sexta-feira, 17 de março de 2017

O JEITO PAULISTANO DE SER

O Centro Cultural São Paulo (Rua Vergueiro, 1000) é um edifício feioso, mas com um espaço bem interessante. O projeto é de Eurico Prado Lopes e Luiz Telles. Ali, se encontram a Biblioteca Sérgio Milliet, a Discoteca Oneyda Alvarenga, Coleção de Arte da Cidade (pinacoteca municipal), cinema, teatro e realizam-se cursos e oficinas de vários tipos. Há até uma horta comunitária.
Bem agradável circular pelo Centro. Quem vai de metrô, desce na estação Vergueiro e já sai nos jardins Eurico Prado Lopes que tem uma vista bonita da cidade. No trajeto, há várias mesas ocupadas por pessoas estudando, navegando em seus notebooks, lendo ou simplesmente batendo papo. Logo na entrada coberta, as coisas ficam mais agitadas. 


 Jovens reúnem-se para aprender a dançar – street dance ou um bom forró (sem música) e ensaiar coreografias. Na falta de espelho (afinal, ali é um corredor) usam o reflexo nos vidros. 

Mais adiante fica a turma do xadrez – um pouco mais velha, mas nada impede que os jovens se avizinhem para usar o computador. O corredor leva à biblioteca (sempre cheia) que fica no subsolo e à galeria de exposições acima dela. 
                                                                                                                                            




Uma escadaria leva à cobertura, onde sempre é possível se reunir para um papo, discutir grandes planos, ler ou tomar sol. 






Para quem passa o dia por lá há restaurante (que não abre aos domingos) e lanchonete, que funciona aos domingos. O Centro Cultural não abre às segundas-feiras. (Fotos: Hilda Araújo, 12/03/2017.)

quinta-feira, 16 de março de 2017

EM BUSCA DA FELICIDADE


Por desejo o homem é capaz de cometer as maiores loucuras. Foi por desejo que Eva aceitou a maçã, causadora da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, segundo o mito da criação. Zeus, deus dos deuses da mitologia grega idealizados à imagem e semelhança dos homens, não poupava esforços para realizar seus desejos: transformou-se em forasteiro, camponês e nos mais variados animais (cuco, águia, cisne entre muitos outros) e até em chuva de ouro e labaredas. O mais sábio dos homens, Salomão, não resistiu à beleza da rainha de Sabá. Herodes desejava Salomé, que desejava João que amava a Deus sobre todas as coisas, mas nesse jogo de desejos, foi ele quem perdeu a cabeça. Literalmente.
Da antiguidade até os tempos atuais quase nada mudou. A indústria do cinema, consolidada no século XX, tornou-se uma fábrica de desejos. Homens e mulheres ansiando por fama e fortuna na mesma medida em que se tornam objeto do desejo dos simples mortais do planeta. Marilyn Monroe – que os homens queriam – desejava ser uma intelectual; antes de se tornar princesa, Grace Kelly que era objeto do desejo dos homens, sempre fez dos homens o objeto de seus desejos...
Freud, então, não deixou pedra sobre pedra quando proclamou que parte da humanidade desejava a mãe e a outra, o pai. E assim foi todo mundo para o divã tentar curar as taras, que Nelson Rodrigues, com enorme talento, expôs em sua obra.
Mas o que é o desejo? O desejo é a força motriz da civilização.
A Fontana di Trevi (Roma), mais conhecida como Fonte dos Desejos, é prova disso. Não há turista que resista ao impulso de jogar uma moedinha na esperança de ter seus desejos realizados (certamente voltar a Roma é o principal).
 “Sem desejo não há frustração” – já dizia filósofo e político romano Marco Túlio Cícero (106-42 a. C.).  Voilà!
(Fotos: Hilda Araújo, 2011.)

