quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O DISCURSO E A AÇÃO.


Areia amarelada, lambida preguiçosamente pelo mar. A água pode estar preta ou azul. Depende... Pode estar tranquila ou muito agitada. Depende... Umas poucas vezes o mar torna-se violento, busca mais espaço onde não é esperado. Ressaca. Perigosamente bela. De todo jeito é um prazer vê-lo e ouvi-lo subindo em sua direção e depois afastar-se como se o respeitasse, adornado com um rendilhado de espuma branca. Bom mesmo é ver a conjunção do céu com o mar e saber que o mundo continua além da vista.

      Santos é assim depois que os veranistas se vão. Só do santista, que continua por ali desfrutando a vista enquanto um cinturão verde de flores e palmeiras protege sua retaguarda do burburinho do trânsito na avenida. Basta a música do mar e dos pássaros que volteiam pela praia nos fins de tarde. Mas há menos de cem anos não eram apenas os pássaros que voavam pela praia, mas pioneiros da aviação em busca de um recorde, abrindo rotas, levando correspondência... ou simplesmente entregando-se ao prazer de voar, uma conquista recente de um brasileiro que era celebridade em Paris.  
Então foi a vez da urbanização do entorno da praia, o início do ajardinamento da orla, a abertura dos canais e a descoberta do lazer à beira mar. Na praia do Gonzaga, entre 1934 e 1936, muito antes que o surf fosse conhecido no Brasil, o americano Thomas Rittscher Júnior já surfava na praia do Gonzaga, usando a prancha que ele construíra a partir de um modelo visto em uma revista americana.
Santos: dia 21 de janeiro é dia do Surfista.
Nos anos 1940, os italianos Bruno e Luigi Donadelli passavam horas na praia jogando bola de tênis um para o outro, usando dois pandeiros (aqueles de arco de madeira e revestimento de couro). Logo os irmãos ganharam companhia: Ramon Sanches, Danilo Alonso, Arthur e Pedro Lopes e os irmãos João e Santiago Esteves. Os rapazes logo incrementaram a brincadeira: riscaram uma quadra na areia e dividiram com uma rede de tênis. Acabava de nascer o tamboréu, bem em frente à Rua Marcílio Dias, no Gonzaga.

        A orla continuou a ser incrementada ao longo de todos esses anos: os jardins foram crescendo, as esculturas ganharam mais espaço, vieram as barracas, os ambulantes, os quiosques. Enfim, é uma obra em contínuo desenvolvimento. A praia é de todos.

O preço: 104 toneladas de lixo após a festa de réveillon de 2019. Algo que não consigo entender já que ouço em cada esquina um discurso ecológico de praticamente toda a população. Constata-se, então, que o discurso não tem nada a ver com a ação. Lamentável.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

2 DE JANEIRO DE 2019.

 A cidade está vazia. Creio que os viajantes aproveitam o sol de verão na praia. E que verão! Pela manhã nem os corredores habituais a caminho do Parque apareceram. Em compensação a Prefeitura enviou uns dez funcionários para a poda de árvores da praça em frente ao prédio. Dois trabalham, vários se agitam e uma senhora tira fotos. Os passarinhos não devem ter gostado nada do rebuliço. Encontrei um sabiá de mudança – atravessou na minha frente em direção ao outro lado do jardim. Na banca, Paulão cochila à espera de algum freguês. O supermercado estava praticamente vazio. Nos caixas, os funcionários trocavam as novidades do início de ano. O ambiente no Metrô não era diferente. Na verdade, era bem melhor graças ao ar condicionado dos vagões. Desço na estação São Bento que cheira a hambúrguer desde que começou a funcionar a praça de alimentação. Na rua, turistas seguem e ouvem o guia e tentam achar uma sombra. Entre um compromisso e outro passo na livraria da Imprensa Oficial só para não perder o costume. A Praça da Sé está cheia de barracas – acho que é uma feira de alimentação, mas não tive vontade de conferir. Na estação do Metrô, quase ninguém. Vagão vazio novamente. Lugar à vontade. Todos parecem exaustos. Eu sentia falta da minha poltrona ao lado da janela por onde sopra uma brisa no fim da tarde. 

