sábado, 23 de setembro de 2023

ESTÃO VOLTANDO AS FLORES

No Brasil, as flores nunca nos deixam; alegram nossos dias e dão um colorido especial às nossas vidas. Hoje começa a primavera e é uma boa oportunidade para lembrar de Emílio Santiago (1946-2013) e de uma música que foi um grande sucesso do carnaval de 1962: “Estão voltando as flores”, de autoria de Paulo Soledade (1919-1999). 



https://www.youtube.com/watch?v=3ovwfPax7Mw

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

CACARECO, A VEREADORA.

 

Corria o ano da graça de 1958. Ela vivia feliz no Rio de Janeiro e nunca desconfiou que fosse envolvida em uma grande trama política. Embora tivesse um nome muito feio, que na verdade correspondia ao seu aspecto físico que não a ajudava em nada. O endereço era na Quinta da Boa Vista, bairro digno da realeza. Certamente, não era supersticiosa, mas seu destino começou a mudar (ela também) no dia 13 de fevereiro. Mal sabia que logo se tornaria uma celebridade internacional. Ela era um rinoceronte e seu nome era Cacareco.

  Quando o Zoológico do Rio de Janeiro concordou em enviar temporariamente Cacareco para o Zoo paulistano, que ia ser inaugurado em 16 de março, reacendeu-se a velha rixa entre cariocas e paulistas. Aqueles descobriram que amavam Cacareco (que eles nem sabiam que era uma fêmea) e estes caíram de amores pelos encantos do “animalzinho” cuja permanência na pauliceia foi se estendendo com o apoio da imprensa.


No ano seguinte, Cacareco acabou envolvida em uma trama política sem precedentes, durante as eleições para a renovação da Câmara de São Paulo.  As eleições caíram como luva para a vingança dos descontentes moradores de um bairro que teve negado pelo Supremo Tribunal o pedido de emancipação política do município de São Paulo. Os paulistanos, em geral, também não gostaram do perfil de nenhum dos 540 candidatos. Um grupo de jornalistas liderado por Itaboraí Martins resolveu lançar a candidatura do rinoceronte para vereador. O jornalista Neil Ferreira (O Cruzeiro, de 24.10.1959) contou em uma reportagem quCacareco – conseguiu empolgar, de maneira espetacularmente inédita o eleitorado paulistano. Sem prometer nada (ele não pode prometer: não sabe nem falar); sem partido político definido – sua legenda poderia ser objeto de confusões: PC (Partido Cacareco); e alguém ainda acabaria sem visto de saída para países da banda de cá do mundo – enfim, com sua candidatura lançada somente alguns dias antes do pleito, sua eleição está garantida”.

Cacareco era filha de Britador e Terezinha. Não há registro da data de nascimento, que foi provavelmente final da década de 1940, no Rio de Janeiro. Ela teve uma irmã mais nova, a Pata Choca. A jovem pesava 900 kg e, na época, era solteira – uma coisa não estava relacionada à outra, necessariamente.

O currículo ressalta seu estilo playboy (playgirl seria mais correto) de vida e conta que ela esperava encontrar o seu príncipe encantado – um rinoceronte africano negro macho. O material preparado pelo cabo eleitoral de Cacareco era bem atual: hobby: comer e dormir; lazer e esporte: não fazer nada; qualidades: carisma e simpatia. Defeitos? Mudez e pouca visão. (Aqui, se esqueceram de dizer que era analfabeta.) Sonho: a África.

O slogan da campanha era simplesmente Cacareco para Vereador. O bicho mobilizou São Paulo (para alegria dos cariocas) de tal forma que mereceu até editorial de O Estado de S. Paulo. Às vésperas das eleições, os dirigentes políticos acharam melhor devolvê-la para o Zoológico do Rio para evitar comoções maiores.  Assim, Cacareco partiu às pressas para a Capital Federal, no dia 1.10.1959 e uma multidão foi se despedir do rinoceronte. (Sábio De Gaulle.)

