quinta-feira, 12 de janeiro de 2023

SERRA DA SAUDADE

Foi em Minas Gerais que alguém deu ao acidente geográfico o nome de Serra da Saudade, sabe-se lá por quê. Mas que o nome é bonito, é. Lá pelos idos do século XVIII várias pessoas já haviam se instalado no sopé da serra, mas duas propriedades se destacavam: a fazenda Rancho, de Pedro Félix, e a Serra da Saudade, de Miguel Furtado Mendonça. Essa é a origem de Serra da Saudade, município com uma área de 335,7 km² em que vivem 771 serrano-saudalenses, população estimada de 2021, número que lhe dá o título de município brasileiro com menor população do país. Situada a 270 km de Belo Horizonte, a principal atividade econômica da cidade, que tem um Índice de Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) médio, é a agropecuária.

        Se a origem da cidade são as fazendas, a construção do trecho da Estrada de Ferro que ligaria Dores do Indaiá a Paracatu em 1922 deu o impulso para o crescimento do vilarejo. O proprietário da fazenda Rancho, na época, dou os alqueires necessários para a construção da estação ferroviária – com a condição de que ela se chamasse Melo Viana*. Inaugurada a estação em 1925, foram construídas as casas de funcionários da ferrovia e de posseiros. O ditador Getúlio Vargas visitou Serra da Saudade quando teve início a construção da rodovia Belo Horizonte – Uberaba, atravessando o arraial de Melo Viana – obra interrompida em consequência do racionamento de petróleo causado pela II Guerra Mundial.

            Em 1948, foi criado o distrito de Comendador Viana (ex-povoado de Estação Melo Viana), subordinado ao município de Dores do Indaiá, e em 1962 o distrito foi elevado à categoria de município com o nome de Serra da Saudade. A ferrovia, considerada antieconômica, foi desativada em 1969 – restou a estação para lembrar essa época, assim como a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, o prédio da primeira escola de Arraial Viana e a antiga casa de beneficiamento de arroz entre outros pontos de interesse.

            *Fernando de Melo Viana (1878-1954) – político mineiro, foi presidente (governador) de Minas entre 1924 e 1926 e vice-presidente do Brasil entre 1926 e 1930.



Fotos: site da Prefeitura de Serra da Saudade.

domingo, 8 de janeiro de 2023

ELVIS NÃO MORREU


Elvis Presley, o rei do rock, completaria hoje 88 anos, mas morreu aos 42 anos, deixando fãs inconformados – para muitos “ELVIS NÃO MORREU” –, conquistou novas gerações e continua sendo um campeão de vendas de discos mundo afora, assim como os Beatles. Sim,
Elvis Presley só teve seu reinado abalado quando surgiram os quatro garotos do outro lado do Atlântico que conquistaram a América e o mundo, claro, mas isso é outra história. A residência do cantor em Graceland (Menphis) recebe cerca de 600 mil visitantes por ano! Entre os adeptos das várias teorias da conspiração há aqueles que acreditam que Elvis cansou da vida de artista, mudou de nome e de endereço, trocando os Estados Unidos pelo Brasil ou Argentina. Um ótimo cantor, ator razoável e uma figura inesquecível. Morreu há quase 46 anos e continua sendo um grande prazer ouvi-lo.




https://www.youtube.com/watch?v=vGJTaP6anOU

sexta-feira, 6 de janeiro de 2023

"CINISMO ETÁRIO"

 CINISMO ETÁRIO


Quando fizer 20 anos

(pensava)

                     – poderei muito.

Quando fizer 30 anos

(pensava)

                     – conhecerei o mundo.

 Quando fizer 40 anos

(pensava)

                      –  estarei maduro.

Faltam duas, três décadas

e não me sinto ainda adulto.

 

Ao chegar aos 60, contudo,

terei memórias, serei mito,

 e aos 70 farei discursos

fingindo a calma que só têm

os muito aflitos.

 

Mentirei, mentirei, mentirei

sem testemunhas, sobretudo,

 se Deus me liquidar os inimigos.

