sexta-feira, 26 de agosto de 2022

UM MANEQUIM E DUAS HISTÓRIAS

 

A Sears, inaugurada em Santos na década de 1950, ocupava um prédio enorme na rua Amador Bueno com saída pela avenida São Francisco. Em meados dos anos 1970, depois de uma compra, estava na fila do caixa, quando esbarrei em alguém, pedi desculpas e a pessoa não se moveu. Olhei e... lá estava ele, rígido, com o olhar fixo em algum ponto da loja, impávido, indiferente... O manequim. Nada demais, não tivesse contado o incidente para alguém que achou divertidíssimo e a história se espalhou: Hilda cumprimentou um manequim! Muito tempo depois, já morando em São Paulo, fui apresentada a uma pessoa como “a minha amiga que cumprimentou um manequim”.  

Por causa disso desenvolvi um certo temor por essas figuras, nada semelhante à história de um episódio de Twilight Zone (“Além da Imaginação”) em que os manequins criam vida quando a loja encerra o expediente para horror de um cliente perdido; contudo, quando vou a algum lugar em que haja manequins presto atenção para evitar algum mal-entendido. Em 2017, fui visitar a graciosa casa de Betsy Ross, a costureira que teria criado a bandeira americana. Era a única pessoa por lá naquela tarde. Percorri os aposentos silenciosos, satisfeita pela tranquilidade que sempre proporciona momentos de reflexão. Ao descer as escadas para um dos cômodos a vi sentada à mesa – simpática, imóvel, com um sorriso estampado no rosto, roupas de época, mas eu estava mais interessada no mobiliário do século XVIII, quando ouvi o “Hello!”. Confesso que foi um susto e tanto e ela percebeu. Rimos, conversamos rapidamente e fiz a foto dela para não esquecer o dia em que a situação se inverteu e confundi um humano com um manequim... Dessa vez não contei para ninguém.

                                            A moça que atua na Betsy Ross House, 239 Arch St, Philadelphia, Pensilvânia.  Setembro de 2013.

(Há também um episódio da série CSI New York em que o funcionário de uma loja de departamentos, viúvo e solitário, comemora o aniversário de casamento dançando tango com um manequim no depósito...)

domingo, 21 de agosto de 2022

SÁBADO GELADO

Um frio escandaloso, mas reclamar do quê? É inverno. O sábado amanheceu com o jeito paulistano das crônicas de Guilherme de Almeida (1890-1969). Cinzento e uma garoa fina cai silenciosa. Tão silenciosa que o sabiá madrugador ensaiou uma cantoria e desistiu; um passarinho indiscreto diz lá do seu ninho “bem-te-vi”, mas logo cala o bico e arrepia as penas para se proteger do vento. Café quentinho, o pão no ponto e inicio os planos para devolver os livros na biblioteca sem congelar no caminho. Desisto do ônibus depois de uma longa espera ao lado de vizinhos encolhidos que consultam o aplicativo dos transportes. Prefiro a surpresa ou alívio do aparecimento do monstrinho subindo a ladeira. Metrô quase vazio, ao contrário dos corredores do Centro Cultural São Paulo. O pessoal da dança está em plena atividade – rapazes e moças ensaiam coreografias mirabolantes em frente aos vidros que refletem imagens juvenis. Três jovens observam um dançarino que, não fosse o entorno, diria que estava em convulsões – preconceito de uma senhora que viveu os tempos em que Elvis foi mal visto e Chubby Checker, incompreendido. Mas havia novidade no pedaço, que vai deixando para trás o vazio daqueles dias sombrios da pandemia. À primeira vista pareciam um bando de cangurus saltando pelo corredor próximo à biblioteca. Deve ser um novo esporte saltar por aí com as duas pernas ao mesmo tempo, separadas e flexionadas. Penso com meus botões que os cangurus fazem há isso há milhares de anos, mas em solo macio, nas pradarias australianas que habitam. Cimento não me pareceu adequado para esses saltos. Enfim, escolhi os livros e voltei para casa abastecida para as tardes frias que a meteorologia promete. No final da tarde, dois passarinhos no parapeito da janela me espiavam através da vidraça, ansiosos por sua quirera antes de se recolherem...

sexta-feira, 19 de agosto de 2022

PATRIMÔNIO SANTISTA

Coincidência ou não, dois amigos, no mesmo dia, me falaram do “bondinho” do Monte Serrat – o funicular que há quase um século transporta moradores, crentes e turistas entre a Rua Itororó e o topo do antigo morro do Vigia em Santos. Lá em cima, como indica o nome original, se tem uma visão de quase 360º da região – a Ilha de Santo Amaro, as praias de Santos e o Porto... Lá de cima (o ponto mais alto fica a 147 m do nível do mar), os pioneiros do século XVI podiam perscrutar a costa para se resguardar do inimigo, de piratas e corsários, mas principalmente aguardar a chegada de naus amigas com notícias, mercadorias e encomendas de Portugal. O “bondinho” foi inaugurado em junho de 1927.

 

Para os muito devotos, o caminho ainda é pela escadaria de 430 degraus, com direito a uma paradinha nos patamares para admirar as esculturas de bronze em alto relevo que representam a Via Sacra. A escadaria chama-se Monsenhor Moreira em homenagem ao sacerdote português José Benedito Moreira que foi transferido para o Brasil após atuar na Índia, Japão e Estados Unidos. Serviu no Rio de Janeiro e em Petrópolis, onde fundou o Colégio Moreira e permaneceu por 32 anos até se estabelecer em Santos, onde continuou a se dedicar ao ensino. Apesar da idade avançada subia o monte Serrat todos os dias para cumprir suas atribuições sacerdotais. Era estimado por todos. Ele faleceu em 6 de setembro de 1924, ocasião em que o vereador Benedito Pinheiro, após solicitar a consignação de voto de pesar pela morte sacerdote, sugeriu que se desse o nome dele ao caminho.

