quarta-feira, 29 de junho de 2016

POLÍTICA DE PESO

Corria o ano da graça de 1958. Ela vivia feliz no Rio de Janeiro e nunca desconfiou que fosse envolvida em uma grande trama política. Embora tivesse um nome muito feio – na verdade correspondia ao seu aspecto físico que não a ajudava em nada–, seu endereço era na Quinta da Boa Vista, bairro digno da realeza. Certamente, não era supersticiosa, mas seu destino começou a mudar (ela também) no dia 13 de fevereiro. Mal sabia que logo se tornaria uma celebridade internacional.
            Quando o Zoológico do Rio de Janeiro concordou em enviar Cacareco para o zoo paulistano, que ia ser inaugurado em 16 de março, reacendeu-se a velha rixa entre cariocas e paulistas. Aqueles descobriram que amavam Cacareco (que eles nem sabiam que era uma fêmea) e estes caíram de amores pelos encantos do “animalzinho” cuja permanência na pauliceia foi se estendendo com o apoio da imprensa.
E assim Cacareco acabou se envolvendo em uma trama política sem precedentes no ano seguinte, durante o processo eleitoral para a renovação da Câmara de São Paulo.  As eleições caíram como luva para a vingança dos descontentes moradores de um bairro que teve negado pelo Supremo Tribunal o pedido de emancipação política do município de São Paulo; os paulistanos, em geral, também não gostaram do perfil de nenhum dos 540 candidatos a vereador. Estava pronto o cenário ideal para o lançamento da candidatura do rinoceronte a vereador da Capital por um grupo de jornalistas paulistanos liderados por Itaboraí Martins.
 O jornalista Neil Ferreira (O Cruzeiro, de 24.10.1959) contou em uma reportagem quCacareco – conseguiu empolgar, de maneira espetacularmente inédita o eleitorado paulistano. Sem prometer nada (êle não pode prometer: não sabe nem falar), sem partido político definido - sua legenda poderia ser objeto de confusões: PC (Partido Cacareco) e alguém ainda acabaria sem visto de saída para países da banda de cá do mundo - enfim, com sua candidatura lançada sòmente alguns dias antes do pleito, sua eleição está garantida.”
Cacareco era filha de Britador e Terezinha. Não há registro da data de nascimento, que foi provavelmente final da década de 1940, no Rio de Janeiro. Ela teve uma irmã mais nova, a Pata Choca. A jovem pesava 900 kg e, na época, era solteira – uma coisa não estava relacionada à outra, necessariamente.
O currículo ressalta seu estilo playboy (playgirl seria mais correto) de vida e conta que ela esperava encontrar o seu príncipe encantado – um rinoceronte africano negro macho, “talvez uma Cacareca” (?). O material preparado pelo cabo eleitoral de Cacareco era bem atual: hobby: comer e dormir; lazer e esporte: não fazer nada; qualidades: carisma e simpatia (sic). Defeitos? Mudez e pouca visão. (Aqui, se esqueceram de dizer que era analfabeta.) Sonho: a África.
O rinoceronte pertencia ao PC – sigla de Partido Cacareco e o slogan da campanha era simplesmente Cacareco para Vereador. O bicho mobilizou São Paulo (para alegria dos cariocas) de tal forma, que mereceu até editorial de O Estado de S. Paulo. Às vésperas das eleições, os dirigentes políticos acharam melhor devolvê-la para o Zoológico do Rio para evitar comoções maiores.  Assim, Cacareco partiu às pressas para a Capital Federal, no dia 1.10.1959 e uma multidão foi se despedir do rinoceronte. (Sábio De Gaulle.)
Apesar da ausência, no dia 4 de outubro, a população mostrou sua desilusão com os políticos, votando em peso (hum!) em Cacareco. O rinoceronte recebeu quase 100 mil votos, que na época seriam suficientes para eleger pelo menos seis vereadores, segundo Antonio Costella, autor do livro Cacareco, o Vereador (Editora Mantiqueira). Cacareco, que teve uma carreira política sensacional e fugaz, morreu pouco tempo depois com dez anos, quando a idade média de vida de um animal livre é de meio século. Provavelmente, desgosto com o cenário político nacional.

