terça-feira, 23 de julho de 2019

UM LUGAR MUITO ESPECIAL


Lá está a Acrópole pairando sobre Atenas. Não há como resistir. Desde os tempos imemoriais foi o ponto escolhido pelos os habitantes da região para instalar a “cidade alta”, porque o morro é cercado de princípios – exceto do lado Oeste, o que os protegia dos inimigos sem necessidade de construir muralhas.  A imponente colina ergue-se a 150 metros do nível do mar – não um mar qualquer, mas o Egeu. A base tem cerca de 330 metros de comprimento e 270 metros de altura.
A Acrópole passou por diversas fases, entretanto, foi sob a administração de Péricles (c.495 a. C. – 429 a. C) que ela floresceu graças aos seus planos grandiosos. Péricles estimulou a arte e a literatura (era amigo de Sófocles e de Anaxágoras). Ele sonhava que a cidade se tornasse tanto líder de uma confederação pan-helênica como de um ideal de democracia, mas acima de tudo queria que Atenas tivesse magníficos edifícios, templos, edifícios públicos e teatros. As ruínas das edificações dão uma ideia do esplendor da cidade que ele se propôs a construir.
Subir a encosta da colina não é desagradável, porque se encontram pessoas de todas as nacionalidades aqui e ali. E, claro, sítios arqueológicos a cada passo. Por assim dizer. O caminho não é muito íngreme. Numa curva hesita-se: agora é direita ou esquerda, mas logo alguém informa a direção a seguir. Às vezes as placas não têm seta e a informação para mim é grego. Nunca a expressão serviu tão bem em várias situações.


A surpresa é quando chego à entrada da Acrópole. Uma multidão se prepara para a visita. Ainda não é meio-dia, mas o sol queima. O calor é intenso. Não gosto de fotografar gente. Encontro um lugar para observar os monumentos e as pessoas enquanto espero uma oportunidade para as fotos. Se os monumentos são deslumbrantes contra o céu azul – na verdade, as nuvens passeiam de um lado para o outro e às vezes uma tênue névoa recobre a paisagem como vi tantas vezes em Santos. Ah! As pessoas! Uma moça briga com o acompanhante; está com a fisionomia transtornada, mas levanta o celular para a selfie, estampa um imenso sorriso e clica para a rede social, ou seja lá o que for. Tempos em que até os sorrisos são falsos. Não foi a única que vi em situações parecidas. Será que algum psicólogo já fez algum estudo a respeito?
Nem precisaria de legenda: o Parthenon.



Enfim, há uma pausa entre uma leva de visitantes e outra. Aproveito a oportunidade que deve durar pouco. Se os romanos eram intrépidos, os gregos se ocuparam de procurar respostas para os grandes problemas, observar o firmamento e inventar coisas para facilitar a vida de todos. O parafuso de Arquimedes (288-212 a. C.) está em uso até hoje. Criaram a porta automática há dois mil anos (e nós encantados diante delas quando se abrem ao chegarmos!). Calcularam a circunferência da Terra (chegando a um numero bem próximo do real) e até a primeira máquina a vapor que só seria “reinventada” no século XIX! Nada escapou a esse povo fantástico. Lisístrata (Aristófanes) foi feminista a seu modo. Que seria de Freud sem Édipo (Sófocles)?
Gosto demais da mitologia grega – somente um povo muito criativo imagina o Olimpo e todos aqueles deuses, heróis e semi-heróis. Mas chega de divagar tolamente. Agora, é respirar fundo e começar a explorar este lugar cheio de História e histórias e desfrutar da paisagem.  
O Erechtheum/Ericteión,  templo dedicado à Atena e Poseidon. 

As belíssimas cariátides: esculturas de figuras femininas que servem de suporte para o entablamento. 
Substituem as tradicionais colunas. O nome tem origem em Karyai, cidade do Peloponeso.

Templo de Atena Niké, uma joia arquitetônica da Antiguidade: ao fundo a cidade e o mar Egeu.

Através da Propylaia (portão monumental) que conduz ao Parthenon.

domingo, 21 de julho de 2019

AZUL E BRANCO? GRÉCIA.