        Na década de 1930, M. Nascimento Júnior, diretor do jornal A TRIBUNA, lançou uma subscrição pública para a instalação dos quadros da Via Sacra ao longo das escadarias. O primeiro nicho foi inaugurado em fevereiro de 1939, ano em que se comemorou o centenário de elevação de Santos à categoria de cidade; o segundo e terceiro nichos foram entregues no dia da padroeira da cidade – Nossa Senhora do Monte Serrat – daquele mesmo ano. Os demais demoraram mais: a inauguração ocorreu em 13 de setembro de 1941.

        Um dos meus amigos lembra, saudoso, do tempo de criança em que a família subia o morro pelas escadarias e quando chegava ao topo fazia um delicioso convescote em que não faltavam sanduíches de pernil e vinho (para os adultos, claro). Descansavam e desfrutavam da paisagem litorânea. O outro, um jovem senhor com uns cinquenta e poucos anos, talvez, visitando a cidade resolveu fazer o passeio da infância. “Não me lembrava mais do bondinho, nem sei se já funcionava.” Dou risada e explico que, com certeza, existia e há bastante tempo! Provavelmente, subiu a pé.

 

Eu subi duas ou três vezes pelas escadarias para fazer reportagens e durante uma delas o entrevistado, gentilmente, insistiu para que eu tomasse um copão de garapa feita por ele e que tive que aceitar. Eu detesto garapa, embora goste muito de cana-de-acúcar. Há uns dez anos voltei a passeio... Sem garapa.

       




terça-feira, 16 de agosto de 2022

GOLPISTA SIMPÁTICA

 

Sexta-feira, no meio da tarde, em plena rua Vergueiro, calçada lotada de estudantes do Etapa em intervalo de aulas, aproveitavam o sol. A moça, uns 30 anos se tanto, usando máscara, passou por entre os jovens e me abordou toda simpática, como se fôssemos velhas amigas. “Olá, como vai a senhora? Passeando?” Não a reconheci, mas eu estava de bom humor e retribui o cumprimento, disse que ia resolver problemas e pretendia seguir meu caminho, mas ela continuou, apesar de não ter me mostrado tão entusiasmada como ela com o encontro. “A senhora não está me reconhecendo, não é? Sou do banco”. Por mais distraída que eu seja e apesar da máscara, com certeza não era do banco. Disse que ela estava me confundindo com outra pessoa.  Garantiu que não, nos conhecíamos do BB, sorri e disse que não tenho conta no BB, mas ela não perdeu a linha: tinha saído do BB e estava no Bradesco. Já certa de que a figura tinha todas as más intenções, não desmenti.  Em seguida me perguntou se eu já tinha ido atualizar meu cartão de crédito e, quando me mostrei surpresa com a novidade, ela “explicou” que era medida recente e aquele era o último dia para fazer o procedimento e se não o fizesse o cartão seria bloqueado. Ela pareceu realmente preocupada – acho que até mais quando eu disse que passaria na agência para resolver o “problema”. Então a esperta me informou que a agência estava fechada para desinfecção do COVID e muito solícita me perguntou se eu me lembrava do número do cartão para ligarmos e tentar regularizar a situação. Sorri e disse que não tinha ideia do número do cartão. “Vão bloquear” – avisou com cara de pena pela minha futura situação. “Não faz mal, se bloquearem terão que desbloquear e nesse período não gasto, economizo. Segunda-feira resolverei. Tchau. Um ótimo fim de semana para você.” E lá fui eu, certa de que ela era uma golpista frustrada. Ontem passei no banco por outro motivo e conversei com a gerente, que ficou surpresa com o novo golpe. Então, amigos, cuidado!


domingo, 14 de agosto de 2022

SANTOS NOS ANOS DE 1950

 

A década de cinquenta começou com uma importante iniciativa: a criação da Sociedade Visconde de São Leopoldo com “a finalidade a de criar, organizar, manter e dirigir faculdades e estabelecimentos de ensino superior na Baixada Santista”.  A Sociedade foi fundada em 28 de agosto de 1951 pela Mitra Diocesana por iniciativa do bispo Dom Idílio José Soares (1887-1969).

A Sociedade Visconde de São Leopoldo instalou-se no casarão com colunas amarelas, situado na Avenida Conselheiro Nébias, 589. Nos fundos, construiu-se um prédio onde começou a funcionar a Faculdade de Direito de Santos – a segunda instituição de ensino superior da cidade, a primeira foi a faculdade de Santos foi a de Ciências Econômicas e Contábeis, na década de 30. O presidente Getúlio Vargas assinou o decreto nº 31.134, autorizando o funcionamento do curso de bacharel em Direito, no dia 15 de julho de 1952. A instalação da Faculdade ocorreu em 23 de novembro daquele mesmo ano e contou com a presença do governador do Estado, Lucas Nogueira Garcez, do cardeal arcebispo de São Paulo, D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota. Dom Idílio José Soares, bispo de Santos, abriu a solenidade, presidida pelo diretor do Fórum e professor de Direito Constitucional, Ademar de Figueiredo Lyra.

O primeiro vestibular realizou-se ainda em 1952 com provas dissertativas. Inscreveram-se 196 candidatos dos quais 150 foram aprovados. O primeiro colocado foi Walter Theodósio. As aulas começaram em 14 de março de 1953. Os alunos trataram logo de criar o Centro Acadêmico "Alexandre de Gusmão", fundado em 1953 e declarado de utilidade pública em 1959. O endereço da Faculdade de Direito de Santos ainda é o mesmo, mas a famosa Casa Amarela foi demolida dando lugar ao prédio atual.

            Em 29 de dezembro de 1954, a Sociedade Visconde de São Leopoldo teve autorização para o funcionamento da Faculdade Filosofia, Ciências e Letras de Santos – FAFIS, com os cursos de Pedagogia, Letras e Jornalismo, reconhecidos em 24 de julho de 1957.  A nova unidade instalou-se na Rua Euclides da Cunha, 247, em um prédio doado pelo então governador do Estado, Jânio da Silva Quadros, em 14 de maio de 1958.  Era um casarão em estilo eclético que Francisco Loureiro, dono de uma grande área na Pompeia, mandou construir na década de 1930, quando a filha se casou com um comissário de café. No início do século XXI, a Sociedade vendeu o terreno, mas a casa foi preservada.

