quarta-feira, 22 de janeiro de 2020

SÃO PAULO, 466.

OS MODERNOS EMBLEMÁTICOS

Circolo Italiano ou Edifício Itália, 1965. Avenida Ipiranga, 344. 

Edifício Ipiranga (antigo Hotel Hilton), 1971. Avenida Ipiranga, 165.


As curvas do Edifício COPAN (embrulhado para restauro), 1966. Avenida Ipiranga, 200.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2020

SÃO PAULO, 466.

Uma das ruas mais antigas da cidade é a de São Bento, aberta poucos anos depois da fundação de São Paulo, segundo a Prefeitura. Chamava-se Rua Martim Afonso Tibiriçá, nome que depois de batizá-lo os portugueses deram ao Cacique cuja aldeia ficava no que hoje é o Largo de São Bento. Em 1887 a Câmara mudou para Coronel Moreira César, o que não agradou a população e dois anos depois os ilustres vereadores renomearam para Rua de São Bento, como era mais conhecida. Caminhar pela São Bento revela-se um passeio repleto de descobertas interessantes. Segue uma seleção de algumas construções mais antigas da rua. Fonte: dissertação de mestrado da arquiteta Regina Helena Vieira Santos (FAU/USP).


O sobrado do cafeicultor, empresário e político Elias Pacheco Chaves é de 1881. A fachada foi refeita em 1885 em estilo neoclássico. Em 1899, quando a família mudou para os Campos Elíseos, o sobrado passou a ser sede da Prado Chaves & Cia. Ltda. São Bento, 189/197. (Fonte: CONDEPHAAT.) 


A rua começa na Praça Ouvidor Pacheco e Silva e logo naquela esquina (nº 16) o Brigadeiro Luiz Antônio de Souza Queirós (1746-1818) teve sua residência. O prédio atual de dois andares em estilo eclético foi um projeto do arquiteto alemão Maximilian Hehl (1861-1916) e data de 1908. 

Prédio de 1908. Arquiteto alemão August Fried. Fotos: janeiro, 2020.

Os dois sobrados também são de 1908. Fotos: janeiro, 2020.


O Cine São Bento foi inaugurado em 10 de setembro de 1927, fechou por alguns anos, reabriu e encerrou atividades definitivamente em 1950. O prédio em estilo eclético simples tem apenas um pavimento e atualmente bastante descaracterizado abriga três lojas comerciais. Rua São Bento, 241.
Década de 1930. Estilo eclético. Rua São Bento, 201. 

domingo, 19 de janeiro de 2020

ÚLTIMO DOMINGO DE 2019

Um domingo em São Paulo pode ser bem tranquilo para alguns ou de trabalho para outros. Eu aproveitei o sol de verão para caminhar pelo centro, onde encontrei este senhor que desfrutava da manhã sossegada para desenhar o Edifício Frei Santana Galvão, do outro lado da Praça Ouvidor Pacheco e Silva, ao lado do Convento de São Francisco. Enquanto isso a gari varria a calçada, sem pressa, sem a multidão costumeira passando com o alvoroço de sempre. Como Diva, a guarda municipal de plantão que puxou conversa quando me viu fotografando na esquina da Rua do Ouvidor. Uma conversa sempre ajuda já que nada acontecia (felizmente) e o tempo parecia não passar para ela. 
29 de dezembro de 2019.


sábado, 18 de janeiro de 2020

SOBRE SAMPAIO E SALDANHA


No princípio, chamava-se Rua Nova de São José, mas segundo cronistas da época estava longe de ser um lugar santo: “era um só prostíbulo varejado pela linha de bondes que a atravessava de ponta a ponta”*. Em 1912 uma parte do casario modesto desapareceu com a remodelação urbana em curso na região e logo prédios elegantes começaram a brotar em sua extensão.


