domingo, 30 de março de 2025

A CENTENÁRIA MÁRIO DE ANDRADE

Firmino de Morais Pinto (1861-1938), que é pouco conhecido do paulistano, foi prefeito da cidade entre 1920 e 1926 (dois mandatos). Em sua passagem pela prefeitura de São Paulo deixou obras marcantes como a Praça Patriarca José Bonifácio e a abertura da Avenida do Estado, mas é na área cultural que ele merece ser lembrado, pois apoiou a realização da Semana de Arte Moderna em 1922, cedendo o Teatro Municipal para a realização do evento, e em 25 de fevereiro de 1925 criou a Biblioteca Pública de São Paulo, que em 1960 ganhou o nome de Biblioteca Mário de Andrade em homenagem ao poeta e escritor paulistano. A inauguração, entretanto, só ocorreu em janeiro de 1926 e seu primeiro endereço foi em um casarão da Rua Sete de Abril com um acervo de quinze mil volumes. A Biblioteca se desenvolveu e precisou de mais espaço e em 1942 foi inaugurado o prédio art déco na Rua da Consolação, projeto do arquiteto francês Jacques Pilon (1905-1962), que viveu em São Paulo.

A Biblioteca Mário de Andrade (BMA), que completou 100 anos no mês passado, é a maior biblioteca pública da cidade, superada apenas pela Fundação Biblioteca Nacional (RJ). Ela tem cerca de três milhões de títulos, que abrangem todas as áreas do conhecimento, divididas por várias seções: Coleção Geral, Coleção São Paulo, Circulante, Artes, Mapoteca, Obras Raras e Especiais (produzidas entre os séculos XV e XIX), Hemeroteca e Infantil.

Às terças e quintas-feiras das 10 às 14 horas há visitas monitoradas, que devem ser agendadas com dez dias de antecedência. A visita dura cerca de uma hora e meia e atende a grupos de dez pessoas no mínimo.  

Biblioteca Mário de Andrade

Prédio principal – Avenida São Luís, nº 235

Horários: Segunda a sexta, das 9h15 às 19h45. Telefone: (11) 3150-9414/9455

Circulante: Avenida São Luís, 235. Horário: de segunda a sexta, das 8h30 às 20h30 e sábado, das 10 às 17 horas. Fecha aos domingos e feriados. Sempre é bom confirmar os horários.

 

O catálogo pode ser acessado pelo site:

https://capital.sp.gov.br/web/cultura/bma


"A Leitura" (1943), escultura de Caetano Fraccaroli, no saguão da BMA. 




domingo, 23 de março de 2025

DIA DA METEOROLOGIA

 


Na casa da minha infância havia uma chave dourada pendurada na parede da copa que me fascinava. Na parte oposta aos dentes tinha uma paisagem colorida protegida por um vidro. Um objeto de gosto duvidoso, mas útil nos anos de 1940, pois tratava-se de um termômetro que ficava no corpo da chave. Quando me explicaram para que servia e como funcionava, fiquei encantada e costumava “enganar” o termômetro colocando o dedo na capsula para ver o mercúrio subir. Não demorou muito essa fase, pois logo percebi que era melhor abrir a janela para saber se fazia frio lá fora.

Lembrei dessas artes infantis, ao ser avisada por alguma IA de que hoje é o Dia Mundial da Meteorologia, estabelecido em 1951 para comemorar a criação da Organização Meteorológica Mundial (OMM) em 23 de março de 1950. A Organização, que completa hoje 75 anos, é a voz oficial da ONU sobre tempo, clima e água.

Desde aquela época os avanços científicos nos permitem receber em casa ou nos aparelhos celulares alertas antecipados sobre fenômenos meteorológicos, como tempestades e a possibilidade de enchentes, com a recomendação de buscar um lugar seguro.

A meta da OMM é que até o final de 2027 os alertas rápidos sejam usados em todos os países para que as populações se protejam contra os fenômenos meteorológicos, hidrológicos e climáticos perigosos, salvando vidas.

