domingo, 5 de fevereiro de 2017

VIVA O ZÉ PEREIRA!


FEVEREIRO, mês do Carnaval, então vamos lá... Eu não gosto. As pessoas deveriam sair dançando pelas ruas quando tivessem vontade e não na data marcada no calendário. Acho desfile de escola de samba um tédio. Entretanto, a festa rendeu ótimas produções musicais, que a gravadora Revivendo reuniu na coleção “CARNAVAL, sua história, sua glória”.  Então, abram alas para os carnavalescos que preparam as fantasias (agora sumárias) e procuram entre os guardados os tamborins porque “Viver somente de cartaz, não chega,/ Põe as pastoras, na avenida, Mangueira querida!”.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

AVE, AVES!

O jornal CIDADE DE SANTOS (1967-1987) ficava na esquina das ruas XV e do Comércio. Uma tarde saí para fazer uma reportagem na Bolsa do Café – a uma quadra da empresa e, quando pus o pé no degrau do prédio da Bolsa, o pombo me acertou. Um susto. Nojo. Uma decisão rápida. Voltei para a redação, lavei a cabeça entre muitas reclamações (minhas) e piadas (dos outros) e retornei ao trabalho. Meu chefe tentou me consolar, dizendo que era sinal de sorte. “Sorte sua, que não foi o atingido”, respondi indignada.
Ainda a serviço do mesmo jornal fui enviada para cobrir algum evento na Ponta da Praia, ainda um bairro de pescadores e pequenos estaleiros escondidos em um grande matagal. No final da tarde, a praia ficava cheia de barcos e ali era descarregada a produção do dia. Muita gente ia comprar peixe fresco direto dos pescadores que, por cortesia, limpavam o pescado, deixando as vísceras por ali mesmo. Um grande atrativo para urubus que passavam as horas sobrevoando e passeando pela praia à espera da comida fácil. Lembro-me bem que era uma tarde chuvosa e eu usava uma capa que, para meu grande desgosto, foi batizada solenemente por uma das aves.
Décadas depois estava flanando por Lisboa quando um pombo português resolveu deixar suas marcas em meu rabo-de-cavalo. Disse alguns desaforos para o alto, embora o autor do ultraje não estivesse à vista. Por sorte (mesmo?) ainda estava perto do hotel e retornei para um novo banho. Eu teria achado que minha cota de desastres com a avifauna já estava superada, mas...
Alguns anos depois de Lisboa fui a uma conferência no Instituto Goethe em São Paulo. Verão. Fim de tarde. Mais uma vez um columbídeo me esperava no telhado do prédio. Oh! Que asco! O jeito foi lavar a cabeça na pia enquanto resmungava.
Em 2015, andei por campos e montanhas ingleses e escoceses despreocupadamente. O perigo, contudo, estava nas cidades e tinha outro nome: gaivota. Felizmente, as atacantes (sim, é um ataque!) acertaram no anorak ou no casaco.  Foram três fatídicos eventos!
Puxa! É demais! – dirão alguns. Entretanto, no início deste ano novamente um pombo, incapaz de me acertar, deixou a lembrança em algum lugar onde a distrailda se encostou, sujando a roupa.

Lembrei-me dessa odisseia escatológica porque um pombo veio me visitar esta manhã. Pousou na minha janela e ficou me observando a escrever. Imagino se está em missão de reconhecimento. A verdade é que, apesar de tudo, gosto muito deles. São aves graciosas e elegantes. Eles proliferaram nos centros urbanos por causa do alimento abundante, se tornaram uma praga, transmitem doenças. No Marrocos e no Egito, são criados para consumo e são muito apreciados. Muitos países tornaram-se grandes criadores de pombos-correios, inclusive o Brasil. O visitante foi embora. Dispenso conselho de engraçadinhos para carregar sempre um guarda-chuva... 