Multidão admira a Fontana de Trevi, na foto ao lado.
      

quarta-feira, 15 de março de 2017

MUSEUS NA CIDADE UNIVERSITÁRIA

Muitas unidades da Universidade de São Paulo (USP) mantêm coleções cientificas e culturais para divulgar conhecimento e preservar a memória da instituição. Na Cidade Universitária (Butantã), há várias. Avenida Afrânio Peixoto, Butantã. Acesso: Metrô Linha Quatro, Estação Butantã. Ônibus circular na saída: linhas 8012-10 e 8022-10.
O Museu de Anatomia Veterinária da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia foi inaugurado em 1984. O acervo, formado ao longo de muitos anos, é resultado de doações, permutas, intercâmbios e trabalhos de pesquisa de pós-graduandos. São mais de mil peças representativas de animais selvagens e domésticos, evidenciando as mais diversas estruturas anatômicas. A exposição reúne coleções de sete grandes grupos: Aves (coruja, arara, pinguim etc.), Bovídeos (gnu, boi etc.); Carnívoros (tigre, cães etc.); Equídeos (cavalo, jumento etc.); Primatas (homem); Suídeos (cateto, porco etc.) e Diversos (como peixes, répteis) e Mamíferos aquáticos (baleia orca e golfinho). O Museu recomenda a exposição “Dimensões do Corpo: da Anatomia à Microscopia” para todas as faixas etárias, podendo ser visitada individualmente ou em grupos organizados. Avenida Professor Orlando Marques de Paiva. Telefone 11-3091-1309. Funcionamento: de terça à sexta-feira - 9h às 17h, sábados - 9h às 14h. Ingresso individual, R$ 6. Gratuito na primeira terça-feira do mês.
Além de difundir a Oceanografia e as pesquisas desenvolvidas pelo Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, o Museu Oceanográfico dá suporte às atividades de ensino fundamental e médio do Estado de São Paulo. A exposição é dividida em módulos sobre a dinâmica e a biodiversidade dos oceanos. Aberto ao público em 1988 como Museu e Aquário, a partir de 1992 passou para a categoria de Museu Oceanográfico. Praça do Oceanográfico, 191. Telefone: 11-3091-7149. Funcionamento: terça à sexta-feira das 9h às 17h. Sábados e domingos das 10h às 16h. Entrada gratuita.



O Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) mantém um dos maiores acervos arqueológicos e etnográficos do Brasil em formação desde o final do século XIX. Uma visita ao museu constitui uma viagem pela história dos povos mediterrâneos, do Oriente Médio e da América Pré-colombiana. A biblioteca reúne cerca de sessenta mil volumes (livros, catálogos, revistas e obras raras). “Polis: viver na cidade grega antiga” é a exposição que pode ser visitada até dia 30 de junho, de segunda a sexta-feira (exceto às terças-feiras) das 9 às 17 horas. Abre também no segundo sábado de cada mês das 10 às 16 horas. Avenida Prof. Almeida Prado, 1466. Telefone:(11) 3091-4905. Entrada gratuita.

Você já viu um meteorito? No Museu de Geociências, há uma coleção que inclui o Itapuranga, terceiro maior meteorito brasileiro. Ele pesa 628 kg, tem forma irregular e foi encontrado na Fazenda Curral de Pedra a 18 quilômetros da cidade de Itapuranga (GO). O Museu, ligado ao Instituto de Geociências da USP, tem cerca de quinze mil amostras (minerais, gemas, rochas, meteoritos e espeleotemas*) – um terço em exposição. A maior parte do acervo é nacional, mas há amostras de minerais raros provenientes da Rússia, China Groelândia, Tajiquistão (Ásia Central), Índia, Cazaquistão e Kirgízia (Ásia Central). R. do Lago, 562. Telefone:(11) 3091-4670. Aberto de segunda à sexta-feira, das 8h30 às 12 horas e das 13h30 às 17 horas. Entrada gratuita.
*Formações rochosas que ocorrem no interior de cavernas.

Embora fechado para reformas vale a pena registrar o Museu de Anatomia Humana “Prof. Alfonso Bovero” do Instituto de Ciências Biomédicas para uma visita futura. Ele tem 1.800 peças anatômicas preparadas e conservadas por diversos métodos, separadas e catalogadas de acordo com os aparelhos que constituem o corpo humano. Ele dispõe ainda de cerca de 300 peças na reserva técnica, destinada a demonstrações em aulas práticas, reposição de eventuais perdas e exposições em escolas. Entre os esqueletos (cerca de 70) existem alguns que representam o Homem de Sambaqui – que viveu no litoral brasileiro em época pré-histórica. Endereço: Av. Prof. Lineu Prestes, 2415. Edifício III do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB). Telefone: 11 3091-7360.