Apesar da ausência, no dia 4 de outubro, a população mostrou sua desilusão com os políticos, votando em peso (hum!) em Cacareco. O rinoceronte recebeu quase 100 mil votos, que na época seriam suficientes para eleger pelo menos seis vereadores, segundo Antônio Costella, autor do livro Cacareco, o Vereador (Editora Mantiqueira). Cacareco, que teve uma carreira política sensacional e fugaz, morreu pouco tempo depois com dez anos, quando a idade média de vida de um animal livre é de meio século. Provavelmente, desgosto com o cenário político nacional.

quarta-feira, 20 de setembro de 2023

SEM MANDAMENTOS

Oswaldo Montenegro, carioca, 67 anos continua em atividade e seu trabalho reconhecido internacionalmente. Em nossos dias nossas ruas precisam muito de sorrisos francos e de rostos serenos...


SEM MANDAMENTOS

Hoje eu quero a rua cheia de sorrisos francos
De rostos serenos, de palavras soltas
Quero a rua toda parecendo louca
Com gente gritando e se abraçando ao sol

Hoje eu quero ver a bola da criança livre
Quero ver os sonhos todos nas janelas
Quero ver vocês andando por aí

Hoje eu vou pedir desculpas pelo que eu não disse
Eu até desculpo o que você falou
Quero ver meu coração no seu sorriso
E no olho da tarde a primeira luz

Hoje eu quero que os boêmios gritem bem mais alto
Quero um carnaval no engarrafamento
E que dez mil estrelas vão riscando o céu
Buscando a sua casa no amanhecer

Hoje eu vou fazer barulho pela madrugada
Rasgar a noite escura como um lampião
Vou fazer seresta na sua calçada
Eu vou fazer misérias no seu coração

Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
Pra escrever a música sem pretensão
Quero que as buzinas toquem flauta doce
E que triunfe a força da imaginação

Eu vou fazer seresta na sua calçada
Eu fazer misérias no seu coração
Hoje eu quero que os poetas dancem pela rua
Pra escrever a música sem pretensão
Eu quero que as buzinas toquem flauta doce
E que triunfe a força
Da imaginação.




https://www.youtube.com/watch?v=CHj4QMpBlMM

sexta-feira, 15 de setembro de 2023

CHUVA

Tarde chuvosa na avenida Paulista. Ao contrário de Raul Seixas (1945-1989), não tenho medo de chuva (14/09/2023).


“Eu perdi o meu medo, o meu medo da chuva
Pois a chuva voltando prá terra traz coisas do ar.
Aprendi o segredo, o segredo da vida
Vendo as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar...

 

terça-feira, 12 de setembro de 2023

SAPATOS ME PERSEGUEM

 


E me intrigam. Há tempos venho fotografando pares de sapatos abandonados nas ruas por onde passo. Semanas atrás estava no ônibus, quando vi um par de tênis em ótimas condições na calçada da Praça João Mendes. Desci para fotografar, mas não deu tempo: alguém chegou primeiro e levou meu achado; recentemente, registrei aqui no bairro as botas surradas colocadas cuidadosamente ao pé de uma árvore e até acabei esquecendo delas, mas ontem, lá estavam os tênis em um passo desencontrado em Pinheiros, e resgatei as botas do arquivo.






sábado, 9 de setembro de 2023

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

BRAVA GENTE BRASILEIRA!

“Quadro histórico comemorativo da proclamação da independência pelo príncipe regente D. Pedro nos campos do Ypiranga”, idealizado por Pedro Américo de Figueiredo e Melo (1843-1905) por encomenda do Governo Imperial e exposto inicialmente em 1888, em Florença (Itália). No Brasil, foi exibido pela primeira vez na inauguração do Museu Paulista em 7 de setembro de 1895 e, atualmente, encontra-se no Salão Nobre do Museu. O museólogo e professor Ulpiano Bezerra de Menezes (1936) escreveu que é no Salão Nobre que a “alegoria histórica se expande e atinge vitalidade e eficácias totais em detrimento de conteúdos mais particularizadamente” paulistas. Objetos, documentos e relíquias que compõem o espaço – foram encomendados por Affonso de Escragnolle Taunay (1876-1958), que dirigiu o Museu de 1917 a 1946.

HINO DA INDEPENDÊNCIA

A letra é uma adaptação de um poema de Evaristo da Veiga e a música original era Marcos Antônio da Fonseca Portugal, mas foi substituída em 1824 pela composição de D. Pedro I. 

Já podeis da Pátria filhos,
Ver contente a mãe gentil;
Já raiou a liberdade
No horizonte do Brasil
Já raiou a liberdade,
Já raiou a liberdade,
No horizonte do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.

