sábado, 14 de maio de 2022

SIR MICHAEL CAINE: 90 ANOS

 

Sir Michael Caine completou 90 anos em março. O ator britânico, que se aposentou há dois anos, atuou em mais de cem filmes (dizem que 160), ganhou vários prêmios ‒ tanto Oscar (dois) quanto Framboesa de Ouro (1), sendo este como pior ator em 1981 por seu desempenho em “The Island”. Assisti a vários filmes com ele e vários são memoráveis como Zulu (1964), direção de Cy Endfield; O homem que queria ser rei (1975), dirigido por John Huston; A águia pousou (1976), direção de John Sturges; Vestida para matar (1981), Brian di Palma; O cônsul honorário (1983), dirigido por John Mackenzie; Hannah e suas irmãs (1986), dirigido por Woody Allen e que lhe valeu o primeiro Oscar; Os Safados (1988), de Frank Oz ‒ Oscar. Com Laura, a voz de uma estrela (1998), diretor Mark Herman, Caine ganhou o Globo de Ouro; e com Regras da Vida (1999), de Lasse Hallström recebeu o segundo Oscar. Sem contar a trilogia de Batman (2005-2012) como o mordomo do super-herói: Batman Begins, o Cavaleiro das Trevas e o Cavaleiro das Trevas Ressurge. Em 2021 participou de Best Sellers, quando deu por encerrada a carreira de ator.

         Ele continua bonito e muito simpático. A vida pessoal de artistas raramente me interessa, mas a de Caine é, no mínimo, curiosa. Ele contou em entrevista há alguns anos, que raramente assistia a programas de TV, contudo uma ocasião na companhia de um amigo viu uma jovem em um anúncio e se apaixonou instantaneamente. “Amanhã vamos para o Brasil porque quero conhecê-la” ‒ informou ao amigo, que riu e achou que era brincadeira. Mais tarde encontraram-se com outro amigo que se espantou com a viagem que Michael anunciou e o outro explicou o que havia acontecido. O recém-chegado quis saber em que anúncio a garota aparecia e, por coincidência, a empresa era cliente da agência de publicidade em que ele trabalhava e ele explicou ao rapaz apaixonado que a moça era da Guiana (Britânica) e morava em Londres há poucas quadras dali. Enfim, Michael Caine encontrou-se com a moça cuja única ligação com o Brasil era o anúncio sobre o café que ele vira. De família indiana e muçulmana, ex-Miss Guiana, Shakira (75) fora para a Inglaterra onde trabalhava como modelo e atriz. Ela levou algum tempo até ser conquistada pelo ator e o casamento aconteceu em 1973. Quase cinquenta anos juntos e nada mudou: ele é católico e ela muçulmana.

        A aposentadoria deveu-se a problemas de saúde. Agora Michael Caine dedica-se a escrever. É autor de vários livros (What's it All About? (1993), The Elephant to Hollywood (2010) e Blowing the Doors Off (2018), que venderam bem, segundo ele.  


sexta-feira, 13 de maio de 2022

SEMANA DE CINEMA

E para encerrar Aposentados e perigosos (2010), dirigido pelo alemão Robert Schwentke (1968). Elenco encabeçado por três estrelas: John Malkovich (1953), Morgan Freeman e Bruce Willis (1955). O filme é uma adaptação dos quadrinhos de Warren Ellis e Cully Hammer. Não vi o filme nem conheço os quadrinhos, mas fiquei curiosa para assistir a essa comédia de ação que já teve continuação. Alguns amigos também recomendaram. John Malkovich (1953), Morgan Freeman são dois motivos fortes para aumentar minha curiosidade.



John Malkovich. Foto: Petr Novák (https://commons.wikimedia.org).  


quinta-feira, 12 de maio de 2022

SEMANA DE CINEMA

Amigos inseparáveis (2012), dirigido por Fisher Stevens (1963), é a quarta comédia da semana e reúne Al Pacino (1940), Alan Arkin (1934) e Christopher Walken (1943). Dois amigos se reencontram depois de 28 anos de separação. Motivo? Um deles acabou de sair da prisão e o outro foi esperá-lo, mas em vez de sair regenerado, o ex-presidiário já tem planos para o futuro: vingar a morte do filho. A idade deles parece não ser problema e o filme é cheio de ação. Ainda não vi, mas está na minha lista.



Alan Arkin, um ótimo ator. 


quarta-feira, 11 de maio de 2022

SEMANA DE CINEMA

DESPEDIDA EM GRANDE ESTILO (2017) reúne um trio de primeira qualidade: Morgan Freeman (1937), Michael Caine (1933) e Alan Arkin (1934). A direção é de Zach Braff (1975). Viver de aposentadoria é difícil, caso não se tenha um pé de meia, e piora bastante se houver um banco no caminho, ávido pelos parcos dólares de pensões dos desprevenidos. Neste cenário, três amigos resolvem enfrentar (apesar das mazelas da idade) o banco do pior modo possível ‒ via roubo. Um filme leve e divertido.  