terça-feira, 14 de março de 2017

DIA DOS CALVOS



E não é que se comemora hoje o Dia dos Carecas, que também mereceram um dia mundial, que é 14 de outubro? Careca é o nome popular para denominar pessoas desprovidas de cabelo, ou seja, calvas. Nada como bom-humor para tornar a vida mais suave. Eles reinaram no Carnaval de 1942, quando Arlindo Marques Jr. e Roberto Roberti criaram a marchinha “Nós, os carecas” que o Brasil todo cantou. Sempre caíram de charme. Desde os tempos de Yul Brynner (1920-1985), passando por Telly Savalas (1922-1994), Cecil Thiré (1943), Bruce Willis (1955), James Lesure (1970), Rafael Zulu (1983), eles sempre brilharam em cena (hum!).
Parabéns para eles.

NÓS, OS CARECAS.
Gravação: Anjos do Inferno, Carnaval: 1942.

Nós, nós os carecas
Com as mulheres somos maiorais
Pois na hora do aperto
É dos carecas que elas gostam mais.

Nós, nós os carecas
Com as mulheres somos maiorais
Pois na hora do aperto
É dos carecas que elas gostam mais.

Não precisa ter vergonha
Pode tirar seu chapéu.
Pra que cabelo? Pra que, seu Queiroz?

Agora a coisa está pra nós, nós, nós. 

 
Rafael Zulu.                                       Cecil Thiré


James Lesure                                                                     Telly Savalas
AVISO AOS NAVEGANTES

               O Dia da Poesia é 31 de outubro (Lei nº 13.131, de 2015), data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade (1901-1987). 

domingo, 12 de março de 2017

PORQUE HOJE É DOMINGO


Domingo pede cachimbo. 
Obra do suíço Albert Anker (1831-1910).
Domingo ensolarado para aproveitar o final de verão na praia.
Trabalho do ilustrador canadense Clarence Gagnon (1881-1942).

BOAS LEMBRANÇAS

Minha avó Maria Luisa de Araújo (1896-1977) ocupava o tempo livre fazendo crochê na cadeira de balanço da área ajardinada ou da sala, enquanto ouvia rádio. Ela estava sempre procurando pontos diferentes para as suas criações. Um dia resolveu fazer um vestido para mim.
Lembro vagamente que ela pesquisou cores e linhas e que fez algumas amostras antes de se decidir a, finalmente, iniciar o trabalho que não demorou muito para ser concluído. Ela usou uma linha fina cor de rosa; os arremates da barra e do decote foram feitos com um trançado de tecido da mesma cor. Uma costureira fez a montagem.

Usei o vestido poucas vezes e o guardo com muito carinho porque ele é de certa forma a materialização do amor que ela sempre teve por mim. Em 2009 participei da oficina para terceira idade sobre memória, promovida pelo Museu de Arqueologia e Etnologia da USP e, na exposição final, apresentei o vestido em homenagem a minha avó. 

sexta-feira, 10 de março de 2017

O BANHO, AQUI E ALI.


Conta a lenda que o herói grego Agamenon, que comandou a guerra contra Troia, foi assassinado pela mulher Clitemnestra com duas machadadas enquanto se banhava.



“Eureka!”– gritou Arquimedes de Siracusa (287-212) de sua banheira, no século III a. C. ao descobrir o princípio segundo o qual um corpo imerso em um fluido sofre uma força de empuxo igual ao peso do fluido que ele desloca.












Durante a Revolução Francesa, a simpatizante girondina Charlotte Corday matou o jornalista jacobino Jean-Paul Marat (1743-1792) na banheira, onde costumava ficar imerso em água fria para aliviar seus acessos periódicos de psoríase artrítica que o deixavam em carne viva. O pintor Jacques-Louis David imortalizou a cena em quadro que está no Museu Real de Belas Artes de Bruxelas (Bélgica).





