quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

ENTRE O ATLÂNTICO E A GLÓRIA

Os corpos dos soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB), que morreram em ação na Itália durante a II Guerra Mundial, encontram-se no mausoléu que compõe o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial no Rio de Janeiro.  
A ideia de erigir o monumento foi do comandante da FEB, marechal João Baptista Mascarenhas de Moraes (1883-1968). Foi lançado um concurso nacional, ganho pelos arquitetos Marcos Konder Netto (1929) e Hélio Ribas Marinho. O local escolhido para a implantação do Parque Brigadeiro Eduardo Gomes soa até poético: entre o Atlântico e a Glória. Aliás, essa foi a proposta dos arquitetos: integrar o monumento à paisagem da baía da Guanabara. Ele abriga em seus 6.850m² o Pórtico Monumental (31 m de altura) de concreto aparente e o conjunto de esculturas, o Mausoléu e o Museu, além de um jardim e um lago. Alfredo Ceschiatti (1918-1989) é o autor da escultura dos pracinhas das três armas (Exército, Marinha e Aeronáutica) em granito. Julio Catelli Filho assina a escultura de metal em homenagem à Força Aérea Brasileira. Há ainda um painel de azulejos criado pelo arquiteto e gravador Anísio Medeiros (1922-2003) em memória dos civis, membros da marinha mercante e de militares que morreram no mar.
Em junho de 1960 o marechal Oswaldo Cordeiro de Farias (1901-1981), comandante de Artilharia Divisionária da FEB, presidiu e acompanhou a comissão encarregada de proceder à exumação dos corpos dos soldados sepultados no cemitério brasileiro de Pistoia, na Itália, e transladá-los para o Brasil. O grupo retornou ao Rio de Janeiro em 15 de dezembro. As urnas foram depositadas em jazigos individuais no Mausoléu em grupos de onze quadras.
Uma das urnas, com despojos não identificados, foi depositada pelo presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) na base do Pórtico Monumental e simboliza o “Soldado Desconhecido”.
O Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial é subordinado à Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército – DPHCEx. Exército, Marinha e Aeronáutica revezam-se na guarda. A troca ocorre na primeira sexta-feira do mês. Avenida Infante Dom Henrique, 75 – Glória.  

O Cemitério de Pistoia tornou-se um memorial da participação do Brasil na II Guerra Mundial, onde o monumento de Olavo Redig Campos (1906-1984) se destaca na bela paisagem da Toscana. Fotos: Hilda Araújo.
Os pracinhas de Alfredo Ceschiatt.

Pistoia, na Toscana: Via delle Sei Arcole, 51100

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

VITÓRIA DE MONTE CASTELO

São Paulo, 21 de fevereiro de 2017.


VITÓRIA DE MONTE CASTELO. Emocionante ver os quatro ex-combatentes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) que compareceram à singela homenagem realizada pelo COMANDO MILITAR DO SUDESTE no Ibirapuera pelos 72 anos da tomada de Monte Castelo em batalha memorável durante a II Guerra Mundial na Itália. Fazia muito tempo que não participava de uma solenidade cívica e desde os tempos do colégio não ouvia “A canção do Expedicionário”, poema de Guilherme de Almeida e música de Spartaco Rossi, que fazia parte do repertório do coral e das aulas de música do Liceu Feminino Santista.






São Paulo, 21 de fevereiro de 2017. Foto: Oritia Abreu Serafim.

A CONQUISTA DE MONTE CASTELO

O tenente-coronel Emilio Rodrigues Franklin, comandante de um dos batalhões do  Regimento Sampaio, pegou o telefone de campanha e deu a notícia aos generais Mascarenhas de Moraes e Cordeiro de Farias: “Estou no cume de Monte Castelo.” Eram 17h50 do dia 21 de fevereiro de 1945.  Um dia histórico para não ser esquecido pelos brasileiros. Há 72 anos os soldados da Força Expedicionária Brasileira – FEB conquistaram uma das mais importantes vitórias da II Guerra Mundial, na Itália: a tomada de Monte Castelo, nos Apeninos, entre a Toscana e a Emilia.  Desde novembro de 1944 os aliados, já com a participação da FEB, vinham tentando remover os alemães daquele ponto estratégico para a evolução da campanha da Itália.