Ilustração: site da OMM.

sábado, 22 de março de 2025

LOUIS ARMSTRONG E DANNY KAYE

Que encontro! Que vídeo maravilhoso de dois artistas extraordinários! Louis Daniel Armstrong (1901-1971) e David Daniel Kaminsky, mais conhecido como Danny Kaye (1911-1987). Tanto Louis Armstrong quanto Danny Kaye foram artistas completos – Armstrong, músico, cantor extraordinário e band leader, assim como Kaye, ator, cantor, músico e bailarino. Um encontro emocionante. Observação: a música (spiritual) tradicional permite o improviso, mantendo os refrões.

(Errei ao colocar este texto com o vídeo de outra publicação.)

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https://www.youtube.com/watch?v=TN_1RNyfuA0

terça-feira, 18 de março de 2025

VENDEDORES E VENDEDORES


Não sou nada agradável pela manhã, que sempre começa com o café. Acho que as coisas ficam melhores ainda se o precioso líquido for tomado numa xícara bonita. Outro dia saí procurando uma xícara bem colorida para variar. Fui a várias lojas onde só achei xícaras brancas ou canecas, que eu abomino. Desisti, mas ao passar pelo terminal Santa Cruz lembrei que lá havia três lojas grandes que tinham xícaras. Depois de visitar duas sem sucesso, entrei na última que parecia um deserto. Bastou uma espiada para ver que as canecas eram dominantes. Foi quando apareceu um vendedor querendo ajudar. Expliquei que queria uma xícara bem bonita, colorida, com flores ou bichos ou só cores, mas não tinha achado nenhuma. Ele foi a uma prateleira que eu já vira e me mostrou uma xícara branca. Repeti as características do que produto. Aí ele me apontou uma cinza. Recusa (já meio irritada). Aí, um modelo zebra – listrada de preto e branco. Nova recusa. Foi quando ele me perguntou se eu queria uma xícara completa. Completa? Como assim? E pensei se a incompleta vinha sem asa ou sem o fundo... E candidamente ele explica que a completa vem com pires... Ora, sem pires é caneca. Agradeci e fui embora. Levei semanas até a


char o que eu queria.

segunda-feira, 17 de março de 2025

DOMINGO NO PARQUE

 





Embora não goste de sair nos finais de semana, ontem fui com a amiga Elides conhecer à Feira Cultural Leste Europeia de São Paulo, na Vila Zelina que acontece uma vez por mês numa das entradas do Parque Lydia Natalizio Diogo. Um dia agradável de final de verão. Metrô até a Vila Prudente e transbordo para a Linha Prata, aquela do monotrilho. Descemos na primeira parada – estação Oratório, pedimos informações para os funcionários que nos deram a direção a seguir e lá fomos nós explorar a Zona Leste. 

Uma caminhada curta, mas surgem dúvidas; pergunta-se aqui e ali – todos sabem da feira – e chegamos lá. Tudo bem organizado. Todos muito simpáticos e um ótimo atendimento. Para facilitar há barracas com o nome dos quitutes e informações básicas sobre as guloseimas. Difícil escolher. Comida búlgara, sérvia, russa... Tudo parece muito gostoso. Reconheci apenas a bureka, que experimentei há alguns anos na casa Búlgara, no Bom Retiro. Há ainda Verenikes – panquecas recheadas (russo); kugelis l

São várias as opções, como a "bureka" búlgara (rosquinhas folhadas e recheadas), os "varenikes" russos (pequenas panquecas recheadas) e o "kugelis" lituano (feito com massa de batata) e muitos outros pratos tradicionais. Quanto às bebidas, pode-se experimentar o "krupnikas", licor de mel típico da Lituânia, e o "kvass", bebida fermentada. E muito mais.

O artesanato é bonito e variado. Os destaques são as matrioskas, as bonequinhas russas de madeira que você abre e tem outras menorzinhas no interior.

A feira estava bem movimentada e quem não conseguia lugar nas barraquinhas para apreciar a comida e a bebida, a opção é entrar no parque e saborear os quitutes num dos bancos espalhados pela área. Sempre há possibilidade de se ver um quero-quero ou um pica-pau-do-campo. O Parque Professora Lydia Natalizio Diogo, que completará 29 anos em julho, dispõe de viveiro, equipamento para atividades físicas – de pista de corrida e ginástica; e um jardim japonês com lago com carpas e espaço para cães. Tudo muito bem cuidado.