         De acordo com o IBGE, nessa época, 80% dos habitantes de Santos eram alfabetizados. A cidade dispunha de 146 unidades de curso médio; 15 ginasiais, 6 colegiais, 8 comerciais, 7 artísticos, 6 pedagógicos e 75 de outro tipo.

Foto: Casarão da FAFIS em 11 de julho de 2009, dia em que os ex-alunos se reuniram para se despedir da velha casa repleta de muitas lembranças, esperanças e decepções..



PONTA DA PRAIA: ANOS 1950.

 

Os anos de 1950 foram importantes para a Ponta da Praia, onde se concentravam as atividades pesqueiras e a colônia nipo-brasileira da cidade. Naquela época, “havia apenas a praia, sem asfalto, sem prédios, sem avenidas litorâneas. Éramos ligados ao cais com a linha férrea Forte Augusto. A única rua existente era a Avenida Rei Alberto I, que já fazia a ligação da cidade de Santos com o Guarujá, através da balsa. Ir ao Macuco, nem sonhando. Tínhamos que atravessar uma pequena floresta. Poucas casas, muita banana e até mexerica havia no sítio dos Maringheli. Havia, também, muitos manguezais”. Trecho de depoimento de antigo morador. (www.novomillenio.com.br em 24 de dezembro de 2007.)

Ali funcionavam pequenos estaleiros onde se construíam e consertavam barcos de pesca; era o local de embarque e desembarque de pesqueiros. O IBGE registrava a existência de 850 pescadores em Santos. A infraestrutura disponível compunha-se de 170 canoas; 40 baleeiras; 76 botes; 2 traineiras; 126 cutters motor; 30 iates; 2 navios; 4 chatas.

No dia 19 de maio de 1953, nascia a Cooperativa Mista de Pesca Nipo-Brasileira, formada por profissionais que acreditavam no trabalho em comum para organizar e racionalizar as atividades do setor e do comércio de peixe. Em 23 de janeiro de 1958, começou a funcionar o Entreposto de Pesca de Santos.

    Como uma coisa leva à outra, trabalho e lazer, no dia 1º de fevereiro de 1957, presidida por Jorge Nakai e secretariada por Tokuji Ono, realizou-se a assembleia de fundação do Estrela de Ouro Futebol Clube. A ata foi registrada no dia 5 de abril e no dia 31 de maio, a entidade comprava o terreno de 15 X 65 m, ao preço de CR$ 225.000,00, com frente para a Rua César Lacerda de Vergueiro. O dinheiro para a aquisição foi levantado com contribuições e a realização de tanomoshi, com a primeira parcela doada ao Estrela, além de outras campanhas de arrecadação de fundos. O primeiro presidente eleito do Estrela foi Jorge Nakai e o vice-presidente, Hisao Nakanishi. A partir de 1959 o clube começou a exibir filmes japoneses e a participar do carnaval santista – que depois de um dilúvio no primeiro baile passou a promover a festa no Restaurante Jangadeiro. Em 31 de janeiro de 1966, por escritura pública, o clube adquiriu o terreno da praia por Cr$ 210.000,00, dando como parte de pagamento o terreno adquirido no Jardim Nova Era, que foi recebido por CR$ 60.000,00.

Para quem não conhece, tanomoshi é um tipo de consórcio de dinheiro que não cobra juros nem taxas. É um costume na colônia japonesa desde o início da imigração ao Brasil e que há muitos anos é aberto a amigos brasileiros.

No dia 23 de janeiro de 1958, foi inaugurado o Entreposto de Pesca de Santos, que dispunha de pier para descarga do pescado, câmaras frigoríficas para a estocagem do pescado, produzia gelo, vendido pelo menor preço da praça, além de outras instalações. Em 1968, Santos contava com 66 empresas de pesca ou armadores de pesca, além de quatro cooperativas de pesca.

A estátua do Pescador, próximo ao Aquário Municipal.

Estrela de Ouro: Av. Rei Alberto I, 372, Ponta da Praia, Santos. Há um restaurante aberto ao público bastante elogiado.

sábado, 13 de agosto de 2022

ANOS 1950, GRANDES MUDANÇAS.

É tarde. Os marujos

ficarão ao largo. Nesta

noite não vão descarregar

suas agonias nas bocas pesadas.

Vão ficar de longe, espiando

os anúncios luminosos que

piscam debochando dos tristes

por esta noite de solidão

Plínio Marcos (1935-1999), dramaturgo santista.

 

O Porto gerou a vila, que gerou a cidade, que enriqueceu o município e a maior parte da população abandonou suas origens: nos anos cinquenta, quase todas as famílias já haviam migrado para os bairros além dos morros, aproximando-se da praia. O centro, já em decadência, cedeu lugar aos prostíbulos, bares baratos, boates de baixo nível frequentadas por marinheiros, marítimos e por um certo público sofisticado que gostava desse submundo bizarro. Em 1957, o Porto de Santos já contava com 6.260 metros de cais em operação, com várias instalações especiais. A ilha de Barnabé, da Companhia Docas de Santos, abrigava 43 tanques de aço, com a capacidade total de 211.102 m³; no cais do Valongo, Saboó e Valongo, mais 16 tanques metálicos destinavam-se a receber óleo cru e óleo combustível. Os Armazéns compreendiam uma área coberta de 301.084 metros.

O café continuava sendo o principal produto de exportação. Segundo dados do IBGE, o índice do preço de exportação de café em 1951 foi de US$ 110,94 a saca e foi aumentando até atingir em 1954 o valor de US$ 127,56 para cair no ano seguinte para US$ 105,60. Em 1952, foi criado o Instituto Brasileiro do Café –-IBC, formado principalmente por cafeicultores. A função do IBC era definir as diretrizes da política cafeeira. Entre as suas primeiras ações incluem-se a regulamentação de embarque de café e a criação de um escritório em Nova York e agências em Santos, Rio de Janeiro, Angra dos Reis, Vitória, Salvador e Recife além de agências estaduais nas regiões produtoras.