Oxford: gaivota entretida com comida  lixo deixado por turistas.
Foto: Hilda Araújo, 12/06/2015.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

AH! O MEU CHAPÉU.
Sol ou o frio. Um deles foi motivo para que o homem cobrisse a cabeça há alguns milênios. E assim começou a história do chapéu. Primeiro uma peça útil. Depois, um ornamento. Um luxo. A peça pode ser vista nas representações artísticas egípcias, gregas, romanas. Páris, o herói grego, usava um barrete, segundo o mito. Mais tarde o barrete frígio foi usado por escravos romanos. Na Revolução Francesa (1789), tornou-se um símbolo dos revolucionários. Em latim chamava-se cappellus, (diminutivo de cappa). Em francês, no século XII, evoluiu para chapel e designava um penteado usado por homens e mulheres, mas no século XV já era chapeau, nosso conhecido chapéu, segundo nos ensina Houaiss. Até meados do século XX foi uma peça indispensável do guarda-roupa masculino e feminino.
Inspiração para pintores, poetas, escritores e letristas de músicas populares. Foi tema do belo e premiado filme de Júlia Zakai – “O chapéu do meu avô” (São Paulo, 2004).
Mas como diz o poeta:
Mil novecentos e pouco.
Se passava alguém na rua
sem lhe tirar o chapéu
Seu Inacinho lá do alto
de suas cãs e fenestra
murmurava desolado
― Este mundo está perdido!
Agora que ninguém porta
nem lembrança de chapéu
e nada mais tem sentido,
que sorte Seu Inacinho
já ter ido para o céu.

"Cortesia", 
Carlos Drummond de Andrade (1902-1987).

“O orvalho vem caindo,
Vai molhar o meu chapéu,
E também vão sumindo,
As estrelas lá no céu,
Tenho passado tão mal,
A minha cama é uma folha de jornal.”
"O Orvalho vem caindo", Noel Rosa (1910-1937).



Quando ela pôs o chapéu
Como se tudo acabasse,
Sofri de não haver véu
Que inda um pouco a demorasse.
 "Quadras ao gosto popular", Fernando Pessoa.
"Chapéu azul", 1922: Tarsila do Amaral (1886-1973). 

Tumba do faraó
 Tuntakhamon, 1332-1322 a.C.
Mitrídates VI, rei do Ponto, 134-63 a.C.


Afresco de Brancacci, Florença.

Tela de Bert Morisot, 1889.
Rainha Elizabeth II, que usa chapéus com muita classe.


quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

PASSEIO POÉTICO
FOMOS passear na quinta,
Fomos à quinta em passeio.
Não há nada que eu não sinta
Que me não faça um enleio.

O pintor: Pierre-Auguste Renoir (1841-1919). Óleo sobre tela, 1870. “La promenade”.
O poeta: Fernando Pessoa (1888-1935):  QUADRAS AO GOSTO POPULAR.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

O POETA E O PINTOR.

QUANDO compões o cabelo
Com tua mão distraída
Fazes-me um grande novelo
No pensamento da vida.
O poeta: Fernando Pessoa: "Quadras ao gosto popular". 
O pintor: Paul Signac (1863-1935), neoimpressionista francês. “Mulher a pentear-se”. Óleo sobre tela de 1892.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

TERÇA-FEIRA, COM FERNANDO E MARY. 

NÃO SEI em que coisa pensas
Quando coses sossegada...
Talvez naquelas ofensas
Que fazes sem dizer nada. 
(Fernando Pessoa)



"Jovem mulher a coser no jardim", óleo sobre tela de Mary Cassat (1844-1926), pintora impressionista norte-americana.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

SEGUNDA-FEIRA, COM FERNANDO E ANNA.
AQUELA senhora velha
Que fala com tão bom modo
Parece ser uma abelha
Que nos diz: “Não incomodo”.

QUADRAS AO GOSTO POPULAR, de Fernando Pessoa (Obra poética).

Óleo sobre tela: "Retrato de Anna Hedwig Brondum", assinado pela filha Anna Ancher (1859-1935), pintora dinamarquesa. Data: 1913.

domingo, 29 de janeiro de 2017

DOMINGO, VERÃO.


 “QUANDO ao domingo passeias
Levas um vestido claro.
Não é o que te conheço
Mas é em ti que reparo.”