(Publicado no antigo blog em 29 de março de 2009 – 50 anos da história.)


segunda-feira, 27 de junho de 2016

MÁQUINAS DE ESCREVER
A moça estava sentada ao meu lado escrevendo uma mensagem por um aparelhinho minúsculo. Os dois polegares movem-se loucamente. Ela está alheia ao barulho do trem, do movimento dos passageiros em torno e à voz impessoal que avisa a próxima estação.
Essa jovem munida de IPOD me faz refletir sobre várias coisas. A primeira: o fantástico salto tecnológico das ultimas décadas que tenho o privilégio de testemunhar. A evolução das velhas máquinas de escrever mecânicas, pesadas e barulhentas para o sistema elétrico – mais suave e discreto; depois foram desbancadas pelos computadores pessoais até estas maravilhas que cabem na palma da mão. E bastam os dois polegares para operá-la. Os jovens da minha geração faziam curso de datilografia para enfrentar adequadamente o mercado de trabalho. Não bastava escrever corretamente, era preciso ser veloz e conhecer o teclado (Qwerty) de cor.
Por incrível que pareça, o processo de seleção nas empresas em geral incluía um temível teste de datilografia. Um anúncio, publicado em A Tribuna de Santos, da primeira metade do século passado, incluía o desenho de uma mulher com os olhos vendados, datilografando em uma Remington. A marca da máquina dava nome á escola que funcionava na Praça Mauá, 42 e por onde, certamente, milhares de santistas passaram em busca de um certificado de datilografia, que ajudasse na hora de procurar um emprego.
A escola ficava nos altos do Bar Chic (quem falhasse nos testes sempre podia descer para esquecer seus males) e o responsável era o professor Moreira Júnior. Nos anos de 1970 (até hoje) ouvi sempre as pessoas se gabando de que conseguiam datilografar não sei quantas palavras por minuto.

Se aquela garota tiver alguma dúvida pode fazer, no mesmo aparelho, uma ligação para tirar as dúvidas ou entrar na web para pesquisar o assunto em algum site específico. Sem contar que a geringonça tira fotos profissionais, que podem ser enviadas na hora junto com a mensagem. Não sei o que ela escrevia (algo irrelevante ou extremamente importante?), mas naquele banco do metrô a caminho de algum lugar ela se sentia no seu escritório particular.  


sexta-feira, 24 de junho de 2016

SÃO JOÃO


        Os balões e fogueiras desapareceram para segurança de todos, embora, infelizmente, ainda façam fogueiras de nossas florestas. A música de Lamartine Babo e Mário Reis, felizmente, continua muito gostosa. 


Chegou a hora da fogueira!
É noite de São João...
O céu fica todo iluminado
Fica o céu todo estrelado
Pintadinho de balão...
Pensando na cabocla a noite inteira
Também fica uma fogueira
Dentro do meu coração...

Quando eu era pequenino
De pé no chão
Eu cortava papel fino
Pra fazer balão...
E o balão ia subindo
Para o azul da imensidão...

Hoje em dia o meu destino
Não vive em paz
O balão de papel fino
Já não sobe mais...
O balão da ilusão...
Levou pedra e foi ao chão...


Tela é de Anita Malfatti.

domingo, 19 de junho de 2016

NOSTALGIA

Na Biblioteca Mário de Andrade, achei um livro sobre o hiperespaço escrito pelo físico norte-americano Michio Kaku, um dos pioneiros da teoria das supercordas. Embora haja passagens obscuras para mim – que não tenho a mais remota lembrança das aulas de física, o livro é maravilhoso. Só para deixar vocês com água na boca, vejam o que ele conclui:

 “(...) uma das mais profundas experiências que um cientista pode ter (...) é se dar conta de que somos filhos das estrelas, e de que nossas mentes são capazes de compreender as leis universais a que elas obedecem. Os átomos dentro de nossos corpos foram forjados na bigorna do nucleossíntese dentro de uma estrela em explosão eras antes do nascimento do sistema solar. (...) Somos literalmente feitos de poeira de estrelas. Agora esses átomos, por sua vez, fundiram-se em seres inteligentes, capazes de compreender as leis universais que governam esse evento.” Michio Kaku, “Hiperespaço” (Rocco, 2000)
            
        Assim, é pura nostalgia o que sentimos quando nos encantamos ao olhar o céu noturno com milhões de luzes piscando para nós.  
           
