Costumo
escrever sobre passeios e caminhadas, mas longe de mim querer que todos saiam comprando
tênis, chapéu de sol, protetor solar, mochila para andar por aí. Há pessoas que
são sedentárias por natureza, outras não têm condições físicas adequadas, sem
contar os naturalmente desajeitados ou distraídos. É recomendável uma avaliação
médica ou orientação de profissionais para se aventurar por São Paulo, onde as
calçadas frequentemente encontram-se em mau estado ou têm degraus muitas vezes
mal conservados.
O
filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), por exemplo, estava com 64 anos
quando iniciou o projeto de descrever o seu estado de espírito habitual através
do registro de suas caminhadas solitárias por Paris e imediações e “dos
devaneios que as preenchem quando deixo minha mente livre por inteiro e minhas
ideias seguirem suas inclinações, sem resistência e sem dificuldade”.
No
dia 24 de outubro de 1776, ele terminava a segunda caminhada, após uma tarde de
agradáveis meditações, um grande cão dinamarquês que corria à frente de uma
carruagem, sem tempo de se desviar, se lançou sobre ele. “Calculei que a única
maneira de evitar ser atirado ao chão era dar um grande salto, tão preciso que
o cão passasse por baixo de mim enquanto estivesse no ar. Essa ideia, mais
breve que o relâmpago, que não tive tempo nem de considerar nem de executar,
foi a última antes do acidente. Não senti o golpe nem a queda, nem nada do que
se seguiu até o momento em que voltei a mim”. (Saltar para o cão passar por
baixo???)
Felizmente, o cocheiro conseguiu
parar os cavalos, evitando atropelar o idoso filósofo. Rousseau narra que, ao recobrar
os sentidos, não lembrava de nada. “Percebi o céu, algumas estrelas e um pouco
de vegetação. Essa primeira sensação foi um momento delicioso. Sentia a mim
mesmo através dela. Nascia para a vida naquele instante e me parecia preencher
com minha leve existência todos os objetos que percebia.” Ele conta que naquele
momento sentia uma calma maravilhosa. Na verdade, devia estar em estado de
choque. Populares o ajudaram e tentaram convencê-lo a ir para casa de fiacre (pequena
carruagem de aluguel), mas ele preferiu ir a pé, manquitolando. Só percebeu o
quanto estava estropiado ao ouvir em casa os gritos da mulher. Ele não quebrou osso
algum, mas cortou o lábio superior por dentro até o nariz, quatro dentes se
enterraram no maxilar superior e toda a parte externa machucada inchou; deslocou
gravemente os dois polegares e o braço esquerdo, além de ter contundido o joelho
esquerdo que não podia dobrar. “Mesmo com todas essas repercussões, nada de
quebrado, nem mesmo um dente, felicidade que parece um prodígio numa queda como
aquela.”
Os dissabores de Rousseau, contudo, continuaram durante seu restabelecimento, pois logo se espalhou o boato de que ele havia morrido na queda.
Enfim, senhoras e senhores, prestem atenção por onde andam enquanto observam a paisagem. “Os devaneios do caminhante solitário” – Jean-Jacques Rousseau. L&PM Pocket.
Ilustração: Retrato de Rousseau por Maurice Quentin de La Tour.

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