Chuva de verão para fechar o
domingo. Semana agitada. Quinta-feira, a caminho do metrô observava o movimento
da Rua Líbero Badaró: como sempre trânsito intenso, gente indo e vindo em todas
as direções. Parados apenas os seguranças dos prédios e os porteiros em hora de
fumar. No meio de toda essa balburdia, vi o senhor idoso parado no meio da
calçada olhando a parede de um prédio. Camisa azul de algodão de quadriculado
bem miudinho, calças bege e óculos sem armação, ele estava tão concentrado que
diminui o passo para ver o que atraía tanto a atenção dele na parede do
Edifício Sampaio Moreira. E ele percebeu, virou-se para mim e perguntou sem
mais nem menos: “A senhora sabe que esse foi o primeiro arranha-céu de São
Paulo?”. Surpresa com a abordagem direta, respondi que sabia. Enquanto as
pessoas se desviavam dos dois idosos, ele continuou a sabatina. A segunda pergunta
eu também acertei: quem tinha sido Sampaio Moreira. Acho que ele não acreditou
em mim, afinal, quem se importa com essas coisas hoje em dia? De passagem me
contou a trajetória dele por São Paulo, uma cidade fascinante, nas palavras
dele. Tinha um forte sotaque português que
62 anos de Brasil não eliminaram. Aposentado, desfruta de dois verões por ano:
como a irmã mora no Canadá, ela vem para São Paulo no inverno do Hemisfério Norte
e ele embarca para Ottawa no inverno aqui do Sul. Quando me deu chance de
falar, sugeri alguns lugares para ele visitar no Centro, caso ele não se incomodasse
em se deslocar para lá. “Eu moro no Centro, onde mais eu poderia viver?”. A
conversa estava boa, mas eu estava de olho na Casa Godinho e fui me despedindo.
Ah! Ele estava lendo, no granito da fachada, uma inscrição meio apagada pelo
tempo.
Líbero Badaró num domingo de dezembro de 2019. |
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