No próximo mês tem mais. O ideal é ir de metrô para conhecer a Linha Prata. A rota: Linha Verde sentido Vila Prudente e embarque no monotrilho – Linha Prata para a estação Oratório (a primeira parada) e caminhar até a Rua Aracati Mirim. A feira fica em frente ao parque.





sexta-feira, 14 de março de 2025

SE EU SENTIR SONO...

 

Ah! nada como um bom sono quando se está cansado!

Hoje é o dia Mundial do Sono. A data foi criada pela World Sleep Society para “criar conexões e aumentar a conscientização sobre a saúde do sono entre pesquisadores, profissionais de saúde, pacientes e o público”. O sono é tão importante para a saúde quanto a nutrição e a atividade física, como explica a WSP.

O sono ajuda a manter a memória e a aprendizagem; ajuda a promover a saúde cerebral; auxilia a saúde imunológica e a reciclar células velhas, além de manter os níveis de energia do corpo, de acordo com a entidade, que tem reconhecimento internacional.

São Paulo há duas importantes entidades: o Laboratório do Sono do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas, que estuda os distúrbios do sono e presta assistência à população; e o Instituto do Sono da Unifesp, que além de estudos faz diagnósticos e promove aprimoramento profissional.






SE EU ME SENTIR SONO

Fernando Pessoa

Se eu  MEsentir sono,
E quiser dormir,
Naquele abandono
Que é o não sentir,

Quero que aconteça
Quando eu estiver
Pousando a cabeça,
Não num chão qualquer,

Mas onde sob ramos
Uma árvore faz
A sombra em que bebamos,
A sombra da paz.

domingo, 9 de março de 2025

AS CURVAS DA ACLIMAÇÃO

 

Rua José de Queirós Aranha.

Em seu livro “Reencantamento da cidade”, Eduardo Yázigi, doutor em planejamento urbano, enumerou 31 pesadelos com que as pessoas convivem nas cidades.

Pesadelo 1: a retificação das ruas. Yázigi classifica de urbanismo retrógrado a retificação das velhas ruas tortas “que dão um toque de devaneio na vida moderna”. E indaga: “O que seria de Roma e tantas outras cidades sem a ‘cidade velha’? Prefeitos consideram-se moderninhos e progressistas (sem o r após o p) retificando o passado, rios inclusive, com a quadratura da burrice, e são por ironia aplaudidos por cidadãos limitados. Depois de retificarem ruas para automóveis, tentam fechá-las para pedestres...”.

O encanto do bairro da Aclimação é que raras são as ruas retificadas – elas sobem e descem o morro, fazem curvas deliciosas, muitas se entrelaçam confundindo o pedestre distraído ou o visitante eventual. É verdade que a especulação imobiliária esteja tentando destruir essa característica substituindo o casario por prédios enormes; entretanto, ainda é possível admirar as casas com jardins na frente, varandas acolhedoras, cães dormitando e janelas amplas em que cortinas brancas bailam ao vento... Ruas arborizadas, floridas dão uma sensação de frescor mesmo em dias quentes.

                            As curvas da Rua Topázio

As avenidas Aclimação, Engenheiro Luís Gomes Cardim Sangirardi, e Turmalina, e as Ruas Topázio, Nicolau Souza Queirós e Paraíso são as mais movimentadas – por elas circulam ônibus, caminhões (serviços) e motos. 

Rua Batista Cepelos.