Foi lá que se ergueu o primeiro arranha-céu de São Paulo com doze pavimentos e 50 metros de altura, projeto dos arquitetos Samuel Augusto das Neves (1863-1937) e Christiano Stockler das Neves (1889-1982) para o comerciante José de Sampaio Moreira (1866-1943). O título de prédio mais alto da cidade durou até a conclusão do Edifício Martinelli em 1929. Quando edifício de Sampaio Moreira ficou pronto em 1924, a Casa Godinho, mercearia do português José Maria Godinho que funcionava na Praça da Sé desde 1888, instalou-se na loja, onde se encontra até hoje. Nada mal: duas instituições paulistanas no mesmo endereço ‒ Líbero Badaró, 346. Em estilo eclético, o Sampaio Moreira esteve fechado por alguns anos, passou por um restauro cuidadoso e atualmente é sede da Secretaria Municipal de Cultura.
Enquanto se espera um dos quatro elevadores, há muito que ver: a porta de entrada de ferro trabalhado, o teto ornamentado e as escadarias de mármore branco. O acesso ao terraço é pelas escadas, passando pela sala de máquinas onde ficam os três motores suecos que desde 1924 movimentam os elevadores. Do terraço, tem-se uma bela vista de São Paulo, do Vale do Anhangabaú com o Theatro Municipal dominando o cenário. Melhor: pode-se admirar de perto a beleza da colunata que se vislumbra da rua e arremata o edifício.
O prédio é tombado pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico de São Paulo (CONPRESP) e a Casa Godinho foi reconhecida pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo (CONPRESP) como patrimônio cultural imaterial da cidade.

A história do o Edifício Saldanha Marinho (Rua Líbero Badaró, 39) está vinculada de certa forma ao desenvolvimento dos transportes na cidade. Nas primeiras décadas do século, o trem tinha papel relevante na economia do país e os automóveis ainda eram um artigo de luxo. No final da década de 1920, o Automóvel Club de São Paulo promoveu um concurso para a nova sede e o projeto vencedor foi de Elizário da Cunha Bahiana e Christiano Stockler das Neves (autor da estrutura); entretanto, antes do término da obra, o prédio foi vendido para a Companhia Paulista de Estradas de Ferro (CPEF) e o arquiteto Dácio Aguiar de Moraes (1875-1958) assumiu a construção e fez algumas alterações no projeto original. O Saldanha Marinho, erguido entre 1929 e 1933, inclui-se entre os primeiros edifícios em estilo art déco na cidade, tem onze andares, dois elevadores, vitrais da Casa Conrado (o mais importante ateliê de vitrais do país);pisos das escadas e do saguão em mármore. O nome do prédio é homenagem ao pernambucano Joaquim Saldanha Marinho (1816-1895), que foi presidente (governador) das Províncias de Minas e de São Paulo e teve papel decisivo na fundação da Companhia Paulista de Estradas de Ferro. O prédio foi tombado em 1986. Atualmente, é sede da Secretaria de Segurança Pública.

        CURIOSIDADE: O escritor Oswald de Andrade manteve entre 1917 e 1918 uma garçonnière na sala dois, terceiro andar do prédio 67 da Rua Líbero Badaró, que servia também para os saraus literários frequentados por Monteiro Lobato, Menotti del Picchia e Guilhermee de Almeida entre outros amigos. Era o “covil da Rua Líbero”, como o próprio Oswald referia-se ao apartamento. A amante desse período era “Miss Ciclone”, uma normalista. 


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

AH! ESSES FRANCESES...




A bela casa ao lado do antigo Banco Alemão, na Rua XV de Novembro, foi endereço de um dos mais importantes livreiros de São Paulo no século XIX, Monsieur Anatole Louis Garraux (1833-1904). Originalmente, o imóvel tinha dois pavimentos e, em 1896, o novo proprietário Alexandre Thiollier (1854-1913), antigo funcionário da livraria, solicitou a construção do terceiro pavimento. Desde aquela época o prédio, conhecido como Casa Garraux, sofreu várias modificações e mesmo o que restou do original é muito bonito.
Garraux desembarcou no Rio de Janeiro em 1850. Tinha 17 anos. Ele trabalhou na Livraria Garnier, mas em 1858 mudou para São Paulo e logo abriu a Livraria Acadêmica na Rua do Rosário, especializada na área jurídica e só três anos depois, em sociedade com outro francês, inaugurou a Casa Garraux. Aos poucos ele diversificou os negócios, oferecendo produtos franceses de luxo ‒ as “tentações” da Casa Garraux foram citadas até pela Princesa Isabel em suas memórias. O espaço da livraria diminuiu, mas ainda mantinha um catálogo de boa qualidade. Quando se aposentou, ele era muito rico e transferiu a casa a Alexandre Thiollier, que trabalhara com ele por mais de vinte anos e trilhou o mesmo caminho do sucesso do conterrâneo.