 

Então, intangível, acreditarei

no que imaginam que fiz

pensando que a verdade

é o que se ouve e se diz.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

Tessalônica, Grécia, 2019.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

CAMINHOS PAULISTANOS

 

Rua Conselheiro Furtado, São Paulo, 2022.

Nas minhas andanças, já encontrei sapatos no caminho, um galo brigão, cães simpáticos – outros nem tanto, passarinhos atrevidos, árvores maravilhosas, calçadas forradas de pétalas de flores, muitos buracos e – o que é pior – borboletas ameaçadoras das quais fujo de medo e sem pejo. Outro dia lá estava a brincadeira infantil desenhada na calçada, cheia de promessas para adultos porque criança quer só saltar num pé de casinha em casinha, às vezes com os dois, e chegar do outro lado do diagrama... Eu começaria o jogo com a Dignidade, todo o resto fica mais fácil. Viva a Amarelinha!

quarta-feira, 4 de janeiro de 2023

QUATRO CASAS PARA VISITAR

 

Há muitas casas em São Paulo que merecem uma visita. Os motivos podem ser variados: a beleza e a localização do imóvel, o acervo artístico e histórico reunido pelos proprietários ou a triste história de vida de uma família rica do início do século passado que exigiu a alteração da residência. Aqui estão quatro sugestões.


A FUNDAÇÃO MARIA LUÍSA E OSCAR AMERICANO, no Morumbi, merece uma visita sem pressa. O projeto da casa, que parece pairar sobre o solo, é do arquiteto Oswaldo Bratke e o parque foi idealizado pelo paisagista Otávio Augusto Teixeira Mendes. São 75 mil m² de beleza – artes plásticas e natureza preservada na avenida Morumbi 4.077. Engenheiro e empresário, Oscar Americano (1908-1974) foi casado com Maria Luísa Ferraz Americano de Caldas e juntos eles se dedicaram a colecionar obras de arte – pinturas, móveis, tapeçaria e prataria. Quando ela faleceu em 1972, ele reformulou a casa em que viveram por 20 anos e criou a fundação para abrigar o acervo artístico. Desde 1980 a entidade é aberta ao público e constitui um dos espaços culturais e de lazer importantes da cidade de São Paulo. Para o salão de chá é preciso fazer reserva. Visita paga. Conferir preço pelo telefone 11-3742-077. Reabre em 10 de janeiro próximo. Foto: Hilda Araújo.

Foto: Wikipedia.

Aproveitando a estada no Morumbi, vale a pena visitar a CASA DE VIDRO da arquiteta Lina Bo Bardi (1914-1992) na rua Gal. Almério de Moura, 200. Projetada por Lina, a casa foi erguida na área da antiga Fazenda de Chá da Família Muller Carioba e foi uma das primeiras da região ainda bastante arborizada na época. Concluída em 1951, a casa foi o lar do casal Lina e Pietro Maria Bardi (1900-1999). Em 1987 foi tombada e sede do Instituto Bardi. Aberta à visitação de quinta a sábado das 10 às 11h30 e das 14h às 15h30. Fone: 11-3744 9902.

Casa e jardim da casa de Ema Klabin.

Empresária, rica, culta e solteira, Ema Gordon Klabin (1907-1994) rodeou-se de objetos artísticos e nos anos de 1950 adquiriu um terreno de quatro mil metros quadrados nos Jardins para construção da casa contratou o arquiteto alemão Alfredo Ernesto Becker. Coube ao paisagista Burle Marx (1909-1994) criar os jardins. Em 1960 Ema Klabin mudou-se para o novo endereço onde morou até falecer. Em 1978 foi criada a FUNDAÇÃO CULTURAL EMA GORDON KLABIN, que transformou a residência em um museu de arte e promove várias atividades culturais e artísticas. Rua Portugal, 43 – Jardim Europa. Fone: 11-3897-3232. Consulte os dias e horários de visitas livres e guiadas. Foto: Hilda Araújo.

(Este passeio pode incluir visita à Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia e ao Museu da Imagem e Som – entidades que ficam em frente à Fundação.)

Casa de Dona Yaya. 