Para combater esse calor tropical nada como mudar de ambiente e se instalar nas regiões polares! Sendo impossível de concretizar o projeto, o jeito é viajar confortavelmente instalada na poltrona e seguir a narrativa de Roland Huntford (1927) sobre “O último lugar da Terra: a competição entre Scott e Amundsen pela conquista do Polo Sul” (Companhia das Letras, 1979.). 



FIM DAS FESTAS

Duas obras do artista Jan Steen (1626-1679), natural dos Países Baixos. Acervo do Rijksmuseum, Amsterdam. A primeira é “A família feliz” e a segunda, “Beware of Luxury”, de 1663. Museu de Arte de Viena. Festa sempre tem excessos, não importa a época... 




domingo, 30 de dezembro de 2018

O METRÔ E O INCENTIVO À CULTURA


Não é o objetivo do Metrô a formação cultural da população, o que não impede que a empresa tenha um importante programa de incentivo à cultura, com destaque ao estímulo à leitura, espalhando a melhor poesia luso-brasileira pelo caminho de milhões de usuários. Assim, enquanto você desce pelas escadas rolantes pode ler poemas de Alphonsus Guimarães, Luís de Camões, Fernando Pessoa, Augusto dos Anjos, Antero de Quental, Bocage e Sá de Miranda entre outros grandes poetas.
         Há muito mais no subsolo da cidade. Painéis, murais, pinturas, instalações e esculturas estão distribuídos por 37 estações. A Estação da Sé foi a primeira a receber as esculturas de Alfredo Ceschiatti e Marcelo Nitsche. Atualmente, a empresa tem um acervo de 91 obras de arte, assinadas por Alex Fleming, Tomie Othake, Antonio Peticov, Denise Milan, Aldemir Martins, entre outros. Há ainda as exposições temporárias de fotos e artes visuais.
Indiferente ao burburinho que a cerca. Obra de Ceschiatti na Sé.
       Na Estação Conceição (Linha Azul), há dois belos painéis: “As vias da água” e “As vias do Céu”, ambos de David de Almeida. Na Estação Marechal Deodoro (Linha Verde), destacam-se os painéis sobre “Aspectos da População Brasileira”, de Gontran Guanaes Netto; “Um Espelho Mágico”, de Wesley Duke Lee, na estação Trianon-Masp.
Minha obra preferida: os 44 retratos anônimos, criação de Alex Fleming, 1989.
Se der sorte, você pode assistir a um show da Banda dos Seguranças do Metrô. Como o nome diz, a banda é formada por agentes de segurança da empresa e faz um grande sucesso desde que foi criada em 2011. As apresentações acontecem uma vez por mês em estações pré-definidas pelo Metrô.

sábado, 29 de dezembro de 2018

VOU DE METRÔ


Se o metrô paulistano está longe de cobrir a área urbana de São Paulo como o parisiense – até porque é muito recente, pode-se chegar praticamente a todos os pontos da cidade, graças aos sistemas de interligação com trens e ônibus e o apoio de estacionamentos com preços diferenciados. É fundamental para milhares de pessoas, que todos os dias se deslocam pela cidade para o trabalho ou para estudo, é precioso para quem deseja um lazer de qualidade: teatro, cinema, museus, exposições, parques, bibliotecas, clubes...
Um bom exemplo é a Linha Vermelha (Leste- Oeste). O Teatro Municipal de São Paulo fica a uma quadra da Estação do Anhangabaú e o Teatro São Pedro, a duas da Estação Marechal Deodoro. Ao longo da mesma linha há várias atividades culturais: o complexo cultural da Praça das Artes, a Biblioteca Mário de Andrade e a Praça D. José Gaspar com esculturas de escritores clássicos. 