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

HISTÓRIA, ARQUITETURA E SAPATOS.


Nesse mundo apressado, em que se corre entre a casa e o trabalho, ligado no celular, ouvindo música ou procurando mensagens, provavelmente, as pessoas entrem na sapataria, escolham, experimentem, comprem os sapatos e saiam sem perceber a beleza do prédio nem se importar com sua história.
Edifício Guinle e ao fundo o Triângulo.
        Em 1912, o empresário Guilherme Guinle (1882-1960) resolveu instalar em São Paulo a sede da Guinle & Cia e iniciou os procedimentos legais para a construção de um prédio de concreto armado de sete andares na Rua Direita, então uma das principais da cidade. Guinle junto com Cândido Gaffrée inclui-se entre os maiores empresários brasileiros e atuou em várias frentes ‒ foi o construtor dos portos de Santos e do Rio de Janeiro, construiu hidrelétricas que forneceram energia para cidades de Santos, Salvador e Petrópolis entre outras, financiou pesquisas que lhe permitiram a abertura e exploração do primeiro poço de petróleo nacional em Lobato (BA) entre muitas outras atividades.
A construção do prédio em São Paulo gerou discussões técnicas por sua ousadia e foi necessário mesmo o aval da Escola Politécnica, pois na época o edifício mais alto da cidade tinha quatro andares. O projeto foi de Hyppolito Gustavo Pujol Júnior e a construção estendeu-se até 1916. A Casa Guinle em estilo art nouveau mantém-se bem preservada (atualmente está pichada como quase todo patrimônio da cidade no Centro Histórico) e vale a pena parar para observar sua beleza. E fazer compras porque em 1997 o imóvel foi adquirido por Ricardo Kachvartanian, que dirige a MUNDIAL CALÇADOS, uma rede de lojas que atua no mercado desde 1979. A loja de calçados fica no térreo.
A Casa Guinle é tombada pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental de São Paulo.
O SENHOR DA ESQUINA
Casa das Arcadas, novembro de 2012. 
Continue caminhando pela Rua Direita até a Rua Quintino Bocaiuva e vire à esquerda. Mais à frente encontra-se a Casa das Arcadas.  O lugar é privilegiado. Serve perfeitamente de palco para a beleza do prédio: Rua Quintino Bocaiuva esquina com Benjamin Constant. Impossível ficar indiferente a esse prédio de sete andares e porão, em estilo eclético com influência neoclássica, inaugurado no final da década de 1920. O edifício pertenceu a Armando Álvares Penteado (1884-1947). Cafeicultor e empresário paulista, ele morreu sem descendentes e parte de sua fortuna destinou-se à criação da Fundação Armando Álvares Penteado, que é a proprietária do imóvel. A cúpula adornada com colunas decorativas fica bem visível da esquina.
       O nome do edifício tanto é uma referência às arcadas características do prédio quanto uma alusão ao fato de que boa parte dos escritórios fosse de advogados e muitos deles provenientes da Faculdade de Direito, conhecida também como Arcadas.
Tão relevante quanto o prédio é A FIDALGA, a loja de calçados que lá se instalou em fevereiro de 1928, quando foi fundada pelo Sr. José Hernandes. Com o falecimento do proprietário décadas depois, o filho dirigiu os negócios por 35 anos e agora a loja está sob o controle da filha. Nesses 92 anos, a família sempre se preocupou em manter o atendimento de alto padrão e, como ressalta seu site, “a matéria prima, qualidade e variedade continuam sendo o ponto alto de A Fidalga”.



terça-feira, 14 de janeiro de 2020

SÃO PAULO E OSWALD DE ANDRADE (3)

Jardim da Luz, 2009.

jardim da Luz

Engaiolaram o resto dos macacos
Do Brasil
Os repuxos desfalecem como velhos
Nos lagos
Almofadinhas e soldados
Gerações cor-de-rosa
Pássaros que ninguém vê nas árvores
Instantâneos e cervejas geladas
famílias

Oswald de Andrade
(Postes da Light)





Rua Quinze, 11 de janeiro de 2020. 