VIZINHOS NOVOS E BARULHENTOS

 

Vizinhos novos. Eles moravam numa cobertura da esquina, onde eram famosos pelo tumulto. Que eu saiba nunca houve reclamações, mas pelo que observei de passagem a balbúrdia quase sempre era pela manhã e no final da tarde – ou seja, quando saiam ou quando voltavam sabe-se lá de onde. Há algumas semanas se estabeleceram aqui em frente. São daquele tipo que vai se insinuando, ignorando se são ou não bem-vindos. Manhã dessas apareceu um deles tentando me conquistar com um olhar carente que ignorei solenemente e os moradores mais antigos, temendo essa invasão de privacidade, o expulsaram. Melhor dizendo, o puseram para voar porque era uma das dezenas de maritacas que mudaram da palmeira da esquina para as árvores aqui da pracinha, onde continuam com a algazarra matinal e vespertina para desgosto das rolinhas-caldo-de-feijão tão discretas e que costumam me visitar todos os dias.

segunda-feira, 3 de março de 2025

MÁRIO DESCOBRE O CARNAVAL CARIOCA

 

CARTA DE MÁRIO DE ANDRADE AO AMIGO MANUEL BANDEIRA, desculpando-se por não ter ido visitá-lo, conforme prometera.

“Querido Manuel. Depois perdoarás. Foi assim. Desde que cheguei ao Rio disse aos amigos: Dois dias de carnaval serão meus. Quero estar livre e só. Para gozar e observar. Na segunda- -feira, passarei o dia com Manuel, em Petrópolis. Voltarei à noite para ver os afamados cordões. Meu Manuel...Carnaval! Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia... Perdi tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar...Fui ordinaríssimo. Além do mais: uma aventura curiosíssima. Desculpa contar-te toda esta pornografia. Mas... Que delicia, Manuel, o carnaval do Rio! Que delícia, principalmente, meu carnaval! Se estivesse aqui, a meu lado, vendo-me o sorriso camarada, meio envergonhado, meio safado com que te escrevo: ririas. Ririas cheio de amizade e perdão. (...) Meu cérebro acanhado, brumoso de paulista, por mais que se iluminasse em desvarios, em prodigalidades de sons, luzes, cores, perfumes, pândegas, alegria que sei! Nunca seria capaz de imaginar um carnaval carioca, antes de vê-lo. Foi o que se deu. Imaginei-o paulistanamente. Havia um que de neblina, de ordem, de aristocracia nesse delírio imaginado por mim. Eis que sábado, às 13 horas, desemboco na Avenida. Santo Deus! Será possível!... Sabes: fiquei enjoado. Foi um choque terrível. Tanta vulgaridade. Tanta gritaria. Tanto, tantíssimo ridículo. Acreditei não suportar um dia funçanata chula, bunda e tupinambá. Cafraria vilissima, dissaborida. Última análise: “Estupidez”! Assim julguei depois de dez minutos que não ficaria meia hora na cidade. Mas, por isso talvez que tanto tenho sofrido dos julgamentos levianos, jurei para mim olhar sempre as coisas com amor e procurar compreendê-las antes de as julgar. Comecei a observar. Comecei a compreender. Uma conversa iluminava-me agora sobre uma ridícula baiana que há pouco vira. A pobreza de uns explicava-me a brincadeira. Admirei repentinamente o legitimo carnavalesco, o carnavalesco carioca, o que é só carnavalesco, pula, canta e dança quatro dias sem parar. Vi que era um puro! Isso me entontece e me extasiou. O carnavalesco legítimo, Manuel, é um puro. Nem lascivo, nem sensual. Nada disso. Canta e dança. Segui um deles uma hora talvez. Um samba num café. Entrei. Outra hora se gastou. Manuel: sem comprar um lança-perfume, uma rodela de confeti, um rolo de serpentina, diverti-me 4 noites inteiras e o que dos dias me sobrou do sono merecido. E aí está porque não fui visitar-te.”

"Carnaval" (1965), Di Cavalcanti. In: ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira.