Difícil mesmo é escolher o que fazer ao longo da Linha Verde (Vila Madalena-Sacomã). Entre as estações Paraíso e Consolação há a Casa das Rosas, Japan House, Instituto Cultural Itaú, SESC Paulista, MASP, Instituto Moreira Salles, além de shoppings, cinemas e bares restaurantes e bares. 

E por falar em bares, o reduto preferido do paulistano é no final da linha – Vila Madalena. Na outra ponta, a estação do Alto do Ipiranga é a partida para um passeio pela história da Independência do Brasil. Bem em frente à estação, há um trólebus que passa próximo ao Parque da Independência e bem em frente ao Museu de Zoologia da USP. Embora o Museu Paulista esteja fechado para restauro, o passeio é muito bonito.  
Do Tucuruvi ao Jabaquara, Linha Azul (Norte-Sul), também não faltam ótimos passeios. Entre as estações Sé e Tiradentes encontram-se os Centros Culturais Caixa e Banco do Brasil, Pátio do Colégio (Sé); Mosteiro de S. Bento e Mercado Municipal (São Bento); Sala São Paulo, Pinacoteca de São Paulo e Jardim da Luz, Museu de Arte Sacra (Luz), Arquivo Histórico Municipal (Tiradentes). Na estação Carandiru, há o Parque da Juventude com a ótima Biblioteca de São Paulo (foto).
Para os amantes de esportes, um bom veículo para ir ao clube torcer por seus times: os palmeirenses contam com a estação Palmeiras-Barra Funda; corintianos, com a Corinthians-Itaquera.
Arena Corinthians.
Mas isto é apenas um esboço. Há muito mais para se fazer em São Paulo de Metrô.
 Para mim a estação mais bonita é a do Alto do Ipiranga. A Estação Sé me parece um retrato vivo de São Paulo. A mais desagradável é a estação da Consolação por ser estreita e incompatível com o intenso fluxo de passageiros em horário de pico. A estação mais profunda do Metrô é a de Pinheiros, que fica a 30 metros da superfície.
Rápido e eficaz, limpo e seguro, o metrô é o melhor sistema de transporte do paulista, embora eventualmente apresente problemas.
Fotos: Hilda P. Araújo.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

OS 50 ANOS DO METRÔ PAULISTA


Quantas vezes eu me vejo em algum lugar de São Paulo e me pergunto: para onde vai toda essa gente, açodada ou sem pressa? Se as ruas estão sempre cheias, as estações do metrô não são diferentes. A cidade tem 8,6 milhões de carros, motos, ônibus ou caminhões de acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego (CET). Há mais que pássaros sobre nossas cabeças. Paira sobre nós a maior frota de helicópteros do mundo (600), transportando os mais afortunados de um ponto a outro da cidade, pousando sobre edifícios elegantes (ou nem tanto), policiando, salvando vidas e sondando esta urbe para informar sobre o trânsito sempre confuso. Há ainda os aviões, que riscam nosso céu. Mais gente chegando? Ou partindo? Só ali do Aeroporto de Congonhas partem em torno de 57 mil pessoas diariamente, sem contar os aviões de Cumbica que cruzam nosso espaço aéreo. É muito? Ainda tem muito mais e sob nossos pés. Só no ano passado foram transportados mais de 1,1 bilhão de passageiros pelo Metrô de São Paulo!* Aliás, este é ano de festa: a Companhia do Metropolitano de São Paulo comemora 50 anos de atividades.
Estação Sé.
Foi um longo nariz de cera (como dizem os jornalistas) para falar do Metrô, o melhor sistema de transportes da cidade. Seguro, eficiente, confiável e limpo. Agora, ganhou música ambiente e de muito boa qualidade. Aliás, o usuário faz sua viagem ouvindo boa música, nas estações pode apreciar obras de arte, ler o melhor da poesia em língua portuguesa, ver exposições temporárias e de vez em quando até assistir a shows.
A empresa iniciou as atividades em 24 de abril de 1968. Nesses cinquenta anos, implantou seis linhas: Azul, a mais antiga, Vermelha, Verde, 15-Prata, 4-Amarela e 5-Lilás.  A primeira viagem foi entre as estações Jabaquara e Saúde em 1972; e em 1974 a linha estendeu-se até a estação Vila Mariana. O Metropolitano de São Paulo tem uma frota de 203 trens e 1.419 carros e opera com 9200 funcionários (administração, operação, manutenção e expansão do sistema). Continua.