No final dos anos cinquenta, aconteceu a grande revolução nos transportes marítimos de carga com a adoção do sistema de contêineres. As principais consequências do novo modelo foram mais rapidez, segurança e economia, porém, com significativa diminuição dos postos de trabalho.

Foi por essa época que teve início o processo de industrialização da Baixada, que absorveria mão de obra local e ainda atrairia trabalhadores de todo o país.

                                                             Cai cai balão, cai cai balão

Na rua do sabão

Não Cai não, não cai não, não cai não

Cai aqui na minha mão!

Folclore brasileiro.

 

Cubatão já deixara de pertencer a Santos no final dos anos de 1940. A campanha pela emancipação de Cubatão ganhou força com o apoio do deputado estadual Lincoln Feliciano (1893-1971) e em 17 de outubro de 1948 realizou-se o plebiscito que decidiu pela emancipação política do distrito. Foram 1.017 votos pró desmembramento, 82 votos contra e um voto em branco. Com este resultado, o governador Ademar de Barros (1901-1969) sancionou a Lei nº 283 de 24 de dezembro do mesmo ano, fixando o quadro territorial e administrativo do Estado. 

            Os anos cinquenta marcaram o início da industrialização do município, com reflexos sobre toda a Baixada Santista. A primeira a chegar foi a Companhia Siderúrgica Paulista – COSIPA, constituída em 23 de novembro de 1953. De acordo com Martinho Prado Uchoa, um dos fundadores da empresa, a ideia surgiu em 21 de abril de 1951, durante uma visita às instalações da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), a primeira usina de coque do Brasil. O interessante na história de Plínio é que a sugestão da usina já foi apresentada com nome e endereço: ela seria em Cubatão e batizada como Companhia Siderúrgica Paulista. A ideia foi bem recebida, conseguiu apoio da Assembleia Legislativa e da imprensa. O grupo que se constituíra para implementar o projeto conseguiu comprar o terreno de aproximadamente 70 alqueires, ou seja, cerca de 4,1 milhões de metros quadrados, em Piaçaguera, Cubatão, de propriedade de Adelino da Rocha Brites.

Embora tenha sido pioneira, foi a Refinaria Presidente Bernardes que começou a operar primeiro. A inauguração da primeira parte do projeto da COSIPA – Usina José Bonifácio de Andrade e Silva, entretanto, só aconteceria na década seguinte: 18 de dezembro de 1963.  Em 1993, a COSIPA foi privatizada em leilão, passando a ser controlada pela USIMINAS, mas só em 2009 teve o nome alterado, mas essa é uma outra história... (Ver Museu Virtual da COSIPA.)

            Depois de uma ampla mobilização e de demoradas negociações, em 3 de outubro de 1953, o presidente Getúlio Vargas sancionou a Lei nº 2004, criando a Petrobrás e instituindo o monopólio estatal do petróleo. Na época, o País consumia cerca de 70 mil barris por dia – o principal produtor brasileiro era o Recôncavo Baiano e a complementação era feita com importações da Venezuela e da Arábia Saudita. A Refinaria Presidente Bernardes de Cubatão começou a operar com uma vazão de treze mil barris por dia. A meta na primeira etapa era processar diariamente 45 mil barris.

            O recrutamento da mão de obra tinha um atrativo especial: os salários já que a maioria dos postos exigia trabalho em turnos, que incluía os fins de semana. Para preparar a mão de obra especializada, além da ajuda do Serviço Nacional da Industria – SENAI, foi organizado o Centro de Treinamento de Cubatão. Os engenheiros foram preparados no Centro de Aperfeiçoamento e Pesquisas de Petróleo – CENAP.

A inauguração da Refinaria aconteceu em 16 de abril de 1955. Com esta nova fase, acaba uma das tradições de Santos: os balões que nas noites frias de junho que iluminavam os céus da cidade. Uma curiosidade: o balão dos presos fazia parte dessa tradição. Na época das festas juninas, os presidiários lançavam uma campanha de arrecadação de dinheiro a fim de comprar material para confeccionar o balão. A imprensa costumava colaborar, divulgando a pedido dos presidiários e o balanço da arrecadação. Assim, no dia marcado, a população ia ver o balão dos presos subir.

*Barril é medida de volume equivalente a 159 litros. 
Fonte: Santos e o Porto, em 1957, site www.novomilenio.com.br , citando publicação da CDS, da Magazin das Nações - Editora & Publicidade Roman Ltda. (São Paulo, Santos, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Los Angeles).
Monte Serrat: vista parcial do Porto de Santos, 2007.






sexta-feira, 12 de agosto de 2022

SANTOS NOS ANOS DE 1950

 

A segunda metade do século XX começou com esperança renovada (apesar da ameaça nuclear) e festas de réveillon inesquecíveis no Clube XV, no Parque Balneário e no Grill do Atlântico entre tantas outras realizadas na cidade. Enquanto o o presidente Eurico Gaspar Dutra (1883-1974) preparava-se para deixar o governo, o ex-ditador Getúlio Vargas (1882-1954) arrumava a mudança para o Catete, agora com o aval do voto popular. 

A grande luta de Santos no início dos anos cinquenta foi a reconquista da autonomia política, perdida no período do Estado Novo instalado por Vargas. O deputado federal Antônio Feliciano da Silva (1899-1986) iniciou uma campanha na cidade para que o município reconquistasse a autonomia, apresentou projeto de lei que foi aprovado pelo Congresso Nacional e sancionado pelo presidente da República. As eleições para prefeito foram convocadas para 22 de março de 1953. O vencedor foi o candidato Antônio Feliciano da Silva (mera coincidência) cujo mandato foi de 14 de abril de 1953 a 14 de abril de 1957. No período seguinte, assumiu o engenheiro Sílvio Fernandes Lopes, eleito para o período de 1957 a 1961.

