quarta-feira, 27 de julho de 2016

CENDRARS E O BRASIL
                             
Basta folhear um livro sobre a produção intelectual do início do século XX para encontrar o nome de Blaise Cendrars, escritor, poeta, designer e, principalmente, viajante. Cendrars é o pseudônimo de Frédéric Louis Saucer, nascido na Suíça em 1887. A primeira viagem foi em 1906 com destino a Moscou e depois rumou para a China, retornando depois à Suíça para frequentar a universidade. Em 1911 viajou para Nova York e em 1912 instalou-se em Paris, onde lançou o livro “Os homens novos” e em seguida “Páscoa em Nova York”, um poema de 30 páginas, em que anuncia o modernismo.
Cendrars se naturalizou francês em 1916, foi voluntário na Legião Estrangeira, durante a I Guerra Mundial (1914-1918) e perdeu o braço direito. Na Paris fervilhante dos anos de 1920, conheceu Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. Tornaram-se amigos e é impossível deixá-lo de fora da história do modernismo brasileiro.
Parece até conta de mentiroso, mas ele visitou o Brasil sete vezes. Apaixonou-se pelo país tropical e pelas possibilidades que ele oferecia. O texto abaixo é um excerto da narrativa da sua viagem ao Brasil em 1924, patrocinada por Paulo Prado. Cendrars descreve a chegada ao porto de Santos. 

 A bombordo

O porto
Nenhum ruído de máquina nenhum assobio nenhuma sirena
Nada se mexe nenhum homem à vista
Nenhuma fumaça sobe nenhum penacho de vapor
Insolação de um porto inteiro
Nada mais do que o sol cruel e o calor que cai do céu e que sobe da água um calor alucinante
Nada se mexe
No entanto aqui existe uma cidade atividade uma indústria
Vinte e cinco cargueiros de dez nações diferentes estão no cais carregando café
Duzentas gruas trabalham silenciosamente
(De binóculo se percebem os sacos de café que viajam sobre tapetes rolantes e elevadores contínuos
A cidade está escondida atrás de hangares achatados e grandes depósitos retilíneos de metal ondulado)
Nada se mexe
Esperamos horas
Ninguém vem
Nenhuma barca deixa a costa
Nosso navio parece derreter a cada minuto e afundar lentamente no calor espesso e balançar e ir a pique



“ETC... ETC... (Um livro 100% brasileiro)”, do suíço Blaise Cendrars (nascido Frédéric Louis Saucer, 1887-1961). O texto faz parte da descrição da chegada dele a Santos nos anos vinte do século passado. 

domingo, 24 de julho de 2016

ACHADOS NA ESTANTE


Arrumar estantes de livros é um problema. Agradável, mas em geral demora dias. Tudo porque acabo encontrando meio escondido nas últimas fileiras um amigo que não via fazia tempo; outro de que quase me esqueci e alguns que esperam este encontro com a paciência que só eles têm. Assim paro para ler, reler ou folhear os livros, o que torna a tarefa mais suave, porém, sem data definida para terminar. Foi assim que reencontrei estas afirmações que transcrevo, propondo até uma adivinhação: você conhece o autor delas?  
I - “Na verdade (...), nada me agrada tanto como praticar com pessoas de idade; pois as considero como viajantes que percorreram um longo caminho, o qual eu talvez tenha de percorrer também. Por isso acho necessário informar-me com elas se a estrada é lisa e fácil ou áspera e cheia de dificuldades.”  

Cézanne: autorretrato.
II – “Os homens da minha idade reúnem-se muitas vezes; somos pássaros da mesma plumagem, como diria o velho provérbio; e nessas reuniões o tom geral da conversa é: não posso comer, não posso beber; lá se foram os prazeres da mocidade e do amor; outrora se vivia bem, mas isso já passou e a vida já não é a vida. Alguns se queixam das desconsiderações que recebem dos próprios parentes e desfiam tristemente a cantilena de todos os males que a velhice lhes traz. Mas quer me parecer (...) que essas pessoas culpam a quem realmente não é culpado. Porque se a velhice fosse a causa eu, que também sou velho, e todos os demais que o são sofreríamos a mesma coisa. (...).  A verdade é que essas queixas, bem como as que são feitas contra parentes, devem ser atribuídas à mesma causa; e esta não é a velhice, e sim o caráter dos homens; pois aquele que tem um natural tranquilo e bem humorado não sentirá o peso dos anos, e ao que não é assim não só a velhice, mas a própria juventude é pesada.”
Este é um diálogo entre Sócrates (469-399 a.C.) e seu anfitrião em ceia que antecede um festival, narrado por Platão (428-348 a.C) em A República. E acreditamos que o mundo mudou...