"Céu Estrelado sobre o rio Rohne",- Vincent van Gogh.
OUVIR ESTRELAS

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!"E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto 
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas. 
Olavo Bilac (1865-1918)

domingo, 12 de junho de 2016

OS PURITANOS


Em 1920, o Centro Acadêmico Onze de Agosto (Faculdade de Direito do Largo de São Francisco) se mobilizou para homenagear o poeta Olavo Bilac (1865-1918) com um monumento. Depois de levantarem fundos com bailes, festas e doações privadas, os estudantes encomendaram a obra ao artista sueco William Zadig (1884-1952). A prefeitura definiu o final da Avenida Paulista (atual complexo viário Dr. Arnaldo) para colocação do monumento, inaugurado durante os festejos do centenário da Independência do Brasil. Lá estavam as figuras do poeta, do bandeirante Fernão Paes Leme (“O Caçador de Esmeraldas”), do pensador (representando o poema “Tarde”), de uma família e a bandeira nacional (“Pátria e Família”) e  de um francês e uma índia se beijando (“Idílio ou Beijo Eterno”).
          Não demorou a se iniciar uma polêmica. A população se rebelou contra a obra: uns diziam que ela atrapalhava o trânsito, outros que era feia demais e havia aqueles puritanos de plantão que consideravam escandalosa a representação do Idílio. Em 1936 a prefeitura desmontou o monumento por causa de obras viárias e espalhou os grupos pela cidade; os apaixonados, entretanto, foram mantidos em um depósito de onde foram resgatados, imaginem, por ninguém menos do que o prefeito Jânio Quadros (1917-1992), que apreciava a obra. E lá foram os dois eternos enamorados para o bairro do Cambuci. Desta vez foi um morador indignado que se rebelou contra o casal: escreveu uma carta para todos os jornais paulistanos dizendo que o monumento era um “ataque à inocência de sua filha”. Adivinhem. Novamente o casal foi para o depósito da prefeitura.
Mais uma década de recolhimento até que o prefeito Faria Lima (1909-1969) resolveu colocar o casal no jardim do túnel Nove de Julho; porém, logo ficou demonstrado que aquele não era o jardim do paraíso. Foi a vez de um vereador se insurgir contra a escultura: alegava que era “obra do demônio”.
Cansados de tanta tolice e antes que as autoridades a recolhessem ao depósito, os estudantes (que haviam pago pelo monumento) resgataram a escultura e a levaram para a frente da Faculdade, no Largo de São Francisco, onde os enamorados encontraram, enfim, um endereço fixo.
         A população paulistana agradece. 
(Foto: Hilda Araújo.)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

LIBERDADE

Quinta-feira gelada em São Paulo. Um dia perfeito para caminhadas despreocupadas. Paulistanos e turistas movimentavam as ruas do bairro da Liberdade. Na saída do metrô, a Praça da Liberdade é um ótimo lugar para aproveitar o sol anêmico; depois de observar as ofertas das barracas da feira, uma esticada até a loja da Rua dos Estudantes, que oferece maravilhosos produtos de porcelana japonesa entre outras coisas. Uma festa para os olhos. Depois pode-se bisbilhotar na loja da esquina com a Rua Galvão Bueno, onde há de tudo que você não precisa, mas coisas bem interessantes. Uma senhora me pergunta se eu sei que igreja é aquela na ponta da Praça. O nome é lúgubre, mas é uma lembrança dos tempos coloniais: Santa Cruz das Almas dos Enforcados. (A curiosa não gosta do nome.)

Para quem não sabe era ali nas redondezas que se executavam por enforcamento os criminosos. Em 23 de julho de 1821 as autoridades da cidade receberam uma ordem régia para levantar uma forca no lugar mais público desta cidade e vizinho do Cemitério da Glória, complementando a instalação da Junta de Justiça no ano anterior. A Igreja mantém a capela dos Aflitos (1774), que ficava no meio do cemitério, vendido pela Mitra e loteado para residências. A capela, como não poderia deixar de ser, fica na Travessa dos Aflitos.

Enquanto caminho pela Rua Galvão Bueno, lembro-me de que há algum tempo este é mais um bairro oriental do que propriamente japonês, pois os coreanos e chineses se misturam aos japoneses que ainda permanecem nesta parte da cidade. É mais uma região turística, com uma grande oferta de restaurantes e produtos típicos do Oriente. Há lojas especializadas em cosméticos (já vi uma fila enorme de jovens para entrar em uma delas).

Agora, é a vez da Avenida Liberdade. Há várias casas antigas bem conservadas, embora tenham uso comercial. Ali fica a Casa de Portugal, fundada em 1935 por portugueses e brasileiros. O projeto do prédio é do Arquiteto Ricardo Severo, sócio de Ramos de Azevedo. A inauguração ocorreu no quarto centenário de São Paulo – 1954. Mais adiante outra igreja. A Catedral Metodista de São Paulo, de linhas sóbrias. Enfim, o Largo da Pólvora – outro lugar histórico da cidade. Ali funcionava um paiol de pólvora (claro) até 1832, quando as autoridades da cidade mandaram demolir, mas a população continuou a chamar o lugar de largo da pólvora. O nome, entretanto, só foi oficializado em 1978 pelo prefeito Olavo Setúbal. Atualmente, o jardim japonês, criado por ocasião dos setenta anos da imigração japonesa, encontra-se abandonado. Próxima parada: estação São Joaquim do metrô.