DONA YAYA era o apelido de Sebastiana de Mello Freire, que nasceu em 21 de janeiro de 1887. Era filha de Josefina Augusta de Almeida Mello e Manoel de Almeida Mello Freire, senador estadual e deputado constituinte. As desditas da família de Sebastiana começaram cedo. O casal teve outros três filhos. Uma das meninas morreu aos 3 anos, no berço, asfixiada pela ingestão de um objeto. A outra faleceu aos 13 anos, vítima de tétano. Quando Sebastiana estava com 12 anos, os pais adoeceram e morreram no intervalo de dois dias em locais diferentes e sem que soubessem da doença um do outro. Albuquerque Lins, que mais tarde viria ser presidente do Estado de São Paulo, tornou-se tutor de Sebastiana e de Manuel de Almeida Mello Freire Junior, o irmão de 17 anos, herdeiros de uma grande fortuna. No início dos anos vinte, a jovem foi morar na casa da Rua Major Diogo. A doença mental se manifestou quando ela estava com 32 anos e para evitar que ela se machucasse durante os acessos de fúria, muitas adaptações foram feitas na casa. Dona Yayá morreu em 1961 aos 74 anos – 40 dos quais viveu mergulhada na loucura e reclusa no casarão da Bela Vista. O imóvel foi incorporado à Universidade São Paulo em 1969 e atualmente é sede do Centro de Preservação Cultural da USP. Maj. Diogo, 353 – Bela Vista. Consulta sobre protocolo de segurança pelo telefone 11-2648-1501.Foto: Hilda Araújo.




terça-feira, 3 de janeiro de 2023

PROGRAMA DE FÉRIAS (2)

 

São Paulo tem uma grande e ótima variedade de museus e centros culturais. Museus para todos os públicos – como os amantes de artes plásticas e da língua portuguesa, apreciadores de boas histórias, sem esquecer o público religioso. Aqui três sugestões para explorar três espaços privilegiados da cidade.

Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

O primeiro contato dos estudantes paulistas com um museu costuma acontecer ali no alto do Ipiranga, onde D. Pedro proclamou a Independência do Brasil. O Museu Paulista da USP, no Ipiranga, é uma instituição que permite ao visitante ir da celebração da Independência à consciência da nacionalidade, percorrendo os diversos períodos da formação da sociedade paulista e brasileira. Após um longo período fechado para restauro, está em pleno funcionamento. É oportunidade para conhecer o belo Parque da Independência, com o jardim de estilo francês, o riacho do Ipiranga e o Monumento, onde se encontram os restos mortais do Imperador D. Pedro I e de suas esposas, as imperatrizes Leopoldina de Habsburgo e D. Amélia de Leuchtenberg.

Ótima oportunidade para visitar o Museu de Zoologia da USP, que fica atrás do Museu Paulista. A garotada vai adorar, afinal há o esqueleto de um dinossauro, um urso muito simpático e um chimpanzé com ares de filósofo, além de uma infinidade (exagero, claro) de insetos entre muitos outros animais nativos e exóticos em exposição.

Pátio do Colégio.

O Centro Histórico é uma viagem pelo tempo, pois ali misturam-se o local da fundação de São Paulo, igrejas centenárias, belos prédios assinados por Ramos de Azevedo, o grande arquiteto de São Paulo, e por Oscar Niemeyer, em princípio de carreira. Assim, esse passeio sem pressa pode começar pelo Pátio do Colégio – onde há a igreja são José de Anchieta, o Museu Anchieta, a capela e o conjunto arquitetônico da Justiça assinado pelo arquiteto Ramos de Azevedo. No centro, há o monumento Glória imortal dos fundadores de São Paulo (1925), de autoria do artista Amadeo Zani. Um pouco adiante, na Rua Roberto Simonsen, encontram-se a Primeira Casa (museu da cidade São Paulo, a Casa da Marquesa de Santos e o Beco do Pinto.

É obrigatória uma visita à Catedral Metropolitana, na Praça da Sé, inclusive a cripta, onde estão as câmaras mortuárias dos arcebispos de São Paulo e de três personagens históricos importantes: o Cacique Tibiriçá, um dos fundadores da cidade, frei Bartolomeu de Gusmão (1685-1729), santista inventor da passarola (primeiro objeto mais pesado do que o ar a voar) e o Padre Diogo Feijó (1784-1843).

