Aires; quando Freddi soube, foi com Flávio para o local de embarque. “Oportunidade única para discutir o assunto e levantar a questão do apoio à candidatura de Esmeraldo Tarquínio, que era deputado estadual. Caldeira esquivou-se, embora Freddi insistisse numa resposta direta. Ele só repetia – ‘eu não vou dizer nada’.” Flávio traduziu a situação: “ele quer dizer que não vai interferir, deixou-nos livres para agir”.
O jornal apoiou a candidatura de Esmeraldo Tarquínio, que se elegeu prefeito com 42.210 votos (39,5% dos votos válidos) em 15 de novembro de 1968. Na edição de 18 de novembro o CIDADE DE SANTOS publicou a biografia do novo prefeito de Santos. Em 13 de dezembro foi baixado o Ato Institucional nº 5 que enrijeceu ainda mais a ditadura. Quase um mês antes da posse Esmeraldo Tarquínio teve seus direitos políticos cassados. O vice-prefeito Oswaldo Justo (1923-2003), solidário ao parceiro político, renunciou. Santos foi declarada “área de interesse da segurança nacional” e perdeu a autonomia que só reconquistaria em 1984.
# Flávio Ribas conta que no final da tarde de 15 de novembro, ele e Ággio Jr. estavam na redação, quando souberam que um amigo do jornal bancara uma pesquisa de boca de urna e o resultado indicava a vitória de Esmeraldo Tarquínio. O trabalho fora realizado pelo Instituto Gallup, que estava se instalando no Brasil. “O contrato era bastante rigoroso e incluía o sigilo sobre a autoria da pesquisa que não poderia sequer ser vendida” – lembra Flávio. Os dois ficaram entusiasmados, pois seria uma matéria e tanto. O jornal assumiria a autoria da pesquisa, entretanto, havia a questão da legalidade. Eram tempos sombrios. Flávio consultou o juiz eleitoral Antônio Carlos Marcondes de Moura, que não viu problema legal na publicação, porque a lei só proibia a divulgação de pesquisas de opinião no período anterior à eleição e, assim, do ponto de vista dele podíamos publicar o resultado da boca de urna. “No dia seguinte, publicamos o resultado e, como dizia a manchete do domingo, 17 de novembro “acertamos em cheio, não apenas na ordem dos candidatos, mas ainda – veja bem – na proporção dos números.”
#O general Osman Ribeiro de Moura fazia parte da diretoria do Santos Futebol Clube por volta de 1970. O time alvinegro passava por uma fase difícil e os jogadores e a torcida estavam descontentes. E naturalmente o assunto era tema de A TOCA, coluna assinada por Rubens Fortes (ERRE). O general reclamou para os diretores da empresa, que deram ordem para o editor Alci de Souza não publicar mais críticas ao general. Alci ignorou e foi demitido. Erre soube apenas no dia seguinte quando não o encontrou; consultou Paulo Vergara que apenas informou que Alci estava de féria e ele deveria continuar escrevendo A TOCA. Erre pediu demissão e informou ao diretor que só voltaria quando Alci retornasse.
 #CUBATÃO sempre mereceu atenção do jornalismo combativo do CS. A cidade sofreu os efeitos devastadores do crescimento econômico a todo custo que lhe deu notoriedade internacional como o vale da morte. A equipe sempre esteve lá encarando as denúncias do chamado CASO RHODIA, que se tornou um dos mais escandalosos casos de poluição ambiental do mundo (ONU). A empresa francesa produzia em Cubatão o famoso “pó da china”,altamente tóxico e que contaminou centenas de trabalhadores.
#Ninguém se intimidou com a maior epidemia de meningite que assolou o país entre 1970 e 1973 e na Baixada mereceu a cobertura correta, apesar da pressão do governo para “amenizar” a situação com a desculpa de evitar pânico da população, sempre cobrando das autoridades ação contra o avanço da doença.
#O problema ambiental no Litoral foi levantado pela Secretaria Especial do Meio Ambiente em abril de 1974, quando o secretário Paulo Nogueira Neto afirmou que as praias de Santos estavam tão poluídas que ele cogitava pedir a sua interdição por dois anos, em defesa da saúde pública.
#No ano seguinte, testes de laboratório revelaram a presença de 790.000 unidades de organismos coliformes para cada 100 milímetros de água das praias do Gonzaguinha, muito acima dos parâmetros aceitáveis de balneabilidade. Ao contrário de Antonio Manuel de Carvalho, o prefeito de São Vicente Jorge Bierrenbach Senra (1924-?) reconheceu a situação, interditou a praia e afixou placas de alerta aos banhistas. Data: dezembro de 1975 e janeiro de 1976.
#DE VANEY lançou em 1976 o livro “A verdade sobre Pelé: as fantasias, os exageros, o mito e a história de um desertor” (Editora Ypiranga). A obra foi resultado da indignação do cronista esportivo com recusa de Pelé de participar da Copa do Mundo de 1974. O livro, que teve uma tiragem de quatro mil cópias, foi posto a venda em bancas, mas recolhido duas semanas depois sem nenhuma explicação. Nem mesmo para o autor. É considerado obra rara.