Exposição sobre os 50 anos do Metrô na Estação Se.

*Na verdade, boa parte da linha Leste-Oeste é de superfície.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

SOBRE RABANADAS E CASTANHAS


Uma das lembranças mais intensas da minha infância é o perfume das rabanadas nas manhãs de Natal. Quando saía do quarto, sentia o aroma inconfundível que se espalhava pelo caminho entre a sala e a cozinha. Até hoje me traz ótimas lembranças daquelas pessoas que compartilharam comigo aqueles tempos. A mesa da ceia ficava posta, mas apenas com as frutas secas e da época e o bolo de natal. Depois das rabanadas minha paixão infantil eram as castanhas portuguesas, que na véspera eu vira minha tia tirar uma lasquinha na lateral de cada uma para que cozinhassem mais rapidamente e absorvessem um pouco do sal da água em que eram mergulhadas.
Esse preâmbulo é para explicar o que escrevi ontem – para os pobres sempre havia as rabanadas. Tudo na vida muda. A rabanada era um prato popular entre as pessoas mais pobres – pão amanhecido, ovo, leite ou vinho. Os ingredientes faziam parte do cotidiano das famílias brasileiras. À medida que as pessoas mudaram de status, levaram consigo as coisas que lhe davam prazer ou estimulavam boas lembranças. Foi assim que a rabanada continuou sua saga de sucesso até os dias atuais. Ontem (26), tudo voltou quando coloquei as rabanadas à mesa e o aroma se espalhou pelo ambiente... (Ilustração: "Natureza Morta com Flores", de Charles Tillot (1825-1877). Coleção Particular, NY.

Imagem: Wikipedia.
História parecida vale para a castanha. O castanheiro, que floresce em vários países da Europa, foi por muito tempo um alimento importante junto com o trigo e a cevada. Nas épocas críticas, era possível se alimentar de castanhas – cozidas, assadas ou como purê ou sopa. Os portugueses a trouxeram (felizmente) em suas primeiras viagens e a castanha se tornou um fruto típico de Natal porque é no outono europeu (aqui primavera) que os castanheiros frutificam.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

UM NATAL AMARGO


No final do século XVI, a vila de Santos prosperava. Os colonos plantavam cana-de-açúcar e pelo menos seis engenhos produziam açúcar, que se tornara a base da economia local. O açúcar era tão importante que servia também como moeda de troca em caso de necessidade. Os Armadores do Trato, uma sociedade mercantil responsável pelas atividades do comércio marítimo, importando produtos da Europa e exportando gêneros da terra, fora fundamental para a consolidação do povoado. Braz Cubas, o fundador de Santos, tinha todo direito de se sentir realizado ao olhar os resultados do seu trabalho. Estava com 85 anos e era um homem rico.
Por aqueles tempos, o Natal era precedido por um mês de jejum – o tempo do Advento, preparação para a vinda de Deus. Embora nem todos comemorassem o Natal, os festejos estendiam-se por 12 dias – de 25 de dezembro a 6 de janeiro e o evento era dedicado à caridade e à partilha de alimentos, especialmente às crianças.
O Natal de 1591 deveria ser como todos os anteriores. Os moradores da vila foram assistir à missa como faziam sempre e, provavelmente, planejavam dedicar o dia às comemorações à mesa junto com a família. Um Natal, com certeza, à moda portuguesa, embora aos poucos, e por necessidade, novos componentes tivessem sido agregados à festa, como o poderoso Solanum tuberosum, a popular batata; entretanto, a saudade da terra sempre foi mitigada pela importação das castanhas, conhecidas como portuguesas, das frutas secas – damasco, tâmara, uvas... E do vinho, naturalmente. O destaque ficava com os doces – ricos em açúcar (herança árabe) e ovos. Para os mais pobres sempre havia as rabanadas.
         Infelizmente, aquele foi um Natal muito amargo. As pessoas assistiam à missa, quando foram surpreendidas pela chegada dos furiosos piratas de Thomas Cavendish. O pirata inglês planejara cuidadosamente o ataque em São Sebastião. Dois marinheiros de Cavendish – Anthony Knivet e John Jane – contaram mais tarde que na noite da véspera de Natal, um grupo de cem homens partiu rumo a Santos e, no alvorecer do dia 25, desembarcaram na cidade, dispostos a tudo. Capturaram cerca de trezentos homens, além de mulheres e crianças. “(...) demos saque à vila e pusemos todos os nossos homens a postos”.