Hora de enveredar pelo Triângulo – trecho compreendido entre as Ruas Direita, XV de Novembro e São Bento em que a cidade se desenvolveu até início do século passado – e adjacências. Atrações principais: Centro Cultural Banco do Brasil (fecha às terças-feiras); visitas com agendamento: Farol Santander, Edifício Martinelli e Edifício Matarazzo (Prefeitura). Pausa na Casa Godinho, mercearia centenária situada no prédio Sampaio Moreira) ou durante a visita ao Mosteiro de S. Bento, onde há uma padaria especial com bolos, pães, geleias, biscoitos cujas receitas são seculares.

Pátio do Colégio

Mosteiro de S. Bento – Largo de S. Bento, s/n.

Centro Cultural Banco do Brasil – R. Álvares Penteado,112.

Farol Santander – R. João Brícola, 24.

Edifício Martinelli – R. S. Bento, 405.

Edifício Matarazzo (Prefeitura) – Viaduto do Chá, 18.

 

Pinacoteca do Estado de São Paulo.

O Bom Retiro é um bairro privilegiado: além de grande centro comercial varejista e atacadista, concentra belos monumentos históricos e importantes atrações culturais: Pinacoteca do Estado de São Paulo, Museu da Língua Portuguesa, Museu de Arte Sacra. Com direito a uma pausa no Mercado da Cantareira para almoçar, fazer um lanche ou conhecer o espaço (arquiteto Ramos de Azevedo) antes de atravessar a ponte sobre o rio Tamanduateí para conhecer o Palácio das Indústrias, onde está instalado o Museu Catavento. A todos esses lugares pode-se ir a pé ou de metrô a partir das estações Sé, Luz e Tiradentes.

Pinacoteca do Estado de São Paulo – Praça da Luz, 2.

Museu da Língua Portuguesa – Praça da Luz, s/n.

Museu de Arte Sacra – Av. Tiradentes, 186.

Mercado da Cantareira – R. da Cantareira, 306.

Museu Catavento Palácio das Indústrias – Av. Mercúrio, s/n.

 

Avenida Paulista.

A quarta sugestão: avenida Paulista.  Não faltam atrações na região da avenida Paulista (Cerqueira César), lugar ideal para caminhar todos os dias ou pedalar aos domingos. Há três estações de metrô (linha Verde). A partir do início da avenida há os jardins da Casa das Rosas que está fechada para restauro, Japan House, Itaú Cultural, Centro Cultural FIESP/SESI (funciona de quarta a domingo), SESC Paulista, onde há um mirante no 17º andar, Museu de Arte de São Paulo – MASP (grátis às terças-feiras) e o Instituto Moreira Salles.

Casa das Rosas – Av. Paulista, 37.

Japan House – Av. Paulista, 52.

Itaú Cultural – Av. Paulista, Itaú Cultural, 149.

Centro Cultural FIESP/SESI – Av. Paulista, 1313.

Museu de Arte de São Paulo – Av. Paulista, 1578.

Instituto Moreira Salles– Av. Paulista, 2424.

Há muitas obras de arte ao longo do percurso como os painéis do Hospital Santa Catarina, o painel de Clóvis Graciano no Edifício Nações Unidas (nº 648);  esculturas como o Homem Aramado, de autor desconhecido, na equina da rua Teixeira da Silva, ou a de Tomie Ohtake em frente ao Citi Bank (nº 1111), onde também há um trabalho de Franz Krajcberg enfeitando a parede do prédio.

Comer não é problema, problema mesmo é escolher o local. Há dois shoppings para quem gosta: Shopping Center 3 e o Shopping Cidade de São Paulo. Enfim, a Paulista é um programa e muito especial.



segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

PROGRAMA DE FÉRIAS

Quem não viajar nestas férias de verão, pode aproveitar bastante as atrações de São Paulo. O mesmo vale para quem vem de fora. Há passeios para todos os gostos. Os amantes da natureza, por exemplo, têm pelo menos cinco parques urbanos e de fácil acesso muito bonitos e diferentes para visitar – dois deles com atrações especiais: a exposição “Monet à beira d’água” e a maior roda-gigante da América Latina.


