No dia 5 de setembro de 1822, o Príncipe D.
Pedro deixava São Paulo com a sua comitiva para ir a Santos “a fim de assegurar o controle de uma tropa e
encontrar a família de José Bonifácio”. D. Pedro partira do Rio de Janeiro no
dia 14 de agosto com uma comitiva de cinco pessoas, que cresceu ao longo das
paradas. A viagem tinha por objetivo consolidar o apoio da província aos planos
para o futuro do Brasil. Ao chegar a São Paulo no dia 25 de agosto o grupo
contava com cerca de 30 pessoas. Parte da viagem de 12 dias foi feita a cavalo,
parte em mula.
segunda-feira, 5 de setembro de 2022
A VIAGEM DE D. PEDRO A SÃO PAULO
BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA
O encontro do jovem Príncipe Regente D. Pedro (24) com o aposentado José Bonifácio de Andrade e Silva (59) tornou possível a Independência do Brasil e mudou a história do Brasil. As desavenças políticas, que mais tarde separaram o Imperador do político, não impediram que D. Pedro I escolhesse José Bonifácio para ser o tutor de seu filho Pedro de Alcântara, o futuro imperador. José Bonifácio, formado em Ciências Jurídicas e Filosofia, foi um cientista reconhecido internacionalmente. Fez toda a carreira na Europa onde viveu 37 anos a serviço da Coroa portuguesa e só voltou ao Brasil e para Santos quando se aposentou.
Após passagem pelo Rio de Janeiro, desembarcou
em Santos em dezembro de 1819. A bagagem incluía a biblioteca composta de seis
mil livros e uma rara coleção de minerais (uma das maiores da época de acordo
com o historiador Jorge Caldeira). As chuvas torrenciais e a beleza da paisagem
o impressionaram após tantos anos; as emoções ficaram por conta do reencontro
com a mãe octogenária. Logo depois comprou um sítio, onde iniciou a produção
agrícola empregando apenas homens livres, e se integrou na vida da cidade e da
província (Estado), mas três meses depois já estava na estrada com o irmão
Martim Francisco, inspetor de minas de São Paulo, para uma excursão pelo
interior do Brasil. E, segundo Jorge Caldeira, possivelmente, são dessa época
as “Notas sobre a organização política do Brasil”, nas quais ele pensa “num
sistema de poder onde quatro órgãos [...] se encarregariam da condução dos
negócios públicos brasileiros, seguindo uma constituição feita pelos deputados
eleitos diretamente”.
Em
agosto de 1820 começou a Revolução Liberal do Porto. José Bonifácio cuidava da vida, quando em março de 1821
toma conhecimento das “instruções para a formação de um governo local via
eleições, além da escolha de deputados para as Cortes de Lisboa, que fariam uma
Constituição para todo o reino português”. José Bonifácio percebe a importância do fato para o Brasil e nesse
momento começa a nascer o estadista. Em 20 de maio: indicado pelos votantes de
Santos e São Vicente para representá-los nas eleições do novo governo paulista
e dos deputados que iriam a Lisboa; no dia 25 de julho, foi convidado por uma
comissão de eleitores a presidir a reunião, quando indicou as pessoas para
ocupar os diversos cargos e com aprovação unanime ficou como vice-presidente. A
situação, entretanto, mudou em dezembro, quando as Cortes decidiram extinguir a
regência no Brasil, assim como os órgão centrais de administração e os
tribunais superiores; os governantes das províncias não mais seriam eleitos,
mas indicados pelas Cortes e ordenaram a volta de D. Pedro a Portugal. Um retrocesso
que José Bonifácio
José Bonifácio reage imediatamente: no dia 24
de dezembro coordenou o lançamento de um manifesto do governo paulista em que
pedia a permanência de D. Pedro. O documento foi enviado para o Rio e para
Minas. O príncipe o recebeu no dia 1º de janeiro de 1822, mandou copiar e distribuir
pela cidade. Em São Paulo, José Bonifácio colheu assinaturas para uma representação
ao regente e com elas partiu para o Rio e, enquanto estava na estrada, D. Pedro
anunciou que ficaria no Brasil (9 de janeiro) e tropas portugueses rebeladas contra
a decisão do regente foram dominadas.
Quando chegou à capital, José Bonifácio foi
levado imediatamente para audiência com o regente. “Saiu da conversa como
primeiro ministro brasileiro nomeado por um governante português em 322 anos –
e como o político fundamental de um momento crucial.” O historiador Jorge
Caldeira afirma que “ele chegava ao cargo com um projeto político claro: montar
o que chamava de ‘centro de força e unidade’ no Brasil”.
quinta-feira, 1 de setembro de 2022
BICENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA
“Devemos, sim, comemorar a Independência, mas cientes das limitações dela, pois, no mundo ‘globalizado’, o Brasil continua tremendamente dependente dos países mais desenvolvidos. Temos uma independência mais nominal que real. Celebrar ou não é questão de gosto. Para mim o presente sempre preocupou mais que o passado. Neste eu procuro asa raízes daquele. Vejo a História como uma forma de compreender o presente. Nunca fui uma colecionadora de histórias.” Emília Viotti da Costa (1928-2017) foi professora emérita da USP e de História da América Latina da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. Fonte: Revista da Biblioteca Nacional.
terça-feira, 30 de agosto de 2022
JOSÉ BONIFÁCIO, O CIENTISTA.
Homem
culto e viajado, um cientista que percorreu a Europa numa época tumultuada pela
Revolução Francesa, o que deixou nele profundo receio dos levantes populares e
das revoluções, José Bonifácio de Andrade e Silva confessava ser amante da liberdade controlada,
da monarquia constitucional, inimigo dos despotismos, contrário à escravidão do
negro, favorável à concessão do voto às mulheres e crítico do latifúndio
improdutivo. Desprezava homens servis e bajuladores e aqueles que disputavam
títulos de nobreza.” Emília Viotti da Costa (1928-1917), professora emérita da
USP e professora da Universidade de Yale nos Estados Unidos. Revista de
História da Biblioteca Nacional.