Os grilhões que nos forjava
Da perfídia astuto ardil…
Houve mão mais poderosa…
Zombou deles o Brasil;
Houve mão mais poderosa
Houve mão mais poderosa
Zombou deles o Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.

 

Não temeis ímpias falanges
Que apresentam face hostil;
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil;
Vossos peitos, vossos braços
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.

Parabéns, ó! brasileiros!
Já, com garbo varonil,
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil
Do universo entre as nações
Do universo entre as nações
Resplandece a do Brasil.

Brava gente brasileira!
Longe vá… temor servil
Ou ficar a Pátria livre
Ou morrer pelo Brasil;
Ou ficar a Pátria livre,
Ou morrer pelo Brasil.


https://www.youtube.com/watch?v=-VVqCus277g

segunda-feira, 4 de setembro de 2023

MULHERES À FRENTE DO SEU TEMPO


Paulista, nascida em Xiririca (Eldorado), Francisca Júlia da Silva (1871-1920) foi

poeta parnasiana.  Quando publicou seu primeiro livro “Mármores”, tinha 24 anos e já era considerada uma grande poeta, pois seus trabalhos eram publicados em revistas e jornais.  O sucesso, entretanto, foi efêmero, apesar de continuar a fazer poesia de qualidade como atestam Olavo Bilac, Vicente de Carvalho e Mário de Andrade. No livro “As duas mortes de Francisca Júlia – A semana antes da Semana” (São Paulo: Unesp, 2022), o sociólogo José de Souza Martins, professor emérito da USP, afirma que “A história e a tragédia de Francisca Júlia reúnem e sintetizam os desencontros de sua geração. Especialmente o da mulher intelectual, abruptamente arrancada do patriarcalismo estamental e escravista. Confinada, porém, no vazio da transição brasileira com os cacos e restos da sociedade que acabava aos trancos e barrancos”.  

Francisca Júlia se suicidou em 1º de novembro de 1920.

 

INVERNO

Outrora, quanta vida e amor nestas formosas
Ribas! Quão verde e fresca esta planície, quando,
Debatendo-se no ar, os pássaros, em bando,
O ar enchia de sons e queixas misteriosas!

Tudo era vida e amor. As árvores copiosas
Mexiam-se, de manso, ao resfolego brando
Da brisa que passava em tudo derramando
O perfume sutil dos cravos e das rosas...

Mas veio o inverno; e vida e amor foram-se em breve.
O ar se encheu de rumor e de uivos desolados...
As árvores do campo, enroupadas de neve,

Sob o látego atroz da invernia que corta,
São esqueletos que, de braços levantados,
Vão pedindo socorro à primavera morta.

sábado, 2 de setembro de 2023

SEXTA-FEIRA NA PAULISTA

Depois de fazer uma compra em uma loja enorme, mas que só tem meia dúzia de funcionários e nenhum caixa – tudo autoatendimento, resolvi tomar um café no Benjamin. Há apenas dois rapazes no fundo da loja conversando. A balconista, que deve ter vinte e uns poucos anos, eleva e dobra o braço, boceja de acordo com os protocolos de higiene e comenta que também precisa de um cafezinho para espantar o sono. Nem tenho tempo para responder porque ela me conta que está grávida, o médico proibiu café, chá preto... Eu já vou incluindo chocolate – nem sei se tem cafeína, mas só para dizer alguma coisa. A moça se anima e continua falando da gravidez.  O café fica pronto e eu me refugio em outro balcão, mas ela tem uma boa visão do lugar e continua. As duas colegas dela também estão grávidas, o que está aborrecendo bastante o gerente, segundo ela. Felizmente, entram duas pessoas e tenho sossego, mas resolvo bater em retirada.
                   