PARQUE DO IBIRAPUERA – Aqui, o visitante usufrui a beleza do parque e ainda dispõe de ótimos atrativos culturais. Os prédios têm a assinatura do arquiteto Oscar Niemeyer. Lá se encontram o Pavilhão Ciccillo Matarazzo (da Bienal), Oca, o Museu de Arte Moderna (MAM), Museu Afro Brasil, Planetário, Jardim das Esculturas e o Obelisco. O Museu de Arte Contemporânea (MAC/USP) fica fora do parque com acesso pelo viaduto Ciccillo Matarazzo. Ônibus no Largo Ana Rosa (metrô Ana Rosa). Quem não quiser esperar ônibus, pode descer a rua Rodrigues Alves, uma caminhada de quinze minutos. Dispõe de estacionamento.


O JARDIM BOTÂNICO está situado, no Parque das Fontes do Ipiranga (Zona Sul). É uma das áreas verdes mais bonitas da cidade – foi inspirado no jardim botânico de Upsala (Suécia). Além das estufas de orquídeas e plantas tropicais, abriga a nascente do riacho do Ipiranga. Ingresso pago. Av. Miguel Stefano, 3031 – Água Funda. Tem estacionamento: Rua Etruscos, 52, Água Funda. Ônibus: linhas 4742-10 – Jd. Clímax, Metrô S. Judas e Saúde; 475R-10 – Jd. S. Savério, Metrô S. Judas e Saúde; e 4491-10 – Zoológico, Terminal Parque D. Pedro II.


PARQUES CÂNDIDO PORTINARI/VILLA-LOBOS – O acesso aos dois parques pode ser por trem (Linha Esmeralda – a estação Villa-Lobos-Jaguaré dá acesso direto aos parques). Até o final de janeiro a grande atração do Cândido Portinari é a maior roda-gigante da América Latina, enquanto o Villa-Lobos exibe a mostra imersiva “Monet, à beira d’água” (necessário agendamento para visita) e ainda dispõe de carrossel e outros brinquedos infantis. Dispõe de estacionamento.

 


PARQUE FERNANDO COSTA (PARQUE DA ÁGUA BRANCA) – Este parque tem um jeito rural e fica pertinho do Memorial da América Latina. Oferece várias atividades ao visitante pois dispõe de equipamentos de ginástica, espaço música, leitura e é até possível assistir a uma aula de equitação. Para os caminhantes, há a Trilha do Pau-brasil. Nos fins de semana há rodas de viola; às terças-feiras, sábados e domingos pela manhã costuma ter uma feira de produtos orgânicos. Metrô: Linha Vermelha: Estação Barra Funda. Av. Francisco Matarazzo, 455 – Água Branca, Zona Oeste. 

 

sábado, 31 de dezembro de 2022

ADEUS ANO VELHO. FELIZ ANO NOVO.

Para terminar 2023, a poesia de Affonso Romano de Sant’Anna (1937).

VAI, ANO VELHO

 

Vai, ano velho, vai de vez

vai com tuas dívidas

e dúvidas, vai, dobra a ex-

quina da sorte, e no trinta e um,

à meia-noite, esgota o copo

e a culpa do que nem lembro

e me cravou entre janeiro e

dezembro.

 

Vai, leva tudo: destroços,

ossos, fotos de presidentes,

beijos de atrizes, enchentes,

secas, suspiros, jornais.

Vade retrum, pra trás,

leva para a escuridão

que me assaltou o carro,

a casa e o coração.

Não quero te ver mais,

só daqui a anos, nos anais,

nas fotos do nunca mais.



Vem, Ano Novo, vem veloz,

vem em quadrigas, alagadas, antigas,

ou jatos de luz moderna, vem,

paira, desce, habita em nós,

vem com cavalhadas, folias, reisados,

fitas multicores, rebecas,

vem com uva e mel e desperta

em nosso corpo a alegria,

escancara a alma, a poesia,

e, por um instante, estanca

o verso real, perverso

e sacia em nós a fome

                                  — de utopia.