Com uma população de 203.562 habitantes, Santos iniciava a nova década com um perfil diferente. Estava, fisicamente, menor – pois perdera Guarujá em 1934 e, em 1948, Cubatão. A infraestrutura urbana compunha-se de 343 logradouros calçados com paralelepípedos ou pavimentados com macadame e asfalto. Havia 42.394 domicílios com água; 39.394 domicílios com luz; mas apenas 21.598 prédios com esgoto. O município dispunha de 24.000 aparelhos telefônicos.

            Em 1956 havia em Santos 450 estabelecimentos industriais – entre grandes e médios com mais de cinquenta pessoas empregadas, além de centenas de pequeno porte. A cidade tinha sete mil operários. O comércio funcionava com 3.530 estabelecimentos varejistas e 138 empresas atacadistas. Havia 53 estabelecimentos de crédito. O setor de serviços contava com 98 hotéis; 191 pensões; cinco hospedarias e cinquenta casas de cômodos. As diárias variavam de CR$ 150 a CR$ 550.

Entre as empresas destacavam-se: A Leoneza (fábrica de doces e goiabadas); Christian e Nielsen – Construção Civil, Companhia Açucareira Santista, Companhia Antarctica Paulista, Companhia Docas de Santos, Companhia Usinas Nacionais (açúcar), Fábrica de Gelo Vila Mathias, Faé & Cia. (metalúrgica de chumbo), Gomes, Santos e Cia. – roupas (SEMOG), Ind. e Comércio Luiz XV – Colchões de Molas, Sofás e Poltronas, José de Matos e Cia. Ltda. Moagem e Torrefação de Café, Moinho Santista, Moinho Paulista, Pereira Mendes Ltda. Moagem e Torrefação de Café, Química Industrial Blume (cera), S. A. Alcyon (sardinhas), S. A. Indústria de Refinação Francisco Matarazzo (moagem de sal), The City of Santos Improvements Co. (eletricidade e gás), Tipografia Carvalho, Usina Hidrelétrica de Itatinga e as Casas Pernambucanas – entre as mais antigas.

            Na orla, os casarões desapareciam, os prédios multiplicavam-se e os jardins da orla já se estendiam do José Menino à Ponta da Praia. Os guarda-sóis coloriam a faixa de areia e, embora muita gente aparecesse de terno ou de vestido para um passeio pela praia, o corpo feminino já era uma atração à parte.

TÚNEL – Santos estava crescendo. Circulavam pela cidade 4.763 automóveis e 2.663 caminhões. O caminho do Centro para a praia poderia ser mais simples e rápido, se houvesse uma passagem sob os morros do Bufo e do Fontana. Em vez de contornar o morro pelas avenidas de São Francisco, Senador Feijó, Rangel Pestana até o Jabaquara, o túnel seria uma excelente alternativa para o trânsito que já preocupava desde o final dos anos quarenta.

O Prefeito Rubens Ferreira Martins decidiu pôr mãos à obra e em 22 de dezembro de 1949 o túnel começou a ser construído sob o Monte Serrat. O projeto e as obras foram executados pelo Departamento de Estradas e Rodagem – DER. O prazo de dois anos previsto no cronograma não foi cumprido por causa dos custos e de problemas financeiros da Prefeitura. A primeira pista do túnel só foi entregue no dia 6 de setembro de 1954, quando o prefeito era Antônio Feliciano; a segunda foi inaugurada em 23 de dezembro de 1955. Elas têm 400m de extensão. O Túnel Rubens Ferreira Martins ganhou esta denominação através da Lei nº 2.756 de 11 de novembro de 1963. (Continua.)

 


Fontes: FERREIRA, Jurandy, Pires – organizador. Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, Rio de Janeiro: IBGE. 1957.
Fotos: Novo Milênio.

 

quarta-feira, 10 de agosto de 2022

LEMBRANÇAS

Pelo Terminal Rodoviário do Jabaquara, passam os trens do metrô de São Paulo no subsolo, os ônibus para a Baixada Santista no térreo e aviões que cortam o céu com destino desconhecido. Passageiros que aguardam o embarque para Santos, Guarujá ou Peruíbe podem se gabar de ter sempre oportunidade de observar de perto os trens de pouso das aeronaves sendo recolhidos... A foto é de 10 de agosto de 2018. A TAM não existe mais; desde 2016 faz parte da LATAM.


terça-feira, 9 de agosto de 2022

ANDANÇAS DE AGOSTO

 

Um dia nublado, temperatura agradável (17º), ideal para uma caminhada a pé até a Sé. Cinquenta minutos, apenas uma ladeira no início da rua Conselheiro Furtado. Embora conheça bem o trajeto, sempre há novidades. A loja de produtos para bichos de estimação, por exemplo, restaurou a pintura externa e ficou bem interessante. Na vitrine um gato dorme no cesto (rua Pires da Mota). Já na Conselheiro Furtado, aprecio de passagem os jardins do templo budista, sempre muito bem cuidados. Mais à frente há o Templo Lohan, onde também funciona um museu que qualquer dia visitarei. Quase na esquina da rua da Glória, uma cena deliciosa: a moça passeia com um cachorro simpático – nem grande nem pequeno, quando de uma loja sai um galo já meio passado que, em defesa de seu espaço, ataca o cão. O pet se assusta e se aconchega à dona que bate em retirada. Vitória do galo que faz ponto junto a uma bicicleta estacionada na calçada. Continuo a caminhar pelas ruas Anita Garibaldi, das Flores e do Carmo. Um detalhe importante: esse deve ser o lugar mais perfumado de São Paulo, pois nessas três ruas há dezenas de lojas de essências para todos os gostos e narizes. Na volta da andança fui conhecer o Bombacafé. Eta nome ruim! Inaugurado há um ano no espaço em que funcionou a Associação dos Ex-Combatentes de 32, o café fica ao lado do comando do Corpo de Bombeiros, daí o nome... Toda a decoração homenageia os bombeiros. Enfim, os bolos pareciam muito apetitosos e voltarei para provar uma fatia. Hora de retornar para casa.