Na rua, resolvo ir de ônibus. Poucos passageiros. O cobrador cochila. Tudo tranquilo até que uma jovem começa uma conversa no celular: ela explica que está indo para Ana Rosa onde vai pegar um ônibus para casa. Repete isso umas dez vezes ao longo da conversa. Acho que deveria ter ficado em casa, penso com meus botões. Tento me distrair olhando os prédios, o movimento das ruas e... E vejo uma procissão na calçada da avenida Paulista! O sacerdote todo paramentado sob a umbela carrega o sacrário, uns poucos fieis o seguem entoando algum hino e passam entre pedestres. Uma cena inusitada! O mesmo não acontece no ônibus. O motorista intrigado se pergunta a que se deve a procissão, pois o dia de São Judas foi 28 passado, a senhora no banco junto à porta, que parece ouvir música no celular, palpita cheia de certeza que é um grupo de turistas estrangeiros; o motorista, entretanto, não concorda. “São católicos. Acho que é dia de Ramos.” A senhora, no banco ao lado do meu, dá risada. “Dia de Ramos?” E eu não deixo por menos: “grupo de turistas?”. A segunda parte da conversa é a origem da procissão – minha vez de dar palpite: deve ser da igreja Santa Generosa... 

A observação mais importante essa senhora fez logo em seguida: a indiferença das pessoas à passagem da procissão. Não estou me referindo à questão da religiosidade e nem ela. Ninguém se voltou para observar a passagem do grupo tão incomum numa tarde de sexta-feira. Procissões já fizeram parte do cotidiano das cidades, que eram menores, tinham menos trânsito e as igrejas mais fiéis. Enfim, cheguei ao meu destino. (Foto:HA)

sexta-feira, 1 de setembro de 2023

BOCAGE POR ELE MESMO

Lembranças. Em 2010, percorri Portugal na primavera. Em abril estive em Setúbal, cidade natal do poeta Manuel Maria de Barbosa du Bocage (1765-1805). Foi outro português que a caminho das índias esbarrou no Brasil. Aconteceu em 1786. O poeta teve uma vida atribulada, resolveu trocar Portugal pelas Índias, passando pelo o Rio de Janeiro onde arranjou encrenca – gostou tanto que ele pretendia ficar, mas dedicou uns versos irreverentes ao Governador-Geral do Brasil, que não gostou, e o fez seguir caminho. Em outubro, Bocage desembarcou em Damão. Na parede azulejada de uma casa, fotografei esta homenagem ao ilustre filho de Setúbal. Neste soneto Bocage faz um autorretrato e parece que gostava muito de ser visto desta forma; entretanto, um anarquista anônimo, anotou sua irritação com as alterações feitas ao original. 

AUTORRETRATO

Magro, de olhos azuis, carão moreno,
Bem servido de pés, meão na altura,
Triste de facha, o mesmo de figura,
Nariz alto no meio, e não pequeno;

Incapaz de assistir num só terreno,
Mais propenso ao furor do que à ternura,
Bebendo em níveas mãos por taça escura
De zelos infernais letal veneno;

Devoto incensador de mil deidades
(Digo, de moças mil) num só momento,
Inimigo de hipócritas e frades;


Eis Bocage, em quem luz algum talento;
Saíram dele mesmo estas verdades
Num dia em que se achou... mais pachorrento*.

Bocage, in 'Rimas'.


*O poeta alterou ao último verso cuja rima original era ...  escatológica.


quarta-feira, 23 de agosto de 2023

CONCERTO NO CENTRO

 Início da tarde de terça-feira com CONCERTO NO CENTRO, promovido pelo SESC- Carmo, na igreja de Santo Antônio (Praça do Patriarca). Desta vez o convidado foi o Trio Triz, formado pelos músicos Daniel Oliveira, Diogo Maia e Luca Raele, que apresentou "A versatilidade do clarinete de Bach ao século XXI". Um belo concerto com peças de Bach, Mozart, Debussy entre outras. Igreja repleta. Público atento. Por meio do projeto Concerto no Centro o SESC-Carmo realiza apresentações musicais mensais em igrejas do centro histórico, “evidenciando o patrimônio histórico de São Paulo”. A igreja de Santo Antônio é a mais antiga da cidade. Foi fundada no final do século XVI e ao longo de sua existência passou por várias reformas – a fachada foi reinaugurada em 1919.



segunda-feira, 21 de agosto de 2023

CONSOLAÇÃO E A ARTE TUMULAR

O Diário Nacional começou a circular em julho de 1927 e em sua curta existência contou com a colaboração de Mário de Andrade, que escrevia críticas sobre arte em geral e literatura. Críticas que muitas vezes têm sabor de crônica, quase sempre com a irreverência bem-humorada característica dos modernistas. Ao ler lembrei de Stanislaw Ponte-Preta (Sérgio Porto: 1923/1968). 