A primeira vez que fui para Atenas, desembarquei no aeroporto às 22h30 e sem reserva de hotel. Como ainda não fora instalada a Comunidade Europeia, existia toda a burocracia do controle de passaporte e, portanto, deviam ser umas 23 horas quando fui até o balcão de informações e a gentil senhorita me entregou um caderno com a relação de hotéis da cidade e me encaminhou para um ônibus que estava de saída. “Depressa!” – recomendou. Lá fui eu para não sei onde, pensando no problema do hotel. No ônibus só funcionários do aeroporto. Inglês? Bem, a única coisa que o motorista conseguiu me dizer foi: “Lady, money” – para cobrar a passagem. Chegamos ao que deduzi ser a cidade e os passageiros foram descendo e, quando o último se levantou, fui atrás porque estávamos numa avenida muito bonita e eu já sabia que a seria um táxi. Aliás, nem precisei me preocupar porque ao colocar a mala no chão, já havia um táxi a minha frente. Muita gesticulação depois ele entendeu que eu queria ir para um hotel e uma chamada para a central indicou a ele um endereço. Felizmente, um bom hotel.
Lembrei-me dessa situação quando vi que a história ia se repetir – pelo menos parte dela. Desta vez o voo chegou a Atenas a 1h30 da manhã. Sem necessidade de controle de passaporte e com reserva de hotel, precisava apenas de um táxi. Foi um trajeto pela cidade adormecida, acompanhado ao longe pela lua cheia. Céu estrelado. Uma noite de verão muito bonita. Não muito diferente de 26 anos atrás quando cheguei a Atenas no início do outono...
Nos dias seguintes descobri que se as noites eram muito agradáveis, os dias eram tórridos e a primeira coisa que fiz foi comprar um chapéu de palha para enfrentar o sol tórrido desse verão grego. Dias de céu e mar azuis. Suspiro por nuvens brancas que cobrissem um pouco o sol e eu pudesse caminhar por entre o casario branquinho; contudo, nada empana a beleza extraordinária desse país.



sábado, 20 de julho de 2019

O GÊNIO E OS HERÓIS

Não encontrei título melhor. O gênio de Santos-Dumont (muito trabalho para conseguir concretizar seu sonho de voar) e os heróis (muito trabalho e coragem para realizar as viagens espaciais).
20 de julho de 1873: nascimento de Alberto Santos-Dumont, o brasileiro voador.

20 de julho de 1969: Neil Armstrong, Michael Collins e Buzz Aldrin embarcam na Apollo 11 com destino à Lua. (Foto: NASA / Comunicado/Getty Images)


sexta-feira, 19 de julho de 2019

"A TERRA É AZUL."

A Selene grega, a Lua romana ou a Jaci tupi, não importa qual delas, porque elas são a mesma joia prateada que ilumina as noites e mexe com o imaginário do homem desde o princípio dos tempos. Astrólogos, astrônomos, feiticeiros, cientistas e românticos vivem sem ela que cumpre seu ciclo de 28 dias mudando de forma e desaparecendo para voltar sempre esplendorosa.
A corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética foi ganha pelos soviéticos: em 4 de outubro de 1957 lançaram o Sputinik, primeiro satélite artificial do mundo, como parte dos festejos do Ano Internacional da Geofísica. E pouco menos de um mês depois (3/11) eles colocaram no espaço o Sputinik II levando a bordo a cadela Laika, primeiro ser vivo no espaço. O destino de Laika não foi dos melhores: morreu algumas horas depois do lançamento e o satélite queimou na atmosfera em 4 de abril de 1958 após dar 2.570 voltas ao redor da Terra.
A morte de Laika, uma vira-lata moscovita, não foi em vão: graças a ela provou-se que era possível a um ser vivo tolerar por bastante tempo a uma gravidade zero. Os americanos escolheram para ir ao espaço chimpanzés. Os animais foram escolhidos pela semelhança fisiológica com os seres humanos como por sua inteligência e “treinados para executar tarefas manuais razoavelmente complexas quando solicitados”. Tom Wolfe conta que os animais eram da África Ocidental, onde haviam sido capturados ainda jovens e transportados para o deserto do Novo México.

Para ganharem os céus viveram o inferno, pois o treinamento (adestramento) não foi nada agradável. Eles resistiram, mas acabaram vencidos. O grupo foi reduzido a seis animais que “sabiam manipular os seus painéis Mercury às mil maravilhas”. E finalmente o “escolhido” foi o nº 61, um macho de três anos, procedente de Camarões, a que chamaram de Ham (de Holloman Aerospace Medical Center). Ham foi para o espaço a bordo da Mercury Redstone 2, em 31 de janeiro de 1961. E não desapontou seus treinadores. Cumpriu todas as suas tarefas a contento. Na volta, ao ser apresentado à imprensa alvoroçada em torno dele, vingou-se. Ham enfureceu-se. “Arreganhou os dentes. Ameaçou morder os sacanas”. Wolfe deixa para o leitor decidir se sacanas eram os veterinários ou os jornalistas. Eu creio que eram os humanos em geral.