José
Bonifácio de Andrade e Silva nasceu em Santos, no dia 13 de junho de 1763. Os
pais, Bonifácio José Ribeiro de Andrade e Maria Bárbara da Silva, eram
abastados e descendentes de famílias tradicionais portuguesas. José Bonifácio
foi o segundo dos dez filhos do casal; Antônio Carlos Ribeiro de Andrade e
Martim Francisco Ribeiro de Andrade, que desempenharam importantes papeis na
História da Independência, foram os sétimo e oitavo. Aos catorze anos, José
Bonifácio mudou para São Paulo, iniciando os estudos preparativos para o
ingresso na Universidade de Coimbra para onde partiu em 1783, mesmo ano em que se
matriculou no curso jurídico e, paralelamente, fez o curso de Filosofia. Estudante
brilhante, de acordo com historiadores, em cinco anos concluiu os dois cursos e
obteve dois diplomas acadêmicos.
“José
Bonifácio devia também à Universidade de Coimbra o inicio de uma sólida
formação como naturalista. Domingos Vadelli (1730-1816), seu professor de História
Natural, reconhecendo sua inteligência e inclinação para todas as matérias
relacionadas ao estudo do universo físico, encarregara-se de recomendá-lo ao
duque de Lafões (1719-1806) presidente da Academia” – escreveu a professora Ana
Cristina de Araújo, da Universidade de Coimbra. O talento do jovem e o patrocínio do
duque impressionaram os membros da academia. Com apenas 26 anos ingressou como
sócio livre na Academia Real das Ciências de Lisboa.
O seu primeiro trabalho para a Academia foi sobre “a pesca das baleias e a extração de seu azeite, com algumas reflexões a respeito de nossas pescarias”. A professora Ana Cristina de Araújo afirma que uma década mais tarde, seus méritos como homem de ciência, dotado de um espírito livre e tolerante, já eram reconhecidos em toda Europa e ratificada pelas principais academias e centros de saber de Paris a Iena, de Berlim a Upsala, de Londres a Viena”.
A vida intelectual não interferiu no lado amoroso:
casou-se em 1790 com Narcisa Emília O'Leary, uma jovem órfã irlandesa, nascida
em 1770 que imigrara para Portugal, onde vivia com uma tia. Logo em seguida
José Bonifácio inicia sua carreira internacional, sempre com o apoio do duque e
de diplomatas: durante dez anos percorreu os mais importantes centros
científicos europeus na companhia de Manuel Ferreira da Câmara e Joaquim Pedro Fragoso.
A conjuntura politica da Europa, entretanto, não lhe escapa. “Pretendia, com o
que vira praticado em outras nações e com os conhecimentos que adquirira,
dinamizar, em primeiro lugar, o desenvolvimento das atividades econômicas,
modernizando tecnologicamente a indústria, em especial a metalurgia, difundindo
ensinamentos aos agricultores e fabricantes, melhorando as infraestruturas
várias, tirando o melhor partido das riquezas naturais e auxiliando o progresso
material com o incremento do bem-estar, da educação e da saúde das populações.”
A professora Ana Cristina Araújo afirma que José Bonifácio “revelou grande
competência e brio no serviço que prestou à Coroa portuguesa. Durante as
invasões francesas (1807-1811) participou ativamente do movimento libertador,
integrando o corpo voluntário de batalhões acadêmicos. Pegou em armas, preparou
munições e coordenou operações militares”.
Entre 1800 e 1819, José Bonifácio ocupou altos
cargos no governo de Portugal; apoiou a vinda da Família
Real para o Brasil porque “se o Rei não passasse ao Brasil, perdia-se de certo
este ou pelo ataque dos ingleses, ou pelo levantamento dos colonos”. (Ana Rosa
Clorclet da Silva, professora da UNICAMP. A comitiva real partiu em 29 de novembro
de 1807, aportando em Salvador em 22 de janeiro de 1808.
José Bonifácio de Andrade e Silva só retornou ao Brasil em 1819, mas esta é outra História.
Fontes: Revista de História da Biblioteca Nacional (Ano 2, Nº24, Setembro, 2007.
sexta-feira, 26 de agosto de 2022
UM MANEQUIM E DUAS HISTÓRIAS
A
Sears, inaugurada em Santos na década de 1950, ocupava um prédio enorme na rua
Amador Bueno com saída pela avenida São Francisco. Em meados dos anos 1970, depois
de uma compra, estava na fila do caixa, quando esbarrei em alguém, pedi
desculpas e a pessoa não se moveu. Olhei e... lá estava ele, rígido, com o olhar
fixo em algum ponto da loja, impávido, indiferente... O manequim. Nada demais,
não tivesse contado o incidente para alguém que achou divertidíssimo e a
história se espalhou: Hilda cumprimentou um manequim! Muito tempo depois, já
morando em São Paulo, fui apresentada a uma pessoa como “a minha amiga que cumprimentou
um manequim”.
Por causa disso desenvolvi um certo temor por essas figuras, nada semelhante à história de um episódio de Twilight Zone (“Além da Imaginação”) em que os manequins criam vida quando a loja encerra o expediente para horror de um cliente perdido; contudo, quando vou a algum lugar em que haja manequins presto atenção para evitar algum mal-entendido. Em 2017, fui visitar a graciosa casa de Betsy Ross, a costureira que teria criado a bandeira americana. Era a única pessoa por lá naquela tarde. Percorri os aposentos silenciosos, satisfeita pela tranquilidade que sempre proporciona momentos de reflexão. Ao descer as escadas para um dos cômodos a vi sentada à mesa – simpática, imóvel, com um sorriso estampado no rosto, roupas de época, mas eu estava mais interessada no mobiliário do século XVIII, quando ouvi o “Hello!”. Confesso que foi um susto e tanto e ela percebeu. Rimos, conversamos rapidamente e fiz a foto dela para não esquecer o dia em que a situação se inverteu e confundi um humano com um manequim... Dessa vez não contei para ninguém.