CARNAVAL DE J. CARLOS

José Carlos de Brito e Cunha nasceu no Rio de Janeiro em 1884, mas tornou-se conhecido como J. Carlos, ilustrador, chargista e autor de histórias em quadrinhos. Colaborou em grandes revistas – Fon-Fon, Careta, O Malho entre muitas outras. Em 1941, recusou o convite de Walter Disney, que visitava o Brasil, para trabalhar em Hollywood, mas o presenteou o norte-americano com o desenho de um papagaio, que teria inspirado a criação do Zé Carioca. J. Carlos faleceu em 1950. No Carnaval de 2009 foi homenageado pela escola de Samba Acadêmicos da Rocinha com o enredo “Tem francesinha no Salão... O Rio no meu coração”. 




domingo, 2 de março de 2025

CARNAVAL DAS GAROTAS

 

“Garotas” (1938-1964), criação do mineiro Alceu Penna (1915-1980), era uma das minhas páginas preferidas da revista CRUZEIRO (1928-1975). As garotas eram graciosas e tinham roupas elegantes, coloridas e bem modernas.  










sábado, 1 de março de 2025

SÁBADO DE CARNAVAL

 

Calor intenso. Chuvas torrenciais – felizmente passageiras. Estes são dois dos principais motivos para ter reduzido meus passeios. Na hora do almoço consultei a meteorologia local: espiei pela janela e vi céu de brigadeiro ao Norte e ao Sul, mais não consegui ver. A sibipiruna florida nem se mexia. Com certeza a temperatura está bem acima dos 30 graus. Notei que a rua estava fechada ao trânsito e o casalzinho, na esquina, que deveria estar orientando os motoristas, namorava tranquilamente. Lembrei que nossa rua tem um bloco. Resolvi ir ao supermercado e quando passei pelos namorados perguntei qual o nome do bloco e fiquei sabendo que é “Siga la pelota”. Para participar basta usar traje de banho e levar um coco gelado como adereço. A banda promete “hits marítimos e surreais” (oh! Céus!) e um “repertório de brasilidades que vão de Mutantes a Tchakabum, de Tim Maia a Olodum”. Segui pelo lado oposto.

Em frente a um prédio modernoso, um rapaz escovava a pelagem negra do cão terra-nova, que estava sobre o banco preferido dos idosos do bairro. Gosto demais desse cão enorme, com um jeitão de urso e se move como um príncipe das ruas, sem pressa nenhuma. Mais adiante encontrei Formiga, o oposto do terra-nova. Acho que é um pinscher, amigo inseparável de um senhor que vive de pequenos serviços. Formiga aproveitava uma sombrinha para um cochilo.

Resolvi parar na padaria para um cafezinho. De um lado seu João saboreia uma cerveja (que ele deixará pela metade) e do outro o Alfredo, freguês remanescente de uma antiga padaria do bairro. Acho que é mais jovem do que eu, mas está bem abatido. Ele certamente não se lembra de mim. Eu era a observadora do grupo que se reunia todo final de tarde na “Dengosa”, que fechou há mais de 20 anos. “Bom dia, seu Alfredo.” Seu Alfredo toma café com pão de queijo, me olha e me deseja bom dia, um feliz ano novo com muita saúde e prosperidade! Retribuo os votos. Logo ele se despede, reiterando os votos. Saboreio o café. O tempo passou para todos nós.

Na saída, o calor escaldante me recepcionou e me fez lembrar que ontem deixei meu chapéu na Biblioteca Sérgio Milliet, avisei que irei busca-lo depois do Carnaval. Como esqueci de pegar o reserva, o jeito foi voltar para casa.





quinta-feira, 27 de fevereiro de 2025

ELIZABEHT TAYLOR

 

Na minha opinião, foi a mais bela mulher do século XX e até hoje não tenho visto outra que se compare a ela. E não faltaram mulheres belas circulando pelo mundo desde então. Fez alguns filmes muito bons (“De repente no último verão”, “Assim Caminha a humanidade”, “Gata em teto de zinco quente” e, por que não? “A mocidade é assim”) e outros nem tanto. Hoje faria 93 anos

Foto de publicidade da MGM, 1950.

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segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

PARA SEMPRE MÁRIO

 


Há 80 anos morria Mário de Andrade – doze dias após o Carnaval, que ele tanto amava. Morreu em casa na Rua Lopes Chaves de um ataque cardíaco aos 51 anos. Viveu pouco, mas deixou uma obra extraordinária. Grande nome da Semana de Arte Moderna, ele foi escritor, poeta, músico, pesquisador, fotógrafo e, acima de tudo, um apaixonado por São Paulo. Foi um estudioso do Brasil. De “Macunaíma” a “Turista Aprendiz”, de “Amar Verbo intransitivo” à “Pauliceia desvairada” – há alguma expressão melhor para definir essa cidade fantástica?