Foto Morgan Freeman: Georges Biard, CC BY-SA. https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=72580707





terça-feira, 10 de maio de 2022

SEMANA DE CINEMA

IDOSA MALVADA

O segundo filme escolhido é de 1984 e chama-se Grace Quigley, dirigido por Anthony Harvey (1930-2017). O elenco é encabeçado por Katharine Hepburn (1907-2003) e Nick Nolte (1941). Uma história banal: mulher idosa, viúva e falida sente-se vencida pelo infortúnio e tenta se suicidar duas vezes; entretanto, não desiste. E do banal a história salta para o original. Ela resolve contratar um bandido para matá-la, mas a situação muda completamente quando o carrasco e a vítima se encontram e descobrem uma atividade muito lucrativa. Parece que há duas refilmagens, mas não conheço. Katharine Hepburn estava com 77 anos e em plena forma quando fez o filme. Humor negro, claro.




segunda-feira, 9 de maio de 2022

SEMANA DE CINEMA

Semana dedicada aos velhinhos transgressores do cinema. Selecionei alguns filmes de épocas diferentes em que idosos por motivos variados ingressam na marginalidade, com resultados hilariantes.

E o primeiro filme que me ocorre é de 1944: “Este mundo é um hospício”, dirigido por Frank Capra (1897-1991) e estrelado por Cary Grant (1904-1986). O enredo é simples: Grant é um crítico de teatro que, às vésperas do casamento, vai visitar suas tias e descobre o segredo das velhinhas, interpretadas por Josephine Hull (1877-1957) e Jean Adair (1873-1953). No elenco, também Peter Lorre (1904-1964). Diversão garantida para todas as idades. 


Um dos meus atores preferidos.



domingo, 8 de maio de 2022

MOMENTOS

Ilustração de Stevan Dohanos (1907-1982).

 
Capa do POST de 1955, assinada por Richard Sargent (1911-1978).


Constantin Alajálov (1900-1987). Capa do POST de 10 de maio de 1947.

sábado, 30 de abril de 2022

TRABALHO

 NÃO FIZ NADA, bem sei, nem o farei,

Mas de não fazer nada isto tirei,

Que fazer tudo e nada é tudo o mesmo,

Quem sou é o espectro do que não serei.

 

Vivemos aos encontros do abandono

Sem verdade, sem dúvida nem dono.

Boa é a vida, mas melhor é o vinho.

O amor é bom, mas é melhor o sono.

 

Fernando Pessoa/ Obra poética.

Empregada da cervejaria (c. 1878), óleo sobre tela de Édouard Manet.

 

Colheita de feno em Éragny (1901), óleo sobre tela de Camille Pissarro (1830-1903).

 

Homens trabalhando (1922), óleo sobre tela da mineira Zina Aita (1900-1967).

 

Costureiras ( 1936), óleo sobre tela de Tarsila do Amaral (1886-1973)


Varredores de Rua [Os Garis] (1935óleo sobre tela de Carlos Prado (1908-1992).


 

CACAU (1938) afresco de Cândido Portinari (1903-1962)

 

Os pescadores (1943), óleo sobre tela do paraibano Tomás Santa Rosa (1909-1956).

 

A moenda (1951), óleo sobre tela de Heitor dos Prazeres (1898-1966).


HORÁRIO DE TRABALHO

Depois da treze poderei sofrer:
antes, não.
Tenho os papéis, tenho os telefonemas,
tenho as obrigações, à hora-certa.

Depois irei almoçar vagamente
para sobreviver,
para aguentar o sofrimento.

Então, depois das treze, todos os deveres cumpridos,
disporei o material da dor
com a ordem necessária

para prestar atenção a cada elemento:
acomodarei no coração meus antigos punhais,
distribuirei minhas cotas de lágrimas.

Terminado esse compromisso,
voltarei ao trabalho habitual.


Cecília Meireles. 

quinta-feira, 28 de abril de 2022

TOMBOS

 

Cair é sempre uma péssima experiência, não apenas pelos riscos de se quebrar, as dores dos machucados e, especialmente, o estranho sentimento de humilhação que nos invade. Como costumo andar com o nariz empinado, levei vários tombos ao longo da vida. Felizmente, nunca me quebrei. Aqui vai o resumo de quatro memoráveis tombos. Anos de 1980. Na esquina da Rua Álvares Penteado com a Direita, naquela época, ali havia postes antigos de iluminação e simpáticos bancos de madeira, onde um idoso observava de um deles o movimento ao redor. Eu estava com pressa e não vi o saco plástico. Um pé entrou por uma ponta e o outro pisou do outro lado. Ao dar outro passo perdi o equilíbrio. Reflexo rápido. Segurei-me no poste, mas foi tal a força do impacto que rodeei o poste com um braço e dei várias voltas em torno dele para não cair. Lembro a expressão espantada do idoso que não deve ter visto a causa do “espetáculo”. Quando recuperei o controle da situação, segui meu caminho sem olhar em volta. Anos depois descobri que ali é o Largo da Misericórdia. 

Anos 1990. Estava com um amigo a caminho de uma entrevista no Centro. Na estação São Bento, ele pegou a saída pelo Vale do Anhangabaú sob meus protestos. Ele garantiu que era mais perto. Ali havia alguns sem-teto estabelecidos. Meu amigo ia à frente e de repente aconteceu... Como? Não tenho ideia. Sei apenas que estava de costas no chão e rodopiava. Uma verdadeira “street dancer”. Acho que foi a reação dos moradores de rua que chamaram atenção do meu amigo que voltou, viu e esperou que eu parasse, estendeu a mão para me ajudar e perguntou se estava bem. Quando se certificou de que não precisava de socorro, apenas sacudir a poeira para chegar em ordem ao escritório do entrevistado, meu amigo teve uma crise de riso que me enfureceu ainda mais.