Essa vitória teve uma conotação especial para os brasileiros, que lutavam em terra estranha em condições completamente novas de clima, topografia e mesmo culturais. A trajetória da Força Expedicionária Brasileira foi relatada por cinco correspondentes de guerra: Joel Silveira, dos Diários Associados, Rubem Braga do Diário Carioca, Egydio Squeff, de O Globo, Raul Brandão do Correio da Manhã e Thassilo Mitke da Agência Nacional. Não foi a cobertura que eles desejavam, pois se não combatiam na guerra, enfrentavam uma brava luta contra duas censuras: a militar e a do governo brasileiro.

A 1ª. Divisão de Infantaria Expedicionária da FEB teve seis escalões e foi constituída de 25.334 homens. O primeiro escalão partiu para a Itália em 2 de julho de 1944 com 5.075 homens e desembarcou em Nápoles em 16 de julho. O segundo e terceiro escalões deixaram o Rio em setembro com 10.375 praças. O quarto escalão teve 4.691 soldados e o quinto, 5.082; o sexto escalão, com pessoal de apoio (médicos, enfermeiros etc.), compunha-se de 111 expedicionários. O transporte dos combatentes foi feito a bordo dos navios americanos General Mann e General Meigs; exceto o sexto escalão que foi de avião.

 Todos os Estados brasileiros estavam representados no contingente que foi para a Itália. A FEB era formada pelo 1º Regimento de Infantaria – Regimento Sampaio, do Rio de Janeiro; 6º RI de Caçapava (SP); 11º RI de São João Del Rey, de Minas; quatro grupos de artilharia do 9º Batalhão de Engenharia de Aquidauana  (Mato Grosso); um esquadrão de reconhecimento (Cavalaria) e 1º Batalhão de Saúde (Valença, RJ), além das chamadas tropas especiais e de corpos auxiliares, o que incluía 67 enfermeiras. A FEB foi incorporada ao V Exército americano em 5 de agosto de 1944 e considerada pronta para batalha em 10 de setembro.

Desde a mobilização em setembro de 1943 até o embarque propriamente decorreu um período de inação pelos motivos mais variados: dúvidas que assolavam o governo, as condições de saúde do pessoal arregimentado, treinamento de pessoal no exterior, a falta de preparo das tropas, e da infraestrutura necessária (esta seria fornecida pelos americanos).

Esse período de inércia fez com que a FEB virasse motivo de piada entre alguns setores da sociedade. A mais sarcástica dizia que: “é mais fácil uma cobrar fumar, do que FEB embarcar”. Quando, enfim, foi dada a ordem de partir, a resposta às piadas não se fez esperar. O lema dos expedicionários passou a ser “A cobra vai fumar”. A adoção oficial do emblema com a cobra negra, olhos chispantes e cachimbo fumarento à boca só aconteceu na Itália, durante encontro do ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, com o general Mark Clark, comandante do V Exército.

A participação da FEB na II Guerra durou sete meses e 19 dias; nesse período morreram 443 homens entre soldados e oficiais e cerca de três mil foram feridos em batalha. São Paulo foi o Estado com maior número de mortos: 92. O Maranhão não teve nenhuma perda. As forças brasileiras fizeram 20.573 prisioneiros – entre eles dois generais, o alemão Otto Fretter e o italiano Mario Carlonio, comandante dos restos da divisão de Versagliere.

Quando Getúlio determinou a convocação e abriu o voluntariado, certamente deveria saber que estava assinando o começo do fim do Estado Novo. Lutar pela democracia no mundo ao lado dos aliados parecia, no mínimo, incoerente. Ditador há 12 anos, período em que namorou descaradamente o fascismo e o nazismo, ele cedeu aos apelos do presidente Franklin D. Roosevelt e atendeu às exigências da população brasileira de reação aos ataques covardes dos alemães aos navios mercantes nacionais nos quais morreram 1.081 brasileiros do que em solo italiano.

A vitória dos Aliados – que nenhuma censura interna podia esconder – foram um incentivo para que os brasileiros demonstrassem sua insatisfação com o Estado Novo, em manifestações públicas em prol da democracia cada vez mais expressivas. Os feitos da FEB tiveram um papel importante nessa luta democrática sem armas, que os livros de história não relatam – tão importante que Getúlio apressou-se em desmobilizar o contingente antes mesmo que os pracinhas desembarcassem no Rio. A FEB era a prova real de que o Estado Novo não podia continuar. Em 29 de outubro de 1945, José Linhares assumiu provisoriamente a presidência da República e o general Gaspar Dutra foi eleito presidente nas eleições de 2 de dezembro do mesmo ano, assumindo no último dia de 1945, data em que se instalou também a Assembleia Constituinte.  