Ele não morreu – de uma certa forma o desejo que ele pôs em versos se realizou – há um pedaço dele em vários pontos da cidade: na rua Aurora, no Paissandu, na rua Lopes Chaves, no Instituto de Estudos Brasileiros/ USP, no Centro Cultural São Paulo, na Biblioteca Mário de Andrade...

Pouca gente conhece, entretanto, uma das suas grandes realizações que, sem dúvida, foi a criação dos Parques Infantis, como diretor do Departamento de Cultura, idealizado por ele e implantado em 1935 na gestão do prefeito Fábio Prado (1934-1938).

Os três primeiros parques foram instalados no Parque D. Pedro, Lapa e Ipiranga e atendiam a 1.624 crianças. Em 1936 foi agregada aos parques uma educadora sanitária após a constatação das condições precárias de vida da classe operaria por meio de pesquisas da prefeitura paulistana. Mário “reativou nas praças e parques infantis as danças dramáticas e folclóricas, organizou corais nesses mesmos parques”, de acordo com Oneyda Alvarenga (1911-1984), poeta, musicóloga, folclorista etnóloga, ex-aluna e grande colaboradora de Mário de Andrade.

Os Parques Infantis, destinados às crianças de 3 a 12 anos, filhos de famílias operárias, possibilitavam que vivenciassem a infância brincando em contato com a natureza, conhecessem as manifestações culturais brasileiras, produzindo história e cultura. Em sua tese de doutorado, a professora Ana Lúcia Goulart de Faria, da Faculdade de Educação da Unicamp, explica que “(...) as ideias de Mário de Andrade a respeito da construção de uma identidade nacional englobavam todas as faixas etárias e todas as camadas sociais. Através das manifestações populares, folclóricas, artísticas e estéticas, a infância e o operariado estavam presentes consumindo e produzindo cultura, abrasileirando, portanto, o país”.

Infelizmente, a cultura – música, danças e lendas – brasileira foi engolida por unicórnios, bruxas, fadas, Pocahontas, leões etc., o cardápio oferecido em escolas em geral.

Casa Mário de Andrade. Barra Funda.

                                        

sábado, 22 de fevereiro de 2025

FESTIVAL DO SOL DE ABU SIMBEL

 O FESTIVAL DO SOL DE ABU SIMBEL, Egito, acontece duas vezes por ano - uma em 22 de

fevereiro e outra em outubro. A foto é de setembro de 2009. Uma viagem maravilhosa.




MACHADO DE ASSIS

 AO CARNAVAL DE 1860

"Morreste, seriedade!

Momo, o deus das zombarias,

Usurpou-te, por três dias,

Teu esplêndido bastão!

De um exílio temporário

Toma a longa e nova rota;

Agora reina a chacota

E o carnaval folgazão!

 

Diante da mais rubra folia,

Cabeça a mais séria não vale um real;

Doidice, festança e alegria,

Tudo isto é fortuna que traz — carnaval.

 

Homem sério e bem formado,

Neste dia é contrabando;

Respeitado e venerando

É coisa que não se diz;

A razão abrindo os lábios,

Onde tem berço o juízo,

Vestiu um chapéu de guizo,

E pôs um falso nariz!

 

Nem pai de família, nem velho empregado,

Doutor, diplomata, caixeiro ou patrão,

Ninguém, ó loucura, no dia aprazado,

Não pode negar-te seu grande quinhão.

 

Tudo a loucura nivela,

Nem há luta de inimigos:

Esqueçam-se ódios antigos

De algum ferrenho eleitor;

Há tréguas por três dias

No campo dos candidatos,

Que o feijão ferve nos pratos

E os guizos falem melhor.

 

Esqueça-se tudo, são todos convivas,

Os ódios se apaguem no abraço comum:

Que doce batalha! Que lutas festivas!

Daqui deste campo não foge nem um!