Thomas Cavendish (1560-1592) nasceu em família rica no condado de Suffolk; foi bem recebido na corte da rainha Elizabeth e ingressou no Parlamento, onde se interessou pelos “negócios” de além-mar. Em 1585 viajou para a América do Norte para conhecer a colônia inglesa e no ano seguinte empreendeu uma viagem de circunavegação, que o deixou rico. Foi o terceiro europeu a realizar esse feito. Mas quando perdeu tudo, Cavendish voltou às atividades de pirataria. Partiu de Plymouth em agosto de 1591, com destino ao oceano Pacífico, para implantar uma rota comercial. Capitaneava uma frota de cinco embarcações: Leicester, Roebucke, Desire, Daintie e Blacke Pinnace. Chegou em novembro à costa da Bahia, nas proximidades de Cabo Frio capturaram um navio mercante português e em seguida rumaram para São Sebastião de onde partiram para o ataque a Santos.
        Os piratas devem ter gostado muito do vilarejo: ficaram lá por dois meses e nesse período queimaram as embarcações ancoradas no porto, cinco engenhos, a igreja. A vila ficou destruída. Enfim, Cavendish resolveu continuar seus planos iniciais de atingir o Pacífico. Na viagem, enfrentaram continuamente mau tempo e, quando alcançaram o estreito de Magalhães em março, estavam sem provisões. As embarcações se separaram e Cavendish decidiu retornar à costa brasileira para reabastecer. Mais especificamente, Santos.
         Quem narra os fatos ocorridos nessa segunda “visita” é o próprio Cavendish em seu diário. Ele autorizou os marinheiros a desembarcar em busca de comida. No dia seguinte à ancoragem, apareceu um índio que dizia ter fugido do seu mestre durante o ataque do Natal. O nativo informou que ali perto havia um engenho muito rico e que ele levaria uns dez homens até lá. “Ordenei, então, que o capitão Barker (...) levasse vinte ou trinta homens consigo”. No final da tarde, para surpresa do pirata, o grupo “enviou de volta o meu bote com um pouco de milho, seis galinhas e um pequeno carneiro. Vendo que a companhia não retornava, enviei novamente o meu bote com um homem encarregado de adverti-los de que os aguardava impacientemente. O bote cedo retornou com uma resposta que muito me espantou. Os homens mandavam dizer que não sairiam de lá e que um carneiro e seis galinhas não bastavam para salvar as nossas vidas”. Sem muita escolha, Cavendish resolveu esperar. E esperou bastante, pois conta que três dias depois o índio que se oferecera para ajudar reapareceu com três ferimentos graves. “Ele contou-nos que os demais tinham sido vítimas de uma matança promovida por trezentos índios e oitenta portugueses”.
        A maré de sorte de Thomas Cavendish terminava ali. Quando partiu de Santos com destino a Ilha de Santa Helena, o pirata só teve insucessos e não voltaria à Inglaterra: morreu entre novembro e dezembro de 1592 a bordo do Leicester. No seu diário escreveu dias antes: “Perdoe os meus rabiscos: saiba que mal posso segurar a pena”.


Fonte: "Ascensão e queda do pirata Cavendish", de Jean Marcel Carvalho França, Revista de História da Biblioteca Nacional. 