Anos 2000. Véspera da viagem para Amsterdam. Coloquei um papel sobre a mesa, que foi levado pelo vento e ficou à minha espera no chão. Atração fatal: pisei, escorreguei, segurei na maçaneta da porta, mas não teve jeito. Comecei a cair... Orelhas têm função acústica, mas ignorava que, além de servir para segurar óculos e máscaras, até amortecem pancadas. Bati a cabeça na porta, porém, a orelha aparou o golpe. Quando vi o sangue, resolvi ir à farmácia na esquina onde seu Luís, me acalmou e providenciou um curativo. De volta ao lar, olhei-me no espelho e comecei a rir: para quem ia a Amsterdam, eu estava fantasiada de Van Gogh. 

Berlim estava no mesmo roteiro. Numa manhã gelada, ia entrando na estação do metrô e, logo no primeiro degrau da escadaria junto à calçada, pisei em falso. Quando percebi que ia cair de cara, me segurei no corrimão. Se evitei a queda, torci os dois pés para me equilibrar e coloquei quase todo peso no esquerdo. Dor alucinante. Fiquei paralisada por longos minutos e depois testei os movimentos. Vi do outro lado da rua, na praça, um banco vazio. Praticamente me arrastei até lá e sentei... O banco estava molhado pela chuva noturna. E assim, com os fundilhos molhados, fiquei lá pensando no que fazer: acionar o seguro? Não havia quebrado nada e corria o risco de me mandarem de volta para o Brasil, quando ainda faltavam quinze dias de viagem. Continuei o passeio mancando; manquei em Praga e manquei em Viena. No Brasil, procurei um ortopedista que não encontrou nada errado com os meus pés e me pôs para correr.

        Comentário perfeito da amiga Clea ao saber do mais recente tombo: “É o que a gente chama de batidão... Primeiro o susto por perceber que o chão tá chegando perto do rosto. Depois a raiva por não conseguir evitar. Em seguida a dor e por último tentar levantar com a periferia toda olhando. O jeito é colocar a culpa no prefeito que não zela pelas calçadas. Só depois pensar melhor se era um buraco, se a calçada estava em ordem e o pé que falseou, se a vista fraquejou, se foi escorregão, se foi distração...”.


sábado, 23 de abril de 2022

SANTA CRUZ, RIO DE JANEIRO.

 

Solar dos Araújos (1895), pertenceu ao capitão Araújo de tradicional família de Santa Cruz. 

Gastei mais tempo no trajeto ferroviário de ida e volta do Rio de Janeiro a Santa Cruz do que propriamente no distrito. Meu destino era a Base Aérea e fui informada que era longe da estação. O conselho da simpática jovem a quem pedi informações foi chamar Uber, explico que não uso o aplicativo; ela pergunta se estou disposta a ir de mototáxi. Dou risada. Vou de táxi. Ela me indica a direção do ponto próximo. 

Gostei do bairro à primeira vista. No entorno da estação há um mar de barraquinhas que ocupam as calçadas em frente às lojas comerciais. Tudo muito colorido, agitado e barulhento. Consulto o taxista, ele explica que é meio complicado entrar na Base, que o hangar é longe da entrada, enfim, nas entrelinhas, fica a ideia de que a idosa não suportaria a distância. O que ele não sabe é que, felizmente, distâncias não me assustam. Aproveita para mostrar alguns lugares históricos da cidade ‒ sim, mais que um bairro Santa Cruz parece uma pequena cidade do extremo oeste carioca.

        Tudo começou com a Fazenda de Santa Cruz doada aos jesuítas que a desenvolveram e a propriedade chegou abranger a área entre Mangaratiba e Vassouras. O latifúndio era identificado por uma imensa cruz de madeira. Tudo terminou quando o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas de Portugal em 1759 e as propriedades da Companhia de Jesus foram transferidas para a Coroa e, no Brasil, subordinaram-se aos vice-reis. A chegada da família real em 1808 mudou o panorama local, quando a fazenda tornou-se lugar de veraneio, tendo o convento sido transformado em paço real ou Palácio Real de Santa Cruz e, com a independência, Palácio Imperial de Santa Cruz.

        A presença dos príncipes impulsionou o desenvolvimento de Santa Cruz. Assim, quando a ferrovia chegou em 1878, o lugar era havia muitos anos o local preferido da família real para longas estadias. Foi lá também que se instalou a primeira agência postal do Brasil em 22 de novembro de 1842.

O Palácio Imperial hoje abriga a sede do Batalhão-Escola de Engenharia ‒ Batalhão Vilagran Cabrita. O Palacete Princesa Isabel, muito bem conservado, foi inaugurado pelo imperador D. Pedro II em 1881 para ser a sede administrativa do matadouro público e a meta da prefeitura é transformá-lo em Centro Cultural Princesa Isabel. A bela fonte Wallace, um dos cem exemplares doados pelo filantropo inglês Sir Richard Wallace a várias cidades do mundo no século XIX, também faz parte da história imperial em Santa Cruz.

O hangar do Zeppelin, que me atraiu, foi inaugurado em dezembro de 1936 e é tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Para os mais jovens o Zeppelin é a denominação do aeróstato (grosso modo, um balão inflado por 200 mil m³ de hidrogênio) dirigível criado pelos alemães nos anos de 1930 para viagens transatlânticas. O primeiro a pousar no Brasil foi em 21 de maio de 1930 em Recife e no dia 25 pousou no Campo dos Afonsos, no Rio de Janeiro. Houve mais três viagens até que fosse inaugurado o hangar em Santa Cruz. Ao todo foram nove viagens entre Brasil e Alemanha, mas a tragédia de Nova York em 1937 ‒ o incêndio do Hindenburg que causou a morte de 35 pessoas ‒ e o panorama político internacional provocaram o fim da era de transporte por balões.