Fotos: Hilda Araújo: Itália, 2012; RJ, 2015.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

AS MÁSCARAS
Menotti del Picchia (1892-1988)


O teu beijo é tão doce, Arlequim...
O teu sonho é tão manso, Pierrô...

Pudesse eu repartir-me
encontrar minha calma
dando a Arlequim meu corpo...
e a Pierrô, minha alma!

Quando tenho Arlequim,
quero Pierrô tristonho,
pois um dá-me prazer,
o outro dá-me o sonho!

Nessa duplicidade o amor todo se encerra:
Um me fala do céu... outro fala da terra!

Eu amo, porque amar é variar
e, em verdade, toda razão do amor
está na variedade...

Penso que morreria o desejo da gente
se Arlequim e Pierrô fossem um ser somente.

Porque a história do amor
só pode se escrever assim:
Um sonho de Pierrô
E um beijo de Arlequim!


domingo, 19 de fevereiro de 2017

HISTÓRIAS DO CARNAVAL BRASILEIRO



No início do século passado, a cidade do Rio de Janeiro estava em pé de guerra por causa da grande reforma urbana que o prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913) iniciava não apenas para embelezar a cidade, mas principalmente para combater a cólera e as febres amarela e tifoide que assolavam a capital do país. O trabalho do sanitarista Oswaldo Cruz (1872-1917) não foi compreendido e as autoridades enfrentaram a chamada Revolta da Vacina. Uma das medidas para enfrentar as epidemias consistia em eliminar os ratos que infestavam a cidade e para conseguir o apoio da população pagava-se pelos ratos apreendidos e logo criou-se a brigada dos exterminadores constituída por populares que saiam pela cidade caçando ratos que colocavam em sacos a fim de levar para os postos de recolhimento. O fato inspirou Casemiro Rocha e Claudino Costa, autores da polca que se tornou o grande sucesso do carnaval de 1904: “Rato, rato”: 

Rato, rato, rato,
Porque motivo tu roeste meu baú?
Rato, rato, rato,
Audacioso e malfazejo gabiru.
Rato, rato, rato,
Eu hei de ver ainda o teu dia final,
                                       A ratoeira te persiga e consiga,
                                       Satisfazer meu ideal.

O poderoso senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado (1851-1915), chefe do Partido Republicano, foi alvo de algumas marchinhas carnavalescas – algumas anônimas. Como esta paródia de uma embolada de Catulo da Paixão Cearense, que fez sucesso no carnaval de 1915:
Mestre Pinheiro, seu Machado,
Tome tento
Não te metas que o momento
Não é mais de brincadeira.
Estamos sem prata, sem níquel,
Sem dinheiro,
Pode o povo brasileiro
 Virar pau de goiabeira.
Vem cá, Pinheiro, vem cá
E deixa de rezingar*.

O presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) cujo apelido era Dudu também não escapou do humor carioca e mereceu de J. Carvalho Bulhões a polca “Ó Filomena”:
Ó Filomena
Se eu fosse como tu,
Tirava a urucubaca
Da cabeça do Dudu;
Na careca do Dudu
Já subiu uma macaca
Por isso, coitadinho,
Ele tem urucubaca.

Em 1921 o presidente do Brasil Arthur Bernardes (1875-1955) também experimentou o desprazer de ser lembrado no carnaval. Embora tivesse vários apelidos, os compositores Luiz Nunes Sampaio e Freire Júnior resolveram homenageá-lo com o mais breve: “Ai, seu Mé”:

O Zé Povo quer a goiabada Campista

Rolinha desista / Abaixe esta crista

Embora se faça uma bernarda*
A cacete / Não vais ao Catete

Não vais ao Catete

Ai seu Mé / Ai Mé Mé
Lá no Palácio das Águias, olé
Não hás de pôr o pé

O queijo de Minas tá bichado
Seu Zé / Não sei porque é
Não sei porque é
Prefira bastante apimentado, Yayá
O bom vatapá / O bom vatapá. 