A moça que atua na Betsy Ross House, 239 Arch St, Philadelphia, Pensilvânia. Setembro de 2013.
(Há
também um episódio da série CSI New York em que o funcionário de uma loja de
departamentos, viúvo e solitário, comemora o aniversário de casamento dançando
tango com um manequim no depósito...)
domingo, 21 de agosto de 2022
SÁBADO GELADO
Um frio escandaloso, mas reclamar do quê? É inverno. O sábado amanheceu com o jeito paulistano das crônicas de Guilherme de Almeida (1890-1969). Cinzento e uma garoa fina cai silenciosa. Tão silenciosa que o sabiá madrugador ensaiou uma cantoria e desistiu; um passarinho indiscreto diz lá do seu ninho “bem-te-vi”, mas logo cala o bico e arrepia as penas para se proteger do vento. Café quentinho, o pão no ponto e inicio os planos para devolver os livros na biblioteca sem congelar no caminho. Desisto do ônibus depois de uma longa espera ao lado de vizinhos encolhidos que consultam o aplicativo dos transportes. Prefiro a surpresa ou alívio do aparecimento do monstrinho subindo a ladeira. Metrô quase vazio, ao contrário dos corredores do Centro Cultural São Paulo. O pessoal da dança está em plena atividade – rapazes e moças ensaiam coreografias mirabolantes em frente aos vidros que refletem imagens juvenis. Três jovens observam um dançarino que, não fosse o entorno, diria que estava em convulsões – preconceito de uma senhora que viveu os tempos em que Elvis foi mal visto e Chubby Checker, incompreendido. Mas havia novidade no pedaço, que vai deixando para trás o vazio daqueles dias sombrios da pandemia. À primeira vista pareciam um bando de cangurus saltando pelo corredor próximo à biblioteca. Deve ser um novo esporte saltar por aí com as duas pernas ao mesmo tempo, separadas e flexionadas. Penso com meus botões que os cangurus fazem há isso há milhares de anos, mas em solo macio, nas pradarias australianas que habitam. Cimento não me pareceu adequado para esses saltos. Enfim, escolhi os livros e voltei para casa abastecida para as tardes frias que a meteorologia promete. No final da tarde, dois passarinhos no parapeito da janela me espiavam através da vidraça, ansiosos por sua quirera antes de se recolherem...
sexta-feira, 19 de agosto de 2022
PATRIMÔNIO SANTISTA
Coincidência ou não, dois amigos, no mesmo dia, me falaram
do “bondinho” do Monte Serrat – o funicular que há quase um século transporta
moradores, crentes e turistas entre a Rua Itororó e o topo do antigo morro do
Vigia em Santos. Lá em cima, como indica o nome original, se tem uma visão de
quase 360º da região – a Ilha de Santo Amaro, as praias de Santos e o Porto... Lá
de cima (o ponto mais alto fica a 147 m do nível do mar), os pioneiros do
século XVI podiam perscrutar a costa para se resguardar do inimigo, de piratas
e corsários, mas principalmente aguardar a chegada de naus amigas com notícias,
mercadorias e encomendas de Portugal. O “bondinho” foi inaugurado em junho de 1927.
Para os muito devotos, o caminho ainda é pela
escadaria de 430 degraus, com direito a uma paradinha nos patamares para
admirar as esculturas de bronze em alto relevo que representam a Via Sacra. A
escadaria chama-se Monsenhor Moreira em homenagem ao sacerdote português José
Benedito Moreira que foi transferido para o Brasil após atuar na Índia, Japão e
Estados Unidos. Serviu no Rio de Janeiro e em Petrópolis, onde fundou o Colégio
Moreira e permaneceu por 32 anos até se estabelecer em Santos, onde continuou a
se dedicar ao ensino. Apesar da idade avançada subia o monte Serrat todos os
dias para cumprir suas atribuições sacerdotais. Era estimado por todos. Ele
faleceu em 6 de setembro de 1924, ocasião em que o vereador Benedito Pinheiro,
após solicitar a consignação de voto de pesar pela morte sacerdote, sugeriu que
se desse o nome dele ao caminho.
Na década de
1930, M.
Nascimento Júnior, diretor do jornal A TRIBUNA, lançou uma subscrição pública
para a instalação dos quadros da Via Sacra ao longo das escadarias. O primeiro
nicho foi inaugurado em fevereiro de 1939, ano em que se comemorou o centenário
de elevação de Santos à categoria de cidade; o segundo e terceiro nichos foram
entregues no dia da padroeira da cidade – Nossa Senhora do Monte Serrat –
daquele mesmo ano. Os demais demoraram mais: a inauguração ocorreu em 13 de
setembro de 1941.
Um dos meus amigos lembra, saudoso, do
tempo de criança em que a família subia o morro pelas escadarias e quando
chegava ao topo fazia um delicioso convescote em que não faltavam sanduíches de
pernil e vinho (para os adultos, claro). Descansavam e desfrutavam da paisagem
litorânea. O outro, um jovem senhor com uns cinquenta e poucos anos, talvez, visitando
a cidade resolveu fazer o passeio da infância. “Não me lembrava mais do
bondinho, nem sei se já funcionava.” Dou risada e explico que, com certeza,
existia e há bastante tempo! Provavelmente, subiu a pé.