(...)
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a rua Quinze
E o progresso de São Paulo.


Oswald de Andrade
(Lóide brasileiro)


domingo, 12 de janeiro de 2020

SÃO PAULO E OSWALD DE ANDRADE (2)

Praça Antônio Prado.


aperitivo


A felicidade anda a pé
Na praça Antônio Prado
são 10 horas azuis
O café vai solto como manhã de arranha-céus
Cigarros Tietê
Automóveis
A cidade sem mitos. 

Oswald de Andrade



Barricada
            A Sergio Milliet


Todos os passarinhos da Praça da República
Voaram
Todas as estudantes
Morreram de susto
Nos uniformes de azul e branco
As telefonistas tiveram uma síncope de fios
Só as árvores não desertam
Quando a noite luz.
Oswald de Andrade
Praça da República, 2019.


SÃO PAULO E OSWALD DE ANDRADE

Balada do Esplanada
A Gofredo 

Ontem à noite
Eu procurei
Ver se aprendia
Como é que se fazia
Uma balada
Antes d' ir
Pro meu hotel

É que este
Coração
Já se cansou
De viver só
E quer então
Morar contigo
No Esplanada.

Eu qu'ria
Poder
Encher
Este papel
De versos lindos
É tão distinto
Ser menestrel

No futuro
As gerações
Que passariam
Diriam
É o hotel
Do menestrel

Pra m'inspirar
Abro a janela
Como um jornal
Vou fazer
A balada
Do Esplanada
E ficar sendo
O menestrel
De meu hotel

Mas não há poesia
Num hotel
Mesmo sendo
'Splanada
Ou Grand-Hotel

Há poesia
Na dor
Na flor
No beija-flor
No elevador
                               Oferta
Quem sabe
Se algum dia
Traria
O elevador 
Até aqui
O teu amor
até aqui

Oswald de Andrade

"Primeiro Caderno do Aluno de Poesia Oswald de Andrade". São Paulo: Editora Globo, Secretaria de Estada da Cultura, 1991.

Foto:novembro de 2019. Antigo Hotel Esplanada, sede da atual Secretaria de Estado de Agricultura e Abastecimento. Praça Ramos de Azevedo, 254. Foto: Hilda Araújo.

sábado, 11 de janeiro de 2020

OSWALD, MODERNO, SEMPRE MODERNO.

(Editado)
Ele foi um enfant terrible, como se dizia na época em que o francês pontificava entre os bem-nascidos. Hoje, o comportamento extravagante dele talvez não fosse tão excepcional, mas os textos que ele produziu ainda causam polêmica já que não seguem os cânones da língua portuguesa. Se não gosto de tudo que ele produziu, aprecio muito o humor, as percepções inusitadas de tudo e de todos.
Trata-se de José Oswald de Sousa de Andrade ou simplesmente Oswald de Andrade, que nasceu em São Paulo no dia 11 de janeiro de 1890. Filho único de família abastada, ele estudou nas melhores escolas paulistanas da época: Caetano de Campos, Ginásio Nossa Senhora do Carmo, Colégio de São Bento e Direito no Largo de São Francisco (1929). Homem bonito, elegante, boêmio, criou muito caso, perdeu amigos e fez inimigos, mas, sobretudo arrebatou muitos corações femininos ao longo de seus 64 anos. Foi jornalista, poeta e romancista e, principalmente, o promotor da Semana de Arte Moderna de 1922, com Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Ribeiro Couto e Guilherme de Almeida. 

"Na Cadillac mansa e glauca da ilusão
Passa o Oswald de Andrade
Mariscando gênios entre a multidão."