O hangar brasileiro é um dos raros do mundo que estão preservados, mas infelizmente não foi ainda desta vez que consegui visitar o hangar. Mais um motivo para voltar ao Rio de Janeiro.

sexta-feira, 22 de abril de 2022

ERRO DE PORTUGUÊS (1927)

Quando o português chegou

debaixo duma bruta chuva

vestiu o índio

que pena!

fosse uma manhã de sol

o índio tinha despido o português

 

Oswald de Andrade (1890-1954). Gosto demais desse pequeno poema. Tanto quanto da composição do grande Lamartine Babo (1904-1963). Sempre é bom lembrar que é uma marchinha de Carnaval e o compromisso com o oficial não é lá o forte dessa festa nacional. Lamartine fala de invenção e não de descoberta; Severa é a mascote da Associação Portuguesa de Desportos, Paraty, marca de cachaça e o Mossoró foi o cavalo ganhador do primeiro Grande Prêmio Brasil de hipismo em 1933, na Gávea. 

HISTÓRIA DO BRASIL (1933)


Almirante como era conhecido o radialista, compositor e cantor Henrique Foréis Domingues (1908-1980). 


 

Quem foi que inventou o Brasil?

Foi seu Cabral!

Foi seu Cabral!

No dia vinte e um de abril

Dois meses depois do carnaval

 

Depois

Ceci amou Peri

Peri beijou Ceci

Ao som...

Ao som do Guarani!

 

Do Guarani ao guaraná

Surgiu a feijoada

E mais tarde o Paraty

 

Depois

Ceci virou Iaiá

Peri virou Ioiô

 

De lá...

Pra cá tudo mudou!

Passou-se o tempo da vovó

Quem manda é a Severa

E o cavalo Mossoró

 

Lamartine Babo (1904-1963).

sexta-feira, 15 de abril de 2022

CENTRAL DO BRASIL

Em 2022 estava no Rio de Janeiro e fui conhecer um dos últimos hangares de Zeppelin do mundo que fica em Santa Cruz, que já foi cidade imperial. Vou de trem, trem parador. Embarco na Central do Brasil. Dia quente. Trajeto longo. Uma senhora cochila no banco à minha frente. Um homem sentado ao meu lado toma tranquilamente o café da manhã: pão e salgadinhos. Tudo tranquilo. Um grupo comenta a política nacional e a guerra da Ucrânia à moda de cada um. As estações vão passando: São Cristóvão, Maracanã (onde assisti ao primeiro show de Paul McCartney no Brasil). As coisas começam a mudar. Ambulantes aos poucos tomam conta do vagão oferecendo produtos incríveis. O som do trem e o alarido dos vendedores tornam o ambiente ensurdecedor. O homem termina o café, joga o lixo na lixeira e se acomoda com o celular. Observo os vendedores. A maioria parece se conhecer de longa data ‒ 90% são homens, usam basicamente bermudas, havaianas e camisetas coloridas. Muitos carregam um fardo fantástico: numa haste em forma de bengala, penduram as bugigangas que formam uma espécie de árvore de natal e engancham no apoio de mãos do vagão para a freguesia escolher, enquanto eles vão de um lado para o outro aos berros. Os passageiros brindados com penduricalho repleto de mercadorias, que balouça de um lado para o outro no ritmo do veículo, têm que se esquivar o tempo todo.

 “Mangueira teu cenário é uma beleza/ Que a natureza criou… Sei lá, não sei”. O samba é de 1956. A Mangueira que vejo da estação é um cenário triste. Meu vizinho liga para o filho, quer saber se tomou café, manda o garoto agradecer à avó, indica o canal de cartoon, desliga e se prepara para descer. A camiseta é do Flamengo (parece que não tem nem fusca nem violão; será que “tem uma negra chamada Teresa”?)

Ninguém morrerá de sede ou fome nessa viagem extraordinária: água, refrigerante, cerveja; biscoito, chocolates, empadinhas, canudinhos recheados com vários tipos de creme, linguiça mineira com pimenta, bacon em cubos da Sadia. Mentex! Um senhor embarca oferecendo café, leite, chocolate, e “deliciosos sanduíches”. Encontra um conhecido, que o apresenta para o “auditório”:  ele alugou a casa e mudou do antigo bairro porque era difícil chegar ao trabalho. Despedem-se. O senhor vai oferecendo seus produtos. Alguém vende um porta-joias para “guardar cordãozinho, brinquinhos e aliança”. S. Francisco Xavier.

Todos aceitam cartões e Pix. Riachuelo. Surge um idoso alcoolizado e de bengala. Engenho Novo. Avisa que vai cantar. O repertório é de Roberto Carlos: “Eu tenho tanto para lhe falar”, mas acabou aí e saiu levado por um conhecido no mesmo estado. Ninguém reclamou. Passamos por um estádio (Estação Olímpica de Engenho de Dentro ‒ “Quem não saltar agora / Só em Realengo”e pergunto ao meu novo vizinho, se é de algum clube. Botafogo.