Um dos grandes sucessos do carnaval de 1929 foi uma marchinha de autoria de Freire Jr. “Seu Julinho Vem” que trata da política café (São Paulo) com leite (Minas Gerais) que alternava na presidência da República paulistas e mineiros. A marchinha de Freire Jr. foi lançada no Teatro Municipal de São Paulo e é uma peça publicitária da campanha do paulista Júlio Prestes de Albuquerque (1882-1946) à presidência da República. Prestes venceu, mas não tomou posse, pois com a a Revolução de 1930 Getúlio Dorneles Vargas que ficou no poder quinze anos.

Ó Seu Toninho
Da terra do leite grosso
Bota cerca no caminho
Que o paulista é um colosso
Puxa a garrucha
Finca o pé firme na estrada
Se começa o puxa-puxa
Faz do seu leite coalhada.

Seu Julinho vem, Seu Julinho vem
Se o mineiro lá de cima descuidar
Seu Julinho vem, Seu Julinho vem
Vem, mas custa, muita gente há de chorar

Ó Seu Julinho, tua terra é do café
Fique lá sossegadinho
Creia em Deus e tenha fé
Pois o mineiro
Não conhece a malandragem
Cá no Rio de Janeiro.
Ele não leva vantagem

Getúlio Vargas (1882-1954) também teve uma grande presença nos carnavais ao longo de sua trajetória política. Em 1937, o ditador prometeu eleições para 1938 e candidataram-se à presidência Armando de Salles Oliveira (1887-1945) e Oswaldo Aranha (1884-1960). O jornal A Noite lançou um concurso e venceu a música de Nássara e Cristóvão Alencar “Menina Presidência”, interpretada por Sílvio Caldas. A dupla acertou em cheio. Em novembro de 1936 Vargas estabelece o Estado Novo e ficou no poder até meados de 1945.

A menina presidência
Vai rifar seu coração
E já tem três pretendentes
Todos três chapéu na mão
(E quem será?)
O homem quem será?
Será seu Manduca?
Ou será seu Vavá?
Entre esses dois
Meu coração balança
Porque na hora H
Quem vai ficar é seu Gegê.


*Rezingar: resmungar.
*Bernarda: revolta.


sábado, 18 de fevereiro de 2017

MINHA COMPANHIA É A COLOMBINA

CARNAVAL

MINHA COMPANHIA É A COLOMBINA

Marcha. Compositores: Lamartine Babo (1904-1963) e Moacir Araújo (?).
Gravação: Orlando Silva (1915-1978). Carnaval de 1940.

Eu sou pierrô, sou arlequim.
Eu sou palhaço me divertindo
Ó colombina,
Você acaba me desmilinguindo!

A Light é a companhia que domina.
"Arlequin" (1918), obra do norte-americano Clarence K. Chatterton (1880-1973).
É rica quer de noite quer de dia,
Porém, no carnaval a colombina
É a minha poderosa companhia.

Nem toda companhia que se quer
Tem o poder da velha Leopoldina
Porém, no carnaval, haja o que houver,
A minha companhia é a colombina.





sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

CARNAVAL CHEGANDO


Carnaval, chegando. Muitos já escolheram a fantasia. Outros ainda não decidiram o que vestir ou não vestir. Há quem planeje sair atrás do trio elétrico ou encontrar um bloco na rua para se perder ou se encontrar por aí. 

PIERRÔ APAIXONADO

Marcha. Composição: Noel Rosa e Heitor dos Prazeres. 1935. Gravação: Joel e Gaúcho. 

Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando.

A colombina entrou num botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: pierrô cacete
Vai tomar sorvete com o arlequim.

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim.

Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando.

Um pierrô apaixonado
Que vivia só cantando
Por causa de uma colombina
Acabou chorando, acabou chorando.

A colombina entrou num botequim
Bebeu, bebeu, saiu assim, assim
Dizendo: pierrô cacete
Vai tomar sorvete com o arlequim.

Um grande amor tem sempre um triste fim
Com o pierrô aconteceu assim
Levando esse grande chute
Foi tomar vermute com amendoim.
"Arlequim com copo na mão" (1905), tela de Pablo Picasso (1881-1973).