Mário estreou no novo jornal paulistano em agosto de 1927, com um tema exótico: arte tumular. O crítico de arte mostra aí seu lado repórter: aproveitou a inauguração do monumento feito por Victor Brecheret para o túmulo de Inácio Leite Penteado (1865-1914) e criticou a arte exposta no Cemitério da Consolação. Inácio era primo e tinha sido marido da mecenas paulista Olivia Guedes Penteado, grande amiga do escritor.

No seu estilo inconfundível, diz que o cemitério tem poucas obras de arte tumular “a não ser por algumas discutíveis deidades assinadas por escultores, e dum mundo de capelinhas sorridentes, sem nenhum caráter funerário, porém de característica nacionalidade ítalo-tapuia, o que a gente encontra naqueles vergéis marmóreos são enxames de anjinhos, anjos e anjões suficientes para tornarem para sempre desconvidativos os apartamentos do céu”.

Mário de Andrade continua: “Na Consolação tem de tudo: carrocinha de nugá, barracas de feira, florista, bolo de noiva, sentinas e colunas quebradas”. Logo adiante o crítico demonstra seu alívio porque agora o cemitério “possui um túmulo: Pietà que Brecheret ergueu sobre os despojos de Ignacio Penteado”. Na verdade, o monumento chama-se “O sepultamento” e abriga também os despojos de Olívia Guedes Penteado, que faleceu em 1934 com 62 anos.

Não tenho ideia de como era o cemitério da Consolação há quase cem anos, mas em um domingo de abril de 2018, aproveitei para dar uma espiada por lá. Não conhecia esse texto de Mário de Andrade, mas por acaso fotografei um anjo (há realmente uma legião de anjos por lá) no túmulo da marquesa de Santos, Domitila de Castro, a coluna quebrada do jazigo da família Santos-Dumont, e naturalmente o “Sepultamento”, do Brecheret.

            A passagem do tempo muda bastante a perspectiva das pessoas. O cemitério da Consolação faz parte do roteiro turísticos da cidade: por ser o mais antigo da cidade (inaugurado em 1858), reúne o maior número de jazigos de famílias ricas e importantes e campas de personalidades ilustres. 

                

A Marquesa de Santos contribuiu com dinheiro para a instalação do cemitério.


Jazigo da família Santos Dumont. O corpo do aeronauta foi sepultado no Rio de Janeiro.

O "Sepultamento", obra de Brecheret.

domingo, 20 de agosto de 2023

PRIMAVERA PRECOCE

Mudanças climáticas interferem nos ciclos de vida... Creio que sim. Em São Paulo pode-se observar que a primavera se antecipou e dá um colorido delicado às ruas arborizadas. Os sabiás, passarinho boêmio, já estão cantando a pleno pulmões. Essas duas maravilhas adornam minha rua, na Aclimação, e tornam nossas caminhadas mais suaves.





A primavera começará na madrugada de 23 de setembro.


sábado, 19 de agosto de 2023

DIA DO CICLISTA

 

O Dia Nacional do ciclista foi criado em memória do ciclista brasiliense Pedro Davison (25 anos) que morreu atropelado em Brasília, no dia 19 de agosto de 2006. 

Estudos publicados em 2021 mostravam que há em São Paulo 1,6 milhão de bicicletas, mas dados da Companhia de Engenharia de Tráfego indicam que apenas nove mil circulavam todos os dias. Em 2020, segundo a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas, houve um aumento de 66% nas vendas de bicicleta em relação a 2019 (provavelmente em decorrência da pandemia iniciada em março daquele ano). No início deste ano, várias entidades fizeram parceria para a realização da contagem de ciclistas da cidade.

A Capital contava em 2021 com a maior malha cicloviária (ciclovia, ciclofaixa e ciclorrota) do país de acordo com a prefeitura: 681 km de extensão. É sempre bom lembrar que quantidade não significa qualidade. Algumas são vergonhosas. (Fontes: G1, vadebike.org, mobilize.org, prefeitura.)




Ilustração: “Roda de Bicicleta” (1913), do artista plástico Marcel Duchamp (1887-1968), criador do conceito readymaker – que inclui objetos de uso cotidiano na obra de arte. Acervo: Museu de Arte Moderna de Nova York.


sexta-feira, 11 de agosto de 2023

PONTO DE ÔNIBUS

Foto: SPTrans.