Aqui, quem manda sou eu! O cachorrinho já havia batido em retirada... 







domingo, 7 de agosto de 2022

OS SOLTEIROS DE ANTIGAMENTE

 

Estou dando boas risadas com o “Guia Do Solteiro”. Claro que foi escrito antes do “delivery tudo” e do supermercado Oxxo (perto daqui tem três), sem contar que os solteiros (pelo menos os que conheço) mudaram muito, são organizados e adeptos de uma vida saudável. Na verdade, o livro é uma zombaria geral, em especial com os homens que vivem só, escrito no estilo adotado para shows tipo “stand up” ou em monólogos de humor. O escritor, P.J. O’Rourke, foi um jornalista americano (casado) e colaborou com grandes revistas de humor e trabalhos para o cinema. Morreu no início deste ano. Não o conhecia.

    Logo no início do livro ele diz que “Camus estava errado sobre o mito de Sísifo – não é um símbolo da vida, e sim da manutenção da casa.”  Para quem não sabe Sísifo é um personagem da mitologia grega que os deuses condenam a rolar um bloco de pedra montanha acima; porém, quando chega ao cume, a pedra rola montanha abaixo por seu próprio peso e Sísifo recomeça a tarefa que dura para sempre porque se parar ele morrerá.

Um dos problemas que ele ressalta na vida do solteiro é a alimentação. Fazer compras, ter todos os ingredientes para cozinhar e cozinhar – o problema é o resultado, que pode ser um desastre culinário. Assim, o solteiro frequentemente tem que improvisar com o que tem, o que resulta em um pesadelo – como sanduíche de baconzitos, omelete de cereja ao marasquino ou sanduíche de molho de pimenta e maionese.

Ele diz que “nomenclatura é uma parte importante da culinária do solteiro. Se você chamar de “torrada de queijo à italiana”, não é assim tão terrível comer pizza requentada no café da manhã”. Sobre frutas: “Uma fruta é um legume com boa aparência e dinheiro. Além disso, se você deixar a fruta apodrecer ela vira vinho. Uma coisa que a couve-de-bruxelas nunca vai conseguir”.

“Ser um solteirão me transformou em dona de casa. E das piores. E agora tenho uma visão diferente do papel tradicional da mulher na sociedade. Uma dona de casa precisa ser uma química, engenheira, mecânica, economista, filósofa e viciada em trabalho. Só para recolher sua própria bagunça.“ Descobri o livro bisbilhotando as prateleiras da Biblioteca Sérgio Milliet, fiquei curiosa e a leitura valeu pelas risadas neste fim de semana frio e nublado.



“Guia do solteiro: como fazer de sua casa um confortável chiqueiro”, de P.J. O’Rourke (1947-2022). Conrad Livros, 2001.

quarta-feira, 3 de agosto de 2022

ÓTIMA NOTÍCIA

Depois de exatamente quatro anos a rua Nicolau de Sousa Queirós, na Aclimação, será aberta ao trânsito. Na manhã de 7 de agosto de 2018, a Defesa Civil interditou dois prédios que apresentaram problemas na estrutura. Ruídos estranhos alertaram os moradores que tiveram que sair dos apartamentos com a roupa do corpo, documentos e valores. Situação dramática para proprietários, inquilinos e funcionários que de repente ficaram ao léu. As duas linhas de ônibus, que servem a região foram transferidas para a rua Topázio, o que acabou afetando a vizinhança. Além de ter que buscar moradia de uma hora para outra, os proprietários tiveram um problema a mais: as obras de recuperação ficaram bem caras, segundo reportagem da época. A partir de domingo todos estarão de volta. Espero.





Vizinhos solidários prepararam lanches para os moradores que aguardavam decisões.

domingo, 31 de julho de 2022

O PEQUENO PRÍNCIPE


“Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.” Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), escritor e aviador francês que morreu durante a II Guerra, numa segunda-feira, 31 de julho de 1944. Ele é o autor de “O Pequeno Príncipe”, livro lançado em 1943 e que nestes 79 anos vendeu 200 milhões de cópias em todo o mundo. 



sexta-feira, 29 de julho de 2022

SILÊNCIO


"Quem não enlouqueceu um dia ao ouvir seu vizinho cortando a grama sistematicamente todos os domingos na hora da sesta? Quem não ficou obcecado com o inofensivo vizinho assobiando? Como se a vida estivesse sempre pronta para assobiar? Empenho-me contra o ruído envolvente em todas as suas formas, o ruído que te impede de pensar; desabafo contra todos estes ruídos que nos atingem e incomodam, mas sobretudo um hino ao silêncio." Tradução livre. Jean-Michel Delacomptée (1948)


Ilustração: REST (1882), óleo sobre tela de Ilya-Repin (1844-1930). Acervo Tretyakov Gallery, Moscou. 

quarta-feira, 27 de julho de 2022

HAVIA UM BANCO NO CAMINHO...

 

“Sentada ali num banco, a gente não faz nada: fica apenas sentada, deixando o mundo ser.”

 (Clarice Lispector)

Instituto Moreira Salles, Rio de Janeiro, 2022.

Parque Villa-Lobos, São Paulo.

Praça Fernando Prestes. Sempre uma sombra acolhedora.



Dois bancos e muitas lembranças: jardim da antiga Faculdade de Filosofia de Santos.

Praça Fernando Prestes, Bom Retiro.



Parque da Juventude: um banco tosco, nada convidativo.