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

PARA REFLETIR



O premio mais importante do fotojornalismo internacional – World Press Photo – nos induz à reflexão sobre o momento que vivemos. Imagens perturbadoras. A primeira colocada é o registro do assassino do diplomata russo em Ankara (Turquia), ainda com a pistola na mão, fazendo seu discurso exaltado enquanto a vítima está estendida no chão. O autor da foto é o repórter fotográfico turco Burhan Ozbilici, da Associated Press. As demais fotografias premiadas vão revelando um mundo sombrio que nos faz pensar para onde caminha a humanidade... Quem se rejubila com a morte de alguém? Uma abominação. Quem consegue ser indiferente à visão da angústia de refugiados? As crianças compõem uma parte desse roteiro sinistro que os repórteres fotográficos nos fazem encarar, como os órfãos abandonados em pleno Mar Mediterrâneo ou aquelas feridas em bombardeios. Até as meninas que parecem em segurança mostram rostos tristes já que perdem a infância em treinamentos brutais para se tornarem ginastas vencedoras... Nem animais escapam da maldade sórdida de caçadores... 
Felizmente, as imagens de Gaël Monfils e Usain Bolt dão algum colorido a esse mundo tenebroso revelado.


segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

          
O RÁDIO É VOCÊ


Este é o tema do Dia Mundial do Rádio, que se comemora hoje e foi instituído pela UNESCO em 2011. 

Cresci ouvindo rádio que até hoje continua o companheiro de todas as horas, que me distrai e informa sem me prender numa poltrona. Woody Allen fez uma belíssima homenagem a ele no filme “A Era do Rádio” (1987) que me emociona muito sempre que revejo. Quem inventou o rádio? Uma pergunta que suscita polêmica. Várias pessoas pesquisavam a transmissão de som por meio das ondas de rádio em várias partes do mundo. Embora haja indicações de que em 1893 o padre brasileiro Roberto Landell de Moura (1861-1928) tenha feito as primeiras transmissões entre o bairro de Medianeira e o Morro Santa Teresa em Porto Alegre, os registros são de 3 de junho de 1900. O italiano Guglielmo Marconi (1874-1937) tem o crédito de ser o criador do rádio. O sérvio Nikola Tesla (1856-1943) também tem seu nome ligado às pesquisas de transmissão do som pelas ondas do rádio.O rádio é o meio de comunicação que alcança maior audiência mundial e com a maior rapidez possível. Não reconhece fronteiras.


PODER DO RÁDIO. A noite do Dia das Bruxas de 1938 tornou-se memorável. Nos Estados Unidos, a rede CBS (Columbia Broadcasting system) interrompeu a programação musical com uma “edição extraordinária” e o ator, roteirista e produto Orson Welles (1915-1985) “noticiou” a invasão da Terra por marcianos. Na verdade, era a dramatização de “A Guerra dos Mundos”, livro de George Wells (1866-1946).O programa, que durou uma hora, desencadeou pânico em várias cidades da Costa Leste do país. Ouvintes acreditaram que, espaçonaves alienígenas atacavam o planeta. Foto: Orson Welles narrando a falsa notícia: 30 de outubro de 1938.

VAMOS PASSEAR NO PARQUE?



Nem todos podem ir para a praia no verão. Uma boa alternativa podem ser os parques urbanos. E São Paulo tem muitos. Que tal aproveitar o verão para conhecer alguns espaços privilegiados da cidade. Eis três parques municipais com características diferentes e que oferecem várias atividades para adultos e crianças.

Parque Anhanguera (Avenida Fortunata Tadiello Natucci, 1000 – Perus - km 26 da Rodovia Anhanguera). Área: 9.500.000 m². Funcionamento: 06h às 18h.  Telefone: (11) 3917-2406. O maior parque da cidade dispõe de quadras poliesportivas, ciclovias, quiosques, churrasqueiras, playgrounds, pista de caminhada e até um Bosque de Leitura que funciona aos domingos. Os amantes da natureza poderão observar (com sorte) algumas das 230 espécies que vivem por lá. Entre os moradores do Parque encontram-se as pererecas-de-folhagem, gralhas-do-campo, maitacas, cágados-pescoço-de-cobra, beija-flores, acauã – só para citar alguns bichos. Cobertura vegetal: Mata Atlântica.
Como chegar: ônibus 8055-51 (Perus – Barra Funda); 8055-10 (Perus – Lapa);
8014- 10 ( Morro Doce – Perus).

