sábado, 1 de dezembro de 2018

DEZEMBRO, 2018.


As riquíssimas horas do duque de Berry, livro de horas do século XV.
A caça ao javali, a floresta e as torres do chateau de Vincennes ao fundo. Iluminura correspondente ao último mês do ano e que integra o calendário do livro de horas do duque de Berry (1340-1416), irmão do rei da França. A obra, conhecida como "As riquíssimas horas do duque de Berry", é de autoria dos irmãos Limbourg, Paul, Hermann e Jean. Século XV.


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

UMA CORVETA QUE FEZ HISTÓRIA


Quem fez a primeira viagem de circunavegação da Terra? Parece fácil: Fernão de Magalhães! Errado. Ele começou em 1519, porém morreu em 1521, quase no final, e quem completou a missão foi Juan Sebastián Elcano, no comando da VITÓRIA, a única nau que retornou à Espanha.
A Marinha Imperial do Brasil, no entanto, realizou em 1879 a sua primeira circunavegação, que foi também uma viagem de instrução de guardas-marinha. Em 19 de novembro de 1879, a Corveta Encouraçada Vital de Oliveira partiu do Rio de Janeiro com cerca de 300 homens sob o comando do capitão de fragata Júlio César de Noronha.
Vital de Oliveira. Imagem: Wikipedia. 
A corveta foi construída no Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro e, com o nome de GUANABARA, entrou em serviço em 1867 sob o comando do capitão tenente Antônio Luiz Von Hoonholtz (futuro Barão de Teffé). A embarcação tinha 66m de comprimento, 11m de boca e 4m15 de calado, e deslocamento de 1.424t; era dotada de propulsão mista (vela e vapor) e atingia velocidade máxima de 8,5 nós. Em 2 de fevereiro de 1867, com a morte do capitão de fragata Manuel Antônio Vital de Oliveira, comandante do Monitor Encouraçado Silvado, no bombardeio a Curupaiti durante a Guerra do Paraguai, a Marinha trocou o nome da GUANABARA para Vital de Oliveira num tributo ao militar.
Na tarde do dia 19 de novembro, a Corveta Vital de Oliveira navegou para Lisboa, Gibraltar e Toulon. Neste porto, embarcou a missão diplomática especial do governo brasileiro para a China e da qual fazia parte o futuro barão de Jaceguay, Arthur Silveira da Motta. Do porto francês a corveta se dirigiu a Malta (foi o primeiro navio brasileiro a aportar em La Vallete), prosseguindo depois para Port Said, Ismailia, Suez, Aden; navegou para o Oceano Índico e passou por Ceilão (Sri Lanka), Singapura, Hong Kong (onde ficou a Missão Diplomática), Nagasaki, Yokohama. Desta cidade a San Francisco (EUA) foram 23 dias de travessia do Pacífico para depois seguir para Acapulco e pelo litoral sul-americano até Valparaiso. A partir de Port Otway a viagem prosseguiu pelos canais da Patagônia, tornando-se o primeiro navio da marinha brasileira a transpô-los antes de entrar no Estreito de Magalhães. Este talvez tenha sido o pior trecho da viagem: a travessia do Estreito levou oito dias com temperatura de três graus até Punta Arena, onde os brasileiros passaram o Natal de 1880. A última escala foi Montevideo e, enfim, a corveta aportou no Rio de Janeiro em 23 de janeiro de 1881. Foram 430 dias: 268 navegando e 162 fundeados. Foram navegadas 35.044 milhas.
Um grupo de que fez História e que não foi esquecido.