Eu subi duas ou três vezes pelas escadarias para fazer reportagens
e durante uma delas o entrevistado, gentilmente, insistiu para que eu tomasse
um copão de garapa feita por ele e que tive que aceitar. Eu detesto garapa,
embora goste muito de cana-de-acúcar.
terça-feira, 16 de agosto de 2022
GOLPISTA SIMPÁTICA
Sexta-feira, no meio da tarde, em plena rua Vergueiro, calçada
lotada de estudantes do Etapa em intervalo de aulas, aproveitavam o sol. A moça,
uns 30 anos se tanto, usando máscara, passou por entre os jovens e me abordou
toda simpática, como se fôssemos velhas amigas. “Olá, como vai a senhora? Passeando?”
Não a reconheci, mas eu estava de bom humor e retribui o cumprimento, disse que
ia resolver problemas e pretendia seguir meu caminho, mas ela continuou, apesar
de não ter me mostrado tão entusiasmada como ela com o encontro. “A senhora não
está me reconhecendo, não é? Sou do banco”. Por mais distraída que eu seja e
apesar da máscara, com certeza não era do banco. Disse que ela estava me
confundindo com outra pessoa. Garantiu
que não, nos conhecíamos do BB, sorri e disse que não tenho conta no BB, mas
ela não perdeu a linha: tinha saído do BB e estava no Bradesco. Já certa de que
a figura tinha todas as más intenções, não desmenti. Em seguida me perguntou se eu já tinha ido
atualizar meu cartão de crédito e, quando me mostrei surpresa com a novidade,
ela “explicou” que era medida recente e aquele era o último dia para fazer o
procedimento e se não o fizesse o cartão seria bloqueado. Ela pareceu realmente
preocupada – acho que até mais quando eu disse que passaria na agência para
resolver o “problema”. Então a esperta me informou que a agência estava fechada
para desinfecção do COVID e muito solícita me perguntou se eu me lembrava do
número do cartão para ligarmos e tentar regularizar a situação. Sorri e disse
que não tinha ideia do número do cartão. “Vão bloquear” – avisou com cara de
pena pela minha futura situação. “Não faz mal, se bloquearem terão que
desbloquear e nesse período não gasto, economizo. Segunda-feira resolverei. Tchau.
Um ótimo fim de semana para você.” E lá fui eu, certa de que ela era uma
golpista frustrada. Ontem passei no banco por outro motivo e conversei com a
gerente, que ficou surpresa com o novo golpe. Então, amigos, cuidado!
domingo, 14 de agosto de 2022
SANTOS NOS ANOS DE 1950
A década de cinquenta começou com uma importante iniciativa: a criação
da Sociedade Visconde de São Leopoldo com “a finalidade a de criar, organizar,
manter e dirigir faculdades e estabelecimentos de ensino superior na Baixada
Santista”. A Sociedade foi fundada em 28
de agosto de 1951 pela Mitra Diocesana por iniciativa do bispo Dom Idílio José
Soares (1887-1969).
A Sociedade Visconde de São Leopoldo instalou-se no casarão com colunas
amarelas, situado na Avenida Conselheiro Nébias, 589. Nos fundos, construiu-se
um prédio onde começou a funcionar a Faculdade de Direito de Santos – a segunda
instituição de ensino superior da cidade, a primeira foi a faculdade de Santos
foi a de Ciências Econômicas e Contábeis, na década de 30. O presidente Getúlio
Vargas assinou o decreto nº 31.134, autorizando o funcionamento do curso de
bacharel em Direito, no dia 15 de julho de 1952. A instalação da Faculdade
ocorreu em 23 de novembro daquele mesmo ano e contou com a presença do
governador do Estado, Lucas Nogueira Garcez, do cardeal arcebispo de São Paulo,
D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota. Dom Idílio José Soares, bispo de Santos,
abriu a solenidade, presidida pelo diretor do Fórum e professor de Direito
Constitucional, Ademar de Figueiredo Lyra.
O primeiro vestibular realizou-se ainda em 1952 com provas dissertativas.
Inscreveram-se 196 candidatos dos quais 150 foram aprovados. O primeiro
colocado foi Walter Theodósio. As aulas começaram em 14 de março de 1953. Os
alunos trataram logo de criar o Centro Acadêmico "Alexandre de
Gusmão", fundado em 1953 e declarado de utilidade pública em 1959. O
endereço da Faculdade de Direito de Santos ainda é o mesmo, mas a famosa Casa
Amarela foi demolida dando lugar ao prédio atual.
De
acordo com o IBGE, nessa época, 80% dos habitantes de Santos eram
alfabetizados. A cidade dispunha de 146 unidades de curso médio; 15 ginasiais,
6 colegiais, 8 comerciais, 7 artísticos, 6 pedagógicos e 75 de outro tipo.
Foto: Casarão da FAFIS em 11 de julho de 2009, dia em que os ex-alunos se reuniram para se despedir da velha casa repleta de muitas lembranças, esperanças e decepções..
PONTA DA PRAIA: ANOS 1950.
Os anos de 1950 foram importantes para a Ponta da Praia, onde se
concentravam as atividades pesqueiras e a colônia nipo-brasileira da cidade.
Naquela época, “havia apenas a praia, sem asfalto, sem prédios, sem avenidas
litorâneas. Éramos ligados ao cais com a linha férrea Forte Augusto. A única
rua existente era a Avenida Rei Alberto I, que já fazia a ligação da cidade de
Santos com o Guarujá, através da balsa. Ir ao Macuco, nem sonhando. Tínhamos
que atravessar uma pequena floresta. Poucas casas, muita banana e até mexerica
havia no sítio dos Maringheli. Havia, também, muitos manguezais”. Trecho de
depoimento de antigo morador. (www.novomillenio.com.br em 24 de dezembro de 2007.)