 

Vem na areia da ampulheta como a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casa da ostra
como se
se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como ovo
o Sol a gema do Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

 

Adeus, tristeza: a vida

é uma caixa chinesa

de onde brota a manhã.

Agora

é recomeçar.

a utopia é urgente.

Entre flores de urânio

é permitido sonhar.




sexta-feira, 30 de dezembro de 2022

PELÉ PARA SEMPRE

Nascer em 1945 foi muito bom sob todos os aspectos. Um deles foi o privilégio de assistir ao surgimento de uma estrela: PELÉ. Lembro-me muito bem da tarde de domingo em 1958 em que a seleção brasileira ganhou a Copa do Mundo e a Taça Jules Rimet na Suécia: 29 de junho. E depois das tardes de muitos outros domingos vendo pela TV (ainda incipiente em preto e branco) o garoto a brilhar com a camisa do Santos Futebol Clube. Ninguém o superou... O rei se despediu. Edson Arantes do Nascimento – 1940-2022. PELÉ para sempre.






quinta-feira, 29 de dezembro de 2022

A PAULICEIA DE GUILHERME DE ALMEIDA

É uma experiência muito reveladora ler crônicas antigas sobre lugares e cenários, que percorremos e vemos no dia a dia, para descobrir a transitoriedade de tudo – o que ontem foi ruim, hoje pode ser maravilhoso. Ou vice-versa. Quando lamentamos a sorte choramingando sobre problemas cotidianos, como os buracos nas ruas, a falta de pontualidade dos transportes públicos, a poluição sonora, o mau comportamento das pessoas, achamos que tudo isso é coisa destes tempos... Enfim, lendo as crônicas de Urbano, publicadas de 1927 a 1928 no jornal paulistano Diário Nacional, parece que, se o cenário da Pauliceia mudou muito em cem anos, muitos problemas continuam ampliados ou com acréscimo de outros.

Urbano estreou a coluna em 14 de julho de 1927, com uma constatação verdadeira: “A cousa complicada que é uma cidade qualquer!” E outra, falsa. “A cousa complicadíssima que é uma grande cidade moderna!” Bom, na Antiguidade (II d. C.), Roma já era uma cidade complicadíssima com uma população surpreendente para época: um milhão de habitantes, enquanto São Paulo em 1930 tinha novecentos mil moradores. E Urbano, com bom humor, vai dando ao leitor uma visão muito pessoal de São Paulo na década de vinte, quando circulavam pelas ruas estreitas bondes, ônibus, táxis e, naturalmente, os pedestres. Frequentemente em completa desavença. Eventualmente, ele respondia às cartas de leitores (verdadeiros ou não). “Bem-aventurados os que reclamam porque... Porque fornecem ao cronista entediado, nesses dias mornos de noroeste e bocejos, o assunto, o bendito assunto que a imaginação avara lhe recusa.”

Indignado, ele fala dos cavalheiros que se atrevem a andar pelas calçadas carregando grandes volumes, o que é um problema “porque transitar em S. Paulo, por essas ruas de estreitos passeios e largo movimento, é, hoje em dia, uma verdadeira corrida de obstáculos.” E Urbano não podia imaginar que a situação iria piorar muito.

Um leitor ruim de gramática se queixa do abandono de ruas do Bom Retiro “todas edificadas de um lado aoutro a mais de 40 anos e até hoje abandonadas”. O tal “leitor assíduo”, como assina a missiva, termina com um “Grátis pela publicação”. Outros reclamam contra um ladrão contumaz nas alamedas ao longo da avenida Paulista. Urbano chama o gatuno de ladrão unilateral porque só rouba galinhas e estas, segundo o cronista, já conhecem o gatuno porque não fazem barulho, não reagem e (e aqui Urbano erra feio) não mordem (galinhas bicam, Urbano).