Um homem atende ao telefone e diz aos berros que já está em Marechal Hermes. Mentira: estamos em Piedade. O cantor volta e explica à plateia desinteressada que não pode cantar porque está com a garganta seca. Pede água. Ninguém se mexe. Madureira ‒ “Madureira chorou de dor...” Eu de cansaço. Oswaldo Cruz (lugar de samba). Longas pausas no percurso: Realengo, Mocidade/ Padre Miguel ‒ e não é que Padre Miguel já foi Moça Bonita? Bangu ‒ onde avisto Vovó Kiki instalada num banquinho na plataforma, vendendo quentinhas a R$ 10. Um vendedor entra animado, abre a sacola e começa a vender facas. Facas?

Resolvo perguntar ao meu vizinho se falta muito para Santa Cruz e ele começa a enumerar as estações restantes entre as quais ouço Paciência. “Paciência eu tenho, moço.” Ele ri. Enfim, chegamos à Santa Cruz! Esta é outra história.

O percurso de hora e meia durou mais de duas horas, que me proporcionaram uma visão real do que você imagina que sejam os subúrbios dos grandes centros brasileiros.  



Estação de Santa Cruz, Rio de Janeiro.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

RAFAEL

 

Às vezes me divirto lendo críticos e suas interpretações sobre arte. No caso de obras cujos autores morreram sem deixar indícios de sua intenção ao realizar o trabalho, vale qualquer explicação. Aliás, a observação de obras de arte é sempre instigante porque o espectador ‒ como o artista ‒ pode dar asas à imaginação. Nem sempre em sintonia com o autor. Depois de passar uma semana revisando um catálogo de arte, nada como retomar a o blog com ninguém menos do que Rafael Sanzio, que nasceu há 539 anos ‒ 6 de abril.

Não tenho a pretensão de escrever sobre o mestre. Lembro apenas que a primeira vez que fui ao Museu do Vaticano, na entrada da Capela Sistina, mudei de direção quando vi as pinturas maravilhosas de Rafael e fui admirá-las primeiro. Para marcar a data escolhi o autorretrato pintado entre 1504 e 1506; entretanto, não resisto à expressividade e ao encanto dos dois anjos que se veem na parte inferior de Madonna Sistina (1513), acervo da Galeria Alte Meister em Dresden, Alemanha.

Rafael morreu aos 37 anos em Roma. E também em outro 6 de abril...

Detalhe do quadro abaixo.




sábado, 2 de abril de 2022

sábado, 26 de março de 2022

OS SAPATOS ABANDONADOS

 


Já vi muitas coisas estranhas pelo caminho... Este par de sapatos, entretanto, é intrigante. Perdido? Não me parece. Fica a critério de cada um imaginar o que possa ter acontecido para deixar sapatos quase novos abandonados na calçada. Quem dera fosse uma Cinderela correndo para pegar um ônibus antes da meia-noite e um rapaz solitário o bastante para saia pela cidade em busca dessa mulher misteriosa e apressada, mas já se foram os tempos de contos de fadas... Cambuci, sexta-feira de manhã.

segunda-feira, 21 de março de 2022

PREZADA DONA BRITES

 

Embora saiba que a senhora não irá ler esta carta, já deixo claro que estou ciente de que não se lembraria de mim, pois fui uma aluna comum numa classe de quarenta adolescentes. A senhora, entretanto, é inesquecível ‒ seus cabelos brancos impecavelmente penteados contrastando com o luto eterno que vestia, os sapatos ortopédicos e a sua falta de paciência com o excesso de hormônios das meninas que se enfileiravam todas as manhãs para cantar o Hino Nacional.

Confesso que não foi a senhora a primeira pessoa de que me lembrei hoje ao ler os jornais, mas de Dona Zulmira, que me deixou uma herança inesquecível: o bom uso da língua portuguesa. Naturalmente, o mundo mudou bastante e isso é muito bom. Lembro que a senhora fazia um escândalo quando percebia que uma das meninas não usava combinação. Pelos seus critérios, hoje nenhuma entraria em sala de aula. As moças nem sabem o que seja combinação. Sem contar que as meninas não têm mais exclusividade: o liceu é misto. O que acho muito bom.

Se a senhora se espanta com as novidades, imagino Dona Zulmira folheando os jornais! Foi dela que me lembrei ontem, por ao ler a manchete que trazia um “INCAÍVEL” com tipos muito maiores que o normal (talvez para ninguém duvidar do que lia). A palavra não existe em dicionários, portanto, é um erro crasso. Algumas páginas adiante um aviso de que “É preciso focar na aprendizagem e nas relações socioemocionais”. Focar... Ah! Essa existe, mas é um galicismo (uso altamente reprovado por dona Zulmira), que serve de muleta para editores na hora de fazer um título. Incentivar, apoiar, ater-se... E por aí vai.


Dona Olga Melchert, que lecionava Geografia, também estranharia estes tempos. Ainda folheio vez ou outra o velho “Atlas Geográfico Melhoramentos do Padre Geraldo José Pauwels” cuja primeira edição é de 1936. O meu exemplar é de 1959 e a cada página descortinam-se as grandes mudanças ocorridas na geografia política do mundo em mais de sessenta anos. Tive que comprar um novo atlas porque há muitos livros que gosto de ler com o atlas do lado para visualizar melhor a ação (livros de História, narrativas como Lawrence da Arábia, Sir Richard Burton etc.). Ela teria gostado porque renovaria o conteúdo da matéria.