Ali funcionavam pequenos estaleiros onde se construíam e
consertavam barcos de pesca; era o local de embarque e desembarque de
pesqueiros. O IBGE registrava a existência de 850 pescadores em Santos. A
infraestrutura disponível compunha-se de 170 canoas; 40 baleeiras; 76 botes; 2
traineiras; 126 cutters motor; 30 iates; 2 navios; 4 chatas.
No dia 19 de maio de 1953, nascia a Cooperativa Mista de Pesca
Nipo-Brasileira, formada por profissionais que acreditavam no trabalho em comum
para organizar e racionalizar as atividades do setor e do comércio de peixe. Em
23 de janeiro de 1958, começou a funcionar o Entreposto de Pesca de Santos.
Como
uma coisa leva à outra, trabalho e lazer, no dia 1º de fevereiro de 1957, presidida
por Jorge Nakai e secretariada por Tokuji Ono, realizou-se a assembleia de
fundação do Estrela de Ouro Futebol Clube. A ata foi registrada no dia 5
de abril e no dia 31 de maio, a entidade comprava o terreno de 15 X 65 m, ao
preço de CR$ 225.000,00, com frente para a Rua César Lacerda de Vergueiro. O
dinheiro para a aquisição foi levantado com contribuições e a realização de tanomoshi,
com a primeira parcela doada ao Estrela, além de outras campanhas de
arrecadação de fundos. O primeiro presidente eleito do Estrela foi Jorge Nakai
e o vice-presidente, Hisao Nakanishi. A partir de 1959 o clube começou a exibir
filmes japoneses e a participar do carnaval santista – que depois de um dilúvio
no primeiro baile passou a promover a festa no Restaurante Jangadeiro. Em 31 de
janeiro de 1966, por escritura pública, o clube adquiriu o terreno da praia por
Cr$ 210.000,00, dando como parte de pagamento o terreno adquirido no Jardim
Nova Era, que foi recebido por CR$ 60.000,00.
Para quem não conhece, tanomoshi é um tipo de consórcio de dinheiro que não cobra juros nem taxas. É um costume na colônia japonesa desde o início da imigração ao Brasil e que há muitos anos é aberto a amigos brasileiros.
No dia 23 de janeiro de 1958, foi inaugurado o Entreposto de Pesca de
Santos, que dispunha de pier para descarga do pescado, câmaras
frigoríficas para a estocagem do pescado, produzia gelo, vendido pelo menor
preço da praça, além de outras instalações. Em 1968, Santos contava com 66 empresas de pesca ou armadores de pesca, além
de quatro cooperativas de pesca.
Estrela de Ouro: Av. Rei Alberto I, 372, Ponta da Praia, Santos. Há um restaurante aberto ao público bastante elogiado.
sábado, 13 de agosto de 2022
ANOS 1950, GRANDES MUDANÇAS.
É tarde. Os marujos
ficarão ao largo. Nesta
noite não vão descarregar
suas agonias nas bocas
pesadas.
Vão ficar de longe, espiando
os anúncios luminosos que
piscam debochando dos tristes
por esta noite de solidão
Plínio Marcos (1935-1999), dramaturgo
santista.
O Porto gerou a vila, que gerou a cidade, que enriqueceu o município e a maior parte da população abandonou suas origens: nos anos cinquenta, quase todas as famílias já haviam migrado para os bairros além dos morros, aproximando-se da praia. O centro, já em decadência, cedeu lugar aos prostíbulos, bares baratos, boates de baixo nível frequentadas por marinheiros, marítimos e por um certo público sofisticado que gostava desse submundo bizarro. Em 1957, o Porto de Santos já contava com 6.260 metros de cais em operação, com várias instalações especiais. A ilha de Barnabé, da Companhia Docas de Santos, abrigava 43 tanques de aço, com a capacidade total de 211.102 m³; no cais do Valongo, Saboó e Valongo, mais 16 tanques metálicos destinavam-se a receber óleo cru e óleo combustível. Os Armazéns compreendiam uma área coberta de 301.084 metros.
O café continuava sendo o
principal produto de exportação. Segundo dados do IBGE, o índice do preço de
exportação de café em 1951 foi de US$ 110,94 a saca e foi aumentando até
atingir em 1954 o valor de US$ 127,56 para cair no ano seguinte para US$ 105,60. Em 1952, foi criado o Instituto
Brasileiro do Café –-IBC,
formado principalmente por cafeicultores. A função do IBC era definir as
diretrizes da política cafeeira. Entre as suas primeiras ações incluem-se a
regulamentação de embarque de café e a criação de um escritório em Nova York e
agências em Santos, Rio de Janeiro, Angra dos Reis, Vitória, Salvador e Recife
além de agências estaduais nas regiões produtoras.
No final dos anos cinquenta,
aconteceu a grande revolução nos transportes marítimos de carga com a adoção do
sistema de contêineres. As principais consequências do novo modelo foram mais
rapidez, segurança e economia, porém, com significativa diminuição dos postos
de trabalho.
Foi por essa época que teve início
o processo de industrialização da Baixada, que absorveria mão de obra local e
ainda atrairia trabalhadores de todo o país.
Cai cai balão, cai cai balão
Na rua do sabão
Não Cai não, não cai não, não cai não
Cai aqui na minha mão!
Folclore brasileiro.
Cubatão já deixara de
pertencer a Santos no final dos anos de 1940. A campanha pela emancipação de
Cubatão ganhou força com o apoio do deputado estadual Lincoln Feliciano
(1893-1971) e em 17 de outubro de 1948 realizou-se o plebiscito que decidiu
pela emancipação política do distrito. Foram 1.017 votos pró desmembramento, 82
votos contra e um voto em branco. Com este resultado, o governador Ademar de
Barros (1901-1969) sancionou a Lei nº 283 de 24 de dezembro do mesmo ano,
fixando o quadro territorial e administrativo do Estado.