Platão – Diálogos – A República, tradução de Leonel Vallandro. Coleção Universidade.


sábado, 23 de julho de 2016

PARABÉNS A VOCÊ




Comemorar aniversário é coisa que provavelmente o homem faz desde que aprendeu a organizar um calendário. Os persas muitos séculos antes da era cristã consideravam que a data mais importante na vida de uma pessoa era o dia do seu nascimento e por isso aproveitavam a ocasião para comer e beber com os amigos. Isso em um tempo em que a comida era escassa e, portanto, cara. 
Na Bíblia, os aniversários citados são dignos de páginas policiais. De acordo com o Gênesis, o Faraó no dia do seu aniversário manda matar o padeiro. (O escriba esqueceu de colocar o nome do Faraó.) Nos Evangelhos, Mateus conta que Herodes na festa de seu aniversário, entusiasmado com a dança de Salomé, promete dar-lhe o que ela quisesse como recompensa. A perversa pede-lhe nada menos que a cabeça de João Batista. Por essas e outras durante muito tempo o costume de comemorar o dia do nascimento foi abominado pela igreja que considerava coisa de pagão, mas a tradição parece ter vencido as resistências religiosas.
Onde tem bebida há, claro, muita cantoria. E se perde nos tempos o uso das libações seguidas das chamadas canções de beber ou coretos de mesa (como dizem os mineiros). Muito antes de o europeu aportar neste novo mundo, os ameríndios já se dedicavam a essa arte de beber e cantar. Infelizmente perdemos os registros dessas raízes e temos que nos contentar com o “Happy Birthday To You*” ou “For he´s a jolly good fellow” que, segundo o Guinness Book, são as duas canções mais populares do mundo.
Então naquele tempo distante alguém (uma mulher?) misturou farinha, ovos, mel, leite e fermento, assou a massa e surgiu o bolo, feito especialmente para ocasiões festivas, pois é absolutamente inútil em se tratando de alimento. Bolo vem de bola e, portanto, tem que ser redondo. O motivo é simples: facilita na hora de dividir a iguaria entre os convidados. Que importa se surgiu em aniversários e foi levado para os casamentos ou vice-versa?  Importante é que foram sendo acrescentados novos ingredientes e o bolo foi se aprimorando.
Quando o convidado está indo embora, não se deve esquecer de lhe entregar o tradicional pratinho com algumas guloseimas servidas na festança. A lembrança ou a prova para aqueles que não compareceram por algum motivo. Ou simplesmente gentileza do anfitrião. O costume é japonês (portanto, deve ser milenar), mas chegou ao Brasil através dos colonizadores portugueses que o trouxeram de suas andanças por Catai séculos atrás. 
Tão gostoso quanto o bolo de aniversário dividido com os amigos é descobrir que por trás de nossos mais simples gestos há uma história que se perde no tempo.


* Parabéns a Você chegou ao Brasil em 1942 – época da política de boa vizinhança de Roosevelt. Na época, a Rádio Tupi do Rio de Janeiro lançou um concurso para escolher a letra para a canção americana de 1893. Quem venceu foi a farmacêutica paulista de Pindamonhangaba Bertha Celeste Homem de Mello (1902 -1999). (A letra correta é Parabéns a você/ nesta data querida./ Muita felicidade, /muitos anos de vida.)
(Publicado originalmente em 2013.)

quarta-feira, 20 de julho de 2016

ENVELHECER


Arnold Schwarzenegger, ex-Mr.Universo, 65 anos: “A única coisa que posso dizer sobre envelhecer é que é uma droga. Eu não sou diferente de você. Nós todos olhamos no espelho e dizemos: ‘O que aconteceu?’ Você antes tinha músculos e agora, lentamente, eles estão deteriorando. Mas se você malhar, você permanece em forma e se sente bem. Eu me sinto bem atualmente”. O ator fez a declaração durante o lançamento do filme O último desafio.

MARCO TÚLIO CÍCERO  (106-42 a.C.): “Os frutos da velhice são todas as lembranças do que anteriormente se adquiriu.” 


segunda-feira, 18 de julho de 2016

INDIA DOS MARAJÁS

Em 1947, às vésperas da independência, havia 565 marajás e rajás (hindus) e nawas e nizam (muçulmanos) reinando na Índia sobre um terço do território e um quarto da população daquele país. Seus estados não estavam sob domínio inglês. Esse grupo era formado por alguns dos homens mais ricos do mundo, mas também incluía muitos “com rendimentos mais modestos do que os de um mercador de bazar de Bombaim”. Se houve uma minoria corrupta e perversa, existiu também um grande número desses príncipes que proporcionou aos seus súditos uma vida melhor do que a dos indianos que viviam sob domínio inglês.
A vida de luxo extravagante desses homens acabou mexendo com o imaginário de todos os povos por causa de escritores como Rudyard Kippling. Ainda marajá designa os milionários excêntricos que não se restringem À Índia. No livro “Esta Noite a Liberdade”, de Lapierre e Collins, há um capítulo dedicado às loucuras de marajás, rajás, nawas e nizam. Os autores contam que uma pesquisa mostrara que em 1947 cada um deles possuía em média 11 títulos, cinco mulheres, 12 filhos, nove elefantes, dois vagões de trem privativos e três Rolls Royces. A seguir alguns fatos relatados no livro sobre a independência indiana.
O marajá de Baroda (ou Vadodara) tinha uma adoração fetichista por ouro e pedras preciosas. A coleção de diamantes dele incluía a Estrela Azul, o sétimo maior diamante do mundo, que havia sido oferecido por Napoleão III à esposa e que pertencera antes ao favorito de Catarina da Rússia, Pontemkim. O seu tesouro incluía uma coleção de tapetes feitos de pérolas, ornamentados com desenhos em rubis e esmeraldas.