A imprensa logo esqueceu Ham, pois alguns meses depois as manchetes foram para o soviético Yuri Gagarin (1934-1968), o primeiro homem a viajar pelo espaço, feito realizado em 12 de abril de 1961. A proeza obscureceu a primeira missão tripulada do Projeto Mercury, programada e realizada em maio de 1961 pelo astronauta Alan Shepard Jr. (1923-1998), que mal enxergou a paisagem e o pouco que viu foi em preto e branco. Graças a Gagarin ficamos sabendo que "A Terra é azul".

quarta-feira, 17 de julho de 2019

OS SUCESSORES DE ÍCARO

Há mais de meio século o homem voava, mas nunca saíra do ninho. O avião foi se aprimorando na primeira metade do século XX (especialmente em decorrência das duas guerras mundiais e da guerra da Coreia) e se tornou um dos meios de transporte mais seguros. Contudo, os desafios continuavam por causa da Guerra Fria que impulsionava a corrida armamentista. Se dominamos os céus, poderíamos ir mais longe e lá estava ela toda prateada enfeitando nossas noites. Por que não?
A história da aviação contava com nomes como o alemão Manfred von Richthofen (1892-1918) – o Barão Vermelho –; os franceses Antoine Saint -Exupéry  (1900-1944) e Roland Garros (1888-1918), o americano Charles Lindenberg (1902-1974) foram alguns dos pioneiros famosos por sua intrepidez. Os três primeiros morreram em combate na I Guerra Mundial e Lindenberg, que apoiou o nazismo, fez a primeira travessia aérea do Atlântico.  
"Chuck'" Yeager. Foto: Wikipedia.
Quando a II Guerra terminou, os Aliados descobriram que os alemães tinham desenvolvido o primeiro caça a jato do mundo e um avião foguete que em teste alcançara 953 quilômetros por hora. Engenheiros, mecânicos e pilotos norte-americanos começaram a trabalhar para ultrapassar a velocidade do som (1.050 quilômetros por hora), o que o jovem Charles Elwood "Chuck" Yeager  (1923) se encarregou de fazer em 14 de outubro de 1947.  
O jornalista americano Tom Wolfe (1930-2018) escreveu a saga dos pilotos de prova que tornaram possível a viagem à Lua. Homens que enfrentavam diariamente a morte com fibra e nunca pronunciavam as palavras “morte, perigo, bravura, medo”. Wolfe revela que em 1952, “sessenta e dois pilotos da força aérea morreram nas trinta e seis semanas de treinamento”. E mais: “Esses números referiam-se apenas aos pilotos de caça em treinamento; não incluíam os pilotos de prova (...) que morriam com bastante regularidade”. As estatísticas da Marinha mostravam que “um em cada quatro pilotos morria”.
Quando o presidente John Kennedy (1917-1963) lançou o desafio de colocar o homem na Lua até o final da década de 1960, a Lua, que era dos poetas, agora seria um alvo a 384.400 km de distância. Foi desse grupo de homens que saíram Peter Conrad, Walter Schirra, Jim Lovell, Michael Collins, Gus Grissom, Neil Armstrong, os homens escolhidos para o programa espacial americano.

 “Ícaro é o símbolo da temeridade, da volúpia ‘das alturas’, em síntese: a personificação da megalomania.” Afirmação do professor Junito de Souza Brandão em sua análise do mito no livro “Mitologia Grega”. Algo que cabe como uma luva na personalidade dos eleitos, todos dotados de um superego, essencial para voar sobre uma bomba em direção à Lua. 


terça-feira, 16 de julho de 2019

FEITIÇO DA LUA


Desde o momento em que se ergueu e deu os primeiros passos, o Homo sapiens sempre quis algo mais. E em algum momento desejou voar como os pássaros. A mitologia grega tem Dédalo e Ícaro – pai e filho prisioneiros no Labirinto que o primeiro criou para o rei Minos de Creta. Dédalo fez asas de penas que, presas aos ombros com cera, permitiriam a fuga de ambos da ilha. Ele instruiu o filho a não voar muito alto porque o calor do sol derreteria a cera e nem muito baixo, pois nesse caso a umidade tornaria as asas muito pesadas. Entretanto, o jovem (ah! os jovens!) arrebatado com a proeza, voou em direção ao sol. A cera derreteu e Ícaro despencou no mar Egeu, que se tornou o mar de Ícaro.