Os
anos cinquenta marcaram o início da industrialização do município, com reflexos
sobre toda a Baixada Santista. A primeira a chegar foi a Companhia Siderúrgica
Paulista – COSIPA, constituída em 23 de novembro de 1953. De acordo com
Martinho Prado Uchoa, um dos fundadores da empresa, a ideia surgiu em 21 de
abril de 1951, durante uma visita às instalações da Companhia Siderúrgica
Nacional (CSN), a primeira usina de coque do Brasil. O interessante na história
de Plínio é que a sugestão da usina já foi apresentada com nome e endereço: ela
seria em Cubatão e batizada como Companhia Siderúrgica Paulista. A ideia foi
bem recebida, conseguiu apoio da Assembleia Legislativa e da imprensa. O grupo
que se constituíra para implementar o projeto conseguiu comprar o terreno de
aproximadamente 70 alqueires, ou seja, cerca de 4,1 milhões de metros quadrados,
em Piaçaguera, Cubatão, de propriedade de Adelino da Rocha Brites.
Embora tenha sido pioneira, foi
a Refinaria Presidente Bernardes que começou a operar primeiro. A inauguração
da primeira parte do projeto da COSIPA – Usina José Bonifácio de Andrade e
Silva, entretanto, só aconteceria na década seguinte: 18 de dezembro de 1963. Em 1993, a COSIPA foi privatizada em leilão,
passando a ser controlada pela USIMINAS, mas só em 2009 teve o nome alterado,
mas essa é uma outra história... (Ver Museu Virtual da COSIPA.)
Depois
de uma ampla mobilização e de demoradas negociações, em 3 de outubro de 1953, o
presidente Getúlio Vargas sancionou a Lei nº 2004, criando a Petrobrás e
instituindo o monopólio estatal do petróleo. Na época, o País consumia cerca de
70 mil barris por dia
– o principal produtor brasileiro era o Recôncavo Baiano e a complementação era
feita com importações da Venezuela e da Arábia Saudita. A Refinaria Presidente
Bernardes de Cubatão começou a operar com uma vazão de treze mil barris por
dia. A meta na primeira etapa era processar diariamente 45 mil barris.
O
recrutamento da mão de obra tinha um atrativo especial: os salários já que a
maioria dos postos exigia trabalho em turnos, que incluía os fins de semana.
Para preparar a mão de obra especializada, além da ajuda do Serviço Nacional da
Industria – SENAI, foi organizado o Centro de Treinamento de Cubatão. Os
engenheiros foram preparados no Centro de Aperfeiçoamento e Pesquisas de
Petróleo – CENAP.
A inauguração da Refinaria
aconteceu em 16 de abril de 1955. Com esta nova fase, acaba uma das tradições
de Santos: os balões que nas noites frias de junho que iluminavam os céus da
cidade. Uma curiosidade: o balão dos presos fazia parte dessa tradição. Na
época das festas juninas, os presidiários lançavam uma campanha de arrecadação
de dinheiro a fim de comprar material para confeccionar o balão. A imprensa
costumava colaborar, divulgando a pedido dos presidiários e o balanço da
arrecadação. Assim, no dia marcado, a população ia ver o balão dos presos
subir.
sexta-feira, 12 de agosto de 2022
SANTOS NOS ANOS DE 1950
A segunda metade do século
XX começou com esperança renovada (apesar da ameaça nuclear) e festas de
réveillon inesquecíveis no Clube XV, no Parque Balneário e no Grill do
Atlântico entre tantas outras realizadas na cidade. Enquanto o o presidente Eurico Gaspar Dutra (1883-1974) preparava-se
para deixar o governo, o ex-ditador Getúlio Vargas (1882-1954) arrumava a mudança para o
Catete, agora com o aval do voto popular.
A grande luta
de Santos no início dos anos cinquenta foi a reconquista da autonomia política,
perdida no período do Estado Novo instalado por Vargas. O deputado federal Antônio
Feliciano da Silva (1899-1986) iniciou uma campanha na cidade para que o município
reconquistasse a autonomia, apresentou projeto de lei que foi aprovado pelo
Congresso Nacional e sancionado pelo presidente da República. As eleições para prefeito foram
convocadas para 22 de março de 1953. O vencedor foi o candidato Antônio
Feliciano da Silva (mera coincidência) cujo mandato foi de 14 de abril de 1953
a 14 de abril de 1957. No período seguinte, assumiu o engenheiro Sílvio
Fernandes Lopes, eleito para o período de 1957 a 1961.
Com uma população de 203.562 habitantes, Santos iniciava a nova década com um perfil diferente. Estava, fisicamente, menor – pois perdera Guarujá em 1934 e, em 1948, Cubatão. A infraestrutura urbana compunha-se de 343 logradouros calçados com paralelepípedos ou pavimentados com macadame e asfalto. Havia 42.394 domicílios com água; 39.394 domicílios com luz; mas apenas 21.598 prédios com esgoto. O município dispunha de 24.000 aparelhos telefônicos.
Em
1956 havia em Santos 450 estabelecimentos industriais – entre grandes e médios
com mais de cinquenta pessoas empregadas, além de centenas de pequeno porte. A
cidade tinha sete mil operários. O comércio funcionava com 3.530
estabelecimentos varejistas e 138 empresas atacadistas. Havia 53
estabelecimentos de crédito. O setor de serviços contava com 98 hotéis; 191
pensões; cinco hospedarias e cinquenta casas de cômodos. As diárias variavam de
CR$ 150 a CR$ 550.