Fonte: Revista de Villegagnon, ANO 3- Nº 3 – 2008.
        

terça-feira, 20 de novembro de 2018

SEMPRE HÁ MOTIVOS PARA LEITURA


Feriado. Frio. Chuva.  Olho a estante em busca de um amigo. Há muitos ansiosos para compartilhar esse dia de fim de primavera. O que ler depois de ter mergulhado na história dos Países Baixos no século XVII contada por Simon Schama (1945) com riqueza de pormenores e ilustrada com arte da melhor qualidade? Escolho “21 lições para o século 21”, de Yuval Noah Harari (1976). Um salto de quatro séculos!
Na verdade, estou lendo devagar “Uma história da leitura”, do argentino Alberto Manguel (1948), diretor da Biblioteca Nacional da Argentina. A morosidade se deve à leitura no tablet a que ainda não me acostumei, o que não impede que aprecie a belíssima obra.
Enfim, será um ótimo dia.
"Casal numa paisagem". de Frans Hals, Rijksmuseum, Amsterdam. 


domingo, 18 de novembro de 2018

PROGRAMA PARA O FERIADO





Programas culturais de ótima qualidade não faltam em Sampa. E quem tem mais de sessenta anos, então, nem gasta dinheiro com ingresso. Eis um roteiro básico para o Centro Histórico a partir da Sé. Quem for de metrô (Linha Azul), emerge na Praça da Sé, dominada pela catedral, que merece visita. Depois de descobrir o Marco de Zero de São Paulo, pode fazer um ótimo passeio a pé visitando algum desses lugares. As igrejas sugeridas são as mais antigas da cidade.



Caixa Cultural
No momento tem três exposições: Neopanóptico de Vinicius S.A. (instalação); Diáspora, de Josafá Neves (pinturas e esculturas) e Rubem Valentim (pinturas, gravuras, serigrafias, totens e escultura).
Praça da Sé, 111. Não abre às segundas-feiras.
Museu da Caixa:como era o sorteio da Loteria Federal.
Igreja do Carmo (séc. XIX)
Avenida Rangel Pestana, nº. 230.
SESC Carmo
Rua do Carmo, 147.
Igreja Nossa Senhora da Boa Morte. (séc. XIX)
Rua do Carmo, 202.
SESC Carmo promove concertos mensais às 13 horas na igreja.
Museu da Justiça
Rua Conde de Sarzedas,100.


Museu Anchieta
Pátio do Colégio

Beco do Pinto e Solar da Marquesa de Santos

Rua Roberto Simonsen, 136-B



Faculdade de Direito da USP
Largo de São Francisco, 95.
Igreja de São Francisco (séc. XVII)
Largo de São Francisco, 173.

Centro Cultural Banco do Brasil
Exposição: 50 anos de realismo – do fotojornalismo à realidade virtual.
(Exposições e programa educativo: gratuitos.)
Rua Álvares Penteado, 112. Não abre às terças-feiras.

Centro Cultural dos Correios
Avenida São João. Metrô: São Bento.

Mosteiro de São Bento
(Visitas guiadas com agendamento prévio:
 Largo de São Bento, 48. Metrô São Bento. 

Farol Santander
(Com agendamento pela internet. Ingresso: R$10,00). Precisa agendamento.
Rua João Brícola, 24. (Metrô Sé ou São Bento).
Edifício Matarazzo
(Visita ao prédio com agendamento uma hora antes).
Viaduto do Chá, 15. (Metrô Anhangabaú ou São Bento.)



sábado, 17 de novembro de 2018

Vandalismo

"Convergência", 1952. Óleo sobre tela de Jackson Pollock (1912-1956).
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!
Soneto: "Vandalismo", do poeta paraibano Augusto dos Anjos (1884-1914).


quinta-feira, 15 de novembro de 2018

NUVENS EM FIM DE TARDE

ROMA, 2006.
COMO NUVENS pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim. 


São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece. 

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?


