sexta-feira, 14 de junho de 2024

O DIA EM QUE O FILÓSOFO CAIU

 

Costumo escrever sobre passeios e caminhadas, mas longe de mim querer que todos saiam comprando tênis, chapéu de sol, protetor solar, mochila para andar por aí. Há pessoas que são sedentárias por natureza, outras não têm condições físicas adequadas, sem contar os naturalmente desajeitados ou distraídos. É recomendável uma avaliação médica ou orientação de profissionais para se aventurar por São Paulo, onde as calçadas frequentemente encontram-se em mau estado ou têm degraus muitas vezes mal conservados. 

O filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), por exemplo, estava com 64 anos quando iniciou o projeto de descrever o seu estado de espírito habitual através do registro de suas caminhadas solitárias por Paris e imediações e “dos devaneios que as preenchem quando deixo minha mente livre por inteiro e minhas ideias seguirem suas inclinações, sem resistência e sem dificuldade”.

No dia 24 de outubro de 1776, ele terminava a segunda caminhada, após uma tarde de agradáveis meditações, um grande cão dinamarquês que corria à frente de uma carruagem, sem tempo de se desviar, se lançou sobre ele. “Calculei que a única maneira de evitar ser atirado ao chão era dar um grande salto, tão preciso que o cão passasse por baixo de mim enquanto estivesse no ar. Essa ideia, mais breve que o relâmpago, que não tive tempo nem de considerar nem de executar, foi a última antes do acidente. Não senti o golpe nem a queda, nem nada do que se seguiu até o momento em que voltei a mim”. (Saltar para o cão passar por baixo???)

            Felizmente, o cocheiro conseguiu parar os cavalos, evitando atropelar o idoso filósofo. Rousseau narra que, ao recobrar os sentidos, não lembrava de nada. “Percebi o céu, algumas estrelas e um pouco de vegetação. Essa primeira sensação foi um momento delicioso. Sentia a mim mesmo através dela. Nascia para a vida naquele instante e me parecia preencher com minha leve existência todos os objetos que percebia.” Ele conta que naquele momento sentia uma calma maravilhosa. Na verdade, devia estar em estado de choque. Populares o ajudaram e tentaram convencê-lo a ir para casa de fiacre (pequena carruagem de aluguel), mas ele preferiu ir a pé, manquitolando. Só percebeu o quanto estava estropiado ao ouvir em casa os gritos da mulher. Ele não quebrou osso algum, mas cortou o lábio superior por dentro até o nariz, quatro dentes se enterraram no maxilar superior e toda a parte externa machucada inchou; deslocou gravemente os dois polegares e o braço esquerdo, além de ter contundido o joelho esquerdo que não podia dobrar. “Mesmo com todas essas repercussões, nada de quebrado, nem mesmo um dente, felicidade que parece um prodígio numa queda como aquela.”

            Os dissabores de Rousseau, contudo, continuaram durante seu restabelecimento, pois logo se espalhou o boato de que ele havia morrido na queda. 

    Enfim, senhoras e senhores, prestem atenção por onde andam enquanto observam a paisagem. “Os devaneios do caminhante solitário” – Jean-Jacques Rousseau. L&PM Pocket.

Ilustração: Retrato de Rousseau por Maurice Quentin de La Tour.




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