Banco da cidade de Algeciras, Espanha, Pode não ser confortável, mas é muito bonito. 2010.





terça-feira, 26 de julho de 2022

DELÍCIAS DO JORNALISMO

Nos anos de 1980 trabalhei alguns meses em uma agência publicitária, onde fazia assessoria de imprensa de alguns clientes. Um dia o dono da empresa me chamou para dizer que havia um empresário investindo na popularização de um produto alimentício pouco consumido no país. “E o que seria? – perguntei. “Escargot!” Argh! Não fiquei nem um pouco entusiasmada com a novidade. Afinal, nem tudo que o francês ama, é apreciado por outros povos. Nem precisa ir tão longe: os paulistas comiam (e ainda comem em algumas cidades) saúva e nem por isso eu provaria a iguaria. Enfim, fui ao escritório do empresário, ouvi toda a história e comecei o trabalho. Ao contrário de todos que contratam assessores de imprensa e querem resultados para ontem, aquele não tinha pressa. Nas reuniões no escritório, sempre observava algum caracol passeando pela parede ou se arrastando por um móvel. Sempre preferi fingir que não via. Numa das últimas reuniões, aconteceu o que eu mais temia: “Faço questão que você prove essa delícia!” – disse ele todo sorridente, quando uma assistente entrou na sala levando uma bandeja com torradas e patê. Momentos de agonia.

Tempos atrás assistia a um episódio da série Havaí 5-0 em que os dois protagonistas conversavam na cozinha enquanto um deles preparava o café da manhã. Para minha surpresa, o personagem de Alex O’Loughlin coloca manteiga no café para horror do amigo (Scott Caan), que faz um discurso acalorado sobre a insensatez. A minha surpresa, entretanto, tinha outro motivo. Nos anos de 1970, durante uma entrevista com a vereadora de Santos Graciana Miguel Fernandes, ela me serviu um café com manteiga para meu espanto. Não fiz nada semelhante ao personagem da série que, aliás não se impressionou com os benefícios da mistura que eu nem registrei, mas Graciana me garantiu que aquilo era muito bom (?). Eu? Eu adoro um expresso sem açúcar.

Os gostos diferem de uma pessoa para outra. O que é delicioso para um pode ser execrável para outro. O que é atraente para alguém pode ser repelente para outra pessoa.


quinta-feira, 21 de julho de 2022

ESCOLA PORTUGUESA: COMEMORAÇÃO DOS 100 ANOS.

Exposição de fotografias e lançamento de livro sobre a história da instituição marcam a comemoração do centenário da Escola Portuguesa (Santos/SP), amanhã (22) a partir das 18 horas na Câmara Municipal.

Endereço: Praça Tenente Mauro Batista de Miranda, nº 1 – Centro. 



quarta-feira, 20 de julho de 2022

O PRAZER DA JORNADA

 


“Acima de tudo nunca perca a vontade de caminhar. Todos os dias, eu caminho até alcançar um estado de bem-estar e me afasto de qualquer doença. Caminho em direção aos meus melhores pensamentos e não conheço pensamento algum, que, por mais difícil que pareça, não possa ser afastado ao caminhar.”
Kierkegaard
(1813-1855) filósofo dinamarquês.  (Considero que afastar de qualquer doença é um exagero do filósofo – ele morreu aos 42 anos de uma doença na coluna e, provavelmente, tuberculose.) Foto: Rio de Janeiro.

domingo, 17 de julho de 2022

FUI AO ITORORÓ


 “Esta é uma história para ser lida na cama, numa casa antiga, numa noite de chuva.”* Desisto: não gosto de ler na cama, não vivo em uma casa antiga e o sol brilha lá fora... Vou passear. Gostaria de ir ao Itororó...



Em Santos há uma biquinha que se chama Itororó e que dá nome a uma rua do Centro Histórico. Em São Paulo há o riacho Itororó, nas proximidades do Hospital da Beneficência Portuguesa, devidamente canalizado. Na Bahia, existe um município com esse nome que em tupi significa “jorro d’água”. A música faz parte do cancioneiro folclórico do Brasil.

Fui no Itororó
beber água não achei
achei bela morena
que no Itororó deixei

Aproveite, minha gente,
que uma noite não é nada
Se não dormir agora,
dormirá de madrugada

Ó dona Maria,
Ó Mariazinha,
entrarás na roda
e dançarás sozinha

Sozinha eu não danço
nem hei de dançar
porque eu tenho o fulano
para ser meu par.

* John Cheever: "Até parece o Paraíso". Companhia das Letras.
A música faz parte do folclore brasileiro. 


quarta-feira, 13 de julho de 2022

PATRIMÔNIO HISTÓRICO PERDIDO

 


Destruída domingo último em incêndio a  pequena igreja Ortodoxa Antioquina da Anunciação à Nossa Senhora – Rua Cavalheiro Basílio Jafet, 115 – Centro Histórico de São Paulo. Foi a primeira igreja ortodoxa do Brasil, construída há 118 anos às expensas de Michel Assad. Com o passar dos anos, a igreja foi demolida para a construção do prédio, sendo mantida apenas a nave cujo acesso passava quase despercebido no burburinho da região.

terça-feira, 12 de julho de 2022

PARA MATAR O TEMPO


Em busca de novos autores de livros policiais, escolhi Richard Osman (1970), livro de estreia do jornalista inglês e que se tornou um sucesso de vendas. Sucesso de vendas, contudo, não é o tipo de escolha recomendada, apesar do título atraente: “Clube do Crime das Quintas-feiras” (Editora Intrínseca. 2021). Ruim não é, mas... A história (longa demais) se desenrola num condomínio para idosos nada convencionais a começar pelo fato de que dinheiro não parece ser problema para eles. Uma das moradoras, ex-agente da CIA, resolve usar a sala de quebra-cabeças no intervalo de duas horas entre os cursos de História da Arte e Conversação em Francês das quintas-feiras para outras atividades menos recomendadas por geriatras e policiais. Não, nada de cometer crimes, mas resolvê-los. A mocinha (nem tanto) é Elizabeth que tem como acólitos Joyce (que escreve um diário), Ron e Ibraim. O time é bem animado para a idade e os problemas físicos, mas álcool ajuda. Às vezes tem chá. Capítulos curtos, vocabulário básico, situações improváveis e algumas passagens divertidas, mas é só. A obra não é “extremamente divertida” como o Wall Street Journal disse, de acordo com a contracapa do livro, e muito menos “maravilhoso do começo ao fim”, segundo o Daily Mirror. Está mais para leitura em aeroportos, se não tivesse 400 páginas.