FERNANDO PESSOA/ OBRA POÉTICA. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

JARDIM BOTÂNICO DE GLASGOW

Na Escócia, em pleno verão de 2015 foi difícil foi encontrar sol. Em Glasgow o tempo encoberto e o frio não tornaram a visita ao Jardim Botânico menos agradável. Com quase dois séculos de existência, o Glasgow Botanic Gardens surgiu em outro local com plantas doadas pelo botânico Thomas Hopkirk (1785-1841), mas a cidade cresceu e em 1839 foi necessário comprar a área atual, no West End, próximo ao rio Kelvin. Em 1842 os jardins foram abertos aos membros da Royal Botanic Institution of Glasgow. Nos fins de semana, o público podia visitar o local mediante pequena contribuição. Atualmente, atrai quase 500 mil pessoas por ano.


Embora tenha várias estufas, a mais conhecida é Kibble Palace.  A bela estufa de estrutura de ferro com 2137 m² tem uma história muito interessante. Na década dos anos de 1860, o excêntrico engenheiro e fotógrafo John Kibble (1815-1894), que vivia em Coulport, contratou os arquitetos John Boucher e James Cousland para fazer o projeto da estufa para sua casa. Em 1871, após uma negociação, ele conseguiu transferir a estufa, que ficara conhecida como Palácio de Vidro, para o Jardim Botânico de Glasgow. A estrutura foi ampliada, ganhou o domo de 150 pés de diâmetro e foi inaugurada em 1873 com o nome de Kibble Palace.
 














Endereço: 730 Great Western Rd. Abre durante todo o ano diariamente. Entrada gratuita.
Transporte: ônibus 6, 6A e 90.

domingo, 11 de novembro de 2018

DIA DO ARMISTÍCIO

Há cem anos o mundo assistiu, aliviado, a assinatura do Armistício pondo fim à Grande Guerra, que causara uma carnificina sem precedentes na História: cerca de 10 milhões de mortos e 20 milhões de feridos. A guerra de 1914-1918 provocou ainda mais mortes com a pandemia da Gripe Espanhola (Influenza A subtipo H1N1) que teve origem nos campos de batalha e se espalhou pelo mundo, provocando a morte de 50 milhões de pessoas ao redor do mundo. Foi um fim de guerra mal resolvido e acabou gerando a II Guerra Mundial, em 1º de setembro de 1939. Uma data para reflexão, objetivo das cerimônias que se realizam hoje em vários países.


Os Estados Unidos entraram no conflito em 1917 e logo em seguida o Brasil, que teve vários navios mercantes afundados pelos alemães. O presidente Venceslau Brás declarou guerra à Alemanha em 25 de outubro de 1917. A participação brasileira, entretanto, foi bem restrita – “alguns soldados da Legião de Honra e uma dezena de aviadores que foram fazer um estágio na aviação britânica”, de acordo com o professor e jornalista Sidney Garambone*. O governo brasileiro organizou a pedido da França uma missão médica para atuar no front, que partiu do Brasil em agosto de 1918.

*A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL E A IMPRENSA BRASILEIRA, DE Sidney Garambone. Rio de Janeiro: Mauad, 2003.


sábado, 10 de novembro de 2018

JARDIM DAS PLANTAS DE PARIS


O Jardim das Plantas de Paris tem 378 anos. Chamava-se Jardim do Rei, nome alterado no período da Revolução de 1789, quando também passou por uma grande mudança. No princípio, era um herbário de plantas medicinais criado pelo médico de Luís XIII, Guy de la Brosse em 1640. E foi aberto ao público em 1640. O Jardim das Plantas de Paris tem 23,5 ha.  e faz parte do Museu de História Natural.
Visitei em 27 de maio de 2012. Um domingo especial: dia das mães e muitas famílias aproveitavam o sol de primavera entre flores e gorjeios de aves para comemorar a data. Um belo passeio.
 


Abre todos os dias e o ingresso é gratuito.
Endereço: 57 rue Cuvier, 2 rue Buffon, 36 rue Geoffroy-Saint-Hilaire. Ônibus: linhas 24, 57, 61, 63, 67, 89 e 9.
Batobus: parada Jardin des Plantes.
Metro e RER: Austerlitz (linha C do RER ou 5 do metro); Censier Daubenton (linha 7 do metro), Jussieu (linha 10 do metro).



segunda-feira, 5 de novembro de 2018

JARDIM BOTÂNICO DE SÃO PAULO: 90 ANOS.