Entre as
empresas destacavam-se: A Leoneza (fábrica de doces e goiabadas);
Christian e Nielsen – Construção Civil, Companhia Açucareira Santista,
Companhia Antarctica Paulista, Companhia Docas de Santos, Companhia Usinas
Nacionais (açúcar), Fábrica de Gelo Vila Mathias, Faé & Cia. (metalúrgica
de chumbo), Gomes, Santos e Cia. – roupas (SEMOG), Ind. e Comércio Luiz XV –
Colchões de Molas, Sofás e Poltronas, José de Matos e Cia. Ltda. Moagem e
Torrefação de Café, Moinho Santista, Moinho Paulista, Pereira Mendes Ltda.
Moagem e Torrefação de Café, Química Industrial Blume (cera), S. A. Alcyon
(sardinhas), S. A. Indústria de Refinação Francisco Matarazzo (moagem de sal), The
City of Santos Improvements Co. (eletricidade e gás), Tipografia Carvalho,
Usina Hidrelétrica de Itatinga e as Casas Pernambucanas – entre as mais antigas.
Na orla, os casarões desapareciam, os prédios multiplicavam-se e os jardins da orla já se estendiam do José Menino à Ponta da Praia. Os guarda-sóis coloriam a faixa de areia e, embora muita gente aparecesse de terno ou de vestido para um passeio pela praia, o corpo feminino já era uma atração à parte.
TÚNEL – Santos estava crescendo. Circulavam pela cidade 4.763 automóveis e 2.663 caminhões. O caminho do Centro para a praia poderia ser mais simples e rápido, se houvesse uma passagem sob os morros do Bufo e do Fontana. Em vez de contornar o morro pelas avenidas de São Francisco, Senador Feijó, Rangel Pestana até o Jabaquara, o túnel seria uma excelente alternativa para o trânsito que já preocupava desde o final dos anos quarenta.
O Prefeito
Rubens Ferreira Martins decidiu pôr mãos à obra e em 22 de dezembro de 1949 o
túnel começou a ser construído sob o Monte Serrat. O projeto e as obras foram
executados pelo Departamento de Estradas e Rodagem – DER. O prazo de dois anos
previsto no cronograma não foi cumprido por causa dos custos e de problemas
financeiros da Prefeitura. A primeira pista do túnel só foi entregue no dia 6
de setembro de 1954, quando o prefeito era Antônio Feliciano; a segunda foi
inaugurada em 23 de dezembro de 1955. Elas têm 400m de extensão. O Túnel Rubens
Ferreira Martins ganhou esta denominação através da Lei nº 2.756 de 11 de
novembro de 1963. (Continua.)

quarta-feira, 10 de agosto de 2022
LEMBRANÇAS
Pelo
Terminal Rodoviário do Jabaquara, passam os trens do metrô de São Paulo no
subsolo, os ônibus para a Baixada Santista no térreo e aviões que cortam o céu com
destino desconhecido. Passageiros que aguardam o embarque para Santos, Guarujá
ou Peruíbe podem se gabar de ter sempre oportunidade de observar de perto os trens de
pouso das aeronaves sendo recolhidos... A foto é de 10 de agosto de 2018. A TAM
não existe mais; desde 2016 faz parte da LATAM.
terça-feira, 9 de agosto de 2022
ANDANÇAS DE AGOSTO
Um
dia nublado, temperatura agradável (17º), ideal para uma caminhada a pé até a
Sé. Cinquenta minutos, apenas uma ladeira no início da rua Conselheiro Furtado.
Embora conheça bem o trajeto, sempre há novidades. A loja de produtos para bichos
de estimação, por exemplo, restaurou a pintura externa e ficou bem
interessante. Na vitrine um gato dorme no cesto (rua Pires da Mota). Já na
Conselheiro Furtado, aprecio de passagem os jardins do templo budista, sempre
muito bem cuidados. Mais à frente há o Templo Lohan, onde também funciona um
museu que qualquer dia visitarei. Quase na esquina da rua da Glória, uma cena
deliciosa: a moça passeia com um cachorro simpático – nem grande nem pequeno,
quando de uma loja sai um galo já meio passado que, em defesa de seu espaço, ataca
o cão. O pet se assusta e se aconchega à dona que bate em retirada. Vitória do galo
que faz ponto junto a uma bicicleta estacionada na calçada. Continuo a caminhar pelas
ruas Anita Garibaldi, das Flores e do Carmo. Um detalhe importante: esse deve
ser o lugar mais perfumado de São Paulo, pois nessas três ruas há dezenas de
lojas de essências para todos os gostos e narizes. Na volta da andança fui
conhecer o Bombacafé. Eta nome ruim! Inaugurado há um ano no espaço em que funcionou
a Associação dos Ex-Combatentes de 32, o café fica ao lado do comando do Corpo
de Bombeiros, daí o nome... Toda a decoração homenageia os bombeiros. Enfim, os
bolos pareciam muito apetitosos e voltarei para provar uma fatia. Hora de
retornar para casa.
domingo, 7 de agosto de 2022
OS SOLTEIROS DE ANTIGAMENTE
Estou dando boas risadas com o “Guia Do Solteiro”. Claro que foi escrito antes do “delivery tudo” e do supermercado Oxxo (perto daqui tem três), sem contar que os solteiros (pelo menos os que conheço) mudaram muito, são organizados e adeptos de uma vida saudável. Na verdade, o livro é uma zombaria geral, em especial com os homens que vivem só, escrito no estilo adotado para shows tipo “stand up” ou em monólogos de humor. O escritor, P.J. O’Rourke, foi um jornalista americano (casado) e colaborou com grandes revistas de humor e trabalhos para o cinema. Morreu no início deste ano. Não o conhecia.