No dia 11 de agosto de 1927, uma deliciosa crônica sobre o primeiro centenário da Faculdade de Direito. “Uma vez... (a dolorosa delícia de lembrar!) uma vez em 1911, o Teatro São José (...) foi alvo da estudantada solta”. Urbano formou-se no Largo de São Francisco e em 1927, esse teatro já não existia...  

E assim, folheando as páginas do livro, vou encontrando referências aos vândalos que destruíam os lampiões de gás, à má sinalização das ruas; ao barulho ensurdecedor das Klaxon (marca da buzina) acionadas por qualquer banalidade, por deliciosas descrições dos passageiros de bondes e ônibus em que Urbano transitava pela cidade...

Quem foi esse Urbano que encanta e diverte até hoje com suas crônicas sobre São Paulo? Urbano era o pseudônimo do poeta, advogado e jornalista Guilherme de Almeida (1890-1969), um dos organizadores da Semana de Arte Moderna (1922). “Pela Cidade”, edição preparada por Frederico Ozanam Pessoa de Barros (Editora Martins Fontes, 2004), reúne as crônicas de Guilherme de Almeida publicadas no Diário Nacional e “Meu Roteiro Sentimental da Cidade de São Paulo”. Graças a ele percorri a cidade antiga durante o período de isolamento da pandemia em 2020.

Escritório de Guilherme de Almeida (Casa GUILHERME DE ALMEIDA). Foto: 2019.

CASA GUILHERME DE ALMEIDA: Rua Macapá, 187, Sumaré.

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

A MORTE DOS POBRES

Os cabelos desgrenhados e a barba longa, sujos como as roupas, mal deixam ver o rosto inchado e os olhos vermelhos. Difícil avaliar a idade dele. Vinte ou sessenta anos. Ele é alcoólatra. Vive na rua. Provavelmente, nas imediações. Por aqui apareceu após a pandemia e se instalou na calçada do outro lado da padaria, pois em frente à casa de pães há carros de clientes o dia todo, mas às vezes Robertão (hoje soube o nome dele) se instala junto ao muro da casa vizinha. Quando passo de vez em quando o ouço resmungar; mas já o vi zangado com brincadeiras sem graça de algumas pessoas. Não incomoda ninguém – nem pedestres ou clientes do estabelecimento. Não pede coisa alguma. Nem precisa porque a padaria lhe fornece o café da manhã e o almoço. Hoje me lembrei de perguntar se a padaria tem um programa de atendimento aos necessitados e fui informada de que, embora não tenha, sempre que alguém pede é atendido. Robertão é o único “cliente” fixo.

    Escrevi esta crônica no último dia 15 de outubro, mas não publiquei. No início deste mês Robertão morreu junto à porta da igreja do bairro, provavelmente no meio da noite chuvosa. Sozinho. Lembrei-me dele ao ler este soneto de Charles Baudelaire (1821-1867).


A MORTE DOS POBRES

 

Vivemos pela Morte e só ela é que afaga;

E a única esperança e o mais alto prazer,

Que como um elixir nos transporta e embriaga,

E nos faz caminhar até o anoitecer.

 

E, através da tormenta e da neve e da vaga,

É o vibrante clarão de nosso obscuro ser,

Albergue inscrito em livro e que nunca se apaga,

Feito para jantar e para adormecer.

 

É um anjo que segura em seus dedos magnéticos

O sono e mais o dom dos êxtases mais poéticos,

 Que sempre arruma o leito aos pobres, como aos rotos;

 

Ela é a gloria de deus e a bolsa do mendigo,

É o místico celeiro e mais o lar antigo,

Pórtico que se abriu para os céus mais ignotos. 



CHARLES BAUDELAIRE – “FLORES DO MAL”. Tradução de Pietro Nassetti. Editora Martin Claret.


Obra do pintor mexicano Francisco Goitia (1882-1960).



sexta-feira, 23 de dezembro de 2022

NOITE AZUL DE ORESTES BARBOSA

Nesta seleção de músicas brasileiras com tema natalino, a presença do jornalista e compositor carioca Orestes Barbosa (1893-1966). É dele esta linda “Noite Azul” (Dicionário Cravo Albin e Sociedade Brasileira de Autores Compositores Escritores Música).

https://www.youtube.com/watch?v=vmMx4HSwxWU




quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

"BOAS FESTAS" DE ASSIS VALENTE

“Eu pensei que todo mundo fosse filho de Papai Noel” e “felicidade fosse um brinquedo de papel”. Entre tantas músicas natalinas brasileiras, sem dúvida, Assis Valente foi quem conseguiu expressar o lado realista dessa festa de família que se transformou em evento comercial: É assim que ele nos deseja “Boas Festas”, convidando à reflexão.