O elefante do marajá de Baroda usava arreios de ouro maciço: o palanquim real, a gualdrapa (a cobertura das ancas das cavalgaduras), os braceletes das quatro patas e as correntes que pendiam das orelhas. Mas em matéria de tapetes o marajá de Bharatpur preferiu os dele de marfim. Cada peça levava anos para ser concluída e a tarefa exigia o trabalho de uma família inteira. Outra família tinha a tarefa (considerada privilégio) de tecer com fios de ouro as túnicas de cerimônia do príncipe e para conseguir maior perfeição do tecido os tecelões cortavam as unhas em forma de dentes de pente. 


O marajá de Kapurthala (chamada de Paris do Punjab) desfilava com o maior topázio do mundo incrustado em seu turbante. Os tesouros de Jaipur, a cidade rosa, ficavam enterrados perto da cidade, situada em uma colina do Rajasthan. Os herdeiros dessa dinastia visitavam o lugar onde as riquezas eram armazenadas apenas uma vez na vida “para escolherem as pedras que dariam um brilho especial ao seu reinado”. A peça mais valiosa era um colar de rubis com pedras do tamanho do coração de pombo, realçado por três esmeraldas, a maior pesando 90 k.
No tesouro do marajá de Patiala, o destaque era uma couraça cravejada com 1.001 diamantes com reflexos azul-pálidos. Até o início do século passado, anualmente, os marajás apresentavam-se diante do povo vestidos apenas com a couraça e “a virilidade real em ereção”! Com essa patética aparição, “associavam a sua pessoa à força criadora do deus Shiva, enquanto o reflexo dos diamantes assegurava aos súditos o afastamento das forças maléficas”.
Com o advento do automóvel, os marajás trocaram o elefante pelos carros de luxo. Bom, luxo é pouco para o que eles fizeram. O primeiro carro chegou à Índia em 1892: um De Dion Bouton, francês, comprado pelo marajá de Patiala. O mais interessante foi o número da matrícula do veículo: zero!
Mas o carro preferido desses príncipes indianos era mesmo o Rolls-Royce. O marajá de Alwar mandou fazer o dele todo chapeado a ouro por dentro e por fora, com o volante em marfim esculpido. O de Bharatpur era dono de um Roll-Royce de prata maciça e, junto com o carro, circulava a lenda de que a carroçaria emanava ondas afrodisíacas. Hum! 

sábado, 16 de julho de 2016

A GELADEIRA (ICEBOX)

Ontem, terminei o dia assistindo a “Doidos milionários” (My man Godfrey), comédia de 1936, dirigida por Gregory La Cava, estrelado por Carole Lombard (1908-1942) e Wiliam Powell (1892-1984). Carole Lombard foi indicada ao Oscar de melhor atriz pelo papel – um exagero. Gosto demais de filmes antigos, especialmente em preto e branco. Clássicos ou não. Divirto-me também vendo como era o estilo de vida das pessoas, o que o cinema sempre reproduz de forma impecável, na maioria das vezes.
E nesse filme vi a geladeira que fez parte da minha infância.  Sempre me sentia frustrada porque nenhum dos meus amigos se lembra desse objeto. Ela era de madeira, exatamente como um móvel; precisava ser abastecida todos os dias com as pedras de gelo embrulhadas em jornal deixadas na soleira da porta da rua pelo entregador. A do filme é muito sofisticada – afinal, era uma casa de milionários. Descobri que era chamada de “icebox”.
A partir daí pesquisei na internet e encontrei dois modelos parecidos (acho que a nossa era mais larga e baixa), restaurados. Um deles à venda pela bagatela de R$ 3.800! Se minha avó soubesse...
A de casa foi substituída no início dos anos 1950 por uma Frigidaire branca enorme. Achei no site de Fulginiti Neto um modelo parecido lindamente restaurado. (Acho que a nossa geladeira era quadrada, mais baixa e larga e a divisão interna diferente, mas o tempo passa e a memória nos engana.)


  

Fotos do restaurador do RS: 


terça-feira, 12 de julho de 2016

HISTORIA DO JIPE



Bonitos, coloridos e elegantes. Algumas marcas de jipes mantêm o jeito brigão de seu ancestral, que foi desenvolvido nos Estados Unidos no período da II Guerra Mundial com um conceito muito próprio: prover a tropa mecanizada com um elemento rápido e flexível capaz de fazer tudo o que a cavalaria fazia em outros tempos. Mais ainda: fazer aquilo que a cavalaria não podia fazer. Era, portanto, um veículo militar. O nome, entretanto, foi inspirado na história de um marinheiro muito famoso na época e que tinha um boneco chamado Jeep capaz de fazer coisas espantosas. Claro, o marinheiro Popeye (Popeye the sailor).  
O jipe surgiu como um carro de reconhecimento do exército americano. Pequeno pesando 250 kg, mas possante, com tração nas quatro rodas, batia todos os recordes de agilidade, maneabilidade e resistência. Uma reportagem da revista EM GUARDA (Ano 1, nº 6) explica que “A vantagem essencial do ‘Jeep’ é que ele se presta para correr em boas e más estradas, para vencer escarpas, avançar por valas e buracos, por paus e por pedras, por água e lama, neve e gelo. Foi construído para enfrentar tudo isso – e por incrível que pareça, até tremendos solavancos que o projetam no ar, como um carro voador. E quando ganha o terreno novamente (...) prossegue em sua corrida fantástica, como se nada houvesse acontecido.”
O jipe foi usado como carro de reconhecimento, rebocador de canhões antiaéreos, transporte de mensageiro, de munição, máquinas e ferramentas; era levado em aviões e largados em paraquedas para uso das tropas de infantaria aérea. O porte reduzido permitia ocultar-se em meio de vegetação baixa o que dificultava que os atiradores dos tanques os localizassem e acertar a pontaria. Era forte e leve e, assim, quando virava, a guarnição podia colocá-lo em posição e continuar o caminho.