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

domingo, 23 de dezembro de 2018

OS NATAIS PASSADOS

O Natal foi comemorado pela primeira vez no ano 336. Alguns reis foram coroados no dia 25 de dezembro: Carlos Magno em 800 e Guilherme, o conquistador, em 1066. No Brasil, duas vilas foram fundadas nessa data: Natal (RN) em 1599 e Belém (PA) em 1615.

     No tempo de Shakespeare (1564-1616), para o Natal a corte tinha uma programação especial de teatro com encenação de uma peça a cada dia. De acordo com o relato de um embaixador francês em 1895, “eles começavam a dançar na presença da rainha (Elizabeth), e a apresentar comédias, o que era feito no grande salão de audiências, onde o trono da soberana era instalado, e comparecia uma centena de senhores, muito bem ordenados, senhoras também, e a corte inteira”. Especula-se que no Natal de 1598, a companhia de Shakespeare teria apresentado "Henrique IV" – parte 2 e "Muito barulho por nada". (“1599 – Um ano na vida de William Shakespeare, James Shapiro.) 



No dia 25 de dezembro de 1641 nasceu Isaac Newton (foto 1), físico e matemático inglês, que mudou a concepção do mundo. No Natal de 1758, foi confirmado o retorno do cometa Halley ao sistema solar. E por falar astros, um de outro tipo nasceu no dia 25 de dezembro de 1899: Humphrey Bogart (m.1957).





O norueguês Roald Amundsen (1872-1928), que liderou a primeira expedição a atingir a Antártica em 14 de dezembro de 1911, passou o Natal de 1897 em Lapataïa, no canal de Beagle. Ele era o segundo imediato do barco Bélgica, comandado por Adrien de Gerlache (foto), que tinha planos de ser o primeiro homem a invernar na Antártica. No dia 25 de dezembro, de Gerlache deu livros de presente para os oficiais e cientistas a bordo do Bélgica. O destino da expedição é outra história, que é contada no livro “O último lugar da Terra – a competição entre Scott e Amundsen pela conquista do Polo Sul”, de Roland Huntford. Companhia Das Letras.


Em 1914, quando o Natal chegou, a Europa estava em guerra; entretanto, um fato inusitado aconteceu nesse dia: os soldados da Frente Ocidental (alemães e os Aliados franceses e britânicos) fizeram uma trégua informal nos campos de Ypres (Bélgica) para comemoração dessa data. O filme Joyeux Noël, 2005, de Christian Carion, aborda o episódio histórico de forma romântica. Belo filme.

Na II Guerra Mundial, os pracinhas brasileiros nos campos de batalha da Itália passaram o Natal de 1944 longe da família, em meio a neve e lutando em vários lugares. O médico paulista Massaki Udihara (1913-1981), que serviu como primeiro tenente de Infantaria da Força Expedicionária Brasileira (FEB) escreveu em seu diário no dia 25 de janeiro:

“Natal. Manhã fria. Gelada, de céu coberto, mas assim mesmo clara. A neve continua cobrindo tudo, apesar de ter cessado de nevar. Logo cedo chegaram os presentes da LBA (Legião Brasileira de Assistência). Pacote com malha, sabonete e outros objetos de primeira necessidade. Uma surpresa; não pensei que isso fosse acontecer. Não espero nada deste dia. A noite passou sossegada sem qualquer ruído. Ao que parece, resolveram respeitar o dia sem prévio acordo. Não houve nada. Tudo sossegado demais e de despertar desconfiança. Os soldados aqui preparam um almoço especial. Vieram me convidar para compartilhar dele. Admirei essa vontade e disposição que não desaparece nessas mínimas coisas. É o espírito do dia que querem conservar. E assim terão o seu momento de alegria e felicidade no meio de todo esse sofrimento e provação.” (“Um médico brasileiro no front – Diário de Massaki Udihara na II Guerra Mundial”. Imprensa Oficial.)