Manhã de outono ensolarada, temperatura agradável. Um dia para aproveitar o mais belo espaço verde de São Paulo: o Jardim Botânico, situado no Parque Estadual das Fontes do Ipiranga, na Água Funda, região sudeste da cidade. Vegetação exuberante, canto de pássaros, o murmúrio das águas correndo, o ciciar do vento nas folhas do pau-brasil que formam um bosque aconchegante, o atropelo de uma galinha d’água mudando de um lago para outro atrás de uma libélula, o banho preguiçoso da garça visitante no córrego que dá origem ao riacho do Ipiranga... Um pequeno paraíso.
O portão histórico.
 O Jardim Botânico de São Paulo, que no próximo dia 9 comemora 90 anos, é o resultado da paixão do naturalista mineiro Frederico Carlos Hoehne (1882-1959) por orquídeas. Em 1928, ele iniciou o Orquidário do Estado de São Paulo, em área do antigo Parque do Estado. Ali foram construídas duas estufas de ferro e vidro com 200 m² cada uma e se implantou o Jardim de Lineu, inspirado no belo Jardim Botânico de Upsala (Suécia) que data do século XVIII.
Sob a direção de Hoehne o Orquidário foi se desenvolvendo, passou a se chamar Jardim Botânico e se tornou um paraíso. Atualmente, é administrado pelo Instituto de Botânica, unidade da Secretaria de Estado do Meio Ambiente. 
São 143 hectares de área verde, mas só 36 ha estão abertos à visitação pública. O Orquidário, onde tudo começou, é uma das áreas a que o visitante não tem acesso. Ele tem um acervo de 20 mil vasos e 700 espécies diferentes de orquídeas – 80% de espécies nativas, dez por cento híbridas e o restante, exóticas.
O passeio começa pela Alameda Fernando Costa, à margem do córrego Pirarungáua, ladeada por palmeiras jerivás, e que conduz à área de exposições e ao Museu Botânico João Barbosa Rodrigues (observe a claraboia). Eis o Jardim de Lineu – um dos mais belos trabalhos de paisagismo da cidade, que antecede as estufas. Uma abriga plantas da Mata Atlântica e a outra é reservada para exposições temporárias de plantas e flores.
          Agora é a vez do Lago das Ninfeias, o Jardim dos Sentidos, o lago dos Bugios, o jardim de esculturas, o lago da nascente do riacho do Ipiranga, o túnel de bambus, o bosque de pau-brasil, e, enfim, o Mirante, de onde se tem uma bela visão do Jardim Botânico.
Bancos para descansar e observar a natureza não faltam. Mas é importante fazer o roteiro das espécies ameaçadas de extinção. Mogno, jequitibá-rosa, samambaiaçu (xaxim), cedro-rosa, bromélia imperial, imbuia, cambuci e palmito juçara entre tantas outras. Fome? Existe um restaurante e uma lanchonete com horários variados.
Vale a pena saber que Lineu ou Carl Von Linné (1707-1778) foi um naturalista cuja ambição era nomear e descrever todos os tipos conhecidos de plantas, animais e minerais. Não conseguiu realizar este feito, mas foi responsável pela criação da nomenclatura binomial em latim adotada até hoje pelos biólogos do mundo. Por exemplo: Cambuci – Campomanesia phaea, o primeiro nome é o gênero da planta e o segundo, a espécie. Ele trabalhou no Jardim Botânico de Upsala.


O córrego Pirarungáua, antes canalizado,
voltou a correr livre.