Esse sonho continuou acalentando a humanidade. Leonardo Da Vinci (1459-1519) projetou o ornitóptero, um equipamento dotado de asas acopladas aos braços. Ficou no papel. O padre santista Bartolomeu de Gusmão (1685-1724) também não resistiu ao sonho de voar: criou a passarola que apresentou à corte portuguesa. Houve vários problemas, mas o padre conseguiu mostrar que o balonete podia voar. Ainda se passariam séculos antes que em uma sintonia interessante o brasileiro Alberto Santos Dumont e os irmãos Wright, dos Estados Unidos, se debruçassem no problema de fazer voar um dirigível mais pesado do que o ar. Em 1901 Alberto Santos Dumont (1873-1932) mostrou seu trabalho em Paris, quando contornou a Torre Eiffel e ganhou o prêmio Deutsch por seu feito, tornando-se famoso na Europa. Sessenta e oito anos depois Neil Armstrong (1930-2012), Buzz Aldrin (1930) e Michael Collins (1930) embarcavam na maior aventura humana de todos os tempos. Destino: a Lua. 


RECORDAÇÕES DE TÍVOLI

Depois de conhecer a vila, muito bom perder-se pelas ruas sem pressa, descobrindo o passado da cidade – Via Boselli, Via Della Missione, Via Vicenzo Pacifici, Via Mauro Macera, Via Trevio... Tinha muito mais, porém o cartão de memória da máquina fotográfica ficou esquecido na mureta da ponte em frente à Vila Gregoriana... Coisas de uma caminhante distraída...

No verão que se anuncia muito quente, uma sombra para observar a paisagem, ler o jornal ou as mensagens...


E não é que esqueci de anotar o nome da igreja? 

Rua antiga e florida. As roupas dependuradas, brancas
 como as donas de casa gostam.
Pelos meandros do tempo...
Templo de Vesta, século I, no parque da Vila Gregoriana. Para chegar lá é preciso fazer uma trilha,
 que não me animou nem um pouco... Tem uma vista para as cascatas do rio Aniene, que banha a cidade.
Rocca Pia foi uma Fortaleza, com quatro torres de tamanhos diferentes e a maior tem 36m50 de altura. Foi construída pelo Papa Pio II em 1461 no topo da colina para controlar a cidade e eventuais manifestações populares (quem diz que o mundo muda?). O acesso era por uma ponte levadiça. No século XIX, até os anos 1960, funcionou como prisão. Atualmente, espera por uma função. 


segunda-feira, 15 de julho de 2019

domingo, 14 de julho de 2019

O JARDIM DE TÍVOLI


“A soberba Tíbur*.” Foi como o poeta Virgílio (70 a.C.-19 a.C.) referiu-se a esta cidade na “Eneida”, obra-prima em que ele ressalta a grandeza de Roma. Tibur era o nome primitivo de Tívoli, mais antiga do que Roma, que a conquistou no século IV a.C. Os romanos logo a escolheram para veranear, mas nenhum se esmerou tanto na construção da sua vila como o Imperador Adriano (76-138). A Vila Adriana (o que sobrou dela) foi incluída em 1999 na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO. No século XVI, o Cardeal Ipolito d’Este (1509-1572) foi nomeado governador de Tívoli pelo Papa Júlio III. O Cardeal era neto de um papa e filho de Lucrécia Borgia e deixou para a posteridade uma obra de beleza fascinante: a vila que leva seu nome.
Tívoli está encarapitada em uma colina (altitude 235m) na região do Lácio. Ouvi falar dela por causa dos seus belíssimos jardins, joias de duas épocas distintas e distantes. Chega-se lá de trem ou de ônibus. O ônibus sai do terminal da estação Pirâmide. (O trem da Termini.) O coletivo recolhe passageiros ao longo do percurso que dura cerca de uma hora. O melhor é sair cedo de Roma para não perder nenhum dos encantos da cidadezinha – menos de 50 mil habitantes. 
        O verão está chegando. A praça avança em direção a um terraço de onde se tem uma bela vista do vale que se abre à frente da colina. Logo abaixo outro terraço serve de campo de futebol do colégio que fica à direita. A partida está animada, mas é a paisagem que me absorve. Há bancos estrategicamente colocados à sombra para se descansar o corpo e a vista. De um lado rapazes contam vantagens para uma garota e na outra ponta um senhor lê placidamente um jornal.