(QUADRAS AO GOSTO POPULAR, de Fernando Pessoa (Obra poética). 



Ilustração: "O Passeio  Mulher com sombrinha", tela de Claude Monet, National Gallery, Washington. 

sábado, 28 de janeiro de 2017

Está cada vez mais difícil ler jornais. As boas notícias são raras e ficam escondidas em meio às barbaridades, que se alastram em todos os níveis sociais, e as banalidades, que proliferam sem limites. Não é culpa da mídia. Basta sair de casa para ver como o egoísmo prolifera.
Nossa rua de mão única, estreita e com estacionamento permitido dos dois lados, é servida por duas linhas de ônibus. Todos os motoristas habilitados sabem que é proibido estacionar em ponto de ônibus, mas que tal fingir que se cumpre a lei e deixar apenas um pequeno espaço em frente ao poste ou abrigo indicativo?
Temos um vizinho cadeirante bastante ativo. Quando ele está no ponto, o coletivo demora mais porque o motorista tem que aproximar o veículo da calçada e fica difícil com o espaço exíguo; depois ele desce (ou o cobrador) para abaixar a plataforma (que deveria ser automatizada) e ajudar o cadeirante a subir porque quase sempre fica um vão perigoso entre o meio fio e a rampa. Então começa o festival de buzinas: motoristas irritados com a demora do ônibus que está obstruindo a rua.
      Ninguém se importa em prestar atenção no outro. Se os motoristas respeitassem a lei, idosos, pessoas com dificuldades motoras e cadeirantes embarcariam mais rapidamente e com segurança; o motorista do ônibus, que tem horário a cumprir, não demoraria. Os mal-educados, que nunca pensam no que poderia estar acontecendo à frente, claro que irão encontrar outros motivos para buzinar, infernizando a vida de todos ao redor.  
      Há outro problema que reflete o pouco caso de empresários e administração pública pela segurança e conforto mínimo do usuário dos transportes públicos em São Paulo. Com a “modernização” da frota, diminuiu o número de bancos, criaram-se espaços inúteis, alguns bancos ficam sobre degraus e há escadas entre a frente e os fundos de alguns ônibus. Com menos bancos, mais pessoas viajam, embora a maioria vá em pé. Os bancos altos são um obstáculo e um perigo a mais para todos, especialmente, idosos que parecem ter uma atração especial por eles – ainda que os assentos preferenciais estejam disponíveis e sejam adequados. O piso deveria ser plano como antigamente. Esses problemas ocorrem em algumas linhas.
      Por quê? Um mistério. Na França, por exemplo, vi cadeirantes entrarem e saírem de coletivos sem ajuda de ninguém, pois o sistema é automatizado Na Alemanha, Inglaterra, Itália e Estados Unidos, para citar alguns países, não vi ônibus parar no meio da rua para pegar passageiros. Os motoristas respeitam a proibição de estacionar em pontos de ônibus. Todos ganham com o cumprimento da lei. Aqui... Ah! A lei, ora a lei – já dizia Getúlio Vargas (1882-1954), o pequeno ditador.

