Com a pandemia,
milhões de pessoas voltaram a praticar com mais empenho um ensinamento que nossos
antepassados cansaram de repassar aos pimpolhos: sempre lavar as mãos. Com a
facilidade da transmissão do coronavírus-19, tornou-se essencial lavar as mãos frequentemente, tomar banho e trocar de roupa ao voltar da farmácia e supermercados, passar
álcool gel em tudo que chega da rua ou água sanitária diluída em água. Nada de
cumprimentos, abraços e beijinhos. Rosto protegido por máscaras. Sapatos
desinfetados ou de preferência à moda japonesa, deixados do lado de fora da
casa ‒ no caso daqueles que saem por necessidade ou se aventuram a sair para
alguma atividade saudável. Mas, por favor, não transforme a porta do seu apartamento em uma sapataria desagradável. Mulheres e homens, munidos de vassouras, rodos,
aspirador de pó (robôs também?) esfregam a casa para eliminar a possibilidade
de que o coronavírus se aloje em algum cantinho estratégico para atacar a
qualquer momento.
No século XVII, os neerlandeses eram o
povo mais limpo da Europa, como registraram vários visitantes estrangeiros. “As
cidades brilhavam de limpas graças às horas dedicadas incansavelmente a varrer,
escovar, raspar, polir, lustrar, lavar” ‒ conta o historiador inglês Simon
Schama (1945). Segundo ele, o fato era “fruto mais de obsessão que preocupação razoável
com a salubridade”. Havia até um manual popular que tinha um capitulo com instruções
sobre as tarefas que deviam ser realizadas semanalmente. Assim, a entrada da
casa tinha que ser lavada todos os dias; segunda e terça eram dias dedicados a
espanar e lustrar salas e quartos; quinta, escovar e arear; sexta, limpar
cozinha e porão. Todos os dias batiam-se os travesseiros pela manhã, lavavam-se
os pratos após as refeições e a roupa. E assim ia a vida nos Países Baixos.
“Minha escova
é minha espada; minha vassoura, minha arma,
Dormir não
sei o que é, nem repousar. [...}
Nenhum
trabalho é pesado demais; nem cuidado é muito grande
Para deixar
tudo reluzente e imaculadamente limpo.
Esfrego e
areio, lustro e escovo [...]
E não admito
que ninguém leve embora minha tina.”
Os versos são de Pieter van Godwijck (1649-1712) e dão uma ideia da
preocupação dos holandeses com a limpeza em tempos em que ser limpo equivalia,
segundo Schama, a uma afirmação de individualidade: “Limpar era diferenciar e
excluir”.
No século XXI, a pandemia despertou nas pessoas uma preocupação maior com
o asseio em geral. Os "manuais" sobre limpeza
pessoal e do ambiente proliferam na internet ‒ OMS, instituições ligadas à
saúde, empresas farmacêuticas e de produtos de higiene pessoal e ambiental.
Enfim, hoje contamos com a química e a tecnologia para aprimorar e
facilitar a faxina diária ‒ naturalmente para quem tem meios para tanto.
(Reprodução: "Sinnepoppen", Houghton Library, Harvard University. e "Lavadeiras (1861), tela de Eliseu Visconti (1866-1944).
FONTE: "O desconforto da Riqueza. A cultura holandesa na época de ouro", de Simon Schama, Companhia das Letras, 1992.