        A praça parece uma extensão das cafeterias e sorveterias, com mesinhas ocupadas por mães (há alguns pais) e pimpolhos, mas de repente o lugar vira uma praça de guerra. Munidos de garrafas plásticas cheias de água, chegam estudantes que iniciam uma batalha de água. Correm, escondem-se, atacam. Gritos e risadas. Jovens ninfas e faunos? Sei lá. Idade das descobertas. Eles se abastecem em uma bica tão antiga quando a cidade. Os adultos continuam conversando, imunes à agitação.
        A Villa d’Este é próxima da praça. A beleza do palácio só é superada pelo surpreendente jardim que tem a água como principal elemento. Como ele foi criado numa encosta, o visitante vai descendo os patamares e desvendando o que a engenharia hidráulica, a imaginação de um jardineiro e a fortuna de um homem de bom gosto podem fazer. Cascatas, lagos, tanques, fontes, canais formam jogos de água e à medida que se caminha pelas alamedas floridas ouve-se o murmúrio da água e o canto de pássaros invisíveis. Nem precisa dizer que se respira um ar perfumado, desconhecido daqueles que vivem em megalópoles.
 
 




No final do jardim, um terraço e a vista de vinhedos e olivais... Perfeito.
O Cardeal d’Este (1509-1572) morreu pouco antes que a Vila – também Patrimônio Mundial da UNESCO – ficasse pronta. Uma visita inesquecível.
Infelizmente, a visita à Vila Adriana ficou para as calendas gregas.

*”(...) todos procuram armas. Alguns limpam com unto gordurento os lisos escudos e os lustrosos dardos, e afiam na pedra os machados; apraz marchar com os estandartes e ouvir o som das trombetas. Não menos de cinco cidades, montadas suas bigornas, fabricam armas: a potente Atina, a soberba Tíbur, árdea, Custumérios e a torreada Antena.” Círculo do Livro (s/d), tradução: Tassilo Orpheu Spalding.
Virgílio diz que o nome tem origem no nome de Tiburto, irmão dos gêmeos Catilo e Coras, jovens intrépidos guerreiros. 
Observação: Quando tentei ir de trem, os funcionários de plantão na Termini fizeram um debate entre si e concluíram que só havia ônibus para lá.

sábado, 13 de julho de 2019

ROMA, POR AQUI E POR ALI.

Imagens fugazes.

Fim de tarde: mesinhas postas à espera da freguesia para a pasta.
Com alguma poluição, naturalmente.

Villa Borghese: desfrutando a natureza.

A Pirâmide de Céstio (c.18 a.C.), próxima à Via Ostiense. 
Túmulo de Caio Céstio Epulão, magistrado romano.
Ela tem 37 m de altura e a base mede 29,6 m.


Esta é Porta Portese (1664), entrada para uma enorme feira popular dominical. A construção atual substituiu a Porta Portuensis das Muralhas Aurelianas. Em 1993 fui lá e fiquei deslumbrada com o tamanho da feira e a variedade de produtos vendidos. Desta vez achei muito diferente. 


Estação ferroviária: difícil esperar sentado. Nenhum banco. 
Estes dois levaram os banquinhos de casa.


Prontos para mais um dia de trabalho.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

ROMA. SEMPRE ROMA.


        Um imenso prazer rever Roma. Com aquele tom de terracota... Épocas que se sobrepõem com elegância. Muito bom caminhar pelas ruas sem preocupação de conhecer este ou aquele lugar, mas apenas tentar captar mais dessa cidade cheia de mitos, lendas e História, mas principalmente arte. E muita arte a céu aberto. A memória leva a vários lugares e a nenhum em especial. Uma estada de apenas três dias porque o destino é a Grécia. Se os romanos derrotaram os gregos na guerra, Roma foi pela Grécia subjugada por seus filósofos e gostou tanto da poesia da mitologia grega que a adaptou ao universo romano.




Passa um bonde antigo. Não me lembrava de bonde em Roma. Compro o bilhete num quiosque e resolvo descobrir seu destino. Embarco no próximo. Vai para o Largo di Torre Argentina (de Argentorato, nome da atual Estrasburgo). Nada diferente dos bondes camarões de Santos. Há um grande movimento de passageiros. No trajeto passamos por outros mais modernos e rápidos. Perco-me observando prédios, praças, pessoas... Enfim, o Largo. É um sitio arqueológico com vários templos do período da República (509-27). Já conhecia, mas isso não importa. Resolvo continuar a pé até o Fori Imperiale...