Este veículo tem o piso plano, mas os bancos são perigosamente altos 



sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

RUAS DA INFÂNCIA


O aniversário da cidade de Santos me traz muitas recordações boas da infância, que passei no centro histórico. Das primeiras imagens que tive da minha rua sobrou apenas o Centro Português – hoje Centro Cultural Português. Em frente à minha casa havia um belo casarão branco onde funcionava uma entidade feminina que proporcionava educação para moças, inclusive aulas de piano, onde lecionava Dona Oraida do Amaral, mais tarde minha professora de música no Liceu Feminino Santista.
Nossa rua era bem movimentada. Os bondes faziam parte do nosso cotidiano. Havia poucos vizinhos, pois a maioria já mudara para os bairros mais valorizados. O centro decaía entre o final dos anos 1940 e 1950. O comércio se expandia. Havia “A Instaladora” (casa de luminárias), uma casa de quadros, uma cutelaria, o Bazar 1001 e a Padaria Cirilo, que além de pão só vendia leite. Resiste com galhardia a famosa “Farmácia Indiana”.
Quando cheguei à idade escolar, minha tia Odete me levava todas as manhãs para a Escola Portuguesa. Esse trajeto mantém-se quase intacto: a Praça José Bonifácio, o monumento ao Soldado Constitucionalista, a Catedral, o Coliseu, o prédio da Humanitária... Seguíamos pela Rua Braz Cubas e passávamos pelo castelinho do Corpo de Bombeiros e entrávamos na Rua Sete de Setembro, endereço da escola.
Esta era uma rua bem interessante: ali ficavam o Conservatório Musical (um prédio azul que desapareceu), onde minha tia estudara piano e agora dava aulas, uma loja maçônica (Hiram Abif, sei hoje), o Colégio Santista (Marista) e a casa do comerciante e filantropo português Francisco Bento de Carvalho muito bem preservada (esquina com a Rua da Constituição), mas vazia até onde sei. A menos de uma quadra dali, na Rua da Constituição, ficava o Liceu Feminino Santista, onde eu fui estudar mais tarde, e a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, demolida anos depois por causa dos danos causados pela explosão do Gasômetro em 1967.
Mas voltando à Rua Sete de Setembro, vejo que o Prato de Sopa Monsenhor Moreira continua em pleno funcionamento. A Escola Portuguesa ainda existe, mas o prédio foi totalmente descaracterizado. Não é mais a escola da minha infância, que era particular e bem cuidada. Desapareceu o portão prateado que se abria para um jardim muito bonito e que me cativou à primeira vista. O prédio sem graça lembra um caixote em más condições. Hoje é faz parte da rede municipal de ensino.
Mais tarde mudamos para a Vila Nova e fiquei mais próxima do Liceu Feminino que sobrevive em outro bairro apenas como Liceu Santista. Nem sei o que funciona no prédio. Lembro-me de que cantávamos em latim na Igreja Coração de Jesus em algumas datas especiais.

Daqueles dias tenho duas amigas – uma, que me viu crescer, vejo ocasionalmente; e com a outra da Escola Portuguesa troco mensagens. É muito bom saber que temos lembranças em comum. (Fotos: Hilda Prado Araújo.)
Muito bom ver que restam belos prédios daquela época: Rua Amador Bueno.

Confluência da Avenida São Francisco, Rua Senador Feijó e Praça José Bonifácio ao pé do Monte Serrat.
A Biblioteca da Humanitária encontra-se fechada há algum tempo.
Praça José Bonifácio: um caminho da infância.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

SANTOS, 471 ANOS.

Santos, ainda muito jovem, mas com um passado e tanto. Homenagem carinhosa à minha cidade com “Palavras ao mar” (trecho) de Vicente de Carvalho (1866-1924).
  
Palavras ao mar

“Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!

Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas - a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.

Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro;
E as leves garças, como olhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o voo à tona das espumas...”




quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

 PAULICEIA DESVAIRADA
Mário de Andrade

INSPIRAÇÃO

São Paulo! comoção de minha vida...
Os meus amores são flores feitas de original!...
Arlequinal!... Trajes de losangos... Cinza e ouro...
Luz e bruma... Forno e inverno morno...
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes...
Perfumes de Paris... Arys!
Bofetadas líricas no Trianon... Algodoal!...
São Paulo! comoção de minha vida...

Galicismo a berrar nos desertos da América.
  
Pátio do Colégio.

Igreja da Sé.



terça-feira, 24 de janeiro de 2017

PADROEIRO DOS JORNALISTAS
Fazia tempo que não punha os olhos no livrinho dos santos de cada dia, mas hoje ele caiu da estante e dei uma espiada para saber quem era o santo de plantão. Informo que hoje, 24 de janeiro, é dia de São Francisco de Sales, padroeiro dos escritores e jornalistas. Motivo: passou a vida toda escrevendo.  
Em São Paulo, a Igreja de São Francisco de Sales fica na Vila Gumercindo (Rua Sebastião do Rego, 164). Francisco de Sales nasceu em 1567, na Saboia, que na época era italiana e atualmente pertence à França; ele estudou em Paris, França, e em Pádua, Itália. Aos 24 anos recebeu o titulo de doutor e aos 34 já era bispo titular de Genebra, Suíça.
 Ele viveu em uma época conturbada pelas disputas entre católicos e protestantes, escreveu sobre a defesa da fé e muitos textos dele ainda são publicados, como o “Tratado do Amor de Deus” e “Introdução à vida devota”. Francisco de Sales foi diretor espiritual de São Vicente de Paulo e de Santa Joana Francisca de Chantal (que desconhecia até hoje).