“A caçada”, Poesias Completas, Mario de Andrade. 

Mário e Oswald que me perdoem, mas na falta da Cadillac vai o velho Ford glauco em mostra de 2011 na Praça Ramos.



UMA VIAGEM PERDIDA

Trevor é peruano e costuma viajar pelo país. Não é bonito: tem olhos muito grandes e uma boca desproporcional, mas é simpático. Recentemente, tentou seu primeiro voo internacional. Na ala internacional do Aeroporto Jorge Chaves, na hora de embarque para Cidade do México, surgiu a dúvida: precisaria de visto ou qualquer documentação especial? A funcionária do aeroporto, acostumada com todo tipo de passageiro, ligou para o superior, que enviou dois empregados para resolver a questão. No linguajar popular, Trevor comeu mosca. Deveria ter se informado com antecedência. Nada contra o embarque em Lima, o problema seria o desembarque, que ficaria a critério das autoridades mexicanas. Enfim, entre ir e voltar sem aproveitar os encantos do México, Trevor não viajou. Esclareço que Trevor é um sapo, bicho de estimação de um jovem casal que o leva para todos os lados. o casal (que falava pelos cotovelos) levava o batráquio amigo numa caixa de vidro transparente, talvez para que ele desfrutasse o sightseeing. (Um dos muitos “causos” da série Alerta Aeroporto Lima.)


quarta-feira, 8 de janeiro de 2020

NOSSOS ANOS VINTE


Se Paris estava fervendo há cem anos, no Brasil, uma turma jovem se preparava para pôr fogo na canjica, ou seja, mexer com a sociedade paulista conservadora e seguidora dos modismos estrangeiros, aliás, especialmente franceses. Na verdade, o francês era a língua preferida de intelectuais e de famosos na época. Os jovens cutucaram a onça com vara curta no sacrossanto Theatro Municipal de São Paulo (miniatura do Palais Garnier). Em 1922 a sociedade paulistana teve o seu pesadelo de uma noite de verão. Na verdade, uma semana ‒ de 11 a 18 de fevereiro daquele ano da graça (mesmo) de 1922.
     Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Di Cavalcanti, Victor Brecheret, Menotti Del Picchia, Anita Malfatti, Sérgio Milliet, Manuel Bandeira, Guilherme de Almeida agitavam a Pauliceia com suas ideias modernistas desde o início da década, mas foi a chegada de Graça Aranha a São Paulo que deu o impulso para a realização de um evento que marcasse o movimento de renovação. Quem fez o quê? Difícil estabelecer os fatos, como demonstra o jornalista Marcos Augusto Gonçalves no livro “1922, a semana que não terminou”, mas parece que Di Cavalcanti teve a ideia de promover um salão modernista na livraria onde ele expunha seus trabalhos, o que coincidiu com as intenções de Graça Aranha, que fez o contado do grupo com Paulo Prado ‒ neto de Dona Veridiana e filho do Conselheiro Antônio Prado, enfim, membro de uma das famílias mais ricas e influentes de São Paulo. Numa das reuniões, a companheira de Paulo Prado sugeriu o formato: uma semana de eventos, como acontecia em Deauville (França), para lançamento de modas. E o local teria sido escolha de Paulo Prado, mas coube a René Thiollier, outro bem-nascido, os contatos para o aluguel do Theatro Municipal. 
          A Semana de Arte Moderna foi resultado de um trabalho coletivo e seus protagonistas iniciaram sob vaias e críticas acerbas as mudanças no cenário cultural brasileiro. Depois da Semana de Arte de Moderna, nada seria como antes ‒ até um suíço desembarcou em Santos em 1924, se apaixonou por São Paulo e pelos modernistas: Blaise Cendrars (1887-1961), viajante, escritor e poeta.
Em 1921, São Paulo tinha 579.033 habitantes. (A população do Rio de Janeiro, capital da República, era de 1.560.000 pessoas.) O Palácio das Indústrias, no Parque D. Pedro II, ainda estava em construção em janeiro daquele ano e foi onde Oswald de Andrade, Di Cavalcanti e Hélios Seelinger (1878-1965) descobriram Victor Brecheret, que lá burilava o “Monumento às Bandeiras”, e amaram de paixão a modernidade de seu trabalho.
O grande acontecimento da década prometia ser o centenário da Independência do Brasil e, no Ipiranga, outra obra estava em andamento: o monumento da Independência, criação do italiano Ettore Ximenes. Para a Avenida Paulista, aguardava-se o monumento encomendado a William Zadig pelos alunos da Faculdade Direito para homenagear Olavo Bilac. Os dois monumentos foram inaugurados em 1922 e não agradaram à população. A obra de Zadig, considerada muito feia, ainda tinha um francês beijando uma índia seminua, o que agitou os moralistas de plantão; assim, depois de ser banida de vários lugares da cidade, foi finalmente desmontada e guardada no depósito municipal. O monumento da Independência, que Mário de Andrade comparou a “um centro de mesa”, resistiu e hoje é bastante querido da população. Quanto ao Palácio das Indústrias, hoje cercado por uma paisagem poluída, tornou-se um ponto turístico da cidade e um ótimo centro cultural.  