        Outro impulso. Fontana di Trevi... Está rodeada por uma multidão e cada pessoa ávida por uma foto. Será que observam cada detalhe daquele belíssimo conjunto de esculturas? Alguns sim. Há pressa, agitação por todo lado, quando Netuno pede tranquilidade, recolhimento. A descoberta da fonte data do século IX a. C., quando a água foi levada por um aqueduto para os banhos de Marcus Vipsanius Agrippa (63 a.C.-12-a.C.) e serviu à cidade por quatro séculos. No século XV, o papa de plantão mandou recuperar o aqueduto destruído e construir uma pequena fonte, que anos mais tarde ganhou um projeto grandioso assinado por Bernini, mas a obra não foi adiante e somente no século XVIII Nicola Salvi iniciou a obra que foi terminada por Giuseppi Pannini. 


Depois de visitar centenas de igrejas pela Europa, considero a Basílica de São Pedro a mais bela de todas – grandiosa e elegante. Distraída pego o metrô errado e acabo na Basílica Papal de São Paulo fora da Muralha, muito bonita. Ali é território do Vaticano. A igreja foi fundada pelo imperador Constantino I (272-337), sobre o túmulo de São Paulo e ficava fora da Muralha Aureliana – obra de defesa com 19 km de extensão que englobava as sete colinas de Roma. Um incêndio em 15 de julho de 1823 quase destruiu a basílica. Ela foi refeita a partir do projeto de Luigi Poletti (1792-1869) e reaberta em 1840.

Volto ao metrô e desta vez na direção certa para o Vaticano. Céu azul. Um calor intenso. Sol inclemente. A praça está lotada. Uma fila imensa serpenteia pela esplanada até as escadarias da Basílica. As pessoas continuam chegando. Resolvo permanecer na sombra observando. Consolo-me: afinal visitei a Basílica três vezes... Depois caminho no meio dessa multidão até o Museu do Vaticano para rever toda aquela beleza produzida pelo Homem ao longo da trajetória de destruição que marca a História.


Que tal passar uma tarde de sábado nos jardins da Villa Borghese? As pessoas aproveitam para dormitar ao sol, namorar, brincar com as crianças, caminhar despreocupadamente pela sombra, descansar em um banco ou aproveitar o lugar agradável para a leitura. Nada como o prazer de caminhar, mas alguns turistas preferem usar uns veículos ridículos para “conhecer” o parque... Dois adolescentes dirigem loucamente carrinhos (bem incompatíveis com a idade) pelas alamedas aos gritos. Felizmente, eles são minoria. Uma pausa para apreciar os monumentos que adornam o Parque à medida que avanço. Como o Relógio de Água do Pincio – projeto original de 1867 de autoria de Gian Battista Embriaco. Ou a bela estátua feminina que parece surpresa com o que vê... Enfim, o sol vai descendo no horizonte, o calor ameniza, mas a noite custará a chegar.

       








Há um lugar que sempre quis visitar: Cinecittà. Um mergulho na história do cinema. O famoso estúdio italiano foi criado durante o regime fascista e inaugurado em 1937 e mesmo durante o período da II Guerra continuou em operação e até 1943 lá foram realizados cerca de trezentos filmes. Quando a guerra terminou aos poucos Cinecittà foi ressurgindo até se tornar um importante polo cinematográfico internacional que lhe deu a fama de Hollywood no Tibre. Grandes épicos norte-americanos foram feitos em Cinecittà, como “Quo Vadis” (1951), dirigido por Mervyn LeRoy, “Ben-Hur” (1959), de Willy Wyler, e “Cleópatra” (1963), de Joseph L. Mankiewicz. A lista é imensa e a cada passo os ótimos momentos vividos em salas de cinema voltam à memória. Lá estão objetos de cena, os figurinos usados por grandes estrelas (Claudia Cardinale, Giuliano Gemma, Ornella Muti ente tantos outros. E lá estão cenários de Western italianos, que fizeram tanto sucesso nos anos 1970. Federico Fellini tem, merecidamente, um espaço especial no museu. Por aqueles corredores perde-se a noção do tempo. 

terça-feira, 9 de julho de 2019

SÃO PAULO: NOVE DE JULHO.


Sem poder ir a São Vicente para as comemorações de Nove de Julho por causa de um compromisso em São Paulo no início da tarde, fui ao Parque do Ibirapuera assistir às homenagens aos Constitucionalistas de 32. Uma bela festa cívica sob o céu azul e o sol ameno de inverno que contou com a presença de populares e muitos jovens. Um evento de muitas bandeiras brasileiras e paulistas, porque São Paulo nunca desejou a separação do Brasil. Exigiu, sim, uma Constituição para o País. A derrota militar era esperada, mas ela conduziu à vitória política. À memória de José Araújo (1913-1968), um Constitucionalista.

segunda-feira, 8 de julho de 2019

“POETAS NÃO MORREM, ELES SE TRANSFORMAM EM PALAVRAS.”