O que teria sentido Dona Laurentina quando lesse o artigo de Francis Fukuyama (1952) sobre o fim da História? É possível que nos mandasse rezar uma oração pela salvação de sua alma, como fez no dia da execução do bandido da Luz Vermelha, o americano Caryl Chessman (1921-1960), condenado por estupro e homicídio na Califórnia. Oh! Céus!

Por hoje é só. Sei que não ficará aborrecida com a carta nem com os comentários (assim como as mestras citadas). Lembranças para dona Delta.



domingo, 20 de março de 2022

FOLHAS DE OUTONO

The falling leaves drift by the window
The autumn leaves of red and gold
I see your lips, the summer kisses
The sun-burned hands I used to hold

Since you went away the days grow long
And soon I'll hear old winter's song
But I miss you most of all my darling
When autumn leaves start to fall

Since you went away the days grow long
And soon I'll hear old winter's song
But I miss you most of all my darling
When autumn leaves start to fall



Nathaniel Adams Coles, nome verdadeiro do cantor e pianista americano Nat King Cole (1919-1965), tinha uma voz maravilhosa e suas interpretações eram muito especiais. Fez grande sucesso, mas morreu jovem ‒aos 45 anos, vítima de câncer de pulmão. Dizem que Nat King Cole fumava três maços de cigarro por dia. Apresentou-se no Brasil em 1959. Nunca se abateu contra a humilhação do racismo, evitando apresentações em locais segregacionistas e tomando posições firmes. Foi alvo da Ku Klux Klan pelo menos duas vezes. Entre seus grandes sucessos há um delicioso álbum em que ele canta em espanhol. Participou de vários filmes, inclusive em Cidadão Kane (1941) como pianista; mas me lembro especialmente de “Dívida de Sangue” (1965) em que ele interpreta a balada de Cat Ballou

(Recebi este maravilhoso link de um amigo e aproveitei a ocasião para relembrar um ótimo cantor e marcar o início do outono no hemisfério sul.)

https://www.youtube.com/watch?v=Gnp58oepHUQ&list=RDGnp58oepHUQ&start_radio=1

sábado, 19 de março de 2022

ÚLTIMO DIA DESTE VERÃO...

 Todas as estações têm seus encantos, mas o verão tem um apelo especial. 

Verão de 2019, Santos.

NO ENTARDECER dos dias de Verão, às vezes,
Ainda que não haja brisa nenhuma, parece
Que passa, um momento, uma leve brisa
Mas as árvores permanecem imóveis
Em todas as folhas das suas folhas
E os nossos sentidos tiveram uma ilusão,
Tiveram a ilusão do que lhes agradaria...

Ah, os sentidos, os doentes que vêem e ouvem!
Fôssemos nós como devíamos ser
E não haveria em nós necessidade de ilusão...
Bastar-nos-ia sentir com clareza e vida
E nem repararmos para que há sentidos ... 

XLI ‒ Fernando Pessoa: Obra poética. Volume único. Rio de Janeiro, Editora Nova Aguilar, 1983.

Praia de São Vicente, verão de 2019.

MR. MONK

People think I'm crazy, 'cause I worry all the time…”

Quando foi lançada a série policial americana MONK (2002-2009), assisti a poucos episódios, pois a indicação era de comédia, mas eu senti profunda antipatia pela forma como tratavam o personagem título, o detetive Adrian Monk (Tony Shalhubb), e logo desisti de acompanhar as aventuras do grupo. Para quem nunca viu a série, Adrian Monk é uma pessoa extremamente perturbada: sofre de transtorno-obsessivo-compulsivo, tem dezenas de fobias (principalmente germofobia) e com o brutal assassinato da esposa entra em profunda depressão sendo afastado do departamento de polícia, onde gozava de grande prestígio. Evidentemente, nada disso é engraçado.

Após vários anos sem sair de casa, os amigos tentam ajudá-lo e o contratam como consultor ‒ simultaneamente ele faz terapia e contrata uma enfermeira. Embora não possa mais usar uma arma, sua inteligência, a capacidade para observar minúcias e sua ótima memória ‒ que ele considera um dom e uma maldição ‒ garantem a nova posição.

        Há alguns dias resolvi assistir à série toda. Naturalmente, deve ser extremamente difícil, num ambiente de trabalho tenso e sombrio, conviver com uma pessoa com tantos problemas. Tony Shalhubb foi muito sensível e compôs maravilhosamente o personagem, que está longe de ser engraçado: Monk tem plena consciência de seus problemas: sofre dor, solidão, medo, angústia... Ele não vive, sobrevive estabelecendo em seu entorno um mundo de ordem e limpeza. Em momentos de grande tensão aflora o homem que ele almeja ser.

As situações engraçadas, por assim dizer, são vividas principalmente pelos companheiros de trabalho que se veem muitas vezes em palpos de aranha com o comportamento de Monk. Mesmo o grande amigo, o capitão do departamento de polícia, frequentemente perde a paciência. O que chama atenção é o fato de que as pessoas tentam convencê-lo de que não tem importância se um quadro estiver torto na parede, se não houver dez flores num vaso, dez bombons numa caixa; que não deve tocar nos objetos, que não faz mal um grão de poeira sobre o móvel... Não funciona assim. Não adianta falar, recriminar o comportamento dele porque ele sabe o que faz e o faz porque é incontrolável. As sessões com o psiquiatra são bem elucidativas desse drama da doença que o personagem vive.