Com o final da guerra, os jipes popularizaram-se pelo mundo e o carro que nasceu bom de guerra teve uma nova aplicação em tempos de paz. Mas isso é outra história.
(Foto: Normandia, 2015 - HPPA.)


Jipes guiando divisão motorizada. Revista EM GUARDA.



Jipe original, festejos dos 71 anos do Desembarque na Normandia.


sábado, 9 de julho de 2016

NOVE DE JULHO

    No Parque Ibirapuera, o Obelisco de São Paulo, símbolo do Movimento Constitucionalista de 1932. É o maior monumento da Capital. Ele tem 72 metros de altura.

Foto: HPPA, 2011.

Foto: Wikipedia.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

JÚPITER E JUNO

Agora vamos conhecer as intimidades do planeta Júpiter. No último dia 5 de julho, a sonda Juno chegou, enfim, ao seu destino – a órbita do maior planeta do sistema solar, após uma viagem interplanetária de cinco anos ao longo de 800 milhões de quilômetros. A equipe de cientistas da agência espacial norte-americana deu um toque romântico à missão, escolhendo o nome de Juno – esposa de Júpiter, deus dos deuses, na mitologia grega – para designar a sonda espacial. Esta Juno é inovadora, pois move-se com energia solar!
A sonda da NASA está equipada com sensores de infravermelho e ultravioleta, medidores de gravidade e radiação para as pesquisas e, nos próximos 20 meses, dará 37 voltas ao redor dos polos de Júpiter. Desvendar os mistérios de Júpiter (só enviando a esposa mesmo), entender melhor a formação do Sistema Solar e procurar por água são os principais objetivos da missão. Uma das cosequências práticas da missão para nós terráqueos é o desenvolvimento de novas tecnologias de painéis fotovoltaicos com aplicações terrestres, o que sem dúvida é extremamente importante.

Júpiter é visível a olho nu à noite e às vezes pode ser observado durante o dia, quando o Sol está baixo no horizonte. Ele tem quatro satélites, descobertos por Galileu em 1610: Io, Europa, Ganimedes e Calisto. 

Foto: NASA. Via Láctea e aglomerados de estrelas.

PARA MEDITAR


  •  A estrela mais próxima de nós (depois do sol) é a “Próxima de Centauro” e fica a uma distância de cerca de quatro anos luz, ou seja, 37 milhões de milhões de quilômetros!
  • A olho nu vemos apenas, aproximadamente, cinco mil estrelas: 0,0001% de todas as estrelas de nossa galáxia (Via Láctea).
  • A Via Láctea é uma entre mais de cem bilhões de galáxias que podem ser vistas com os telescópios modernos e cada galáxia contém em média uns cem bilhões de estrelas.


(Fonte: Uma nova história do tempo, de Stephen Hawking e Leonard Mlodinow, Ediouro)

domingo, 3 de julho de 2016

OUTROS BICHOS

       Em 1713, os capuchos de São Luis do Maranhão moveram um processo contra formigas que infestavam o convento de Santo Antonio. O professor Ronaldo Vainfas, da Universidade Federal Fluminense, conta que o caso foi levado ao juízo eclesiástico e contou com testemunhas. O advogado Antonio da Silva Duarte representou as rés e até vetou algumas testemunhas. Outras em defesa das formigas disseram que elas agiram sem malícia, por serem desprovidas de razão “e não saberem do bem nem do mal”. Houve até quem dissesse que as rés já viviam no local muito antes da construção do convento. Assim, deduz-se que intrusos seriam os capuchos. Quem venceu a pendenga? O caso ficou sem conclusão, embora tenha gerado 19 fólios (38 páginas) depois de se arrastar até 1714. Vainfas afirma em seu artigo Brasil dos Insetos (Revista Nossa História), que o fato mostra “outro mundo e outro tempo. Mundo encantado, barroco, onde o real e fantástico se misturavam cotidianamente”.  O realismo fantástico continua.
     