 “Paulo Bomfim é o poeta da imensa alma brasílica de São Paulo, a alma bandeirista dos tempos da invenção do Brasil. Poeta do que fica no coração e na mente” – escreveu o professor José de Souza Martins, numa crônica dedicada ao poeta.
    Muito trite com a morte de Paulo Bomfim, a quem admirava desde a adolescência, quando ele apresentava o telejornal da TV Record (se não me falha a memória) e descobri sua poesia. Era um brasileiro de velha cepa, paulista do fundo do coração. Cresceu ao lado dos veteranos constitucionalistas, foi amigo dos modernistas e publicou seu primeiro em 1946, “Antonio Triste”, prefaciado por Guilherme de Almeida (1890-1969) com ilustrações de Tarsila do Amaral. E já na estreia recebeu o prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras.
       Aos 20 anos, quando Anita Malfatti (1889-1964) pintou seu retrato, usava um bigodinho fino para poder frequentar os cabarés, contou-me em uma entrevista que fiz com ele em 1996, quando revelou que fora um boêmio confesso. “Sinto saudade da época em que São Paulo era pequena e seus homens eram grandes.”
Paulo Bomfim em seu escritório, 1996. Foto: Silvestre Silva.
O poeta floresceu e quando Guilherme de Almeida faleceu, foi considerado seu substituto natural. Conhecia São Paulo como a palma de sua mão e tinha um carinho especial pelo Parque da Luz. Ele dividiu sua vida entre o Tribunal de Justiça de São Paulo, a Academia Paulista de Letras e a família. O Tribunal o homenageou há alguns anos com a criação do Espaço Cultural Paulo Bomfim, que abriga acervo pessoal do poeta – obras de sua autoria, honrarias recebidas e copia do seu retrato feito por Anita Malfatti, além de farto material do movimento Constitucionalista de 1932.
Paulo Bomfim se transformou em palavras ontem. E deixou um epitáfio:
“Enquanto viver, por onde andar, levarei teu nome pulsando forte no coração, e quando esse coração parar bruscamente de bater, que eu retorne à terra donde vim, à terra que me formou, à terra onde meus mortos me esperam há séculos; por epitáfio, escrevam apenas sobre meu silêncio, minha primeira e eterna confissão: - EU TE AMO SÃO PAULO!"
“Ruas morrendo em mim cheias de infância. Árvores mortas com raízes na alma, deitando folhas verdes na distância...” Parque da Luz.

*Frase dita por Paulo Bomfim em abril, segundo o site do TJSP,
FONTES: Academia Paulista de Letras, Tribunal de Justiça de São Paulo, Revista VIVRE. Reprodução de foto de Silvestre Silva publicada na revista VIVRE. 

sexta-feira, 5 de julho de 2019

A AVENTURA


“Como mônada autossuficiente, o viajante recusa o tempo social, coletivo e coercitivo, em favor de um tempo singular feito de durações subjetivas e de instantes festivos buscados e desejados. (...) O capricho governa seus projetos relacionados com os ritmos da natureza. Nada mais conta, exceto ele e seu uso do mundo – por isso ele procede dos banidos e dos recusados. Quando põe o pé na estrada, ele obedece a uma força que, surgida do ventre e do âmago do inconsciente, lança-o no caminho, dando-lhe impulso e abrindo-lhe o mundo como um fruto caro, exótico e raro. Desde o primeiro passo realiza seu destino. Nas trilhas e nas veredas, nas estepes e nos desertos, nas ruas das megalópoles ou na desolação dos pampas, sobre a onda profunda ou no ar atravessado por invisíveis correntes, ele sabe o inevitável encontro com sua sombra – não tem escolha.” Michel Onfray, filósofo francês. 

Não vou fingir que sabia o que é mônada. Consultei o Michaelis: “Entidade metafísica que, na filosofia de Giordano Bruno (1548-1600), designa a unidade indivisível que constitui o elemento de todas as coisas”.