A primeira enfermeira tinha um comportamento autoritário e parecia mais interessada no salário, em arranjar um namorado. A troca do personagem foi em decorrência da saída da atriz do elenco; a nova enfermeira, logo alçada à posição de assistente do detetive, trata Monk com respeito, procura entendê-lo, embora às vezes também se desespere com o paciente/parceiro de aventuras. Bem divertido episódio em que Natalie (Traylor Howard) entra em crise por causa de um caso que envolve vodu e Monk assume os cuidados com a assistente para espanto do capitão. Especialmente tocante, a relação de Monk com o cachorro que fica sob sua guarda quando a dona morre.

Enfim, desta vez vi com calma e gostei muito da série, criada por Andy Breckman, e que está disponível no Amazon Prime. Shaloub venceu um Globo de Ouro e três Emmys por sua performance em "Monk". A música tema, que recebeu o Emmy de 2004, é do pianista, compositor e cantor Randy Newman (1943), que ao longo da carreira foi indicado 18 vezes para o Oscar e levou dois.


O encontro de Natalie (Traylor Howard) e Sharona (Bitty Schram), as duas enfermeiras/assistentes de Monk (Tony Shalhubb). Episódio 10, 8ª temporada.

MR. MONK

Randy Newman

 

It's a jungle out there
Disorder and confusion everywhere
No one seems to care
Well, I do
Hey, who's in charge here?

It's a jungle out there
Poison in the very air we breathe
You know what's in the water that you drink?
Well I do, and it's amazing

People think I'm crazy, 'cause I worry all the time
If you paid attention, you'd be worried too
You better pay attention
Or this world you love so much might just kill you
I could be wrong now, but I don't think so
'Cause it's a jungle out there
It's a jungle out there

It's a jungle out there
Violence and danger everywhere
It's brother against brother
Pounding on each other
Like they were Legionnaires

It's a jungle out there
It's a jungle in here too
You got a tap right on your phone
A microphone and camera checking out everything you do
Call it paranoia, as the saying goes
Even paranoids have enemies
I'm not the one who's crazy, I'm not afraid of them
They're afraid of you and me
I could be wrong there, but I don't think so
'Cause it's a jungle out there
It's a jungle out there

It's a jungle out there
Even the cops are scared today
So if you see a uniform
Do exactly what they say or make a run for it
I'm only kidding with ya
'Cause it's a jungle out there
It's a jungle out there

quarta-feira, 16 de março de 2022

DIA DO CONSUMIDOR

Ontem, foi dia do consumidor e, por acaso, fui ao Shopping Light, no Anhangabaú. Não sou uma consumidora contumaz, daquelas que não perdem uma liquidação ou uma oferta de ocasião. Não gosto de shoppings, prefiro as lojas de rua. Nos últimos dois anos, além de alimentos, comprei dezenas de livros, ou seja, fui a supermercados ‒ confesso que adoro supermercados ‒ e frequentei o site da livraria Martins Fontes. Ao sair ontem vi as nuvens negras pairando pelos lados do Centro, mas não voltei para pegar o guarda-chuva, pois o shopping fica a alguns metros da Estação Anhangabaú. Ao chegar à rua Xavier de Toledo, gotículas de chuva começavam a salpicar a calçada. Enfim, uma tarde surpresas. O shopping mudou muito desde a última vez que fui lá. A loja procurada fechou e como a tempestade prometida já era uma realidade o jeito foi passear pelos corredores do belo Edifício Alexandre Mackenzie, concluído em 1929.

Poucas pessoas e raras fazendo compras. Uma novidade: o espaço da Polícia Federal (setor de passaportes) agora é ocupado pela Receita, que só cuida de casos relacionados ao CPF de acordo com o papel pregado na porta de vidro. E só atende por meio de agendamento. Mais adiante um idoso relaxava em uma das muitas cadeiras de massagem. Em isolamento social completo. Notei que havia mais gente pelos corredores; claro, a chuva... Fui até o subsolo, visitei duas lojas. Um tédio. Na volta, as escadas rolantes estavam desligadas por causa da enxurrada que invadiu o prédio e um rapaz me indicou o elevador. No térreo, funcionários munidos de rodos e vassouras lutavam contra a água que teimava em entrar. O saguão cheio de gente. Aproveitei para fazer uma foto da claraboia do saguão. Linda. Que tal um cafezinho? Com sorte consegui uma mesa e fiquei observando a distinta clientela que passava sem pressa. Como eu, a maioria não trazia guarda-chuva. Alguns conversavam animadamente. Do meu lado estacionou uma família ‒ mãe, pai, uma criança e a sogra de um deles. Falam espanhol e estão carregados de pacotes ‒ são a exceção.

Fui até a entrada, analisei a situação e resolvi sair e caminhar até a estação protegida pelos toldos que acabam formando uma espécie de corredor. Que bom que não carreguei guarda-chuva!


segunda-feira, 14 de março de 2022

OS FÍSICOS TEÓRICOS E O POETA

 

Há fatos curiosos que não têm nenhuma importância, apenas ajudam preencher o tempo e lacunas de pesquisas. Um bom exemplo: o físico Albert Einstein nasceu no dia 14 de março de 1879 e o físico Stephen Hawking morreu no dia 14 de março de 2018. A relevância desses dois acontecimentos é a importância dos dois cientistas para a física teórica. Einstein recebeu o Prêmio Nobel de Física em 1921 e Hawking, laureado com dezenas de prêmios ao longo da vida, incluindo a Medalha Albert Einstein em 1979. Duas vidas completamente diferentes, duas épocas distintas, marcadas por duas mentes brilhantes, que amaram tanto as estrelas e o universo invisível aos nossos pobres olhos humanos que dedicaram a vida a desvendá-los.  