          O autor da pequena hagiologia cita o desabafo do santo, provavelmente, em uma situação de estresse típica do século XVI: “Vocês querem que eu perca em um quarto de hora aquele pouco de mansidão que adquiri em 20 anos de luta?” Fiquei curiosa para saber em que circunstâncias ele perdeu a santa paciência, mas o autor se esqueceu de contar esse detalhe. Francisco de Sales morreu em Lyon em 1622 e foi canonizado em 1655. A igreja paulistana dedicada ao santo é de 1960. (Original: 24/01/2012)




segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

VERÃO. VAMOS À PRAIA.



Peruíbe (rio de tubarões em Tupi) fica a 140 quilômetros da cidade de São Paulo e tem uma história bem movimentada, que começa com a construção da Igreja de São João Batista após a chegada da expedição de Martim Afonso a São Vicente. Em 1549 desembarcou por lá o padre Leonardo Nunes, que os nativos apelidaram de Abarebebê (Padre Voador) porque era incansável em suas idas e vindas pela região. Em 1554, José de Anchieta também passou pela região. Com a expulsão dos jesuítas em 1773, a igreja foi abandonada e hoje é um bem tombado e ponto de turismo.
A emancipação de Itanhaém ocorreu em 1959 e desde 1974 Peruíbe é uma das quinze estâncias balneárias do Estado de São Paulo. O município entrou para a história do ambientalismo brasileiro, quando a sociedade se mobilizou contra a construção de usinas nucleares na praia do Arpoador, na Jureia. Em 1980, o presidente general João Figueiredo assinou o decreto de desapropriação de uma faixa 45 km desde a Praia do Guaraú até a praia do Prelado, com largura variável de 5 a 10 km para construir usinas nucleares. A ironia é que o decreto favoreceu a criação da Estação Ecológica da Jureia-Itatins, que ganhou mais 22 mil hectares. O programa nuclear brasileiro desmoronou por falta de recursos e a sociedade paulista aproveitou para consolidar a preservação da região que é uma das mais belas do Estado de São Paulo. Peruíbe tem sete unidades conservação ambiental que abrangem quase a metade do seu território.
A cidade tem 32 km de praias e as ilhas Queimada Grande, Queimada Pequena; Guaraú, Grande, Boquete e Guararetama, População: 60 mil habitantes.


Em 1905 Benedito Calixto registrou sua passagem pelas Ruínas do Abarebebê. A obra (óleo sobre tela) pertence à coleção particular.  


Fotos: http://www.novomilenio.inf.br/  

domingo, 22 de janeiro de 2017

ANIVERSÁRIO DE S. VICENTE



Muito antes de Martim Afonso de Sousa cruzar o Atlântico com a missão de tomar posse destas terras em nome do rei de Portugal, o florentino Américo Vespúcio (1554-1512) havia passado por aqui (expedição de Gaspar de Lemos em 1501) dando nome a todos os lugares que avistavam. Nem por isso se pode dizer que ele atribuiu seu nome ao novo continente. Essa é outra história. Vespúcio, por sua vez, não perdia tempo para escolher os nomes para os locais – usava o santo do dia.
Assim, em 1532, quando resolveu fazer uma pausa na viagem que empreendeu pela costa brasileira de Pernambuco até o Sul, Martim Afonso achou que seria bom começar a trabalhar e aproveitou o lugarejo denominado São Vicente, onde já viviam algumas pessoas, para fundar (oficializar) a primeira vila da colônia. Martim Afonso nem precisou se preocupar em escolher o nome. E 22 de janeiro é dedicado ao diácono espanhol São Vicente de Saragoça (século III d.C. –304). Assim, a vila tornou-se a “cellula mater” da nacionalidade.
A cidade mais antiga do Brasil completa 485 anos. Não há muito que se festejar. A cidade, que tem uma orla muito bonita, está praticamente abandonada. O turista quase nunca se importa com os problemas do cotidiano dos moradores locais. O município tem 332.445 habitantes. Além das praias, naturalmente, há o Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, com sede na bela Casa do Barão (Frei Gaspar, 280), Ponte Pênsil, a Igreja Matriz (Praça João Pessoa), Ilha Porchat, Mirante São Vicente, Biquinha de Anchieta e Parque Ecológico do Voturuá (Rua Anita Costa)