quarta-feira, 1 de junho de 2016

ORAÇÃO DA ÁRVORE




        Parque da Juventude, abril, 2016. HPA

Tu que passas e ergues para mim o teu braço,
Antes que me faças mal, olha-me bem.
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno;
Eu sou a sombra amiga que tu encontras
Quando caminhas sob o sol de agosto;
E os meus frutos são a frescura apetitosa
Que te sacia a sede nos caminhos.
Eu sou a trave amiga da tua casa,
A tábua da tua mesa, a cama em que tu descansas
E o lenho do teu barco.
Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada,
A madeira o teu berço e o aconchego do teu caixão.
Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza.
Tu que passas, olha-me e não me faças mal.

Poeta português Alberto da Veiga Simões (1888-1954).

SEMANA DO MEIO AMBIENTE.

Observação: Vale a pena prestar atenção à bela peça publicitária da Unilever "Adeus, Floresta", na TV.

segunda-feira, 30 de maio de 2016

SEMANA DO MEIO AMBIENTE
Minha avó Maria (1894-1978) costumava contar que em seu tempo de criança havia jacarés para os lados da Ponta da Praia, ainda um espaço coberto de vegetação. Uma história fantástica para quem percorria de bonde a orla santista em plenos anos sessenta. Provavelmente tratava-se do jacaré-de-papo-amarelo, uma espécie típica da América do Sul, que vive em pântanos, charcos e pode ser encontrada em água salgada; mais tarde soube eram comuns nos mangues de ilhas costeiras.  
Parece que os jacarés desapareceram de Santos com a implantação da rede de saneamento da cidade, que cobriu rios e abriu canais para o bem-estar da população que vivia entre surtos de epidemias. Entretanto, eles sobrevivem em na Lagoa da Saudade no Morro da Nova Cintra e no incêndio ocorrido recentemente no Porto, apareceram no Valongo.

Há alguns anos, fazendo uma reportagem sobre o Parque Estadual da Ilha do Cardoso (Cananeia), tive a oportunidade de ver alguns jacarés-de-papo-amarelo com alguns dias de vida e cabiam na palma da mão. Felizmente, a lagoa não secou. (Foto: Chuvisco)

    Visita ao ninho de jacarés-de-papo-amarelo na Ilha do Cardoso.


domingo, 29 de maio de 2016

“AI QUE PREGUIÇA!”

Domingo é dia de descanso. Dia em que a preguiça se manifesta e se arrasta até o início da segunda-feira, quando finalmente nos abandona com a falta de pressa característica. Para quem acredita que ela seja apenas uma condição orgânica ou psíquica, vamos nos lembrar de que ela se materializa no bicho preguiça, originário das Américas Central e do Sul. Os santistas as conhecem bem, afinal, até meados dos anos de 1970 havia um grupo vivendo na copa das árvores da Praça dos Andradas, onde sempre aparecia alguém procurando localizá-las entre as folhagens.
O bicho tem um metabolismo lento que se reflete nos movimentos e ainda dorme catorze horas por dia! As unhas longas lhe permitem viver pendurada nas árvores de onde descem a cada sete dias aproximadamente para fazer suas necessidades fisiológicas. Herbívora, ela tem dentes parecidos com os de uma serra – na Mata Atlântica, alimenta-se dos frutos da embaúba que é por isso conhecida como árvore da preguiça. Na cadeia alimentar, é o prato favorito da onça-píntada, mas também é vitima do homo sapiens como aquele que um dia abateu uma das moradoras da praça de nossa cidade. Uma lembrança para marcar a Semana do Meio Ambiente, que começa amanhã.

“Ai que preguiça!” – como diria Macunaíma. 

Adicionar legenda





“Foi uma inglesa angular que me chamou a atenção para o fato: preguiça é um bicho delicado. Aquele andar pautado é para não ferir o espaço por onde caminha. Que preguiça tem unhas não muito longas e agudas. E ela sabe disso. Mais que para proteger-se a preguiça usa da lentidão para não magoar o lugar por onde se move. Pois é por ali que chegará na hora certa, no lugar certo.”
(Poeta Narciso de Andrade, A Tribuna, Santos.) 

quarta-feira, 25 de maio de 2016

NOVO LIVRO

Apresento meu segundo livro: “Santos: histórias de aviadores, constitucionalistas e expedicionários” (Editora COMMUNICAR. Santos, 2016), que tem apresentação de José Alberto Pereira Sheik e prefácio do Carlos Pimentel Mendes – ambos jornalistas. Desta vez conto um pouco do cotidiano da cidade durante três momentos da primeira metade do século passado, envolvendo os pioneiros da aviação que pousaram nas praias santistas; a participação dos santistas no movimento Constitucionalista e a mobilização durante a II Guerra Mundial. Lançamento previsto para junho próximo em Santos e em São Paulo.




segunda-feira, 23 de maio de 2016


EXPOSIÇÕES
Uma semana muito especial em São Paulo para quem gosta de artes visuais. E todos os locais são acessíveis por metrô. 