 Serviço O Jardim Botânico de São Paulo abre de terça a domingo das 9 às 17 horas. Telefones: 11- 3031-2961 ou 3037-7253. Endereço: Av. Miguel Stefano, 3.031. O estacionamento é pago. Há ônibus urbanos que saem da Estação São Judas do Metrô, na Avenida Jabaquara. O trajeto, dependendo do trânsito, é de 15 minutos. Ingressos: R$ 10,00 (público em geral) e R$ 5,00 (estudantes). Crianças até 10 anos e adultos acima de 65 anos e portadores de necessidades especiais são isentos de pagamento.

domingo, 4 de novembro de 2018

BOA LEITURA

Coisas do Facebook. Um amigo me convidou para escolher e publicar a capa de sete livros importantes para mim. Um desafio e tanto, porque li tantos livros maravilhosos que me sinto frustrada por ter que deixar de fora centenas de autores maravilhosos. Há alguns anos não me interesso muito por romances e me dedico mais aos livros de História, tentando entender melhor o ser humano e, portanto, desconheço a maioria dos novos escritores.
Assim, resolvi selecionar obras que me revelaram sete ótimos autores em algum momento da minha vida. Li vários livros da inglesa Doris Lessing (1919-2013) e praticamente toda a obra de Jorge Semprun (1923-2011), espanhol naturalizado francês. Rubem Fonseca (1925) é dono de um texto maravilhoso e é sempre um prazer reler seus livros. Do americano John Updike (1932-2009), li a tetralogia do “Coelho”, que é um retrato bem realista da sociedade norte-americana. Belíssima obra. O francês Albert Camus (1913-1960) é um dos meus autores preferidos e “A queda” é um livro de tirar o fôlego. Yukio Mishima (1925-1970) foi uma ótima revelação da literatura japonesa. 
Ah! O sétimo livro foi “Peter Pan”, do escocês J. M. Barrie (1869-1937), que até hoje me dá muito prazer e eu nem quero voltar à infância.
Deixei fora da lista os dois maiores poetas da língua portuguesa: Camões e Fernando Pessoa; Monteiro Lobato e sua obra infantil, mas fazer o quê? Ficaram fora também... Uma lista interminável para quem, como eu, aprecia boa leitura. Cada um que faça a sua lista e boa leitura. 








sexta-feira, 2 de novembro de 2018

FANTASMAS PAULISTANOS

Quem não gosta de uma boa história de fantasma? São famosos os castelos mal assombrados da Inglaterra, que nos proporcionam ótimos relatos literários e cinematográficos. Ontem, vasculhando as prateleiras da Biblioteca Mário de Andrade, descobri “Os Fantasmas de São Paulo Antiga”, livro do professor Miguel Milano (1885-1971), Editora UNESP. O livro reúne dois tipos de fantasmas: os que animam causos folclóricos, que o autor ouviu na infância, e os históricos, que se revelam ao leitor à medida que ele percorre locais de São Paulo que desapareceram com o crescimento e o progresso da cidade.

Graças às histórias singelas de Milano sobrevivem os fantasmas que rondavam a Academia de Direito apavorando guardas urbanos e estudantes; ficamos sabendo das desventuras do caixeiro-viajante Manuel Lantejoula, vítima da “bezerra encantada”; ou do verdureiro madrugador Ângelo que, depois de “encontrar” os fantasmas (fogos-fátuos) do Cemitério da Consolação, resolveu nunca mais madrugar. E assim Milano narra as desventuras causadas pelo medo aliado à superstição a personagens anônimos da cidade, que enfrentaram seus fantasmas pessoais na difícil jornada de suas vidas. Ah! A imaginação humana... Hoje os fantasmas são outros.
Interessante que os fantasmas são bem pontuais: só começam as atividades a partir da meia-noite. Leitura muito recomendada para as noites de tempestades, regidas por raios, relâmpagos e trovões.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

NOVEMBRO COM ARTE










Que tal começar o mês com a iluminura das “Riquíssimas Horas do Duque de Berry” referente a novembro? Obra dos irmãos Limbourg, do século XV, que se encontra no Museu Condé, em Chantilly, França. Jean de França, duque de Berry (1340-1416) era um grande apreciador de arte.