Parque Cidade Toronto (Avenida Cardeal Motta, 84 – Pirituba, junto à Rodovia dos Bandeirantes). Área: 109.100 m². Funcionamento: 6h às 18h. Telefone: (11) 3834-2176. Como chegar: ônibus 8062-10 – Parque São Domingos - Lapa; 8065-10–Lapa; 8100-10 – Terminal Lapa; e 8696-10 – Praça Ramos de Azevedo.
O parque ocupa área remanescente do loteamento City América, bairro de alto padrão da região noroeste da cidade, e foi criado graças a um programa de intercâmbio entre as prefeituras da cidade de São Paulo e de Toronto (Canadá) em 1987. É uma área de brejos e bosques com vegetação típica da paisagem canadense e de Mata Atlântica. A fauna é característica do ecossistema. O Parque tem 87 espécies registradas: peixes (tuvira e acará), anfíbios anuros (sapo-cururu), aves (pica-paus, anus e pitiguaris) e alguns pequenos mamíferos (como, por exemplo, furões). O parque dispõe de churrasqueiras, palco, playground com brinquedos canadenses, quadras poliesportivas e um belo lago.

PARQUE DO TROTE (Rua Nadir Dias Figueiredo, s/n - Portaria 1; Vila Guilherme). Área: 120.000 m2. Funcionamento: 5h30 às 20h. Telefone: (11) 2905-0165. Ônibus saem de várias estações do Metrô: Liberdade (2127-10), Tatuapé (172k-10), Belém (271F-10), Santana (271M-10).
É também conhecido como Parque Vila Guilherme – Trote porque as duas áreas são muito próximas. O Parque do Trote ocupa o espaço da antiga Sociedade Paulista de Trote. Quando o restauro das edificações do clube terminar, deverão integrar o projeto paisagístico da área, segundo a prefeitura. Entre os jatobás, mangueiras e paineiras vivem 454 espécies de fauna – sendo onze de borboletas (eu passo longe) e 34 de aves (pica-pau-do-campo, polícia-inglesa-do-sul e bico-de-lacre). O visitante dispõe de pistas de Cooper, ciclovia e um bosque de leitura. Um atrativo especial é a Trilha dos Sentidos onde as pessoas reconhecem (ou tentam identificar) espécies vegetais pelo tato, olfato e visão.

Polícia-inglesa-do-sul 
(Sturnella superciliaris).



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

PAREDES COLORIDAS
Cerqueira César – Rua Frei Caneca.


Luz (Avenida Tiradentes).

Bom Retiro
Paraíso (Rua Treze de Maio).

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

ILHA ANCHIETA

As praias brancas se debruçam preguiçosas no mar. As gaivotas cortam o céu acompanhando as escunas que deslizam em direção ao atracadouro. O visitante aprecia toda essa beleza sob a sombra convidativa das amendoeiras da praia e das palmeiras da Ilha Anchieta (Ubatuba), no Litoral Norte de São Paulo.

 

Este cenário maravilhoso já conhecido pelo Padre Anchieta no século XVI, esconde um passado de horrores que culminou com uma chacina há 65 anos. Ela é a Ilha dos Porcos, que aparece nos antigos livros de história e geografia, e ainda tinha esse nome em 1902, quando as autoridades (presidente Afonso Pena e governador Jorge Tibiriçá) acharam que aquele era o local ideal para abrigar um instituto disciplinar e uma colônia correcional.

 

O primeiro era destinado à “formação de hábitos de trabalho e educação de menores abandonados, além de oferecer instrução literária, profissional, industrial e agrícola” e a segunda, à “correção pelo trabalho dos vadios e vagabundos”. (Só faltou a placa: o trabalho liberta.) Assim, os moradores foram retirados da Ilha, que tem 828 hectares de Mata Atlântica e fica a 8 km da costa. As construções da antiga vila foram aproveitadas e o estado mandou fazer o conjunto do instituto, que é atribuído ao escritório do arquiteto Ramos de Azevedo.

 

Em 1904, o complexo já estava funcionando e não foi preciso mais do que uma década para se perceber que a ideia não tinha sido uma das melhores e aos poucos os presos foram sendo transferidos para Taubaté para desativação do conjunto. Entretanto, em 1928, as autoridades se lembraram da ilha e, no início dos anos da década de 1930, reativaram as instalações agora como presídio político.