    Termina no dia 29 a bela exposição da Pinacoteca do Estado de São Paulo: “Paisagem nas Américas: Pinturas da Terra do Fogo ao Ártico”.
 Praça da Luz, 2 - Luz. (Metrô Luz)

No Centro Cultural Banco do Brasil há “Picasso e a Modernidade espanhola” até 8 de junho.
 R. Álvares Penteado, 112 - Centro. (Metrô Sé)


No Instituto Tomie Ohtake: “Picasso: mão erudita, olho selvagem”, aberta ontem, 22. Até 14 de agosto.
R. Coropés, 88 - Pinheiros. (Metrô: Faria Lima)


Para os apreciadores de artes gráficas, há a exposição do Centro Cultural dos Correios, que homenageia Elifas Andreato. A exposição fica aberta até 7 de junho.


Praça Pedro Lessa (Praça do Correio). (Metrô: Sé)

sábado, 21 de maio de 2016

VINHO, CAUIM E CACHAÇA



Quando os portugueses desembarcaram na Bahia, traziam entre as provisões vinho, que Cabral serviu aos dois silvícolas que foram levados a bordo. Beberam, mas não gostaram. Cuspiram. Mas fizeram o mesmo com a água depois de bochechar. Assim, com base no registro de nascimento do Brasil, pode-se afirmar com certeza que por aqui se bebe vinho desde abril de 1500. E por mais de 300 anos foi a principal bebida da colônia.
Em matéria de bebida alcoólica os ameríndios dispunham do cauim, preparado com mandioca ou milho para festas e rituais. A preparação cabia às mulheres e, se os europeus pisavam as uvas, o processo de produção do cauim é mais exótico. A mandioca cortada em tiras finas é cozida e posta para esfriar; em seguida as mulheres e meninas se reuniam em torno da panela, levavam à boca uma porção da mandioca e mastigavam bem de forma a revestir a massa com a saliva, cuspindo a porção em outro pote. Essa pasta volta ao fogo e é mexida com uma colher de pau até cozinhar. Quando fica pronta é guardada em potes para fermentar. O segredo encontra-se nas enzimas da saliva, responsáveis pela conversão da massa em açúcares fermentáveis. O processo é o mesmo com o milho.
          Em 1532, a plantações de cana-de-açúcar já vicejavam por aqui: os engenhos de açúcar já estavam em plena operação em Pernambuco e em São Vicente. Abria-se a oportunidade para uma inovação. A cachaça portuguesa (Minho) e espanhola era produzida com a borra do vinho. Com a grande disponibilidade de mel de cana, os portugueses iniciaram a produção da cachaça. No século XVIII, o mel do engenho, considerado melhor que o cubano, era exportado para os Estados Unidos como matéria-prima para o rum.
Os escravos coavam em pano de linho os expurgos do caldo de cana para fabricar um vinho, a que misturavam água. Era a garapa, procurada “avidissimamente pelos habitantes, que se embriagavam com ele quando velho”, como nos conta o historiador e antropólogo Luís da Câmara Cascudo (1898-1986) garante que garapa é palavra de origem africana, enquanto Houaiss diz que a origem é, provavelmente, espanhola. Em 1610, fazia-se “vinho com o sumo da cana, que é barato, mas só para os escravos e filhos da terra” – diz Cascudo. E assim, a produção da cachaça cresceu e tornou-se popular na terra.

Mas havia as bebidas refrigerantes, feitas também com sumos de frutas, xaropes. No século XIX, consumia-se o ponche (chá, açúcar, canela, limão e aguardente). Na França, era servido bem quente: no Brasil, o chá foi substituído por água gelada. 
Saúde! 