Logo
no início do livro ele diz que “Camus estava errado sobre o mito de Sísifo –
não é um símbolo da vida, e sim da manutenção da casa.” Para quem não sabe Sísifo é um personagem da
mitologia grega que os deuses condenam a rolar um bloco de pedra montanha acima;
porém, quando chega ao cume, a pedra rola montanha abaixo por seu próprio peso
e Sísifo recomeça a tarefa que dura para sempre porque se parar ele morrerá.
Um
dos problemas que ele ressalta na vida do solteiro é a alimentação. Fazer
compras, ter todos os ingredientes para cozinhar e cozinhar – o problema é o
resultado, que pode ser um desastre culinário. Assim, o solteiro frequentemente
tem que improvisar com o que tem, o que resulta em um pesadelo – como sanduíche
de baconzitos, omelete de cereja ao marasquino ou sanduíche de molho de
pimenta e maionese.
Ele
diz que “nomenclatura é uma parte importante da culinária do solteiro. Se você
chamar de “torrada de queijo à italiana”, não é assim tão terrível comer pizza
requentada no café da manhã”. Sobre frutas: “Uma fruta é um legume com boa
aparência e dinheiro. Além disso, se você deixar a fruta apodrecer ela vira
vinho. Uma coisa que a couve-de-bruxelas nunca vai conseguir”.
“Ser
um solteirão me transformou em dona de casa. E das piores. E agora tenho uma
visão diferente do papel tradicional da mulher na sociedade. Uma dona de casa
precisa ser uma química, engenheira, mecânica, economista, filósofa e viciada
em trabalho. Só para recolher sua própria bagunça.“ Descobri o livro bisbilhotando as prateleiras da Biblioteca Sérgio Milliet, fiquei curiosa e a leitura valeu pelas risadas neste fim de semana frio e nublado.
“Guia do solteiro: como
fazer de sua casa um confortável chiqueiro”, de P.J. O’Rourke (1947-2022). Conrad
Livros, 2001.
quarta-feira, 3 de agosto de 2022
ÓTIMA NOTÍCIA
Depois
de exatamente quatro anos a rua Nicolau de Sousa Queirós, na Aclimação, será
aberta ao trânsito. Na manhã de 7 de agosto de 2018, a Defesa Civil interditou
dois prédios que apresentaram problemas na estrutura. Ruídos estranhos
alertaram os moradores que tiveram que sair dos apartamentos com a roupa do
corpo, documentos e valores. Situação dramática para proprietários, inquilinos
e funcionários que de repente ficaram ao léu. As duas linhas de ônibus, que servem
a região foram transferidas para a rua Topázio, o que acabou afetando a vizinhança. Além de ter que buscar moradia
de uma hora para outra, os proprietários tiveram um problema a mais: as obras de
recuperação ficaram bem caras, segundo reportagem da época. A partir de domingo todos estarão de volta. Espero.
domingo, 31 de julho de 2022
O PEQUENO PRÍNCIPE
“Aqueles
que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si,
levam um pouco de nós.” Antoine de Saint-Exupéry (1900-1944), escritor e
aviador francês que morreu durante a II Guerra, numa segunda-feira, 31 de julho
de 1944. Ele é o autor de “O Pequeno Príncipe”, livro lançado em 1943 e que
nestes 79 anos vendeu 200 milhões de cópias em todo o mundo.
sexta-feira, 29 de julho de 2022
SILÊNCIO
"Quem não enlouqueceu um dia ao ouvir seu vizinho cortando a grama sistematicamente todos os domingos na hora da sesta? Quem não ficou obcecado com o inofensivo vizinho assobiando? Como se a vida estivesse sempre pronta para assobiar? Empenho-me contra o ruído envolvente em todas as suas formas, o ruído que te impede de pensar; desabafo contra todos estes ruídos que nos atingem e incomodam, mas sobretudo um hino ao silêncio." Tradução livre. Jean-Michel Delacomptée (1948)
Ilustração: REST (1882), óleo sobre tela de Ilya-Repin (1844-1930). Acervo Tretyakov Gallery, Moscou.
quarta-feira, 27 de julho de 2022
HAVIA UM BANCO NO CAMINHO...
“Sentada ali num banco, a gente não faz nada: fica apenas sentada, deixando o mundo ser.”
(Clarice Lispector)
Praça Fernando Prestes, Bom Retiro.
terça-feira, 26 de julho de 2022
DELÍCIAS DO JORNALISMO
Nos anos de 1980
trabalhei alguns meses em uma agência publicitária, onde fazia assessoria de
imprensa de alguns clientes. Um dia o dono da empresa me chamou para dizer que
havia um empresário investindo na popularização de um produto alimentício pouco
consumido no país. “E o que seria? – perguntei. “Escargot!” Argh! Não fiquei nem um pouco entusiasmada com a novidade. Afinal, nem tudo que o francês ama, é apreciado
por outros povos. Nem precisa ir tão longe: os paulistas comiam (e ainda comem
em algumas cidades) saúva e nem por isso eu provaria a iguaria. Enfim, fui ao
escritório do empresário, ouvi toda a história e comecei o trabalho. Ao
contrário de todos que contratam assessores de imprensa e querem resultados
para ontem, aquele não tinha pressa. Nas reuniões no escritório, sempre
observava algum caracol passeando pela parede ou se arrastando por um móvel. Sempre preferi fingir que não via. Numa das últimas reuniões, aconteceu o que
eu mais temia: “Faço questão que você prove essa delícia!” – disse ele todo
sorridente, quando uma assistente entrou na sala levando uma bandeja com
torradas e patê. Momentos de agonia.
Os gostos
diferem de uma pessoa para outra. O que é delicioso para um pode ser execrável
para outro. O que é atraente para alguém pode ser repelente para outra pessoa.





