A viagem nos tira do comodismo, da rotina, da segurança, do mundo comum... Semeia dúvidas – aonde ir, como chegar ao destino, o que levar, o que encontraremos na jornada... Visitar família, amigos? Frequentemente, um mergulho no desconhecido, no diferente... Uma trajetória de descobertas, especialmente sobre o próprio viajante. Naturalmente, há os que viajam por dever de oficio e muitos não percebem que aí também se encontra um traço aventuresco. Em todo caso sempre há uma recompensa: na volta, estamos mais ricos em experiência ou sabedoria, se soubermos aproveitar o que vimos e vivemos.
E tudo isso começa em estações rodoviárias ou ferroviárias, portos ou aeroportos. Até mesmo no terminal de ônibus ou de barcas intermunicipais, que costumamos desprezar. Olho o calendário, analiso a passagem do tempo e decido que importante é partir.
Porto de Egina, Grécia, junho de 2019.


quinta-feira, 4 de julho de 2019

ALICE, 154 ANOS.


O livro "Alice no País das Maravilhas" (Alice in Wonderland) foi lançado há 154 anos (4/07/1865) e se tornou um clássico da literatura infantil embora também seja apreciado por adultos, por seus enigmas e referências matemáticas.  A história da menina Alice foi escrita por Charles Lutwidge Dodgson (1832-1898), professor de Matemática do Christ College, da Universidade de Oxford, reverendo anglicano e fotógrafo (atividade que revela um lado obscuro do intelectual).


Edição de 1995.
Ele contou a história pela primeira vez para as três filhas do reitor da universidade durante um passeio de barco pelo Tâmisa (ou Isis como o rio é chamado nesse trecho). Alice Pleasance Liddel, com 10 anos na época, era uma delas e gostou tanto do conto que pediu que ele a escrevesse para ela. Assim, em 1864 Dodgson a presenteou com um manuscrito, que em 1865 ele ampliou e publicou com o título de “As aventuras de Alice no País das Maravilhas” sob o pseudônimo de Lewis Carroll.
O ilustrador John Tenniel não gostou da qualidade da impressão e a primeira edição foi recolhida; entretanto, a segunda tiragem esgotou-se rapidamente. Por esses caprichos do mercado, em 1998, a primeira edição da obra (que fora rejeitada) alcançou 1,5 milhão de dólares em leilão. No Brasil, o livro foi traduzido por Monteiro Lobato e Augusto de Campos.
Em 1871, Lewis Carroll lançou Alice do Outro Lado do Espelho. Em 1951, Walt Disney adaptou a obra de Lewis, que também não foi bem compreendida, mas com o tempo tornou-se um clássico. Em 2010, os estúdios Disney produziram uma adaptação da obra dirigida por Tim Burton, com grande sucesso de bilheteria.


terça-feira, 2 de julho de 2019

ODE AO DOUS DE JULHO


Era no Dous de julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?!..."

Debruçados do céu... a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era a tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma — o vasto chão!
Por palmas — o troar da artilharia
Por feras — os canhões negros rugiam!
Por atletas — dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!

Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensanguentado...
Era o porvir — em frente do passado,
A Liberdade — em frente à Escravidão,
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso — contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva — e do clarão!...

No entanto a luta recrescia indômita...
As bandeiras — como águias eriçadas —
Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha,
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis...
...............................................
...............................................
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina:
Eras tu — Liberdade peregrina!
Esposa do porvir — noiva do sol!...

Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide,
Formada pelos mortos do Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — n'amplidão!...

São Paulo, junho de 1868.

Antônio Frederico de CASTRO ALVES  (1847-1871).


*O episódio faz parte da Guerra da Independência do Brasil já que os portugueses, amparados pelas Cortes, resistiram em algumas províncias ao fim do regime colonial. No dia 2 de julho de 1823, os portugueses retiram-se de Salvador, uma vitória fundamental para a consolidação da independência do Brasil, embora ainda houvesse resistência lusitana nas Piauí, Maranhão e Grão-Pará. A Festa da Independência da Bahia, como é chamada, faz parte das tradições do Estado – hoje é feriado estadual, marcado com desfiles e muitas comemorações.

segunda-feira, 1 de julho de 2019

JULHO


Segunda-feira, 1º de julho. Céu azul de verão, temperatura amena de outono e muitas flores de primavera. 
Verão no hemisfério norte:  a tosquia de ovelhas.
Neste começo de mês, que tal a beleza das “Très Riches Heures du duc de Berryreferente ao mês dedicado ao imperador romano Júlio César? Em tempos de muita pressa para realizações de projetos sempre é bom lembrar que a obra encomendada pelo duque de Berry levou setenta e sete anos para ser completada e o duque de Berry – Jean de Valois (1340-1416) não chegou a vê-la concluída. Os autores: os Irmãos Limbourg, entre 1412 e 1416; Barthélemy van Eyck (1420-1470), na década de 1440, e Jean Colombe (1430-1493), entre 1485 e 1489.