O nome da ilha foi mudado por Getulio Vargas, em 1934, quando se comemorou o quarto centenário da morte do Padre Anchieta, que certamente não ficou nada feliz com a cortesia. O perfil do presídio por essa época já havia mudado novamente. Os presos políticos deram lugar aos condenados mais perigosos. Em 1946, recebeu os japoneses do Xindô-Remei – que chegaram a promover um motim, como relata Fernando Morais, no livro Corações Sujos (Companhia das Letras/2001).

Em 1952, segundo o noticiário dos jornais, havia 450 presos cumprindo pena – entre os quais o famoso Sete Dedos. Nesse ano, explodiu a rebelião, que resultou na fuga de 107 presidiários e na morte de presos e vários funcionários e membros da guarda. Alguns presos conseguiram chegar ao continente e aterrorizaram as populações do litoral. O episodio sangrento decretou o fim do presídio, fechado, definitivamente, em 1954.

Com o movimento ambientalista a partir da Conferência de Estocolmo, começou a despontar a consciência ecológica na sociedade brasileira e em 1977 a Ilha foi transformada em Parque Estadual e oito anos depois foi tombada pela Secretaria de Cultura e mais tarde passou a ser administrada pela Secretaria de Estado do Meio Ambiente, através do Instituto Florestal.

Hoje, o visitante desfruta da beleza, percorre trilhas e, com sorte, pode observar vários animais nativos, principalmente bugios. Um dos acessos ao Parque Estadual Ilha Anchieta é o atracadouro do Instituto Florestal, em Ubatuba, no Saco da Ribeira. O trajeto de 4,3 milhas náuticas varia entre 30 e 50 minutos. 



Foto: site da SMA/SP. Tony Fleury.

domingo, 5 de fevereiro de 2017

VIVA O ZÉ PEREIRA!


FEVEREIRO, mês do Carnaval, então vamos lá... Eu não gosto. As pessoas deveriam sair dançando pelas ruas quando tivessem vontade e não na data marcada no calendário. Acho desfile de escola de samba um tédio. Entretanto, a festa rendeu ótimas produções musicais, que a gravadora Revivendo reuniu na coleção “CARNAVAL, sua história, sua glória”.  Então, abram alas para os carnavalescos que preparam as fantasias (agora sumárias) e procuram entre os guardados os tamborins porque “Viver somente de cartaz, não chega,/ Põe as pastoras, na avenida, Mangueira querida!”.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

AVE, AVES!

O jornal CIDADE DE SANTOS (1967-1987) ficava na esquina das ruas XV e do Comércio. Uma tarde saí para fazer uma reportagem na Bolsa do Café – a uma quadra da empresa e, quando pus o pé no degrau do prédio da Bolsa, o pombo me acertou. Um susto. Nojo. Uma decisão rápida. Voltei para a redação, lavei a cabeça entre muitas reclamações (minhas) e piadas (dos outros) e retornei ao trabalho. Meu chefe tentou me consolar, dizendo que era sinal de sorte. “Sorte sua, que não foi o atingido”, respondi indignada.
Ainda a serviço do mesmo jornal fui enviada para cobrir algum evento na Ponta da Praia, ainda um bairro de pescadores e pequenos estaleiros escondidos em um grande matagal. No final da tarde, a praia ficava cheia de barcos e ali era descarregada a produção do dia. Muita gente ia comprar peixe fresco direto dos pescadores que, por cortesia, limpavam o pescado, deixando as vísceras por ali mesmo. Um grande atrativo para urubus que passavam as horas sobrevoando e passeando pela praia à espera da comida fácil. Lembro-me bem que era uma tarde chuvosa e eu usava uma capa que, para meu grande desgosto, foi batizada solenemente por uma das aves.
Décadas depois estava flanando por Lisboa quando um pombo português resolveu deixar suas marcas em meu rabo-de-cavalo. Disse alguns desaforos para o alto, embora o autor do ultraje não estivesse à vista. Por sorte (mesmo?) ainda estava perto do hotel e retornei para um novo banho. Eu teria achado que minha cota de desastres com a avifauna já estava superada, mas...
Alguns anos depois de Lisboa fui a uma conferência no Instituto Goethe em São Paulo. Verão. Fim de tarde. Mais uma vez um columbídeo me esperava no telhado do prédio. Oh! Que asco! O jeito foi lavar a cabeça na pia enquanto resmungava.
Em 2015, andei por campos e montanhas ingleses e escoceses despreocupadamente. O perigo, contudo, estava nas cidades e tinha outro nome: gaivota. Felizmente, as atacantes (sim, é um ataque!) acertaram no anorak ou no casaco.  Foram três fatídicos eventos!
Puxa! É demais! – dirão alguns. Entretanto, no início deste ano novamente um pombo, incapaz de me acertar, deixou a lembrança em algum lugar onde a distrailda se encostou, sujando a roupa.