quinta-feira, 19 de maio de 2016

BRASIL DESCONHECIDO

Em meados do século XIX, moradores do entorno de Recife promoviam, no primeiro domingo depois da Páscoa, uma concorrida festa ao deus Baco que culminava com uma procissão até a pequena Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes. O fato é narrado por Luis da Câmara Cascudo em sua História da Alimentação no Brasil (Editora Global).
Em 19 de abril de 1648, nas proximidades do Recife, os holandeses foram vencidos por combatentes das três raças formadoras da nacionalidade brasileira na primeira Batalha de Guararapes. No dia 19 de fevereiro de 1649, aconteceu a segunda batalha, que culminou com nova vitória brasileira. Mais tarde, o mestre de campo Francisco Barreto de Menezes, que comandou o exército de patriotas, pediu que fosse construída uma capela junto à Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, conhecida também como Nossa Senhora das Vitórias, em agradecimento à vitória conseguida contra os holandeses.
As comemorações da Festa de Nossa Senhora estenderam-se para oito dias: o primeiro dedicado a Nossa Senhora do Rosário; o segundo, a Nossa Senhora dos Prazeres; o terceiro, à Senhora Santana; o quarto, a São Gonçalo; o quinto, ao Bom Jesus de Bouças; o sexto, a Nossa Senhora da Soledade; o sétimo, a Nossa Senhora da Conceição; o oitavo – não por falta de nomes na hagiografia - a Baco.
A festividade dedicada ao deus pagão começava após o ritual litúrgico convencional. Uma multidão dirigia-se a um lugar chamado Batalha, próximo ao riacho Jordão cujas águas vermelhas eram atribuídas ao sangue dos guerreiros da Batalha dos Guararapes. Ali, formava-se um cortejo e depois do batizado de Baco nas águas do Jordão pernambucano, saiam todos em procissão. Cada participante levava um galho de árvore e encerrando o cortejo surgia Baco, montado em uma pipa conduzida aos ombros pelos participantes, que iam se revezando na tarefa.
O papel do deus pagão (?) era representado pelo juiz da festa, eleito todos os anos pelos foliões. Baco usava uma coroa de folhas, levava uma garrafa de vinho na mão direita e um copo na esquerda e, naturalmente, bebia durante todo o percurso do séquito em direção aos Prazeres. Pereira da Costa, citado por Câmara Cascudo, diz que desfilava “então o préstito, entoando um cântico tirado por uns tantos e respondido em coro por toda a gente”.

O estribilho era convidativo: “Bebamos companheiros, /Bebamos companheiros, /O suco da uva,/ O vinho verdadeiro.”  O folclorista brasileiro imagina que seria um belo espetáculo aquele “enorme e compacto arvoredo a descer pela colina, cuja verdura resplendia como esmeraldas aos raios solares”. Essa incrível procissão entrava por um dos lados da capela, dava uma volta pelo pátio e se desfazia.
Câmara Cascudo diz que o costume foi tolerado por autoridades civis e religiosas até 1868, quando chegou o novo bispo, D. Francisco  Cardoso Aires. Culto e meticuloso, ao saber da história, o religioso chamou o presidente da Província, Braz Carneiro Nogueira da Costa e Gama, o conde de Baependi,  e acabou a festa.
Baependi (mais tarde senador do império) mandou a infantaria para a Igreja dos Guararapes e a cavalaria para as barrancas do Riacho Jordão. Assim, os devotos desse Baco batizado não se animaram a continuar com os festejos que, no entanto, permaneceram na lembrança da população local.
          Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres dos Montes Guararapes, construída nas primeiras décadas do século XVII, fica no município de Jaboatão dos Guararapes.
  
Bacco, de Caravaggio (1571-1610), Galeria Uffizi, Florença. 