Uma das cenas mais famosas do cinema mostra Janet Leigh gritando ao ser esfaqueada quando tomava banho de chuveiro. O filme é “Psicose” (1960), de Alfred Hitchcock. 

quinta-feira, 9 de março de 2017

O PRAZER DO BANHO



Bath: terma instalada no ano 75 pelo imperador Vespasiano.
            Ninguém melhor do que os romanos soube apreciar as delícias de um banho. Egípcios, hindus e gregos tinham o hábito de se banhar. Heródoto conta que os egípcios vestiam roupas limpas e praticavam a circuncisão por higiene, “preferindo a limpeza à aparência mais atraente”; os sacerdotes depilavam o corpo todo para prevenir piolhos. Os gregos limpavam-se por uma questão de conforto e boa aparência. Hipócrates (460 a. C. – 370 a. C.), que é considerado pai da medicina, sempre recomendava banhos. 
Os historiadores acreditam que o banho romano típico surgiu no século II a. C., na Campânia. Cem anos depois já fazia parte do cotidiano das pessoas e à medida que o império se expandia iam introduzindo o costume entre os povos conquistados. Um ótimo exemplo é a cidade de Bath, na Inglaterra. Stabia, em Pompeia, é a casa de banho mais antiga de que se tem notícia: 140 a. C. Um romano despendia cerca de duas horas em sua higiene.
A casa de banho, geralmente, consistia de um vestiário onde o banhista deixava as roupas que eram guardadas pelo escravo pessoal ou por um funcionário da casa. Em seguida, com o corpo nu untado de óleo, saia para um pátio amplo, ajardinado, onde fazia exercícios, jogava bola, lutava ou corria. Suado, ele se dirigia para o caldarium para o banho quente para transpirar e depois um criado ou companheiro de banho raspava o suor, o óleo e a sujeira com uma espátula. O banhista passava para o tepidarium onde havia a piscina de água tépida; em seguida dirigia-se para o frigidarium para o banho frio, e finalizava a higiene com nova raspagem do corpo que era então untado com óleo e perfume (caso dos mais abonados). Havia também um sudatorium – espécie de sauna. Os banhos eram gratuitos ou muito baratos.
No princípio, homens e mulheres banhavam-se no mesmo espaço e só mais tarde criou-se uma área feminina. O horário de mais movimento era à tarde, pois os romanos adotaram o hábito grego de se banhar após o trabalho, que começava às 6 horas estendendo-se até o meio da tarde.
 Os banhos eram um local importante de socialização e muitas casas eram decoradas com obras de arte – esculturas e pinturas. Uma curiosidade – observada também em Pompeia – é a instalação de bordeis nas proximidades das casas de banho. Historiadores dizem que as prostitutas deviam circular pelas termas divulgando suas atividades.

A paixão dos romanos pelo banho pode ser observada em Roma (Termas de Caracalla, Diocleciano, Trajano e Nero); na Inglaterra (Bath), na França (Cluny), Portugal (Braga) entre outros. 
Termas de Caracala, Roma, 2011.

Bath: detalhes, 2015.

terça-feira, 7 de março de 2017

SOB OS CÉUS DE POMPEIA (2)