FUNCIONÁRIOS
Infelizmente, não temos a lista completa dos funcionários do jornal CIDADE DE SANTOS. Lamentamos também que muitas pessoas lembradas apareçam sem o sobrenome ou citadas pelo apelido. Agradecemos àqueles que nos ajudarem a preencher essas lacunas, pois todos foram muito importantes para a história desse bravo matutino santista. 

Abissair ROCHA, ADALBERTO Marques, ADALGISA, ADEMIR Barbosa, ADILSON, ADOLFO Moreira, Adriano Neiva da Motta e Silva DE VANEY, AGUINALDO, AÍLTON Pereira Leal, ALBANO, ALBERONI, Alberto Pereira de NÓBREGA, Alberto WITKOWSKI, ALCI Souza, Alcides de Moura TORRES, ALCÍDIO Lima Barbosa, ALEXANDRE Elias, ÁLVARO Carvalho Jr., ANA MARIA Sachetto, ÂNGELA Gouvêa, Ângelo Mário Costa TRIGUEIROS, Antônio AGGIO Jr., Antonio Carlos MAGALHAES, Antonio Carlos SCHIAVETO, Antonio Cláudio Soares BONSEGNO, ANTONIO FERNANDES Conceição, Antonio Marques FIDALGO, Antonio MOREIRA, Antonio TADEU Afonso, ARAQUÉM Alcântara, Argemiro Pereira DE PAULA; ARYLCE Cardoso Tomaz, ARLETE, ARLETE Villani, ARLINDO Piva, ARMANDO, Armando AKIO, ARMANDO Gonçalves, AUGUSTO de Freitas, AURÉLIO, ÁUREO da Silva, AURORA Lanzilotti, BENALVA Vitório, BENEDITO Cubas, BERNARDINO, BERTIM (SP), Carlos Alberto MANENTE, Carlos Antonio Guimarães de SEQUEIRA, Carlos Augusto CALDEIRA, Carlos Bastos de CASTRO, Carlos CALDEIRA FILHO, Carlos Eduardo FELICIANO, Carlos Eduardo Souza Pires, Carlos MAURI Alexandrino, Carlos NOGUEIRA, Carlos PIMENTEL, Carlos SIQUEIRA, CÁRMINE Orival Francisco, Catarina Caldeira, KATUCHA, CATARINA Vitória La Terza Penna, CÁTIA Ribeiro de Castro, CÉLIA Maria Salgado Seoane, CELSO Bertoli, Celso Bispo, Cesar Augusto FRAGATA, Ciro Lizita, CLÁUDIA Fortes, Cláudio --- PIU-PIU, Cláudio Araújo VAGAREZA, CLÁUDIO Reis, Cláudio RODRIGUES, CLÉA Noronha Reis, CLEINALDO Simões, CLÉOFE Valentim Monteiro, CORIOLANO Carrião Garcia, CORNÉLIO Lima Filho ,CRISTINA  morena, Cristina Guedes; DALMO Pessoa (SP), DARCY – repórter; DEGENAL dos Santo, DELEGADO motorista, DEMIR Triunfo, DENISE Chagas Lima, DIRCEU Fernandes Lopes, DOGIVAL Vieira dos Santos , EDGAR Falcão, EDNA Franklin de Andrade Gimenez, Edson Carpentieri, EDSON Paes de Mello, EDUARDO Leite,  ELAINE Luna, ELAINE Sabóia, ELIANA Pace,  ELIZABETE telefonista, ELIZABETH Miller Melo, EMANUEL LEON, ENEIDA Barreto, ERALDO Silva, ERASMO Emídio de Luna, ERCÍLIA Pouças Feitosa, Ernesto PAPA, ERNESTO Teixeira do Nascimento, ERON Brum, EUNICE Benfica, EUNICE Tomé, Eymar José MASCARO, Fátima Francisco, FEIJÃO, FERNANDO Antonio Queiroz, Fernando Toledo ALLENDE, FLÁVIO GAZETINHA Coelho Ribas, FLÁVIO Roberto Alves, FRANCISCO – motorista, FRANCISCO Aloise, Francisco LA SCALA, Francisco Lopes Rúbio, Francisco M. Sanchez Filho (CHIQUINHO), FRATERNO Vieira, Gabriel TRANJAN Neto, GASPAR–SP, GEANDRÉ, GERALDO Stevanato, GILSON Miguel, GISELDA Bras, GISELDA Tozzi, GLÓRIA Zélia Gontijo Peres, GOULART, GUARACI, HAMILTON Iozzi, HÉLDER Marques, HELOÍSA Coimbra, HÉRCULES Amorim de Góes, HILDA Pereira Prado de Araújo, HILDEBRANDO, HORLEY Antonio Destro, ILDO, INEIDE Di Renzo, INÍVIO Borda, IRANDI Ribas, IRENE Ventura, IRINEU, IRINEU