*Patrício veio para o Brasil com a família real em 1808 e foi morar no Paço, sendo motivo de inveja da Corte que não se conformava com os mimos que o Príncipe D. João lhe dedicava. Patrício “foi um boi funcionário por muito tempo, com incontáveis regalias, como pensionista do Tesouro Público”. O fato é narrado pelo historiador José Vieira Fazenda em Antiquarias e memórias do Rio de Janeiro, publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. “Como o rei apreciava aquela bela estampa de ruminante, a gente do Paço melhor cuidava do animal tão abominado pelos colonos fartos do governo de um rei que acreditavam de inteligência acanhado, de inaptidão e só adstrita aos acordes do cantochão” – diz Fazenda em seu artigo. A lenda conta que, ao morrer, o boi Patrício ganhou até epitáfio: “Aqui jaz nesta mansão/ o Patrício, ex-funcionário/ comer era sua obrigação/ à custa do Real Erário”.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

GATOS, PARDAIS E RATOS.
Os santistas costumam zombar do prefeito Osvaldo Justo (1926-2003), que resolveu combater os ratos dos jardins da praia de Santos com um batalhão de gatos. Nada original. No início do século XX, o prefeito Francisco Pereira Passos (1836-1913), famoso por ter remodelado o Rio de Janeiro (1902-1906), foi pioneiro republicano nessa matéria. A Cidade Maravilhosa vivia (como Santos) sob o terror da febre amarela e de outras graves doenças epidêmicas, que dizimavam a população. Pereira Passos mandou então importar da Europa pardais para que comessem os mosquitos da febre amarela enquanto tornavam a cidade mais atraente...
Nessa mesma ocasião, o diretor geral da Saúde Pública do Rio de Janeiro, o renomado cientista Osvaldo Cruz (1872-1917), criou uma brigada de mata-ratos, formada por cidadãos voluntários. A tarefa de cada um era apanhar cinco ratos e, para cada roedor acima desse número, o voluntário recebia 300 réis do Governo. O ingênuo Osvaldo Cruz não contava com o empreendedorismo da malandragem tupiniquim, que logo iniciou um rendoso negócio: a criação doméstica de ratos para vender ou trocar o bicho morto por dinheiro. Denunciado o golpe, parece (nunca se sabe) que foi todo mundo preso. As epidemias só acabaram mesmo com a vacinação geral da população.
Mas parece que o Imperador D. Pedro II teria iniciado essas ações pouco ortodoxas em questões ambientais.. Em 1856, após a terrível seca que assolou o Ceará, D. Pedro II decidiu trocar cavalos e jegues da região por dromedários. E assim foram comprados da Argélia 14 dromedários, que viajaram 38 dias até chegar ao sertão cearense. Vieram com tratadores especializados que partiram após treinarem o pessoal brasileiro. Embora os animais tenham se adaptado ao clima e logo parido seis filhotes, não duraram muito tempo. O jegue, por sua vez, segue por lá firme e forte.





quinta-feira, 30 de junho de 2016

HISTÓRIAS DE PAPAGAIO

Se você está pensando que estas são anedotas “picantes”, como se costumava dizer antigamente, esqueça. As aves destas histórias são carolas, monarquistas e patriotas. Com a descoberta da América e o desbravamento do Brasil, o debate na Europa girava em torno da identificação destas plagas como inferno ou paraíso. Evidentemente, havia muitas divergências. As narrativas sobre os hábitos antropofágicos (entre outros) dos silvícolas brasileiros não ajudavam em nada os defensores da tese de paraíso.
  • ·        No meio desse debate, o jesuíta Alexandre de Gusmão (1629-1724) lançou em 1685 o livro A arte de criar bem os filhos na idade da puerícia. Em suas críticas, dizia que a nobreza portuguesa não ensinava aos filhos os preceitos cristãos “assimilados pelos filhos dos bárbaros do Brasil, por diligência dos padres missionários” e até pela fauna tupiniquim. O jesuíta lisboeta narra a existência por aqui de dois papagaios – um repetia “o credo de todo, sem errar” e outro “dizia a oração da Ave Maria”. E sem medo de se enveredar pelo exagero o educador diz que “em ocasião de perigo” quando uma das aves caiu nas garras de um gavião, ”foi a fé que lhe serviu de defesa”.
  • ·        No século XVIII, após ter governado a Bahia, o marquês do Lavradio, D. Luís de Almeida Portugal e Mascarenhas, mudou para o Rio de Janeiro onde assumiu o posto de vice-rei. O marquês tinha paixão pela Bahia e não gostou nem um pouco da mudança. Em sua correspondência ele diz que, ao saber de um papagaio que vivia repetindo vivas à Bahia, mandou comprá-lo imediatamente, instalando a ave em seu quarto junto à cama.  (Cartas do Rio de Janeiro, MARQUÊS DO LAVRADIO, Editora SESC/RJ, de 1978.)
  • ·        No fim da guerra da Tríplice Aliança, sob o bombardeio brasileiro, a população de Assunção (Paraguai) deixou a cidade, levando seus cães. Milhares de gatos famintos espalharam-se pelas ruas, devorando o que encontravam. O chefe da legação norte-americana em Assunção, Ministro Washburn, conseguiu salvar da fome dos felinos nove papagaios, acomodando as aves em um grande poleiro e alimentando-as com pedaços de mandioca. Tudo ia muito bem até que um dos papagaios abriu o bico e gritou em bom português: Viva D. Pedro II. O ministro levou um susto, pois não era nada diplomático mostrar simpatias pelo Brasil naquelas circunstâncias. O papagaio, entretanto, repetiu o brado patriótico alto e bom som. A reação do ministro foi rápida. “Torça-lhe o pescoço imediatamente”, ordenou ao seu secretário, Mr. Meinke. O fato foi testemunhado pelo boticário inglês George Frederick Masterman e está em seu livro Siete años de aventuras en El Paraguay. Ele só não diz se Mr. Meinke cumpriu as ordens do chefe.