É estranho estar no centro de um anfiteatro, sozinha, cercada por arquibancadas vazias. Céu azul. Ao longe o Monte Vesúvio. Belo e aparentemente tranquilo. O que se passa em suas entranhas? Só os geólogos podem nos dizer. Ele se manifestou pela última vez em 1944, sem grandes consequências.  
Ao deixar o anfiteatro o visitante logo reconhece mais uma herança que os romanos nos deixaram: as ruas bem calçadas com os passeios para pedestres mais altos. Há fontes em algumas esquinas. O coração da cidade é o Fórum – onde as pessoas se reuniam para eventos políticos e religiosos. Por ali encontram-se as ruínas dos templos de Vespasiano, Júpiter e de Apolo – onde se sobressai a bela estátua de um jovem em movimento; da casa de controle de pesos e medidas, os prédios de administração pública e a casa do Senado, onde o conselho da cidade se reunia. Nas proximidades encontra-se o Comitium, área usada para eleições. O Arco de Calígula permaneceu de pé. Na Basílica, onde eram realizados julgamentos, mercadores e homens de negócios se encontravam para discutir seus interesses.
Hora de atravessar a Via Degle Augustali em direção à Via Della Fortuna para conhecer Termopolium, lugar com estabelecimentos comerciais onde as pessoas podiam comprar comida quente feita na hora. Enfim, fast food não é nada moderno. Geralmente, era usado por pessoas sem recursos.
Que tal caminhar pelas vielas para conhecer residências e descobrir como as pessoas viviam naquela época? A Vila dos Mistérios mostra a elegância e o bom gosto da família Istacidi que foi a última proprietária. O nome deve-se à bela pintura mural que adorna o triclínio* cujo tema é a iniciação de uma jovem (ou noiva) ao culto de Baco (Dionísio). A vila, que chegou a ser propriedade do estado romano, tem sessenta cômodos. Merece uma visita sem pressa.
A Casa del Fauno também merece uma visita, com chão com mosaicos – um deles reproduz uma batalha entre Alexandre, o Grande, e Dario, rei persa.  No impluvium*, há uma pequena estátua grega do Fauno que deu origem ao nome da casa. Há ainda as Casas di Meleagro, Vettis entre outras. Na Casa do Poeta, o destaque é o lindo mosaico com um aviso para se ter “cuidado com o cão” (Cave canem).
Pompeia dispunha de um conjunto de três termas (Stabiane, Central e Fórum), que são uma demonstração da importância que os romanos davam ao banho. Ah! Que povo maravilhoso. Os estabelecimentos eram públicos e com espaços separados para homens e mulheres e constituíam importante espaço social.
O que talvez mais chame mais atenção do público são as cópias dos corpos encontrados nas escavações, revelando os últimos momentos de moradores da cidade. Como substâncias orgânicas não são preservadas por muito tempo, diluindo-se e deixando um espaço vazio. Durante os trabalhos arqueológicos, quando se notava um espaço vazio, eram feitos moldes de gesso obtendo-se a forma do que se encontrava ali. Desse modo foram feitos moldes de gesso dos corpos das vítimas da erupção, árvores, objetos de madeira, mobília etc. que podem ser vistos pelos visitantes.
(Estive em Pompeia em duas oportunidades e não consegui visitar o Museu por causa de obras. É sempre bom verificar o que está aberto para visita por causa de obras de restauro regulares.)

*Triclínio: uma sala de refeições com mesa e três cadeiras reclináveis para os convivas. Impluvium: tanque situado no vestíbulo para recolher água da chuva.

Anfiteatro e o Vesúvio ao fundo. Fotos: Hilda Araújo, 1993.
Ruas calçadas e à direita os passeios altos. (1997)



segunda-feira, 6 de março de 2017

SOB O CÉU DE POMPEIA


                   
O que se espera encontrar em uma verdadeira cidade fantasma com quase dois mil anos de existência? Pompeia (Itália) desperta sentimentos variados, mas não deixa ninguém indiferente ao destino dos moradores que foram vítimas da erupção do Vesúvio. Para mim a surpresa maior foi descobrir que não somos muito diferentes das pessoas daquela época, que algumas coisas pouco mudaram. Como o anfiteatro, que parece perfeito para um evento contemporâneo.
No ano 79 da nossa era, as cidades de Pompeia e Herculano foram soterradas pela violenta erupção do Vesúvio que até então parecia aos moradores uma montanha tranquila com bosques e vinhedos. O vulcão adormecido já dera sinais de que despertava em 69, quando houve um terremoto que destruiu várias cidades da Campânia e também afetou Pompeia. O Vesúvio entrou em erupção no outono – entre outubro e novembro, surpreendendo a população em seus afazeres cotidianos. As pessoas tentaram simplesmente fugir, outras ainda se preocuparam em levar alguns bens e muitos conseguiram escapar da fúria da natureza.
Caio Plínio Cecílio Segundo, o Jovem, (61-114), participou da operação de resgate do seu tio-avô, Caio Plínio Segundo ou Plínio, o Velho, e escreveu mais tarde sobre o que testemunhou:
          “As cinzas caíam, quentes e espessas, sobre os navios e do Monte Vesúvio surgiam grandes lençóis de chamas e enormes incêndios cada vez em mais lugares, e seu brilho e clarão contrastavam com a escuridão da noite.”
“Atrás de nós pairava uma terrível nuvem negra, rasgada por clarões repentinos de fogo, contorcendo-se como uma serpente e revelando lampejos maiores do que relâmpagos... Se ouviam os gritos estridentes das mulheres, o choro das crianças e os gritos dos homens. A escuridão acabou cedendo, e finalmente surgiram a verdadeira luz do dia e um sol pálido. Diante de nossos olhos aterrorizados, tudo parecia mudado, coberto por uma espessa camada de cinzas como uma grande nevada.”
Assim, Pompeia tornou-se uma cidade de onde a vida se esvaneceu deixando petrificados momentos de agonia dos habitantes que não conseguiram escapar do mar de lava, do fogo, das cinzas e, principalmente, dos gases que se expandiam por todos os cantos da cidade.
Plínio, o Velho era almirante da frota do litoral de Nápoles e deslocou-se até Pompeia para tentar resgatar as vítimas do Vesúvio, e observar, como naturalista, a erupção do vulcão. Entretanto, ele também morreu, como narra o sobrinho-neto: “Acredito que foi sufocado pelos vapores densos. Quando o dia amanheceu, seu corpo foi encontrado intacto, sem um ferimento e vestido como em vida”.
Mas há muito a descobrir nessa cidade que ficou soterrada por 1.600 anos e foi encontrada por acaso em 1768. É considerada Patrimônio Mundial pela UNESCO.