Pior do que esquinas para ser emboscado por um chato só mesmo um ponto de ônibus. Como passei a maior parte da vida usando transporte público, tenho alguma experiência no assunto. Para começo de conversa eles fazem parte do que as prefeituras chamam pomposamente de mobiliário urbano – e esse mobiliário em São Paulo pode variar de um simples poste a uma estrutura de metal com uma pintura marrom e o desenho de um ônibus. Locais mais nobres merecem um abrigo de acrílico e banquinho. Num dos suportes da cobertura há um papel com informação sobre os ônibus que passam por ali e um mapa com a sua localização (caso você esteja perdido).

Na rua Domingos de Moraes, há um ponto bem interessante. Ali para um ônibus (não sei qual é a linha) com periodicidade de cometa – passa, mas é possível que não se sobreviva até a passagem dele. É um desses cobertos com acrílico e atrai muitos idosos. Invariavelmente, os vejo acomodados no banquinho sem conforto, batendo papo ou apenas observando o movimento em torno, sempre intenso. E me pergunto se eles esperam ônibus ou aproveitam para espantar a solidão...

Outro dia na Aclimação aguardava o ônibus calmamente, quando parou uma camionete em frente ao ponto, desceram dois jovens pressurosos, pediram licença aos passageiros potenciais, colocaram uma fita em torno da estrutura metálica (cena de crime?) e pegaram na caçamba do carro balde, esfregão e mangueira, dando início à limpeza do “ponto”.  A operação levou uns dez minutos – período em que o ônibus não se materializou. Não esqueceram de trocar o papel com o mapa e as linhas locais. Limpeza feita (mais ou menos), pegaram os petrechos e foram embora. Foi no ponto em frente a esse que vislumbrei, saindo do salão de beleza, as duas beldades “produzidas” com esmero. Altas, caminhavam meio assustadas e pareciam lhamas vestidos de branco ou caneiros anoréxicos, mas eram só poodles.

Um ponto de ônibus animado é o que fica no começo da Conselheiro Rodrigues Alves e atende a várias linhas. Descarregam ali passageiros com destino ao metrô e carregam outros para várias plagas da cidade. Difícil entediar-se ali: há curiosos, abelhudos, metidos a galã, malucos e velhinhos de todos os tipos loucos para contar suas histórias. Os malucos incluem os que descem do ônibus e atravessam a rua no meio trânsito sem se importar com o semáforo alguns metros à frente. As senhoras aproveitam para namorar sapatos na vitrine da esquina; as moças quase sempre estão perdidas no celular; o cardápio do dia anotado em quadro negro é também motivo de consulta e alguns caem na tentação de uma feijoada ou rabada com polenta.

Problema mesmo é aquela pessoa que faz uma pergunta, você responde educadamente e de repente ela está contando sua vida ou, o que é pior, suas doenças. Foi num desses pontos que o homem magro, roupas surradas, higiene muito a desejar, começou a me contar suas agruras. Não o incentivei a prosseguir, mas isso não o afetou. Quando disse que tinha lutado na II Guerra e voltara com problemas psicológicos (nisso eu acreditei), demonstrei simpatia, mas me arrependi assim que ele me disse que se reformara como general!!! Felizmente, o ônibus chegou logo e me despedi do general, que nem da banda era já que a patente pertencia a Otávio Henrique de Oliveira, o querido Blackout (1919-1983).


terça-feira, 8 de agosto de 2023

A LUA, O LUAR E DOIS POETAS.

 

O poema mais conhecido do mineiro Alphonsus Guimaraes (1870-1921) é “Ismália”, que fazia parte da antologia de poetas brasileiros adotada pelo Liceu Feminino Santista, lá pelos idos de 1960. A professora só não ensinou que em grego o nome da personagem significa desejo de amor.

ISMÁLIA

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar…
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar…
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar…

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar…
Estava perto do céu,
Estava longe do mar…

E como um anjo pendeu
As asas para voar…
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar…

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par…
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar…

 

No centenário de nascimento de Alphonsus Guimaraes, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) escreveu “Luar para Alphonsus” em homenagem ao conterrâneo.