Lembrei-me dessa odisseia escatológica porque um pombo veio me visitar esta manhã. Pousou na minha janela e ficou me observando a escrever. Imagino se está em missão de reconhecimento. A verdade é que, apesar de tudo, gosto muito deles. São aves graciosas e elegantes. Eles proliferaram nos centros urbanos por causa do alimento abundante, se tornaram uma praga, transmitem doenças. No Marrocos e no Egito, são criados para consumo e são muito apreciados. Muitos países tornaram-se grandes criadores de pombos-correios, inclusive o Brasil. O visitante foi embora. Dispenso conselho de engraçadinhos para carregar sempre um guarda-chuva... 


Oxford: gaivota entretida com comida  lixo deixado por turistas.
Foto: Hilda Araújo, 12/06/2015.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

AH! O MEU CHAPÉU.
Sol ou o frio. Um deles foi motivo para que o homem cobrisse a cabeça há alguns milênios. E assim começou a história do chapéu. Primeiro uma peça útil. Depois, um ornamento. Um luxo. A peça pode ser vista nas representações artísticas egípcias, gregas, romanas. Páris, o herói grego, usava um barrete, segundo o mito. Mais tarde o barrete frígio foi usado por escravos romanos. Na Revolução Francesa (1789), tornou-se um símbolo dos revolucionários. Em latim chamava-se cappellus, (diminutivo de cappa). Em francês, no século XII, evoluiu para chapel e designava um penteado usado por homens e mulheres, mas no século XV já era chapeau, nosso conhecido chapéu, segundo nos ensina Houaiss. Até meados do século XX foi uma peça indispensável do guarda-roupa masculino e feminino.
Inspiração para pintores, poetas, escritores e letristas de músicas populares. Foi tema do belo e premiado filme de Júlia Zakai – “O chapéu do meu avô” (São Paulo, 2004).
Mas como diz o poeta:
Mil novecentos e pouco.
Se passava alguém na rua
sem lhe tirar o chapéu
Seu Inacinho lá do alto
de suas cãs e fenestra
murmurava desolado
― Este mundo está perdido!
Agora que ninguém porta
nem lembrança de chapéu
e nada mais tem sentido,
que sorte Seu Inacinho
já ter ido para o céu.

"Cortesia", 
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

“O orvalho vem caindo,
Vai molhar o meu chapéu,
E também vão sumindo,
As estrelas lá no céu,
Tenho passado tão mal,
A minha cama é uma folha de jornal.”
"O Orvalho vem caindo", Noel Rosa (1910-1937).



Quando ela pôs o chapéu
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.
 "Quadras ao gosto popular", Fernando Pessoa.
"Chapéu azul", 1922: Tarsila do Amaral (1886-1973). 

Tumba do faraó
 Tuntakhamon, 1332-1322 a.C.
Mitrídates VI, rei do Ponto, 134-63 a.C.


Afresco de Brancacci, Florença.

Tela de Bert Morisot, 1889.
Rainha Elizabeth II, que usa chapéus com muita classe.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

PASSEIO POÉTICO
FOMOS passear na quinta,
Fomos à quinta em passeio.
Não há nada que eu não sinta
Que me não faça um enleio.

O pintor: Pierre-Auguste Renoir (1841-1919). Óleo sobre tela, 1870. “La promenade”.
O poeta: Fernando Pessoa (1888-1935):  QUADRAS AO GOSTO POPULAR.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O POETA E O PINTOR.

QUANDO compões o cabelo
Com tua mão distraída
Fazes-me um grande novelo
No pensamento da vida.
O poeta: Fernando Pessoa: "Quadras ao gosto popular". 
O pintor: Paul Signac (1863-1935), neoimpressionista francês. “Mulher a pentear-se”. Óleo sobre tela de 1892.