DIA DE TODOS OS  SANTOS - Os santos são a versão cristã dos heróis gregos e romanos que eram representados em esculturas para adornar os templos e as residências dos cidadãos de Grécia e Roma. As imagens cristãs são herança desse costume greco-romano. Judeus e islâmicos não têm imagens em seus templos (sinagogas e mesquitas), assim como os cristãos da igreja reformada. Para alcançar o título de santos é preciso uma vida de virtudes heroicas e de exemplos de fé e devoção a Deus. Parece que a nem a Igreja Católica sabe quantos santos ela congrega, mas acredita-se que sejam mais de dez mil – a maioria dos quais nem é lembrada nos dias atuais. 
Abaixo: à esquerda, "O Juízo Final", 1534-41, afresco da Capela Sistina, Vaticano, de Michelangelo. A direita: "Vocação de S. Mateus", 1599-1600, óleo sobre tela de Caravaggio, Capela Contarelli, Roma.





quarta-feira, 31 de outubro de 2018

E VIVA O SACI!

O Estado de São Paulo comemora hoje o Dia do Saci, assim como várias cidades brasileiras, mas até hoje o projeto de lei para a criação do Dia Nacional do Saci não foi aprovado pela Câmara Federal. Quem é o Saci? Um brasileiro, acima de tudo. Ele é um garoto negro com nome indígena e tem uma perna só, fuma cachimbo e usa uma carapuça vermelha que lhe dá poderes mágicos, como o de aparecer e desaparecer aonde quiser. Nem é preciso dizer que é travesso como toda criança. Adora assobiar e pregar peças nas pessoas.
Saci no traço de Ziraldo.
A lenda, a assim como o nome, varia conforme a região do Brasil: Saci-Cererê, Saci-Trique, Saçurá, Mati-taperê, Matiaperê, Matim Pererê, Matintaperera, Capetinha da Mão Furada etc. Conta-se também que ele costuma se transformar em passarinho como o Mati-taperê ou Sem-fim – conhecido no nordeste como Peitica.
Nas palavras de Monteiro Lobato: “O saci é um diabinho de uma perna só que anda solto pelo mundo, armando reinações de toda sorte e atropelando quanta criatura existe. Traz sempre na boca um pitinho aceso, e na cabeça uma carapuça vermelha. A força dele está na carapuça, como a força de Sansão estava nos cabelos”. Ele conta que o Saci faz tantas reinações quanto pode: “azeda o leite, quebra pontas das agulhas, esconde as tesourinhas de unha, embaraça os novelos de linha, faz o dedal das costureiras cair nos buracos, bota moscas na sopa, queima o feijão que está no fogo, gora os ovos das ninhadas. Quando encontra um prego, vira ele de ponta pra riba para que espete o pé do primeiro que passa. Tudo que numa casa acontece de ruim é sempre arte do saci. Não contente com isso, também atormenta os cachorros, atropela as galinhas e persegue os cavalos no pasto, chupando o sangue deles. O saci não faz maldade grande, mas não há maldade pequenina que não faça”.
O relato faz parte do livro “O Saci”, em que o autor envolve Pedrinho, Narizinho e Emilia em aventuras com vários personagens do folclore brasileiro, como a Cuca, o Boitatá e até a Iara. Não acreditam em Saci? Está desatualizado, pois existe até a Sociedade dos Observadores de Saci (SOSACI) de São Luis de Paraitinga (SP), que vem conquistando um número crescente de fãs. E imagine que a Associação Nacional dos Criadores de Saci – ANCS, com sede em Botucatu, há mais de 20 anos, mantém uma fazenda de criação de Sacis, segundo o fundador, José Oswaldo Guimarães.
Há um Saci aqui em casa que esconde canetas, óculos, chaves e, como deve ser letrado, costuma sumir com meus livros. 
E viva o Saci!