   

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

BELEZA E MODÉSTIA


Estamos na área próxima ao Triângulo, visitamos o Edifício Triângulo e nada mais justo que continuar vendo os triângulos do centro paulistano. Os roteiros para conhecer Nova York incluem uma visita ao Edifício FLATIRON, na 5ª. Avenida, um prédio de vinte e dois andares construído em 1902 em uma área triangular formada pela Quinta Avenida, Broadway e a Rua 22 Leste. Foi um dos mais altos da cidade e fez tal sucesso entre o público que o nome foi mudado de Fuller Building para Flatiron por causa da semelhança com um ferro de passar roupas (haja imaginação!). Realmente muito bonito, mas pensei com meus botões que em São Paulo havia um prédio de cinco andares que, embora não ficasse isolado como o americano, também tem o formato triangular. E também muito bonito em sua modéstia. Trata-se da CASA MÉDICI, na Rua Líbero Badaró com a Rua Dr. Falcão Filho. Obra de 1912 do Escritório de Arquitetura Samuel das Neves. De acordo com o professor Moracy Amaral foi o primeiro edifício vertical construído em São Paulo e o primeiro de escritórios.
Nova York, 14/09/2013.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2020

UMA RUA COM O MELHOR DE SÃO PAULO.

A Rua Quinze ou XV de Novembro começou a se delinear no século XVII e em 1900 era “... a principal rua da cidade, a de mais comércio e animação. Para ela converge tudo quanto São Paulo tem de melhor”, segundo um cronista da época. Mas este nome ela ganhou apenas em 1916, segundo a Prefeitura. Atualmente, ainda restam alguns belos prédios antigos para nos animar.


Na esquina com a Rua Três de Dezembro, encontra-se o prédio que foi sede do Banco Alemão (Brasilianische Bank für Deutschland) até 1942, quando o Brasil entrou na II Guerra Mundial e, em seguida, o Governo nomeou interventores para o encerramento das atividades dos bancos pertencentes aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão*). Nesse período o prédio também foi alvo de depredações. O edifício em estilo neorromântico alemão foi erguido em dois momentos diferentes: a fachada é de 1887 enquanto a lateral da Rua Três de Dezembro remonta ao período entre 1910/1914. Ao longo do século passado o prédio sofreu descaracterizações, contudo, ainda impressiona pela beleza sólida. Projeto de Guilherme Krug & Filhos.
 Rua XV de Novembro, 268. 
*Curioso que em 1942 o Brasil não declarou guerra ao Japão, o que ocorreu apenas em 1945, quando a guerra na Europa já terminara. 
Diferente de tudo que há no Centro, o prédio do Banco Francês-Italiano é um projeto do arquiteto italiano Giulio Micheli, estabelecido em São Paulo em 1888. O edifício tem quatro pavimentos e porão, estrutura de concreto e alvenaria de tijolos. Cópia adaptada do Palazzo Strozzi de Florença, a obra começou em 1919 e foi concluída por Giuseppe Chiappori, após a morte de Micheli. 
Rua XV de Novembro,213. Foto: setembro 2019.
A sede do Banco Alemão está para alugar. Terça, 7 de janeiro de 2020.