Bardi, ISALTINO Oliveira, ISMAEL, ITAMAR Felício Miranda, IVÃ (SP), IVANI Julião, J. C. LÔBO, J. MUNIZ Jr., J. ZUZARTE Reis, JACIRA Otaviano, JOÃO BATISTA Macedo Mendes Neto, João Carlos MARADEI, JOÃO Gonçalves, João Marcos RAINHA, João Moreira SAMPAIO Neto, JOÃOZINHO – Office- boy, JÓBSON Bérgamo de Barros, JORGE Reed, José Alberto de Moraes Alves BLANDY, José Alberto Pereira SHEIK, José Carlos HERÉDIA, José Carlos Lôbo – J.C LÔBO, JOSÉ CARLOS Rodrigues, José Carlos SILVARES, José DOUGLAS Pereira Pinto, José ESCANDON, José GUIDO Fré, José Luís LOUZADA, Luiz MASCARENHAS JACARÉ, José MEIRELLES Passos, José Roberto FIDALGO, José Roberto PASCHOALINI, José TADEU Alonso, JUAREZ (SP), JÚLIO César, KIKO Penteado Caldas, LENINE Severino, LÍDIA Matos, LÍDIA Maria Mello, LILIAN Garcia, LIZETE, LUDOVICO Labruna, LUIGI Bongiovanni, Luis Carlos de ASSIS, Luiz Antonio Maria FIGUEIREDO, LUIZ CARLOS (SP), Luiz Carlos Ferraz, Luiz Carlos PECE, Luiz ESCANDON, LUIZ Marques, Luiz SÉRGIO Silveira BARRERA,MANUEL Fernandes, MARCELO Cotrim, Marcelo Fernandes CASCIONE, Márcia AMAZONAS, MARCÍLIO Araújo, Marco Antonio DAMY Castro, Marcos LEOMIL, MARIA ALICE Peres, Maria Amélia Krause TITA, Maria APARECIDA de Oliveira, Maria CECÍLIA de Sá Porto, Maria DAS DORES Martins, Maria de Lourdes (suplem. Infantil), Maria EFIGÊNIA FIFA Mena Barreto, MARIA HELENA Castro, MARIA INÊS Monforte, Maria IZILDA, Maria José Gonçalves – ZEZÉ, Maria ZULEIDE de Barros, Marino MARADEI Jr., Mário SKREBYS, MÁRIO Taddei, MARIZA Cardoso Bastos, MARLY, MARTA, MAURICI MENINÃO, Milton PELEGRINI, MILÚ Maria Luiza Garret, MIRIAM Pedro, MIRIAM Ribeiro, MIRIAM Silvestre, MÕNICA Nogueira Lima, NADINE Felipe, NAIR Ribas D’Avila, Nassin MAHAMUD, NELSINHO Luiz da Silva, NESTOR Figueiredo, NEUZA Lemela, NILCE Maria Gonçalves, NILSON Duarte, Nilton TUNA Mateus, NIVAIR Neves, NOEMI Francesca de Macedo, NORIVALDO Pidone, ODILON Pereira da Silva Filho, OLAVO de Carvalho, OSWALDINHO De Mello, Paulo LARA, PAULO Mota, PAULO Passos, Paulo Roberto AQUINO, Paulo Sérgio FREDDI, Paulo VERGARA, PIEDADE, REGINA, REINALDINHO (boy), Reinaldo LÁVIA, Reinaldo Muniz, Paulo POMPEU, Reinaldo SASSI, RENATO Alonso Carneiro, Reynaldo SALGADO, RICARDO Marques, Ricardo SCHIAVETTO, RITA Caramez, Rivaldo CHINEM, ROBERTO Dantas, José Roberto PASCHOALINI, ROBERTO Peres, Roberto SASSI, Roberto SOMOGYL, ROBSON, RÔMULO Merlin, ROSAMAR Rosário, ROSÂNGELA, Rubens Fortes ERRE, SERGINHO, SERGINHO Lopes de Britto, SÉRGIO  motorista, SÉRGIO Aparecido Gonçalves, SÉRGIO Bicudo Avelar, SÉRGIO Luiz Correa, Sérgio MOITA, Sérgio ORÉFICE , Sérgio Ribeiro SERI. SÍLVIA repórter, SÔNIA Ambrósio, SONIA Mateu, SONIA PEDRASOLLI de Mello,SÔNIA REGINA Fernandes da Costa, TATEO Ikura, TÉRCIO, TERUO, TOMÁS DE AQUINO, TONICO Duarte, VALDETE Nivia da Silva, VALDIR Seabra, VANIA Augusto, VÂNIA de Lima Zager, VASCO Oscar Nunes, VERA Lúcia Corrêa, VERA Lúcia Fernandes Sassi, Vera Lúcia Kinjo, Vera Lúcia Rodrigues ,VERA Souza Dantas (Vera Leon), VÍTOR Luís Florenzano, WALTER Mello, WELFER Freitas, WILMA Pavan, WILSON Mello, YASSUO Kinjo, YUKI – ilustrador.