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

CORRENTES REDESCOBERTAS

Quando era criança, muitas vezes encontrava sob a porta de casa envelopes apenas com endereço da casa e sem remetente. Levava para minha avó, que tratava logo de jogar fora sem abrir. Eu ficava intrigada. “Não vai ler, vovó?” Ela explicava que se tratava de correntes e, como era supersticiosa, achava que se abrisse teria que cumprir o castigo de encaminhar várias cópias para outras pessoas para não ser vítima das ameaças que continha a tal carta.

Mais tarde, quando já estava na escola, entendi muito bem o problema porque tive que fazer o castigo algumas vezes, pois ela fora enganada por alguns remetentes espertos ou que eram conhecidos ou tinham se dado ao trabalho de procurar a vítima na lista telefônica. É, existiam listas telefônicas – uma de endereços e outra de assinantes. Minha avó lia, mas era eu quem escrevia as cartas. Pior que castigo de escola: escreviam-se dez, doze vezes a mesma coisa – uma história de milagre obtido por uma oração que devia ser passada adiante para que o leitor não fosse vítima de coisas terríveis. Nunca entendi. Gastava-se tempo (reproduzindo as bobagens e indo ao correio) e dinheiro (o papel, envelope e selo) e eu ainda perdia a paciência.


À medida que o tempo passou não cuidei mais da correspondência de casa e esqueci completamente das tais correntes de oração.

Entretanto, para minha grande surpresa, não é que as correntes voltaram? Modernizadas! Via Internet. Sem selo. Basta copiar e colar e encher a caixa postal dos amigos das redes sociais. Assim que vejo que é para divulgar, não leio, mas percebi que esses anexos variam entre mensagens religiosas e políticas. Há algumas pedindo compartilhamento para ajudar uma pessoa doente. Como não leio, ignoro se as religiosas vêm com algum tipo de ameaça. Bem, há sempre a ameaça de conter algum vírus. Considero essas mensagens invasivas e inoportunas. Simplesmente deleto ou denuncio como spam.

Faz tempo que eu queria escrever sobre o fato que me aborrece e, exatamente no dia que o faço, por coincidência, uma revista traz matéria sobre o tema, mas erroneamente afirma que as correntes são uma novidade da Internet. Bem antes da Internet havia a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos. E as correntes. Para a psicóloga entrevistada, o compartilhamento das mensagens de ‘boa-fé’ que infestam as redes sociais faz parte da criação de uma identidade virtual”. Aviso aos navegantes: há modos muito mais inteligentes de criar uma “identidade virtual”.

domingo, 28 de outubro de 2018

DOMINGO COM PESSOA E BELMIRO

"Tagarela", 1893. Tela de Belmiro Barbosa de Almeida (1858-1935).
Quero lá saber por onde
Andaste todo este dia!
Nunca faz-bem quem se esconde...
Mas onde foste, Maria?

Fernando Pessoa: "Quadras ao gosto popular".