Pompeia está situada a 22 km de Nápoles e a viagem de trem é rápida e agradável. O sítio arqueológico fica perto da estação ferroviária. (Cont.)
Retrato do poeta Menander: interior de casa pompeana.


domingo, 5 de março de 2017

HOMENAGEM À VELHA AMIGA



          Hoje ao limpar os arquivos do computador achei este poema de Giuseppe Artidoro Ghiaroni (1819-2008), jornalista e poeta carioca, que acordou ótimas lembranças das aventuras que vivi com a minha querida Lettera 44 (na Internet aparece como raridade), bem guardada na caixa em cima de um armário.


MÁQUINA DE ESCREVER

Mãe, se eu morrer de um repentino mal,
vende meus bens a bem dos meus credores:
a fantasia de festivas cores
que usei no derradeiro Carnaval.

Vende esse rádio que ganhei de prêmio
por um concurso num jornal do povo,
e aquele terno novo, ou quase novo,
com poucas manchas de café boêmio.

Vende também meus óculos antigos
que me davam uns ares inocentes.
Já não precisarei de duas lentes
para enxergar os corações amigos.

Vende, além das gravatas, do chapéu,
meus sapatos rangentes. Sem ruído
é mais provável que eu alcance o Céu
e logre penetrar despercebido.

Vende meu dente de ouro. O Paraíso
requer apenas a expressão do olhar.
Já não precisarei do meu sorriso
para um outro sorriso me enganar.

Vende meus olhos a um brechó qualquer
que os guarde numa loja poeirenta,
reluzindo na sombra pardacenta,
refletindo um semblante de mulher.

Vende tudo, ao findar a minha sorte,
libertando minha alma pensativa
para ninguém chorar a minha morte
sem realmente desejar que eu viva.

Pode vender meu próprio leito e roupa
para pagar àqueles a quem devo.
Sim, vende tudo, minha mãe, mas poupa
esta caduca máquina em que escrevo.

Mas poupa a minha amiga de horas mortas,
de teclas bambas, tique-taque incerto.
De ano em ano, manda-a ao conserto
e unta de azeite as suas peças tortas.

Vende todas as grandes pequenezas
que eram meu humílimo tesouro,
mas não! ainda que ofereçam ouro,
não venda o meu filtro de tristezas!

Quanta vez esta máquina afugenta
meus fantasmas da dúvida e do mal,
ela que é minha rude ferramenta,
o meu doce instrumento musical.

Bate rangendo, numa espécie de asma,
mas cada vez que bate é um grão de trigo.
Quando eu morrer, quem a levar consigo
há de levar consigo o meu fantasma.
Pois será para ela uma tortura
sentir nas bambas teclas solitárias
um bando de dez unhas usurárias
a datilografar uma fatura.

Deixa-a morrer também quando eu morrer;
deixa-a calar numa quietude extrema,
à espera do meu último poema
que as palavras não dão para fazer.


Conserva-a, minha mãe, no velho lar,
conservando os meus íntimos instantes,
e, nas noites de lua, não te espantes
quando as teclas baterem devagar.

       

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

SAUDADE DE BRAGUINHA


             
             Carlos Alberto Ferreira Braga ou simplesmente Braguinha (1907-1996) é um dos grandes compositores brasileiros e, embora seu nome seja mais ligado ao carnaval, ele tem uma obra variada - é o autor da letra de “Carinhoso”, a maravilhosa composição de Pixinguinha. A partir de 1929 adotou o pseudônimo de João de Barro.
             Deixa a lua sossegada é uma marcha composta em parceria com Alberto Ribeiro. Carnaval de 1935. Gravação: Orquestra Diabos do Céu e Almirante.