Joel Silveira, correspondente de guerra dos Diários Associados, na Itália, escreveu: “ Não quero me prolongar muito a respeito, mas quando o leitor souber que entre o dia 25 de dezembro ultimo e este 2 de janeiro só me foi possível tomar um banho apressado e econômico, poderá por si mesmo tirar outras conclusões a propósito da vida que levamos aqui”.(“O inverno da Guerra – Jornalismo de Guerra.” Objetiva.)

sábado, 22 de dezembro de 2018

DEZ FILMES DE IMPACTO

Pediram-me que postasse no Facebook a foto sem identificação de dez filmes que causaram impacto, sem mencionar se o impacto foi em mim ou de forma geral à época do lançamento. Esse tipo de escolha, não importa qual seja, é difícil porque sempre há vários livros, filmes, atores, escritores etc. que poderiam estar ali e têm de ser descartados. Enfim, consegui selecionar os dez filmes e organizei a lista por ano de lançamento. Aqui, entretanto, farei comentários sobre a escolha de cada obra. 



A MONTANHA DOS SETE ABUTRES, 1952. Billy Wilder (1906-2002). O filme trata da cobertura jornalística do soterramento de um mineiro que um repórter inescrupuloso transforma em espetáculo para salvar sua carreira. Hoje o jornalismo espetáculo salva a mídia em geral. Elenco: Kirk Douglas (1916). Wilder (1906-2002) dirigiu ótimos filmes.

O DESPREZO, 1963. Jean-Luc Godard (1930). Baseado em obra de Alberto Moravia. Nouvelle vague. Eis um filme que tem várias leituras além da óbvia – a relação conjugal se deteriorando, os mal-entendidos, o desprezo da esposa pelo marido e o final trágico. Elenco: Brigitte Bardot e Michel Picoli. 


BONNIE E CLYDE, UMA RAJADA DE BALAS, 1967. Arthur Penn (1922-2010). Para as novas gerações, pode ser apenas um filme sobre dois criminosos, mas Arthur Penn tirou o conforto das plateiasmostrando uma história de amor e crime banhado de muito sangue – elemento que raramente aparecia em cena.Elenco: Warren Beaty e Faye Danway.


TEOREMA, 1968. Pier Paolo Pasolini (1922-1975). Na época, foi motivo de discussões sobre a origem do hóspede que uma família rica recebe e acaba por seduzir cada um dos membros da casa, transformando a vida de todos. Um anjo do mal? Elenco: Silvana Mangano e Terence Stamp. Assistia a muitos filmes de Pasolini, quase todos polêmicos.


LARANJA MECÂNICA, 1971. Stanley Kubrick (1928-199). Aqui, foi uma difícil escolha – Kubrick tem outros filmes geniais, mas fiquei com este porque é uma ótima adaptação do livro de Antony Burgess, uma interpretação inesquecível de Malcolm Mc Dowell (1943) e um fundo musical regado a Beethoven. 



OS MENINOS, 1976. Narciso Ibáñez Serrador (1935). Quem tem medo de crianças? O título original é melhor: ¿Quien puede matar a un niño?”. Sinistro. Forte. Melhor filme de terror que já vi. Único filme de Ibañez a que assisti.


ASAS DO DESEJO, 1987. Wim Wander (1945). Um filme poético. Belo. Em preto e branco. Dois anjos cuidam dos habitantes de Berlim dividida pelo muro e, enquanto passeiam pela cidade, conversam sobre esses seres estranhos e sobre a trajetória destrutiva da humanidade até que um deles se apaixona por uma trapezista... Elenco: Bruno Ganz, Otto Sander e Peter Falk. Assisti a outros bons filmes de Wander.

O PODEROSO CHEFÃO III, 1990. Francis Ford Coppola. Coppola(1939) encerra a trilogia de forma brilhante. Cria um personagem digno dos clássicos. A música de fundo: bela. Elenco: Al Pacino, Diane Keaton e Andy Garcia. Da trilogia o único que não convenceu foi o segundo episódio.