sábado, 27 de outubro de 2018

A FIGUEIRA DA GLETE

A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo foi fundada em 1934. Nasceu com um corpo docente de primeiro mundo, mas sem teto. Assim, a missão francesa formada pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss,o historiador Roger Bastide, o cientista político Paul Arbousse, o filósofo Jean Mauqüé deram aulas nos prédios da Faculdade de Medicina e da Escola Politécnica que, gentilmente, abriram espaço para a nova Faculdade, a celula mater da recém-criada Universidade de São Paulo.
Palacete Jorge Street.
Sem um local em que pudesse reunir todos os departamentos, no segundo semestre de 1937, começaram as mudanças de um prédio para outro até que, enfim, a Faculdade de Filosofia conseguiu funcionar adequadamente com sua estrutura integral no histórico edifício da Rua Maria Antônia, 258, Vila Buarque. 
Um dos endereços famosos da FFLCH foi o Palacete Jorge Street, na esquina da Alameda Glete com a Rua Guianases, nos Campos Elíseos. Ali foi instalada a seção de Historia Natural, que incluía Biologia, Botânica, Mineralogia, Paleontologia e Zoologia.
Tudo isso para contar que o Palacete Jorge Street já foi derrubado há muito tempo para dar espaço para mais um estacionamento e ninguém por ali se lembra desses acontecimentos. Há, entretanto, uma testemunha muda: a frondosa figueira que se debruça, preguiçosamente, para a calçada da Rua Guaianazes.
A figueira da Glete é a menina dos olhos da professora aposentada Dona Neuza de Carvalho Guerreiro, que se formou em Biologia nos tempos em que o departamento de Historia Natural da FFLCH ainda era no palacete. Preocupada com o destino da árvore, vez por outra ela vai até lá ver como estão tratando aquele gigante verde que se agita apenas quando os ventos sopram com mais força e ouve-se, então, o murmúrio de suas folhas.
Uma placa identifica a árvore e informa o “Tombamento pelo Processo Administrativo nº 2004-0.059.033-2 de 26 de dezembro de 2007”. Todos esperam que a figueira seja preservada e devidamente respeitada. Na última visita, Dona Neusa de Carvalho Guerreiro ficou muito triste ao ver a figueira transformada em depósito de lixo. Ontem, o lixo que havia estava junto ao muro e escondido pelos veículos.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

"Tão longe de mim distante..."


A ideia de fotografar os três principais rios de São Paulo acabou proporcionando um passeio de descobertas dos meandros dessa cidade. O paulistano não se relaciona com os seus cursos d’água. Descobri, por exemplo, que há quase trezentos rios, riachos e córregos nesta megacidade, quase todos soterrados por urbanistas para evitar enchentes que assolam a região muito antes de o português colocar os pés por aqui. Essa luta contra a natureza parece que só funcionava nas pranchetas, pois em pleno século XXI a população se preocupa quando chegam as chuvas de verão. Na verdade, nem precisa ser verão para inundações acontecerem. Os três grandes rios que sobraram (Pinheiros, Tamanduateí e Tietê) sofreram todo tipo de intervenção e, descaracterizados, tiveram as águas límpidas de antigamente transformadas em esgoto, perderam a vida.
Marginal Pinheiros, a ferrovia e ciclovia e o rio...
Ao contrário das grandes cidades da Europa, onde se pode caminhar às margens dos rios como o Sena ou o Tejo, em São Paulo as vias marginais são dos veículos. Esse distanciamento do morador com os rios é bem triste. A maioria nem sabe identificá-los. Assim, quando perguntei por um caminho mais fácil para chegar ao riacho do Ipiranga em frente ao monumento à Independência, me fizeram dar uma volta enorme para chegar ao... rio Tamanduateí! O jeito foi caminhar pela Rua dos Patriotas até o Parque.
Será que o passageiro da linha Esmeralda da CPTM observa o rio Pinheiros do vagão de trem? Apesar de estar morto e desprender forte mau cheiro tem um entorno surpreendentemente bonito.
Ah! O Tietê! Costumo vê-lo do Metrô quando vou à Zona Norte. Nas imediações do Centro Esportivo Tietê (antigo Clube de Regatas Tietê), pergunto a um senhor, que diz morar há trinta anos no bairro, qual o caminho para fotografar o encontro do Tamanduateí com o Tietê. Sei que estou perto. O encontro é bem em frente ao Estádio Municipal de Basebol Mie Nishi. Mas ele me garante que poderei ver da Ponte da Casa Verde. Agradeço. Voltarei outro dia.
Observação: O título foi tirado da composição "Quem sabe", de Carlos Gomes (1836-1896).

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

O RIO E A ÁRVORE



Depois de passar meia hora sobre a Ponte Euzébio Matoso, fotografando o rio Pinheiros, nada como um ramalhete amarelo na calçada da Avenida Rebouças. A sibipiruna (Caesalpinia pluviosa) vista da primeira passarela sustentável de São Paulo. Terça-feira, antes da chuva amiga.