 

LUAR PARA ALPHONSUS

Carlos Drummond de Andrade (1902-1987)

 

Mas não é para soltar foguete nem fazer
os clássicos discursos ao povo mineiro
dando ao espectro do poeta o que faltou ao poeta
numa vida banal sem esperança.

É para sentir o luar
extra que envolve
Ouro Preto, Mariana, Conceição
filtrado suavemente
da poesia de Alphonsus, no silêncio
de sua mesa de juiz municipal
meritíssimo poeta do luar.

Algum estudante, sim, espero vê-lo
debruçado sobre a Pastoral aos crentes
do amor e da morte, penetrando
o cerne doceamargo
de um verso alphonsino cem por cento.
Algum velho da minha geração,
uns poucos doidos mansos, e quem mais?
Onde o poeta assiste, não há cocks
autógrafos, badalos, gravações.
Está cerrado em si mesmo (tel qu’en lui-même
enfin l’éternité le change
…)
e descobri-lo é quase um nascimento
do verbo:
cada palavra antiga surge nova
intemporal, sem desgaste vanguardista, lua
nova, na página lunar.

E essa lua eu peço: aquela mesma
barquinha santa, gôndola
rosal cheio de harpas
urna de padre-nossos
pão de trigo da sagrada ceia
lua dupla de Ismália enlouquecida
lua de Alphonsus que ele soube ver
como ninguém mais veria
de seus mineiros altos miradouros.

O poeta faz cem anos no luar.


Ilustração: "Lua Cheia" (1919), de Paul Klee (1879-1940). 

domingo, 6 de agosto de 2023

SEMANA COM POESIAS

 

Para começar escolhi Alberto de Oliveira, poeta fluminense que nasceu em 1857 em Palmital de Saquarema e faleceu em Niterói em 1937. Ocupou a cadeira 8 da Academia Brasileira de Letras (fundador). “Nem todos cantam tudo; e o erro talvez da geração nova será querer modelar-se por um só padrão. O verso do Sr. Alberto de Oliveira tem a estatura média, o tom brando, o colorido azul, enfim um ar gracioso e não épico”, opinião de Machado de Assis, num ensaio de 1879.

 

Crescente de Agosto

Alberto de Oliveira

 

Alteia-se no azul aos poucos o crescente,

O ar embalsama, os cirros levam, o escuro afasta;

Vasto, de extremo a extremo, enche a alameda vasta

E emborca a urna de luz nas águas da corrente.

 

Na escumilha da teia, onde a aranha indolente

Dorme, feita de orvalho, uma pérola engasta.

Faz aos lírios mais branca a flor cetínea e casta,

Mais brancos os jasmins e a murta redolente.

 

Faz chorar um violão lá não sei onde... (A ouvi-lo

Na calada da noite, um não sei quê me invade)

Faz que haja em tudo um como estranho espasmo e enlevo;

 

Faz as cousas rezar, ao seu clarão tranquilo,

Faz nascer dentro em mim uma grande saudade,

Faz nascer da saudade estes versos que escrevo.

 

In: Poesias, Quarta série. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1928.

(Observação: ouso esclarecer o significado de duas palavras pouco usadas: cetínea – acetinada, e redolente, aromática.)


                                      "Estrada com cipreste e estrela", de 1890,8 Van Gogh. 

sábado, 5 de agosto de 2023

ANDANÇAS RECENTES

 

Andanças recentes pela cidade, aproveitando veranico sem fim.

Palácio Campos Elíseos – iniciado em 1890 e finalizado em 1899. Av. Rio Branco, 1269. Atualmente, Museu das Favelas.


Passagem subterrânea da estação Sé do metrô: gotículas de água da fonte externa formam uma delicada cortina. (A área foi recuperada após anos com um cheiro horrível.)

As escadarias de mármore do Tribunal de Justiça de São Paulo (Praça João Mendes). Projeto: Ramos de Azevedo; prédio inaugurado oficialmente em 1942, foi sendo ocupado aos poucos desde 1933.

Recepcionistas (por assim dizer) da Turquesa, uma loja com produtos variados - de bijuterias a coisas para decoração.

Parque do Carmo: fazia tempo que não via um bambuzal.