quarta-feira, 18 de maio de 2016

DOCES CAMICASES


Tudo o que elas precisam para viver está na própria natureza: as árvores, as flores, o pólen, a água, o sol e uma temperatura amena. Moradia? Elas mesmas constroem. Trabalho? Não falta: elas começam a lida logo cedo, com a primeira claridade do dia e só param quando o sol se põe. Vivem tranquilas, mas podem se tornar perigosas ao se sentirem ameaçadas.
Uma abelha operária vive em media um mês e meio. Se há escassez de néctar, ela é obrigada a voar muito para conseguir o alimento, sobrecarregando a musculatura; mas se ela for pouco exigida, dura até oito meses, principalmente no frio. A rainha vive até seis anos porque recebe a geleia real rica em proteína. Para um inseto que depende de flores, as cores não são o principal atrativo das abelhas, mas o perfume. O vermelho não passa de cinza para a abelha que, no entanto, enxerga o ultravioleta, imperceptível para a vista humana; ela vê ainda o azul, o amarelo e o branco.
É nas flores que elas encontram o néctar – líquido açucarado com o qual produzem o mel armazenado por elas nas colmeias. À medida que recolhem o néctar polinizam as plantas, propiciando a reprodução das espécies. O mel pode ter perfume suave e sabores diferentes, dependendo das flores que as abelhas visitam.
Essas pequenas criaturas conquistaram um dia um advogado a ponto de fazê-lo trocar os livros de Direito pelos de História Natural e se tornar uma das maiores autoridades em meio ambiente: Paulo Nogueira-Netto (94), um dos fundadores do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. O professor criou o apiário do IB onde ministrou um curso sobre O Mundo das Abelhas, dentro do Programa USP para a Terceira Idade. (O curso não existe mais.)
Há alguns anos ele contava em entrevista que apareceram pessoas com diferentes ideias sobre abelhas e até aquelas que não distinguiam uma abelha de uma mosca. Para enfrentar um público tão heterogêneo Nogueira-Netto adotou como técnica a linguagem da televisão. “Quando a televisão estava no inicio, fui convidado para fazer um programa e quis saber como deveria me expressar. O professor Paulo Vanzolim me disse que todo texto deveria ser acessível a uma criança de doze anos e dessa forma todos entenderiam o conteúdo da matéria”.
Há muitas espécies de abelhas, mas no curso ele tratava apenas de três: as mamangabas, Apis melífera e as meliponídeas. Ele ensinava as características de cada uma e falava sobre os seus produtos: a cera, o mel, a própolis e a polinização. As mamangabas são abelhas sociais que se veem nas flores, encontram-se por toda parte. A irapuã é inoportuna – corta o broto de plantas (como a laranjeira) e se enrosca no cabelo das pessoas como forma de defesa.  A jataí não tem ferrão e faz suas colmeias em pedras, relógios de luz e muros. As mais bravas são as abelhas africanas, introduzidas no Brasil em 1956.  
 Os alérgicos podem sofrer ataque anafilático e morrer após a picada da abelha e por isso é recomendável procurar logo ajuda no Instituto Butantã. Pouca gente sabe que a abelha deixa o ferrão e parte do intestino na vítima, o que causa a morte do inseto (exceto a mamangaba cujo ferrão tem estrutura diferente). “O ataque é uma ação de camicase” – explicava o professor.


(Sumário de entrevista que me foi concedida pelo professor Paulo Nogueira-Netto para o Calendário de Extensão Universitária – USP, s/d)

Av. Vital Brasil, Butantã, SP, 2014. Hilda Araújo.

terça-feira, 17 de maio de 2016


CAUBY PEIXOTO

    


“Nem sei como eu cantava assim

Só sei que todo o cabaré
Me aplaudiu de pé
Quando cheguei ao fim." 

(Bastidores, Chico Buarque)


Cauby Peixoto: 1931-2016.

  A semana começou mais triste sem o professor que, como diz a canção, cantou até o fim. Cantou maravilhosamente. C’est la vie.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

VARREDORES DE RUA


Provavelmente ninguém conhece Pedro Aleixo Gary, um empresário francês que viveu no Brasil no século XIX. Foi ele quem assinou o primeiro contrato de limpeza pública da cidade do Rio de Janeiro, capital do Império, e assim foi responsável a partir de 11 de outubro de 1876 pela remoção de lixo das casas e praias do Rio de Janeiro. Quando o contrato venceu em 1891, quem assumiu o trabalho foi o primo dele Luciano Gary, mas a empresa foi extinta logo depois. Para substituí-la foi criada a Superintendência de Limpeza Pública e Particular da cidade cujo trabalho deixou muito a desejar. O carioca diante das ruas sujas reclamava mandando a turma do Gary. E aos poucos o nome do francês passou a identificar os funcionários da limpeza pública não só do Distrito Federal, mas em todo o país.
 O dia 16 de maio é dia de homenagear os varredores que percorrem dezenas de quilômetros por dia, limpando as ruas das cidades e, que nós, brasileiros tão pouco valorizamos à medida que vamos jogando o lixo, indiferentemente, por onde passamos, achando que nossos jardins e praças são depósitos de detritos. O pintor paulistano Carlos Prado (1908-1992) é autor do quadro “Varredores de Rua” (1935), que se encontra no MASP.  