Entrada da Rua XV.

domingo, 5 de janeiro de 2020

CONTRASTES: O ANTIGO E O MODERNO.


São Muitos os caminhos a partir da Praça da Sé. Rua Direita e XV de Novembro? Uma esquina pouco atraente, com prédios de várias épocas se chocando, mas quem escolher a Direita deve observar os edifícios do McDonald e da Marisa antes de parar diante do vizinho (Calçados Mundial), infelizmente bastante pichado. Mais adiante, exatamente no local em que as Ruas Direita, José Bonifácio e Quintino Bocaiuva se encontram, ergue-se o Edifício Triângulo, projeto assinado por Oscar Niemeyer de 1955 e, claro, com entrada pelo subsolo! Financiado pelo Banco Nacional Imobiliário (Otávio Frias de Oliveira), o projeto enfrentou vários problemas com a Prefeitura e acabou descaracterizado. A descaracterização continuou após a inauguração. Se é Bonito ou feio, depende de cada um. O Triângulo tem 18 andares e no térreo funcionam, atualmente, pequenas lojas populares. Na entrada, pela Rua José Bonifácio, 24, há um painel de Di Cavalcanti, com a base já deteriorada. O edifício foi tombado em 2004.
 

Nessa mesma esquina (Direita com Quintino), contrapondo-se à modernidade de Niemeyer, fica o belíssimo Palacete Tereza Toledo Lara (Quintino Bocaiuva, 23). Projeto do alemão August Fried (1884-1962) por encomenda do Conde Antônio de Toledo Lara (186401935), casado com Francisca Leopoldina Lara Campos (1868-1949). O nome do prédio, inaugurado em 1910, foi uma homenagem do conde à filha Tereza, então com cerca de sete anos. O edifício tem três pisos (térreo, dois superiores e porão). Piso hidráulico e vitrais coloridos destacam-se no interior elegante. No início abrigou escritórios de advocacia e consultórios médicos. Na década de 1930, o empresário Paulo Machado de Carvalho transferiu a sede da Rádio Record de sua propriedade para o edifício, onde ficou por muitos anos. Foi endereço também da Editora Irmãos Vitale (1923), uma das mais importantes editoras de música do Brasil, e da Casa Bevilacqua, também de instrumentos musicais. Prédio tombado pelo município.




sábado, 4 de janeiro de 2020

CIDADE VAZIA E CHEIA DE HISTÓRIAS


Depois de explorar o Centro Novo, voltei para o Triângulo ‒ a área compreendida entre as Ruas Quinze de Novembro, São Bento e Direita, onde a cidade se desenvolveu, mas expandi minhas incursões por outras ruas. Ali, se encontram alguns edifícios emblemáticos da cidade.  
Marco Zero: registro do porto de Santos, 2011.
Na Praça da Sé, marco zero de São Paulo, destaca-se o Edifício Rolim, obra do Escritório Técnico C. Pujol Jr, Fred Reimann e Tito Carvalho. Projeto de Hipólito Gustavo Pujol Júnior, um adepto do modernismo catalão de acordo com estudiosos. O prédio tem treze andares com uma cúpula no topo revestida de bronze e uma pequena torre que parece um farol. Foi inaugurado em 1928 e até o Edifício Martineli ser concluído teve a honra de ser o prédlio mais alto de São Paulo.
No dia 18 de julho de 1930, o jornal O Estado de S. Paulo trazia este anúncio: “Advogados, médicos, engenheiros, dentistas e corretores. São convidados os que porventura estejam descontentes ou mal situados presentemente a visitarem o prédio, sem compromisso algum. Instalações magníficas, com todo o luxo e conforto”.