DEIXA A LUA SOSSEGADA
 
É madrugada,
De longe eu vim.
Deixa a lua sossegada
E olhe pra mim! (Bis)

A lua malcriada, quando passa,
Espia na vidraça
Dos quartos de dormir,
Zombando dos casais enamorados,
Quase sempre descuidados,
Ela fica sempre a rir.

Não quero mais saber de ver a lua,
Que passa pela rua
Roubando a escuridão.
Prefiro ver você sem ver a lua,
Contemplando a imagem sua
Bem juntinho ao seu portão.

Se não houvesse lua, eu asseguro,
O mundo no escuro,
Seria muito bom.
Um beijo começava em Realengo,
Esquentava no Flamengo

E acabava no Leblon!

domingo, 26 de fevereiro de 2017

CARNAVAL FOI ADIADO



Que ninguém se desespere. Não é boato espalhado pelas redes sociais. A notícia é verdadeira, mas antiga. E o fato realmente aconteceu no Brasil, conhecido também como o país do Carnaval. Em 1912 a festa foi transferida pelo governo federal de fevereiro para abril. Motivo: a morte de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão de Rio Branco, na véspera do Carnaval. O barão foi o responsável pela consolidação do território nacional, contribuiu para a construção da identidade nacional, conquistada por meio de uma política externa firme e por isso muito admirado, querido e respeitado pelo povo brasileiro; entretanto a decisão das autoridades acabou proporcionando aos foliões dois carnavais no mesmo ano, pois a medida oficial foi não levada muito a sério.
José Maria da Silva Paranhos Júnior (1845-1912) teve uma vida morna até 1895, quando o presidente Glover Cleveland (1837-1908) dos Estados Unidos, concedeu ao Brasil a posse de todo o território em questão na contenda com a Argentina sobre os limites com nosso país. José Maria era filho do visconde de Rio Branco (1819-1880), uma das pessoas mais influentes do Império. Advogado, jornalista, historiador e geógrafo, Juca (como era chamado) destacou-se como diplomata. Ele foi responsável pela definição das fronteiras que resultou na liderança brasileira na América do Sul e no aumento do prestígio internacional do país. Afinal, ele conseguiu a vitória com a Argentina obtendo soberania brasileira sobre a região de Palmas (1895); venceu o litígio contra França na definição de fronteiras com a Guiana Francesa. No período em que ocupou o Ministério das Relações Exteriores (1902-1912) fechou com a Bolívia a compra do Acre (1903) e estabeleceu os limites com a Guiana Holandesa – atual Suriname, Colômbia, Peru e Uruguai.
Com o Barão do Rio Branco, o povo sentiu-se brasileiro e respeitado internacionalmente. O barão torna-se seu herói. Rui Barbosa disse que “literalmente do Amazonas ao Prata há um nome que parece irradiar por todo círculo do horizonte num infinito de cintilações: o do filho do emancipador dos escravos, duplicando a glória paterna com a de reintegrador do território nacional”.
Na vida privada, Paranhos Júnior conheceu o preconceito de sua época e viveu um romance típico de folhetim. Em 1872 conheceu Marie Philomène Stevens. Ela era artista do Alcazar Lyrique (Rua da Vala, atual Uruguaiana), uma casa de espetáculos, onde apresentava “números ligeiros”, segundo a crônica da época. O visconde não gostou e providenciou que a moça voltasse para a Europa. No início do ano seguinte, ela teve um filho, Raul. Juca Paranhos Jr. providenciou a volta da amante e instalou-a numa casa na praia do Caju, no Rio. Mais tarde foram para a Europa, onde eles viveram 26 anos uma vida secreta. O casal teve cinco filhos: Raul, Clotilde. Hortência, Paulo e Amélia, mas o casamento só aconteceu em 1888 após ele se tornar Barão de Rio Branco.