 

FONTE: Revista Nossa História.

quarta-feira, 29 de junho de 2016

POLÍTICA DE PESO

Corria o ano da graça de 1958. Ela vivia feliz no Rio de Janeiro e nunca desconfiou que fosse envolvida em uma grande trama política. Embora tivesse um nome muito feio – na verdade correspondia ao seu aspecto físico que não a ajudava em nada–, seu endereço era na Quinta da Boa Vista, bairro digno da realeza. Certamente, não era supersticiosa, mas seu destino começou a mudar (ela também) no dia 13 de fevereiro. Mal sabia que logo se tornaria uma celebridade internacional.
            Quando o Zoológico do Rio de Janeiro concordou em enviar Cacareco para o zoo paulistano, que ia ser inaugurado em 16 de março, reacendeu-se a velha rixa entre cariocas e paulistas. Aqueles descobriram que amavam Cacareco (que eles nem sabiam que era uma fêmea) e estes caíram de amores pelos encantos do “animalzinho” cuja permanência na pauliceia foi se estendendo com o apoio da imprensa.
E assim Cacareco acabou se envolvendo em uma trama política sem precedentes no ano seguinte, durante o processo eleitoral para a renovação da Câmara de São Paulo.  As eleições caíram como luva para a vingança dos descontentes moradores de um bairro que teve negado pelo Supremo Tribunal o pedido de emancipação política do município de São Paulo; os paulistanos, em geral, também não gostaram do perfil de nenhum dos 540 candidatos a vereador. Estava pronto o cenário ideal para o lançamento da candidatura do rinoceronte a vereador da Capital por um grupo de jornalistas paulistanos liderados por Itaboraí Martins.
 O jornalista Neil Ferreira (O Cruzeiro, de 24.10.1959) contou em uma reportagem quCacareco – conseguiu empolgar, de maneira espetacularmente inédita o eleitorado paulistano. Sem prometer nada (êle não pode prometer: não sabe nem falar), sem partido político definido - sua legenda poderia ser objeto de confusões: PC (Partido Cacareco) e alguém ainda acabaria sem visto de saída para países da banda de cá do mundo - enfim, com sua candidatura lançada sòmente alguns dias antes do pleito, sua eleição está garantida.”
Cacareco era filha de Britador e Terezinha. Não há registro da data de nascimento, que foi provavelmente final da década de 1940, no Rio de Janeiro. Ela teve uma irmã mais nova, a Pata Choca. A jovem pesava 900 kg e, na época, era solteira – uma coisa não estava relacionada à outra, necessariamente.
O currículo ressalta seu estilo playboy (playgirl seria mais correto) de vida e conta que ela esperava encontrar o seu príncipe encantado – um rinoceronte africano negro macho, “talvez uma Cacareca” (?). O material preparado pelo cabo eleitoral de Cacareco era bem atual: hobby: comer e dormir; lazer e esporte: não fazer nada; qualidades: carisma e simpatia (sic). Defeitos? Mudez e pouca visão. (Aqui, se esqueceram de dizer que era analfabeta.) Sonho: a África.
O rinoceronte pertencia ao PC – sigla de Partido Cacareco e o slogan da campanha era simplesmente Cacareco para Vereador. O bicho mobilizou São Paulo (para alegria dos cariocas) de tal forma, que mereceu até editorial de O Estado de S. Paulo. Às vésperas das eleições, os dirigentes políticos acharam melhor devolvê-la para o Zoológico do Rio para evitar comoções maiores.  Assim, Cacareco partiu às pressas para a Capital Federal, no dia 1.10.1959 e uma multidão foi se despedir do rinoceronte. (Sábio De Gaulle.)
Apesar da ausência, no dia 4 de outubro, a população mostrou sua desilusão com os políticos, votando em peso (hum!) em Cacareco. O rinoceronte recebeu quase 100 mil votos, que na época seriam suficientes para eleger pelo menos seis vereadores, segundo Antonio Costella, autor do livro Cacareco, o Vereador (Editora Mantiqueira). Cacareco, que teve uma carreira política sensacional e fugaz, morreu pouco tempo depois com dez anos, quando a idade média de vida de um animal livre é de meio século. Provavelmente, desgosto com o cenário político nacional.