A JAULA DE OURO, 2012. Diego Quemada-Diaz (1969). O filme tem o estilo de um documentário sobre a imigração clandestina para os Estados Unidos via México. Sem açúcar e sem afeto. Depois do impacto a conclusão de que é um grande filme. (Assisti nos ENCONTROS CULTURAIS/USP)


BRANCA DE NEVE, 2013. Pablo Berger (1963). Não se enganem com o título. O filme, maravilhoso e nada infantil, me remeteu a muitas outras obras – desde o original de Grimm até Saura, Luis Buñuel, Fernando Sabino, passando pela crítica ao mau jornalismo e por aí vai. Detalhe: o filme é em preto e branco e mudo. Elenco: Macarena García e Maribel Verdú.(Visto nos ENCONTROS CULTURAIS/USP)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

VERÃO, SEMPRE BEM-VINDO.

Boys Bathing in Zandvoort, de Max Liebermann (1847-1935).

Dia de verãoÓleo sobre tela do americano 
Edward Henry Potthast (1857-1927). Coleção particular.


quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

MARTINI E LEONARDO

SEM PALAVRAS. APENAS BELEZA.

"Anunciação a Maria", de Simone Martini (1284-1344). Galleria degli Uffizi, Florença. Martini nasceu em Siena, Itália. 
"Anunciação", 1472.  de Leonardo Da Vinci (!452-1519). Posteriormente, o anjo sofreu modificações para atender aos cânones da Igreja sobre a natureza dos anjos. 



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

ESTAÇÃO SÃO BENTO


Na estação São Bento do metrô, descobri novidades na Vitrine Cultural. Uma jovem senhora observa com interesse pouco comum os objetos arqueológicos – cacos de louça e vidro, pedaços de muitas peças descobertas durante as escavações para construção do metrô na Avenida Santo Amaro entre as ruas Irineu Marinho e da Fraternidade. Quando me aproximei, ouvi um murmúrio. Uma jovem senhora falava com seus botões: “Não acredito que a embalagem de magnésia era de vidro!”. Animou-se e confessou que ficaria muito feliz se lhe dessem o pote de vidro (desses altos para compotas) no fundo da vitrine. “Pena que não tem tampa” – comento, só para dizer alguma coisa. Ela deu de ombros e diz que não faria mal. “Olha aquela xícara.” Na verdade, é metade de uma xícara, mas ela tem bons olhos, pois é de faiança branca e azul... O trem chegou e nos despedimos. O local dos achados foi registrado como Sítio Arqueológico Alto da Vista. O acervo do sítio tem ainda fragmentos de ossos, polímeros, material construtivo como azulejos, telhas e manilhas hidráulicas do início do século passado. Tudo isso fornece informação sobre o processo de urbanização de Santo Amaro. Em tempo: a foto está péssima por causa da pressa desta passageira e do vidro cujo reflexo acrescentou algum movimento à cena como o usuário passando e o trem ao fundo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

GABRIEL E MARIA


Bienvenuto Tisi, conhecido como Garofalo (1481-1559), pintor italiano renascentista. Obra: Anunciação, 1528. 
Acervo: Pinacoteca Capitolina, Roma. 

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

SEGUNDA COM ARTE



Anunciação, de Fra Angelico (1395-1455), Museu Diocesano, Cortona, Itália. Fra Angelico é padroeiro dos artistas.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

NEVE, LAR, FAMÍLIA.





DEZEMBRO, SEMPRE DEZEMBRO.

A peça publicitária da Revista HISTÓRIA da BIBLIOTECA NACIONAL circulou na edição de dezembro de 2009. Uma ótima revista, recheada de artigos sobre personagens e fatos da nossa história e com entrevistas muito boas. Infelizmente, não existe mais. Embora especializada em bons velhinhos, não faltaram os mal comportados, maus exemplos para a sociedade. Um detalhe: D. Pedro II nasceu em uma sexta-feira, 2 de dezembro de 1825 e faleceu em 5 de dezembro de 1891, muito antes que a figura de Papai Noel se popularizasse mundo afora.