 

Todas as belas amáveis

Podem ter parte na festa:

Sacerdotisas e Vesta,

Acendei os corações!

Pra sustentar a empresa

Não tendes armas faceiras?

É não tirar as pulseiras

E conservar os balões.

 

Daí das janelas olhando curvadas.

Sem dar um só passo na luta venceis:

Ao fogo, que corre das vossas sacadas

Aquiles se curvam e algemam-se reis.

 

Os reis, conquanto pintados,

Sempre são reis por três dias;

E sabem as galhardias

Das vossas armas leais.

Nós somos a Roma Inerte

Com a invasão peregrina

Que os hunos de crinolina

São mais que os outros fatais."


Machado de Assis (1839-1908).

 

A Marmota, nº 1136, 21-2-1860, jornal fluminense.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

CARNAVAL DE ARTUR AZEVEDO

 

“O fluminense, na terça-feira gorda, anda, corre, pula, fala, grita, canta, dança e agita-se por todo um ano. Faz a sua provisão de pândega, e vai para casa esperar resignadamente pelo próximo carnaval, rolando, enquanto descansa, a pesada pedra de Sísifo que se chama vida prática.” 

Arthur Azevedo (1855-1908) na coluna “Palanque”, no DIÁRIO DE NOTÍCIAS de 15 de fevereiro de 1888. 


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2025

AS CHUVAS DE FEVEREIRO



Como Jorge Ben Jor, eu também moro num país tropical, bonito por natureza e que em fevereiro tem carnaval (de que não gosto). Tive um fusca com o qual vivi grandes emoções e um cavaquinho, que nunca toquei, mas guardo com carinho. Jorge Ben Jor também se queixava porque “chovia chuva” sem parar, mas nos últimos dias quando ansiamos por chuva para amenizar a canícula que se abate sobre a cidade, temos tempestades, felizmente, passageiras.

Aqui, do sofá na minha sala deixo Gilberto Freyre de lado e observo a natureza revoltada. De onde estou só vejo as copas da jaqueira, da mangueira e da sibipiruna açuladas pela ventaria que também fustiga as vidraças das janelas. Os trovões são sequenciais. Um verdadeiro festival. Qual o mais forte? A Defesa Civil emite alerta. Ok. Fazer o quê? Manter o celular carregado para o caso de faltar energia tem sido uma boa precaução, afinal, sempre é possível ouvir música ou pesquisar alguma coisa enquanto se aguarda o restabelecimento do serviço. Ou usar a lanterna para iluminar nossos passos. Que aparelhinho maluco! Que diria Graham Bell se soubesse que o seu invento se tornaria um aparelho de mil e uma utilidades? Do telefone fixo à manivela, que exigia uma telefonista para fazer as ligações a um aparelho de bolso, que é ainda máquina fotográfica, telégrafo sem fio, rádio, televisão, espelho, banco e muito mais funções que ignoro... Tudo em tempo real. Bell morreu há pouco mais de cem anos...

Volto à leitura.

Não demora muito e percebo que já não há energia... Acho que são umas três horas da tarde e fico imaginando quanto tempo teremos de esperar. Como somos dependentes dela! A geladeira e os equipamentos da cozinha (cafeteira, bebedouro, micro-ondas etc.), a ventilação, os elevadores... E pensar que nossos antepassados precisavam apenas de velas e lamparinas, lenha ou carvão e um bom par de pernas...

A ventania amainou, mas a chuva continua torrencial. Imagino a enxurrada descendo em direção ao Parque da Aclimação. Freire é sempre uma ótima companhia e continuo a leitura.


segunda-feira, 17 de fevereiro de 2025

CARNAVAL DE GRAÇA

 

Maranhense, José Pereira da Graça Aranha (1868-1931) formou-se pela Faculdade de Direito do Recife e, depois de passar pela magistratura, fez carreira diplomática. Quando retornou ao Brasil, o movimento modernista estava em pleno desenvolvimento, identificou-se com o grupo paulista e foi um dos organizadores da Semana de Arte Moderna em 1922. Abaixo excerto do romance “A Viagem Maravilhosa” (1929).  Na verdade, é considerado pré-modernista.