(Publicado no antigo blog em 29 de março de 2009 – 50 anos da história.)


segunda-feira, 27 de junho de 2016

MÁQUINAS DE ESCREVER
A moça estava sentada ao meu lado escrevendo uma mensagem por um aparelhinho minúsculo. Os dois polegares movem-se loucamente. Ela está alheia ao barulho do trem, do movimento dos passageiros em torno e à voz impessoal que avisa a próxima estação.
Essa jovem munida de IPOD me faz refletir sobre várias coisas. A primeira: o fantástico salto tecnológico das ultimas décadas que tenho o privilégio de testemunhar. A evolução das velhas máquinas de escrever mecânicas, pesadas e barulhentas para o sistema elétrico – mais suave e discreto; depois foram desbancadas pelos computadores pessoais até estas maravilhas que cabem na palma da mão. E bastam os dois polegares para operá-la. Os jovens da minha geração faziam curso de datilografia para enfrentar adequadamente o mercado de trabalho. Não bastava escrever corretamente, era preciso ser veloz e conhecer o teclado (Qwerty) de cor.
Por incrível que pareça, o processo de seleção nas empresas em geral incluía um temível teste de datilografia. Um anúncio, publicado em A Tribuna de Santos, da primeira metade do século passado, incluía o desenho de uma mulher com os olhos vendados, datilografando em uma Remington. A marca da máquina dava nome á escola que funcionava na Praça Mauá, 42 e por onde, certamente, milhares de santistas passaram em busca de um certificado de datilografia, que ajudasse na hora de procurar um emprego.
A escola ficava nos altos do Bar Chic (quem falhasse nos testes sempre podia descer para esquecer seus males) e o responsável era o professor Moreira Júnior. Nos anos de 1970 (até hoje) ouvi sempre as pessoas se gabando de que conseguiam datilografar não sei quantas palavras por minuto.

Se aquela garota tiver alguma dúvida pode fazer, no mesmo aparelho, uma ligação para tirar as dúvidas ou entrar na web para pesquisar o assunto em algum site específico. Sem contar que a geringonça tira fotos profissionais, que podem ser enviadas na hora junto com a mensagem. Não sei o que ela escrevia (algo irrelevante ou extremamente importante?), mas naquele banco do metrô a caminho de algum lugar ela se sentia no seu escritório particular.  


sexta-feira, 24 de junho de 2016

SÃO JOÃO


        Os balões e fogueiras desapareceram para segurança de todos, embora, infelizmente, ainda façam fogueiras de nossas florestas. A música de Lamartine Babo e Mário Reis, felizmente, continua muito gostosa. 


Chegou a hora da fogueira!
É noite de São João...
O céu fica todo iluminado
Fica o céu todo estrelado
Pintadinho de balão...
Pensando na cabocla a noite inteira
Também fica uma fogueira
Dentro do meu coração...

Quando eu era pequenino
De pé no chão
Eu cortava papel fino
Pra fazer balão...
E o balão ia subindo
Para o azul da imensidão...

Hoje em dia o meu destino
Não vive em paz
O balão de papel fino
Já não sobe mais...
O balão da ilusão...
Levou pedra e foi ao chão...


Tela é de Anita Malfatti.

domingo, 19 de junho de 2016

NOSTALGIA

Na Biblioteca Mário de Andrade, achei um livro sobre o hiperespaço escrito pelo físico norte-americano Michio Kaku, um dos pioneiros da teoria das supercordas. Embora haja passagens obscuras para mim – que não tenho a mais remota lembrança das aulas de física, o livro é maravilhoso. Só para deixar vocês com água na boca, vejam o que ele conclui:

 “(...) uma das mais profundas experiências que um cientista pode ter (...) é se dar conta de que somos filhos das estrelas, e de que nossas mentes são capazes de compreender as leis universais a que elas obedecem. Os átomos dentro de nossos corpos foram forjados na bigorna do nucleossíntese dentro de uma estrela em explosão eras antes do nascimento do sistema solar. (...) Somos literalmente feitos de poeira de estrelas. Agora esses átomos, por sua vez, fundiram-se em seres inteligentes, capazes de compreender as leis universais que governam esse evento.” Michio Kaku, “Hiperespaço” (Rocco, 2000)
            
        Assim, é pura nostalgia o que sentimos quando nos encantamos ao olhar o céu noturno com milhões de luzes piscando para nós.  
           
"Céu Estrelado sobre o rio Rohne",- Vincent van Gogh.
OUVIR ESTRELAS

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!"E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto 
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas. 
Olavo Bilac (1865-1918)