Prédio da Caixa Cultural, dezembro de 2019.
Ao lado do Rolim encontra-se o prédio da Caixa Econômica Federal, local onde se erguia a Igreja de São Pedro dos Clérigos, demolida em 1911 para as obras de ampliação e modernização da Praça da Sé. O prédio, construído para ser a sede do banco em São Paulo, foi inaugurado em 29 de agosto de 1939 pelo ditador Getúlio Vargas. Atualmente, ali funciona a Caixa Cultural, o Museu da Caixa,  agência bancária e setor administrativo. Com 12 metros de pé direito o térreo está conectado ao segundo andar, onde se destaca o vitral do italiano Henrique Zucca. Um ambiente revestido de mármore e granito.


Praça da Sé, janeiro 2020.
Na esquina da Praça da Sé com a Rua Benjamin Constant ergue-se o Palacete São Paulo, que pertenceu a Hildebrando Cantinho Cintra, uma das maiores fortunas de São Paulo na época. Projeto do engenheiro Nestor Caiuby, encomendado pelo coronel Felício de Campos Cintra, dono do terreno de 500 metros quadrados. Ficou pronto em 1924. O palacete tem 4 mil metros quadrados de área construída e oito pavimentos. Em 1946, por causa do espólio sem herdeiros (herança vacante) o edifício passou para o Estado e, após um período abandonado, passou para a Universidade do Estado de São Paulo (UNESP) que lá instalou a reitoria, mas atualmente abriga a Fundação Editora da UNESP, a livraria UNESP e a Universidade do Livro. Uma curiosidade: este foi o endereço da Companhia Graphico-Editora Monteiro Lobato no período de 1924-1925. O escritor instalou sua empresa no primeiro andar do prédio, logo após a inauguração.
Um senhor garantiu-me que é assombrado,2020.
Ao sair da livraria da UNESP, olhe para a direita e do outro lado da Rua Benjamin Constant admire o Edifício Gazeau (1921). Dizem que foi o primeiro edifício da praça com mais de três andares. O arrojado projeto inicial previa dez andares! A prefeitura vetou a audácia do construtor, o francês Augusto Francisco Gazeau, e aprovou apenas seis. O prédio foi descaracterizado em 1962, quando a cúpula original foi demolida para dar lugar a mais um andar recuado. Augusto Francisco Gazeau instalou no primeiro andar sua livraria, que funcionou até 1996. Um pequeno saguão com a escada próxima da porta e, um pouco mais atrás, vê-se o elevador de portas pantográficas.
Fotos: Hilda Prado, em épocas diferentes. Anúncio: acervo O Estado de S. Paulo.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

PARIS E A DÉCADA DE 1920.


Procuro um livro na estante e cai no meu colo outro que se torna muito mais instigante que o procurado por causa desse post que atiçou minha imaginação. Os anos 20 estão de volta? Não os anos de 1920, época marcada pela revoada de grandes músicos, escritores, dançarinas, pintores ‒ especialmente americanos ‒ para França, ou melhor, para Paris. Woody Allen captou a época de forma mágica em seu filme “Meia-noite em Paris” (2011), que é simplesmente ótimo. O jornalista carioca Sérgio Augusto (1942) escreveu um livro delicioso sobre a chamada “Geração Perdida”, que agitou Paris nesse período e tornou-se um mito graças à imagem criada por Hemingway anos mais tarde, e que se espalhou mundo afora, de que Paris era uma festa. Se nos Estados Unidos faltava bebida alcoólica, em Paris o champagne borbulhava à vontade.

Paris, 2010. (Foto: Hilda Araújo.)
Quem eram todos eles? Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald, a própria Gertrude Stein, Cole Porter, John dos Passos, James Baldwin, Henry Miller, George Gershwin, Pablo Picasso (espanhol), Josephine Baker, James Joyce (irlandês) e tantos outros nomes. “E foram todos para PARIS”, como bem diz o título do livro de Sérgio Augusto, que é “um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia“. Se não der para ir a Paris fazer o roteiro elaborado pelo jornalista, leia o livro do mesmo jeito porque você se sentirá na cidade, visitando os locais onde todos esses personagens viveram, amaram, sofreram (especialmente por falta de dinheiro) e se divertiram muito.
Josephine Baker (1906-1975).

  











E foram todos para Paris: um guia de viagem nas pegadas de Hemingway, Fitzgerald & Cia. Sérgio Augusto. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.