quinta-feira, 7 de julho de 2022

AS MORTES DE MEDUSA

A quarta série policial tcheca que tenho a pretensão de indicar é As mortes de Medusa (Hlava Medúzy, 2020). Esta série tem uma mulher encabeçando a delegacia de homicídios de Brno, segunda cidade mais populosa da República Tcheca - cerca de 380 mil habitantes. A primeira vez que ouvi falar de Brno foi em um romance de John Le Carré cujo enredo se desenrola na época da Guerra Fria, quando o país ainda se chamava Tchecoslováquia. Em 1993, houve a divisão pacífica em duas repúblicas: a Tcheca (Chéquia para os portugueses) e a Eslovaca.  No primeiro episódio, a equipe investiga um crime numa galeria de arte e que envolve o quadro A Medusa de Caravaggio. Para quem não lembra Medusa é uma figura da mitologia grega que em vez de cabelos tinha serpentes na cabeça e transformava em pedra todos que a encarassem. A sinopse do Eurochannel informa que o diretor Filip Renč aproveitou a figura mitológica relacionada ao mal e ao medo que despertava para desenvolver as histórias dos oito episódios da primeira temporada. A série mostra também o cotidiano da cidade – trabalho, aspirações e os problemas pessoais da detetive cujo irmão tem sérios problemas psicológicos. O elenco é formado por Jitka Cvancarová, Jirí Dvorák, Michal Isteník. Disponível no Eurochannel e Amazon Prime.





quarta-feira, 6 de julho de 2022

ANATOMIA DE UM ASSASSINATO

Gostei muito da série Anatomia de um Assassinato (Detektivové od Nejsvětější Trojice), com a atriz Klára Melíšková (1971). A primeira temporada tem apenas três episódios e me pareceu mais um filme dividido em três partes, com direção de Jan Hřebejk (1967) que, de acordo com a divulgação do Eurochannel, é um dos melhores diretores da República Tcheca. A trilha musical também merece destaque. A série começou em 2015 e já está na quinta temporada com episódios de 68 minutos. Elenco: Klára Melíšková, Stanislav Majer, Miroslav Krobot, Tereza Voříšková. Disponível também no Amazon Prime. As histórias se passam no interior da República Tcheca, em alguns cenários bucólicos que, entretanto, escondem muitos segredos e maldades.  



domingo, 3 de julho de 2022

TV NAS FÉRIAS

A Fúria (Rapl, 2016). As histórias se desenvolvem em torno de um detetive (Kuneš) que, como punição por seu temperamento explosivo, foi designado para uma região remota no interior da República Tcheca, onde a violência é preocupante. O time enfrenta bandidos e seus próprios problemas pessoais. Uma ótima oportunidade para conhecer um pouco da área rural desse país e suas paisagens bucólicas. A primeira temporada teve treze episódios com duração de sessenta minutos cada. Os protagonistas são Hynek Cermák, Lukás Príkazský, Alexej Pysko. A série recebeu uma indicação para o prêmio Leão Tcheco (os filmes de maior prestígio e prêmios de TV da República Tcheca) e um no Prix Europa de melhor série de ficção para TV.






sábado, 2 de julho de 2022

OS MISTÉRIOS DE PRAGA


Para quem se cansou das séries policiais americanas para televisão, com heróis repetitivos e discursos batidos, há muitas novidades à disposição. Descobri por acaso, e gostei muito, das produções da República Tcheca, disponíveis no Eurochannel e no Amazon Prime. Meu único problema é guardar o nome dos atores e dos personagens, em que sobram consoantes e faltam vogais, o que também aprecio bastante porque é novidade para ouvidos acostumados com idiomas ocidentais. As narrativas são construídas de forma diferente do padrão americano assim como as cenas de sexo não acontecem exatamente sob os lençóis. 

    Selecionei quatro séries para os próximos dias, pois afinal esta é uma ótima oportunidade para conhecermos um pouco mais sobre os países do Leste da Europa cujos povos viveram sempre momentos de turbulência. Uma das séries tchecas, por exemplo, tem como cenário Brno. A primeira vez que ouvi falar de Brno foi em um romance de John Le Carré cujo enredo se desenrola na época da Guerra Fria, quando o país ainda se chamava Tchecoslováquia, denominação que recebeu após a II Guerra Mundial (1939-1945), pois antes fizera parte do Império Austro-Húngaro, desfeito após o conflito quando ficou no âmbito da União Soviética até dezembro de 1991. Em 1993, houve a divisão pacífica do país em duas repúblicas: a Tcheca (Chéquia para os portugueses) e a Eslovaca. Enfim, é apenas uma síntese rápida dos eventos recentes.

        A República Tcheca tem pouco mais de dez milhões de habitantes e um alto nível de desenvolvimento humano (HID). A capital é Praga, cidade com um belíssimo patrimônio urbano e cultural; a população: pouco mais de um milhão e meio de habitantes. A Universidade de Carlos remonta ao século XIV e a Universidade Técnica foi fundada no século XVIII. O compositor Antonín Dvořák e os escritores Franz Kafka e Rainer Maria Rilke nasceram em Praga.

        Quando comecei a assistir à série Mistérios de Praga (Zlociny Velké Prahy, 2020), fiquei um pouco frustrada porque pouco se vê da cidade, o que é compreensível por se tratar de uma história situada nos anos de 1920. O personagem principal é o inspetor Budik (Jaroslav Plesl), casado com uma aristocrata que perdeu o título com o fim da monarquia, ganha uma promoção, entretanto, não para o cargo em Praga, mas para o subúrbio. É assim que um dândi vai conhecer o lado humilde da cidade. Ele tem dois ajudantes: o inspetor Havlik (Jirí Langmajer) e o novato Martin Novacek (Denis Safarík), que parece, mas não é nada tolo. A primeira temporada tem dez episódios com uma hora de duração.