domingo, 12 de junho de 2016

OS PURITANOS


Em 1920, o Centro Acadêmico Onze de Agosto (Faculdade de Direito do Largo de São Francisco) se mobilizou para homenagear o poeta Olavo Bilac (1865-1918) com um monumento. Depois de levantarem fundos com bailes, festas e doações privadas, os estudantes encomendaram a obra ao artista sueco William Zadig (1884-1952). A prefeitura definiu o final da Avenida Paulista (atual complexo viário Dr. Arnaldo) para colocação do monumento, inaugurado durante os festejos do centenário da Independência do Brasil. Lá estavam as figuras do poeta, do bandeirante Fernão Paes Leme (“O Caçador de Esmeraldas”), do pensador (representando o poema “Tarde”), de uma família e a bandeira nacional (“Pátria e Família”) e  de um francês e uma índia se beijando (“Idílio ou Beijo Eterno”).
          Não demorou a se iniciar uma polêmica. A população se rebelou contra a obra: uns diziam que ela atrapalhava o trânsito, outros que era feia demais e havia aqueles puritanos de plantão que consideravam escandalosa a representação do Idílio. Em 1936 a prefeitura desmontou o monumento por causa de obras viárias e espalhou os grupos pela cidade; os apaixonados, entretanto, foram mantidos em um depósito de onde foram resgatados, imaginem, por ninguém menos do que o prefeito Jânio Quadros (1917-1992), que apreciava a obra. E lá foram os dois eternos enamorados para o bairro do Cambuci. Desta vez foi um morador indignado que se rebelou contra o casal: escreveu uma carta para todos os jornais paulistanos dizendo que o monumento era um “ataque à inocência de sua filha”. Adivinhem. Novamente o casal foi para o depósito da prefeitura.
Mais uma década de recolhimento até que o prefeito Faria Lima (1909-1969) resolveu colocar o casal no jardim do túnel Nove de Julho; porém, logo ficou demonstrado que aquele não era o jardim do paraíso. Foi a vez de um vereador se insurgir contra a escultura: alegava que era “obra do demônio”.
Cansados de tanta tolice e antes que as autoridades a recolhessem ao depósito, os estudantes (que haviam pago pelo monumento) resgataram a escultura e a levaram para a frente da Faculdade, no Largo de São Francisco, onde os enamorados encontraram, enfim, um endereço fixo.
         A população paulistana agradece. 
(Foto: Hilda Araújo.)

sexta-feira, 10 de junho de 2016

LIBERDADE

Quinta-feira gelada em São Paulo. Um dia perfeito para caminhadas despreocupadas. Paulistanos e turistas movimentavam as ruas do bairro da Liberdade. Na saída do metrô, a Praça da Liberdade é um ótimo lugar para aproveitar o sol anêmico; depois de observar as ofertas das barracas da feira, uma esticada até a loja da Rua dos Estudantes, que oferece maravilhosos produtos de porcelana japonesa entre outras coisas. Uma festa para os olhos. Depois pode-se bisbilhotar na loja da esquina com a Rua Galvão Bueno, onde há de tudo que você não precisa, mas coisas bem interessantes. Uma senhora me pergunta se eu sei que igreja é aquela na ponta da Praça. O nome é lúgubre, mas é uma lembrança dos tempos coloniais: Santa Cruz das Almas dos Enforcados. (A curiosa não gosta do nome.)

Para quem não sabe era ali nas redondezas que se executavam por enforcamento os criminosos. Em 23 de julho de 1821 as autoridades da cidade receberam uma ordem régia para levantar uma forca no lugar mais público desta cidade e vizinho do Cemitério da Glória, complementando a instalação da Junta de Justiça no ano anterior. A Igreja mantém a capela dos Aflitos (1774), que ficava no meio do cemitério, vendido pela Mitra e loteado para residências. A capela, como não poderia deixar de ser, fica na Travessa dos Aflitos.

Enquanto caminho pela Rua Galvão Bueno, lembro-me de que há algum tempo este é mais um bairro oriental do que propriamente japonês, pois os coreanos e chineses se misturam aos japoneses que ainda permanecem nesta parte da cidade. É mais uma região turística, com uma grande oferta de restaurantes e produtos típicos do Oriente. Há lojas especializadas em cosméticos (já vi uma fila enorme de jovens para entrar em uma delas).

Agora, é a vez da Avenida Liberdade. Há várias casas antigas bem conservadas, embora tenham uso comercial. Ali fica a Casa de Portugal, fundada em 1935 por portugueses e brasileiros. O projeto do prédio é do Arquiteto Ricardo Severo, sócio de Ramos de Azevedo. A inauguração ocorreu no quarto centenário de São Paulo – 1954. Mais adiante outra igreja. A Catedral Metodista de São Paulo, de linhas sóbrias. Enfim, o Largo da Pólvora – outro lugar histórico da cidade. Ali funcionava um paiol de pólvora (claro) até 1832, quando as autoridades da cidade mandaram demolir, mas a população continuou a chamar o lugar de largo da pólvora. O nome, entretanto, só foi oficializado em 1978 pelo prefeito Olavo Setúbal. Atualmente, o jardim japonês, criado por ocasião dos setenta anos da imigração japonesa, encontra-se abandonado. Próxima parada: estação São Joaquim do metrô.




quarta-feira, 1 de junho de 2016

ORAÇÃO DA ÁRVORE




        Parque da Juventude, abril, 2016. HPA

Tu que passas e ergues para mim o teu braço,
Antes que me faças mal, olha-me bem.
Eu sou o calor do teu lar nas noites frias de inverno;
Eu sou a sombra amiga que tu encontras
Quando caminhas sob o sol de agosto;
E os meus frutos são a frescura apetitosa
Que te sacia a sede nos caminhos.
Eu sou a trave amiga da tua casa,
A tábua da tua mesa, a cama em que tu descansas
E o lenho do teu barco.
Eu sou o cabo da tua enxada, a porta da tua morada,
A madeira o teu berço e o aconchego do teu caixão.
Eu sou o pão da bondade e a flor da beleza.
Tu que passas, olha-me e não me faças mal.

Poeta português Alberto da Veiga Simões (1888-1954).

SEMANA DO MEIO AMBIENTE.

Observação: Vale a pena prestar atenção à bela peça publicitária da Unilever "Adeus, Floresta", na TV.