       O compositor baiano José de ASSIS VALENTE (1911-1958) teve uma vida perturbadora desde a infância, o que o levou várias vezes ao limite até que em 1958 terminou tragicamente num banco de jardim na praia do Russel (Rio de Janeiro). Dívidas levaram-no ao suicídio pouco antes de completar 47 anos. Assis Valente foi um compositor de grande sucesso – entre 1933 e 1940 teve 25 sambas e marchas de sua autoria gravados por Carmen Miranda. Uma delas foi “Camisa listrada”.




BOAS FESTAS

Anoiteceu
O sino gemeu
E a gente ficou
Feliz a rezar

Papai Noel
Vê se você tem
A felicidade
Pra você me dar

Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel

Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem.





terça-feira, 20 de dezembro de 2022

MÚSICA DE NATAL: Händel


Esta música é do compositor alemão naturalizado britânico Georg Friedrich Händel (1685-1759) e o escritor inglês Isaac Watts (1674-1748) colocou a letra, baseada no salmo 98 da Bíblia. A canção “Joy to the world” foi publicada em 1719. Interpretação: John Rutter and the Cambridge Singers.




domingo, 18 de dezembro de 2022

NATAL: UMA SEMANA COM MÚSICA.

Estamos em plena época das festas natalinas e toda festa tem que ter música. Comecemos com “Deck the Hall with Boughs of Holly”*, uma canção de natal britânica tradicional. A melodia é de um cântico galês do século XVI e faz parte de uma canção de inverno. A letra em inglês foi escrita em 1862 por Thomas Oliphant, músico escocês. 



   



CARTÃO DE NATAL DE LUIZ GONZAGA

A contribuição de Luiz Gonzaga (1912-1989) para a música popular brasileira é inestimável. Em 1947 gravou “Asa Branca”, uma das belas músicas do cancioneiro nacional. A composição dele em parceria com Humberto Teixeira (1915-1979) ainda é uma das mais tocadas nas festas juninas. Menos conhecida é “Cartão de Natal”, música que ele gravou em 1954. 



Ouvindo os sinos de DeusRepicando na matrizPara você e os seusPeço um Natal bem feliz
Blem-blemBlem-blemBlem-blem
Um ano novo afortunadoVenturoso e abençoadoTão ditosa oração no alémSeja ouvida por DeusE que os anjos digam: Amém
Blem-blemBlem-blemBlem-blem
https://www.youtube.com/watch?v=mLzlLRnRsus 




sábado, 17 de dezembro de 2022

NATAL NO LARGO DE S. FRANCISCO

O CONCERTO DE NATAL, no Largo de São Francisco no início da noite de sexta-feira, 16, pode não ter sido um êxito de público – compreensível dadas as condições do Centro Histórico, mas a pequena plateia apreciou cada minuto do espetáculo proporcionado pelos corais USP XI de Agosto e 12 em Ponto da sacada da Sala São Leopoldo da Faculdade de Direito, sob a regência do maestro Eduardo Fernandes. O público foi chegando aos poucos. Pessoas de todas as idades: lá estavam o casal de namorados, o ciclista, o morador de rua descalço, o guarda municipal de olho no ambiente e ouvido atento à música, um tímido Papai Noel, o garoto indiscreto em sua nudez olhando sobre o ombro da mocinha distraída aos seus pés; nos pontos de ônibus, passageiros à espera do coletivo e, num desses acasos da vida, até o ônibus 5362-10, enfeitado para a época, estava lá. O evento foi parte deda programação de final de ano em conjunto com a prefeitura de São Paulo e que se estenderá até o dia 23 próximo em diversos lugares do Centro Histórico.