sábado, 14 de maio de 2016

TERREMOTOS E IMPOSTOS
A conferência foi sobre a História da Terra – como surgiu, se desenvolveu; como se comporta em relação aos demais planetas, sua relação conturbada com o Sol, de que forma suas entranhas se manifestam e perturbam a vida de uns animaizinhos que, por sua vez, tentam dominá-la há pelo menos 200 mil anos. O mestre faz algumas digressões interessantes quando entra no capítulo dos terremotos.
Ele nos ensina que o pior abalo sísmico registrado na História ocorreu em Lisboa em 1755 e, graças aos relatos existentes, os especialistas avaliam que ele teria atingido nove pontos na escala Richter que, evidentemente, não existia na época, pois só seria desenvolvida em 1935. O terremoto destruiu a capital portuguesa e foi sentido na Espanha e norte da África. E eu diria que também provocou abalos no Brasil. Não sísmicos, mas econômicos, pois o marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo) apressou-se a criar o Novo Imposto ou Subsídio Voluntário para ajudar a reconstruir Lisboa. Assim, ao caminhar pela bela Praça do Comércio esteja certo de que a população brasileira contribuiu para sua reconstrução.
Mas naturalmente estes não eram os únicos impostos que a Coroa portuguesa cobrava dos colonos d’além mar. Na escola aprendemos muito sobre quinto, dízimo e entradas, mas havias outros pouco conhecidos. Em 1662, por exemplo, foi instituído um imposto para pagar à Holanda a indenização pela perda do Nordeste brasileiro e outro para formar o dote da princesa portuguesa Catarina de Bragança, que se casou com rei Carlos II da Inglaterra. Nesta festança, coube ao Brasil arrecadar ao longo de 16 anos 1.920.000 cruzados referentes à negociação com a Holanda e 300 mil cruzados para o dote real. Parece que em 1800 ainda não haviam se lembrado de suspender a cobrança da contribuição “voluntária”.
O nosso velho conhecido marquês de Pombal instituiu em 1772 o Subsidio Literário para custear a rede de ensino público que ele implantou para substituir as escolas dos jesuítas que ele havia expulsado de Portugal em 1759. E havia ainda a tal de Bula da Santa Cruzada que data de 1215, quando os cavaleiros europeus lutavam contra os infiéis e consistia na concessão de indulgências em troca de esmolas. A arrecadação cresceu com a expansão ultramarina de Portugal (séculos XV e XVI) e os recursos seriam destinados à luta contra povos não cristãos. Seriam porque logo a Coroa passou a pagar a parte do Papa e a embolsar o restante. Vigorou no Brasil até o século XIX.  
 Praça do Comércio, Lisboa, 2010. Em obras para visita do Papa.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

O CÉU QUE NOS PROTEGE


Há duas semanas assisti a uma palestra sobre acidentes aéreos e meteorologia. Programa nada aconselhável para quem acredita que voar é com os pássaros. Não é o meu caso. Aviões são um meio de locomoção eficiente mas, naturalmente, alguns caem e pessoas morrem, mas é possível morrer ao cair de uma bicicleta, atravessar a rua ou numa simples viagem de ônibus.
Nada é 100% seguro. Muito menos o sacrossanto lar. No início dos anos de 1950, a vida transcorria tranquila em Sylacauga, no Alabama (USA), cidade conhecida nos Estados Unidos pela qualidade do mármore que produz. Em 1954 tornou-se notícia no mundo por um fato insólito. Ann Hodges, uma simpática dona de casa, lia um livro em sua poltrona preferida, no conforto e segurança do lar, quando um meteorito pesando quase 20 kg caiu sobre a casa dela e, depois de atravessar o telhado e o forro, atingiu-a no abdômen. Felizmente, ela escapou do incidente como mostram as fotos de jornais.
Ann Hodges tornou-se a primeira pessoa conhecida atingida por um dos muitos meteoritos que caem na Terra todos os anos. Em média 100 de acordo com os astrônomos e a maioria deles, muito pequena. Mas há exceções, naturalmente. O maior meteorito conhecido é o de Hoba que caiu na Namíbia. Peso estimado: 100 toneladas de ferro reduzidas a 66 toneladas porque ele enferrujou com o tempo. No Brasil, no século XIX, achou-se meteorito de 5,5 toneladas em Bendengó (BA) e que se encontra no Museu Nacional no Rio de Janeiro.
Em fevereiro de 2013 a queda de um meteorito, na região de Chelyabinsk (Rússia), nos Montes Urais, causou, além do susto, muitos feridos e enormes prejuízos. O meteorito entrou na atmosfera terrestre a uma velocidade aproximada de 80 km por hora, lançando bolas de fogo e causando uma onda de choque que balançou prédios e destruiu vidros.  
      Ah! Na palestra sobre acidentes aéreos e meteorologia, um ponto ficou claro: as chances de uma pessoa morrer durante um voo é de uma em 90 milhões. Isso quer dizer que você pode voar pelos próximos 250 mil anos sem sofrer um acidente. Essa é a conclusão de uma pesquisa do professor Arnold Barnett, do MIT (EUA). (Foto: Hilda Araújo)


Smithsonian National Air and Space Museum, Washington D.C., 2013.