Olavo Bilac (1865-1918), que não era físico teórico, mas poeta, também amava as estrelas e muito antes já “ouvia” estrelas...  

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.*

Em 1931, o engenheiro americano Karl Guthe Jansky (1905-1950) descobriu ondas de radio emanando da Via Láctea e, graças aos radiotelescópios que ele desenvolveu, podemos “ouvir” o universo.

Ah! Por falar em poesia, foi também em um dia 14 de março que nasceu o poeta baiano Antônio Castro Alves (1847-1871), mas esta é outra história para ser contada em outro contexto.

                                                                      


Galáxia em formato de um disco voador (Foto: Divulgação/Nasa, 2012)


 *(PoesiasVia Láctea, 1888.)

sexta-feira, 11 de março de 2022

NÚMEROS DA PANDEMIA EM 2 ANOS

Há dois anos a Organização Mundial de Saúde caracterizou o Coronavírus ‒ COVID-19 como uma pandemia. Pelo menos 446 milhões de casos e mais de seis milhões de mortes foram registrados desde o início da pandemia, havendo uma quantidade “incontável de pessoas lutando com a piora da saúde mental”. De acordo com a OMS o total semanal de novos casos diminuiu 5% enquanto o número de mortes caiu 8% na última atualização global, mas o chefe da organização diz ser um “erro grave” considerar que o COVID-19 tenha terminado; e a primeira dose ainda não chegou a três bilhões de pessoas. Nas últimas 24 horas, no Brasil, morreram 559 pessoas.  

sábado, 5 de março de 2022

ALÔ, ALÔ, RESPONDE...

Sábado de Aleluia ainda em tempo de pandemia. Na saída da estação do metrô Sé, me deparo com uma cena inusitada: ninguém a circular pelo grande hall e um solitário usuário dos orelhões. O que seria tão urgente? Lembro-me do samba "Alô, alô", composição de Mário Reis (1907-1981) e André Filho (1906-1974), grande sucesso dos 1930, gravado por Carmen Miranda (1909-1955) e Mário Reis. 


Alô, alô responde

Se gostas mesmo de mim de verdade
Alô, alô responde
Responde com toda a sinceridade (alô, alô).

Tu não respondes e o meu coração em lágrimas
Desesperado vai dizendo alô, alô.
Ai! Se eu tivesse a certeza desse teu amor
A minha vida seria um rosal em flor (responde então).

Alô, alô responde
Responde com toda a sinceridade
Alô, alô responde
Se gostas mesmo de mim de verdade.

Alô, alô continuas a não responder
E o telefone cada vez chamando mais
É sempre assim… Não consigo ligação, meu bem
Indiferente não te importas com meus ais.


Link para a gravação:

https://www.youtube.com/watch?v=NS1hG3myF70 

quarta-feira, 2 de março de 2022

TRÁGICA HISTÓRIA DE UM PALACETE

A cidade de São Paulo ganhou um castelinho em 1912, em plena República. Situado na Rua APA, 236 (Santa Cecília), o palacete era propriedade do professor e empresário Virgílio Guimarães dos Reis, casado com Maria Cândida. O casal teve dois filhos. Em 1937, Virgílio morreu. Na época, Maria Cândida estava com 73 anos e tinha como companhia uma empregada que morava com o marido na edícula, sem comunicação com a casa. Os filhos, ambos advogados e solteiros, moravam nas vizinhanças.

Na noite do dia 12 de maio de 1937, ela jantou sozinha e mais tarde os rapazes chegaram para visitar a mãe. A empregada contou a polícia que os tiros foram ouvidos por volta das 21 horas. Quando a polícia chegou, encontrou os três corpos e um grande mistério que nunca foi desvendado. Após investigação constataram que foram usadas duas armas, uma delas de uso privativo do Exército, e ao todo foram disparados sete tiros. Quem atirou em quem? Havia uma quarta pessoa na casa? O motivo? A manchete sensacionalista (e mal escrita) do CORREIO DE S. PAULO dizia: “Matando a mãe e o irmão a tiros de ‘Parabellum’ advogado suicidou-se”. Suspeitou-se à época que fosse desentendimento sobre a divisão da herança de Virgílio dos Reis.

Enfim, o caso não foi resolvido. Sem herdeiros, o palacete tornou-se herança vacante e passou para o patrimônio da União. Nos anos de 1950, tornou-se residência da família Otávio Manzaro que lá morou até 1982. Depois o imóvel foi do abandono ao uso irregular como depósito para catadores de papel. O processo de tombamento, iniciado em 1991, se concretizou em 2004; mais treze anos até começar o restauro. Atualmente, é sede de uma ONG.

        Nos anos de 1990, foi cenário de uma peça que envolvia a plateia: o público acompanhava os atores pelos diversos cômodos da casa e, no final, todos participavam de um jantar cujo valor estava incluído no ingresso. 

    PS. ‒ Como alguém me perguntou por que a rua se chama Apa, informo que se trata do nome de um rio na fronteira do Brasil com Paraguai. 

Foto: Hilda Araújo, 27/02/2022. 

Fonte: Fundação Biblioteca Nacional.