O professor Luís Cláudio Villafañe G. Santos é autor de “O Evangelho do Barão – Rio Branco e a identidade brasileira”, um ótimo livro que nos permite entender a importância do personagem na história do país e do seu legado. Editora UNESP. 

sábado, 25 de fevereiro de 2017

MAMÃE EU QUERO

CARNAVAL

As novas gerações, provavelmente, não sabem quem foi Maurice Chevalier (1888-1972), mas na primeira metade do século passado, brilhava no mundo dos espetáculos tanto como ator como cantor de músicas leves, bem humoradas, ou seja, era um cançonetista. Parisiense, trabalhou em vários países, mas consolidou a carreira nos Estados Unidos. Ele é o velhinho adorável de “Gigi” (1958), que estrelou com Audrey Hepburn e Louis Jourdan; em 1960 contracenou também com Frank Sinatra em “Can-can” (Walter Lang) que tem trilha sonora de Cole Porter. Estava no elenco de “Folies Bergère de Paris(Roy Del Ruth), que em 1935 levou o Oscar de Melhor Coreografia.
Esse senhor gravou um dos maiores sucessos do carnaval brasileiro: “Mamãe eu quero”. A música é de Jararaca (José Luís Rodrigues Calazans – 1896-1977 ) e Vicente Paiva (1908-1964) para o carnaval de 1937. A versão de Battaille/Henri ganhou o título de “La Chupetta”. Na verdade, a marchinha foi um sucesso mundial. Jararaca gravou a música em 1937, depois outros grandes nomes da música brasileira a gravaram. A marchinha foi levada para os Estados Unidos em 1939 pelo integrante de uma orquestra americana que se apresentava no Cassino da Urca e só em 1941 foi gravada por Carmen Miranda, que lhe deu interpretação única. Nos Estados Unidos, a gravação das ANDREWS SISTERS (LaVerne Sophie (1911-1967), Maxene Angelyn (1916-1995) e  Patricia Marie (1918-2013) é muito superior a de Bing Crosby (1903-1977), que dá vontade de dormir.

Na Internet, é possível ouvir os quatro, mas Carmen Miranda – maravilhosa – está fora de qualquer comparação. 

https://www.vagalume.com.br/maurice-chevalier/la-choupetta.html  



https://www.youtube.com/watch?v=Kpax-wloBl8  




sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

SEMPRE PIERRÔ, ARLEQUIM E COLOMBINA.

CARNAVAL



Pierrô, Leon Comerre (1850-1916).

SERENATA DE PIERRÔ
V. Monti - C. Clansetti, 1930. Gravação Annita Gonçalves e Celestino Paraventi.

Paira um vago encanto
Sobre o mundo em flor
E há perto d'um canto
um frêmito de amor.
Misteriosa e pura.
uma voz murmura
Com ternura
uma canção de amor.

(Pierrô)
A noite encanta, prende e fascina,
Soluça e canta na alma do luar.
Oh Colombina da noite escura,
Tu és divina, faz-me sonhar.

(Colombina):
Com ternura, uma canção de amor
(Pierrô):
De amor, de amor.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

A VITÓRIA DOS VELHINHOS

CARNAVAL
A VITÓRIA DOS VELHINHOS

No longínquo ano de 1952 os velhinhos sonhavam em prolongar a força da juventude como os idosos que os precederam pelo mundo afora. No Carnaval de 1950 fez sucesso a composição de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira “O soro e os velhinhos”, na voz de Linda Batista.

Quá, quá, quá, quá
O soro, vai ser um maná
Os velhos, velhinhos
Vão ser outra vez brotinhos.
(Bis)
Tem velhos assim na fila
Doidinhos pro soro chegar
Cansados e aposentados
Querendo outra vez brilhar

Quarenta e oito anos depois os velhinhos do mundo viram o sonho realizado e estão se esbaldando – não com um soro, mas com a pílula azul (sildenafila). Sem fila! 
 

Um dos grandes sucessos musicais do carnaval de 1952 (e de muitos outros) foi a marchinha “Saçaricando”, de Luis Antonio, Oldemar Magalhães e Zé Mário, gravação de Virgínia Lane (1920-2014).
                                                                                             
Saçaricando, 
Todo mundo leva a vida no arame 
Saçaricando
,
A viúva o brotinho e a madame. 
O velho na porta da Colombo 
É um assombro 
Saçaricando

Quem não tem seu saçarico 
Saçarica mesmo só 
Porque sem saçaricar 
Essa vida é um nó.                           


Vale lembrar que a vedete Virginia Lane era amante do velhinho mais poderoso do Brasil – Getúlio Vargas.