“Vem sonhar”, convite do circo Patati Patatá, no Tatuapé. Dá um colorido especial ao bairro. Pertinho do metrô Belém. Rua Uriel Gaspar, 149. 


sexta-feira, 4 de agosto de 2023

FLORAÇÃO DAS CEREJEIRAS

 

Elas não dão frutos, mas na primavera nos proporcionam o mais puro encantamento porque nada é mais delicado do que as flores das cerejeiras e seu colorido suave entre branco e rosa. Neste e no próximo final de semana, acontece a 43ª Festa da Cerejeira no Parque do Carmo, situado em Itaquera, Zona Leste de São Paulo. O Bosque das Cerejeiras fica próximo ao lago e, ao chegar, o visitante se vê entre 4 mil pés de cerejeiras floridas. O evento tem várias atrações – confira a programação no site da prefeitura.

Não há desculpa para perder a festa: o parque tem estacionamento, mas quem não tem carro pode ir de metrô (Linha vermelha) descer em Itaquera, onde há uma linha especial no terminal de ônibus que sai da Plataforma E: 4050/10 Metrô ItaqueraPq. do Carmo. Outra possibilidade para quem quiser ir mais cedo é a linha 3743/10 São Mateus no mesmo terminal.

Atenção para os horários diferenciados da linha.4050/10 Metrô Itaquera – Pq. do Carmo.

·         Dia 4 e 11 sexta-feira, das 12h às 18h.   

·         Dia 5 e 12  sábado, das 9h às 18h. 

·         Dias 6 e 13  domingo, das 9h às 18h. 

Ônibus de outras procedências.

·         3027/10 CPTM Guaianases Shop. Aricanduva 

·         352A/10 Jd. Helena Terminal São Mateus 

·         3743/10 São Mateus Metrô Itaquera 

·         4002/10 Guaianases Term. Vl.Carrão

 


Organização da Festa das Cerejeiras do Parque do Carmo: Federação de Sakura e Ipê do Brasil.

segunda-feira, 31 de julho de 2023

OS AMIGOS URSOS

O mau comportamento humano em relação à natureza tem sérias consequências para outros seres vivos. A devastação das florestas, por exemplo, causa falta de comida para os animais que acabam se aproximando das áreas habitadas em busca de alimento. Por causa de um vídeo postado pela BBC News neste fim de semana, lembrei-me de alguns fatos que aconteceram décadas atrás.

Vi dois ou três programas de Oprah e não gostei. Em um deles, a convidada do programa contou que, ao surpreender um urso na cozinha, foi atacada por ele. A filha, que teve coragem suficiente para pegar carne na geladeira e lançar para o animal, a salvou. O urso satisfeito com o alimento foi embora. A mulher, levada às pressas para o hospital, passou por várias cirurgias plásticas reparadoras e, felizmente, se recuperara.

Comentei o fato com amigos e um deles contou-me que visitava um familiar nos Estados Unidos (não lembro o local) e uma noite, retornando para casa, o parente cochichou para ele apressar o passo. Por quê? Um urso vinha caminhando logo atrás deles, explicou entrando na rua transversal mais próxima. Um susto e tanto para o visitante!

Eu costumava assistir ao programa do jornalista americano David Letterman. Em uma dessas ocasiões, ele estava voltando de férias nas montanhas e foi logo narrando o susto que levou certa manhã ao acordar com um estrondo. Levantou para ver o que acontecera e viu um urso na sala. Como bom jornalista, foi buscar a máquina fotográfica para registrar a visita; entretanto, parece que o animal não encontrou nada apetitoso e logo foi embora, mas Letterman (cauteloso) fotografou da janela o urso saindo calmamente da cabana. Ele exibiu a foto do flagrante.

Tudo isso porque ontem a BBC News e SIC Notícias (Portugal) publicaram o vídeo de um urso que foi se refrescar na piscina de uma casa em Burbank, Califórnia (EUA). Estava muito feliz. A polícia local aproveitou para orientar a população sobre o que fazer se encontrar um urso por aí – o que não é o nosso problema. Aliás, o único urso que vi foi no Museu de Zoologia da USP, no Ipiranga.

 https://sicnoticias.pt/especiais/mundo-dos-animais/2023-07-29-Urso-filmado-a-refrescar-se-numa-piscina-na-California-e83043af





Zé Colmeia - personagem de Hanna-Barbera e o urso preto do Museu de Zoologia da USP (foto Hilda Araújo).