CARNAVAL

“Alguns dias depois explode embaixo o carnaval. Maravilha de ruído, encantamento do barulho. Zé Pereira, bumba, bumba. Falsetes azucrinam, zombeteiam. Viola chora e espinoteia. Melopeia negra, melosa, feiticeira, candomblé. Tudo é instrumento, flautas, violões, reco-recos, saxofones, pandeiros, latas, gaitas e trombetas. Instrumentos sem nome inventados subitamente no delírio da improvisação, do ímpeto musical. Tudo é canto. Os sons sacondem0se, berram, lutam, arrebentam no ar sonoro de ventos, vaias, claxons e aços, estrepitosos. Dentro dos sons movem0se as cores, vivas, ardentes, pulando, dançando, desfilando sob o ver de arvores, em face do azul da baía, no mundo dourado. Dentro dos sons e das cores movem-se os cheiros, cheiro negro, cheiro mulato, cheiro branco, cheiro de todos os matizes, de todas as excitações e de todas as náuseas. Dentro dos cheiros, o movimento dos tatos, violentos, brutais, suaves, lúbricos, meigos, alucinantes. Tatos, sons, cores, cheiros que se fundem em gostos de gengibre, de amendoim, de castanhas, de bananas, de laranjas, de bocas e de mucosas. Libertação dos sentidos, envolventes das massas frenéticas, que maxixam, gritam, tresandam, deslumbram, saboreia, de Madureira à Gávea, na unidade do prazer desencadeado. Carnaval. Tudo efemina-se. Gloria da mulher. Ela, para ela e por ela. Inversão universal. Homens-fêmeas. Mulheres-machos, retorno ancestral ao culto lunar, ao mistério noturno. Desforra da fêmea. Ressurreição das bacantes, das bruxas, das diabas. [...]”

"Carnaval", Di Cavalcanti, 1965. Acervo: Itaú.


domingo, 16 de fevereiro de 2025

O CARNAVAL DE LÉVI-STRAUSS

 

PARIS – Num domingo de 1934 em, Claude Lévi-Strauss foi consultado por um professor sobre o possível interesse dele por Etnologia que o informou da existência de uma vaga para lecionar no Brasil numa nova universidade. Sim, o jovem Lévi-Strauss tinha grande interesse pela matéria, quanto à mudança para o Brasil, ele tinha apenas duas horas para decidir. Felizmente, o jovem professor aceitou o desafio. Em 4 fevereiro de 1935, ele embarcou com a esposa Dina no navio misto de passageiros e carga Mendoza com destino ao Brasil. Com eles também viajaram os colegas Jean Maugüe (filósofo) e Pierre Hourcade (literatura francesa) que se juntariam aos outros membros da chamada “missão francesa” da Universidade de São Paulo, que já se encontravam em São Paulo. 

A viagem é demorada porque o navio faz diversas escalas antes de atravessar o Atlântico. A primeira parada é no Rio de Janeiro, depois Santos onde são recebidos por Júlio de Mesquita Filho, proprietário do jornal O ESTADO DE S. PAULO, imprensa e fotógrafos. O grupo sobre a Serra do Mar – um impacto belamente narrado posteriormente por Lévi-Strauss – e em São Paulo é recebido pelo interventor Armando de Salles Oliveira e instalado no Hotel Terminus (R. Brigadeiro Tobias, 576).

Um detalhe: era Carnaval, que em 1935 foi de 3 a 5 de março.  E Lévi-Strauss escreveu:

“Na mesma noite, saímos em exploração pela cidade. num bairro popular, uma casa baixa com janelas verdes emitia uma música tonitruante e viam-se pessoas dançando. Nos aproximamos. Um negro que vigiava a porta disse que podíamos entrar, mas para dançar, não para olhar. Dançamos então com aplicação, mas receio que sem a menor habilidade e causando bastante embaraço às mulheres negras que, numa total indiferença, aceitavam nossos convites.”

Desfile de blocos carnavalescos na rua Brigadeiro Galvão registrado por Claude Lévi-Strauss. (Acervo IMS/Divulgação)