Benedito Calixto (1853-1927) pintou uma alegoria da fundação de São Vicente. A obra foi encomendada pela prefeitura da cidade em 1900. O artista vez duas versões do quadro, com algumas alterações. A primeira é da prefeitura e a outra faz parte do acervo do Museu Paulista (USP). 

Visão romântica do momento em que os portugueses celebram a visão do Paraíso de 
onde expulsariam os nativos que logo conheceriam o Inferno pela mão do colonizador. 


sábado, 21 de janeiro de 2017

VERÃO. VAMOS À PRAIA.

Praia Grande acaba de completar 50 anos. Em 19 de janeiro de 1967 emancipou-se de São Vicente e desde então vem crescendo continuamente. A sua história confunde-se com a de São Vicente, mas teve seus momentos únicos, afinal, foi sede de um histórico campo de aviação que recebeu pilotos pioneiros – entre os quais Saint-Exupéry (1900-1944). Fundado em 1936 como Aeroclube de Santos, ele fez parte da rota do Correio Aéreo Nacional. Evidentemente, está em ruínas. Dele restou apenas o nome do bairro.
O município, situado a 72 km de São Paulo, tem 22 quilômetros de praia, o grande atrativo da cidade. Assim, a população de 265 mil habitantes pode quintuplicar entre dezembro e março. Há quatro balneários (Flórida, Paquetá, Maracanã e Portinho) e as principais praias são Boqueirão, Ocian e Solemar. A praia do Canto do Forte é um dos lugares mais interessantes para uma visita – ela é acesso para a Fortaleza de Itaipu, que tem um papel importante na história do Brasil.
Benedito Calixto também registrou a paisagem do município, mas não identificou os locais. As duas obras não têm data, mas provavelmente são do início do século XX. (Fotos: Novo Milênio.)
“Praia Grande com carro e carroceiro” (óleo sobre marfim). Coleção particular.

“Praia Grande” (nanquim). Sem outras referências. 








sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O NAVIO FANTASMA


Nada como uma boa história sobre navegação. Poderia começar com o tradicional “era uma vez”, mas não se trata de ficção por mais inacreditável que pareça. O vapor Baychimo foi construído na Suécia em 1914, tinha o casco de aço e pesava 1.332 toneladas. A Companhia da Baía de Hudson (Canadá), a proprietária, usava o navio para coleta e transporte de peles vendidas por caçadores inuítes (esquimós) na costa da Ilha Vitória. (Hoje, nada ecológico.)
A rota do Baychimo cobria uma das zonas de navegação mais traiçoeiras do planeta e compreendia 3.200 km pelo mar de Beaufort. Em 6 de julho de 1931, o navio partiu de Vancouver para mais uma viagem. O comandante era John Cornwell, que levava uma tripulação de 36 homens. Ninguém esperava um mar de rosas, pois dificuldades sempre havia.
O Baychimo chegou à Ilha Vitoria sem problemas e com os porões cheios de peles, Cornwell iniciou o retorno a Vancouver. O inverno, entretanto, começara mais cedo. As águas do mar começaram a se congelar e em 30 de setembro restara naquela região apenas uma pequena passagem navegável, que no dia 1º de outubro foi totalmente obstruída. O gelo fechou-se em torno do vapor, que ficou imobilizado em frente a uma aldeia do Alasca, onde a companhia de navegação construíra cabanas junto ao litoral para os funcionários. O comandante ordenou que os homens fossem para os abrigos em terra e assim eles caminharam sobre o mar gelado por um quilômetro.  Uma aventura e tanto, mas todos conseguiram chegar.
Dois dias depois saíram das cabanas para descobrir que o gelo soltara o vapor, que estava livre. A tripulação só teve tempo de correr para embarcar e aproveitar a boa sorte para ir a toda velocidade em direção oeste. Mas três horas depois novamente as águas congelaram e o banco de gelo (banquisa) imobilizou o Baychimo outra vez. Só no dia 8 de outubro o gelo se quebrou.
A viagem estava se tornando um sério problema com blocos de gelo cada vez mais ameaçadores. Em 15 de outubro a empresa enviou dois aviões para socorrer os homens, mas o comandante e 14 tripulantes ficaram na embarcação. Como sabiam que a situação poderia demorar até um ano, construíram um abrigo sobre a banquisa a cerca de um quilômetro da costa. Na noite de 24 de novembro, caiu uma terrível tempestade de neve e a tribulação do Baychimo ficou acuada em seu refúgio até a tormenta passar. Quando saíram, os homens descobriram que o navio havia desaparecido sob uma montanha de neve. Não havia traço da embarcação. O jeito era voltar, mas alguns dias depois um esquimó caçador veio informar que vira o navio a cerca de 70 km dali, a sudoeste.
O esquimó guiou a tripulação ao local, onde encontraram a embarcação novamente presa no gelo. Cornwell teve que se conformar em retirar a parte mais preciosa da carga antes de abandonar o navio para sempre. O resgate veio do céu.
Meses depois chegou à Companhia, em Vancouver, a notícia de que os esquimós haviam visto o Baychimo a centenas de quilômetros do ponto onde fora abandonado. Em março de 1931 um caçador e explorador, Leslie Melvin, que viajava de trenó redescobriu o cargueiro flutuando perto da costa. Esteve a bordo e constatou que a carga deixada ainda continuava lá. Passaram-se alguns meses e desta feita foram pesquisadores de petróleo que viram o navio, subiram a bordo para constatar que ele continuava bem (vazio). Em março de 1933, o vapor havia voltado ao local em que fora abandonado. Desta vez os visitantes foram os esquimós que o avistaram, mas foram surpreendidos por uma tempestade e ficaram dez dias abrigados no Baychimo sem comida.
A Companhia da Baia de Hudson continuou recebendo por muito tempo relatos sobre o destino desse navio indomável, que singrou sozinho, literalmente, os mares da região. O vapor foi avistado ainda em agosto de 1933, julho de 1934, setembro de 1935, 1939. Esquimós, exploradores, comerciantes e aviadores o observaram navegando sozinho pela região ártica. Ele foi visto pela última vez em 1969 entre o cabo Yci e a ponta Barrow preso mais uma vez numa banquisa.
A fantástica trajetória desse verdadeiro navio fantasma foi contada pelo jornalista e escritor inglês David Gunston, em artigo publicado na revista Correio da UNESCO, (Ano 19 – 1991: O Navio Fantasma).




quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O COLÍRIO E OS DIAS



A velhice é um problema. As peças começam a precisar de revisão e reparos. Às vezes nem se percebe que a visão não é a mesma. O mundo vai amarelando lentamente sem que o idoso perceba. O oftalmologista se encarrega de ajudá-lo. Não com bengalas ou cursos de braile, mas com duas cirurgias rápidas e eficientes. Lá vai o velhinho para uma consulta de avaliação pré-anestésica, uma conversa boba com um médico que, em vez de ler os exames solicitados, prefere perguntar tudo de novo ao paciente, que vai ficando impaciente. Na data combinada, seis horas de jejum sem direito à água, apresenta-se no hospital. No corredor enorme, os quatro sorteados do dia com seus respectivos acompanhantes aguardam o grande momento. Nos quartos duplos, enchem-lhe os olhos de colírios, emprestam-lhe um camisolão sem arte e o levam para o centro cirúrgico – e ele se sente aliviado por encerrar o papo sem graça e sem fim do seu companheiro de quarto. Nem meia hora se passa e está de volta para o quarto e para a recuperação. Todos querem saber o que aconteceu. Vem o chá e as bolachas; a troca de roupa e bye-bye para todos. No dia seguinte à operação, realiza-se a convenção dos pós-operados no consultório do médico. Lá estão oito pessoas – quatro usando um enorme curativo no olho e quatro acompanhantes ansiosos. Eles querem falar como passaram a noite, as expectativas e outras amenidades. Prefiro ouvir, mas pergunto a um senhor acompanhado da esposa se ele tinha miopia (pois a operação reduz drasticamente o problema) e ele responde que não é viúvo e aponta a senhora ao lado e me diz o que todos já sabem – é a esposa. Ela o corrige. “Ela perguntou se você é míope!” Minha amiga cochicha na minha orelha que a próxima operação dele deve ser de ouvido. Minha vez de entrar. O médico está feliz com o sucesso da operação, apesar do olho vermelho, do rosto roxo e inchado! Que bom! Agora, não tenho mais miopia, enxergo longe, em compensação não vejo nada a um palmo do nariz! Liberada para ir para casa. A rotina será simples: nos primeiros dias passar as horas olhando a ponta dos pés, mudando da poltrona para o sofá e vice-versa, pingando colírio a cada três horas. Felizmente, há música para ajudar a passar o tempo entre uma pingada de colírio e outra...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

VERÃO. VAMOS À PRAIA.UBATUBA


Foi na praia de Iperoig (Ubatuba), enquanto se encontrava refém dos tamoios, que José de Anchieta (1534-1597) escreveu o “Poema à Virgem” em 1562. Em 1637 a aldeia de Iperoig foi elevada à vila e recebeu o nome de Vila Nova da Exaltação à Santa Cruz do Salvador de Ubatuba. Como sempre, há várias interpretações para o significado de ubatuba e um deles é lugar das canoas.
Desde 1948 é Estância Balneária, fica a 250 km de São Paulo, tem cerca de noventa mil habitantes (IBGE, 2014) e 83% do território ficam no Parque Estadual da Serra do Mar – Núcleo Picinguaba. O município tem uma centena de praias e duas ilhas importantes – das Couves e Anchieta.
Benedito Calixto pintou em 1920 a cena de Anchieta escrevendo o famoso poema nas areias de Iperoig. Acervo particular.



 GUARUJÁ
A Estância Balneária de Guarujá está situada na Ilha de Santo Amaro, a terceira maior do litoral paulista. Américo Vespúcio aportou na Praia dos Navegantes em 1502. Guarujá emancipou-se em 1947 – há exatos 70 anos. A ilha de Santo Amaro tem 22 quilômetros de praias e, embora as urbanas sejam as mais frequentadas e famosas (Guaiuba, Enseada, Astúrias, Tombo, Pitangueiras, Pernambuco, Perequê, Iporanga), ainda há algumas pouco conhecidas. As mansões ao longo do século XX foram substituídas por prédios de apartamentos.

A beleza das praias de Guarujá logo definiu o destino turístico da cidade. As famílias paulistanas com recursos construíam casas de madeira importada dos Estados Unidos para as temporadas de verão na praia, como registrou Benedito Calixto nesta tela de 1896, pertence à coleção de Elio Sacco.



SÃO SEBASTIÃO
Bonita o tempo todo é a bordão da Estância Balneária de São Sebastião, que não é apenas um polo turístico, mas abriga um porto que, por sua configuração natural, foi classificado como a terceira melhor região portuária do mundo. São Sebastião. Situado a 197 km da Capital, tem cerca de 85 mil habitantes. O município, que também faz parte do Parque Estadual da Serra do Mar, tem 100 km de costa e 30 praias entre as quais se destacam Enseada, Guaecá, Toque-Toque e Boraceia. Enfeitam a costa o Arquipélago de Alcatrazes e a Ilha do Montão de Trigo entre outras.

Benedito Calixto registrou em 1920 o“Velho Convento de São Sebastião”. 

 

Fonte: Novo Milênio.