       Esta história foi escrita graças ao trabalho do jornalista Rubens Fortes ERRE, que ao longo dos últimos anos teceu uma rede de comunicação entre ex-funcionários do jornal CIDADE DE SANTOS, possibilitando a narração de histórias pessoais e de experiências vividas naquele período. Agradeço muito a colaboração de Blandy, Flávio Ribas Gazetinha, Ercília, Sheik e Renato Carneiro, que atenderam prontamente ao meu pedido de ajuda, lendo ou dando sugestões. Fonte indispensável é o Novo Milênio, do Carlos Pimentel.

RUA DO COMÉRCIO

RUA DO COMÉRCIO

O apogeu da Rua do Comércio foi na década de 1930. Um momento histórico da cidade aconteceu em 18 de julho de 1932, quando os contingentes constitucionalistas da cidade se preparavam para embarcar no trem para São Paulo para a frente de batalha. Amigos e familiares reuniram-se a eles na Galeria Odeon e no Café Paulista para as despedidas, enquanto a população dirigia-se ao Largo Marquês de Monte Alegre para apoiar os soldados, lotando as ruas de acesso à Estação Ferroviária.
Em 1936 o Centro dos Comissários de Café de Santos fundou O DIÁRIO, que circulou pela primeira vez em 6 de janeiro daquele ano. Era para ser um veículo comercial, mas logo se tornou noticioso. A redação era na Rua do Comércio, 9/11. No ano seguinte, o jornal foi comprado pelos Diários Associados, de Assis Chateaubriand. Mas não foi o primeiro (nem seria o último) a se instalar por lá. A rua santista foi o endereço de vários noticiosos. A REVISTA COMERCIAL, primeiro jornal publicado em Santos (02/09/1849), começou em outro endereço, mas em 1858 mudou-se para a Rua Santo Antonio, 60. O MERCANTIL, fundado em 1850, instalou-se no nº 2 da mesma rua. Houve um segundo jornal com o mesmo nome fundado em 1870 e que funcionou na Rua Santo Antonio, 70.
Interessante a história da REVISTA NACIONAL: a redação ficava em São Paulo, mas era composta e impressa em Santos, na Rua Santo Antonio, 64 – tipografia do DIÁRIO DE SANTOS. Surgiu em julho de 1877. Noventa anos depois foi lançado um jornal que era editado em Santos e impresso em São Paulo.


Imagem: Fundação Memória.