quarta-feira, 24 de maio de 2023

FESTIVAL DE CAFÉ

Quarta-feira. “É de manhã, vem o sol” (gosto muito dessa canção) e a rua lá fora chama. Às 10h já estou no ponto esperando condução e, para minha alegria, chega primeiro o trólebus. (Adoro esse veículo que trafega com tranquilidade e me lembra os velhos bondes, afinal têm os movimentos limitados pelos cabos ligados aos fios de energia elétrica.) Embarco e busco o banquinho solitário que me deixa de costas para o motorista. O cobrador retribui o bom dia e pergunta como estou, ele está animado porque já é quarta-feira e o fim de semana está próximo. Vai folgar sábado e começará a semana trabalhando. Que bom!

A cada ponto vão subindo novos passageiros. Não vi quando os garotos subiram. Só os vi quando o mais velho perguntou se o ônibus virava “pra lá”. Não sabia o nome da rua. Mais adiante, ele torna a perguntar. Cobrador e motorista tentam ajudar. São duas crianças e estão de frente para mim. O mais novo curte a viagem. Estão limpos, com roupas simples e bonitinhas. Enfim, o ônibus vira “pra lá” e ele quer descer. O motorista diz que só para no ponto. Quando a porta abre, o mais velho sai rapidamente sem se importar com o mais novo que se apressa. De onde estou vejo os dois atravessando a rua correndo por trás do trólebus para alcançarem outro ônibus que ia em sentido contrário. Ou seja, voltavam. Fico imaginando se tinham tirado a manhã para passear. O cobrador diz que um deve ter uns nove anos e o outro, uns cinco. “Enfim, um com pouco juízo e outro sem nenhum – digo, inconformada com ausência de responsáveis.” O cobrador acha que é proibido transportar menores desacompanhados. O motorista acha melhor tirá-los da rua...Segue-se um debate.

No pátio do Colégio, a novidade é uma xícara gigantesca pintada pelo artista Max Martinez e faz parte do Festival de Café no Triângulo, promovido pela Prefeitura em conjunto com comerciantes. Este ano são 35 participantes. Graças ao evento, que também levou vários músicos para as ruas da região, o Triângulo estava bastante movimentado depois de três anos de desânimo. Escolhi o Centro Cultural Branco do Brasil – para tomar um café e saí decepcionada.

Hora de voltar. 


               Obra de Max Martinez, que deve ser canhoto, pois o outro lado está em branco.


Criação de D. Nascimento.


O cantor (no palco atrás da xícara de Ikeda) cantava um forró  gostoso. Beethoven verde de inveja ou vermelho de raiva? Nem pensar. Ele nem ouvia.


Na praça Antônio Prado, a moça cantava bonito junto ao quiosque que está em reforma.


(O Triângulo é formado pelas Ruas Boa Vista, Líbero Badaró e Direita.)

quinta-feira, 18 de maio de 2023

ANDANDO SEM DESTINO

 

O outono é uma estação muito agradável – nem muito calor nem muito frio – ideal para caminhar, ver pessoas, descobrir novidades e observar como se encontram as mais coisas mais antigas. No bairro, um novo mercadinho que, no primeiro dia, atraiu moradores entusiasmados (por pouco tempo) com mais essa facilidade. Difícil mesmo são os preços. O que me preocupa é não lembrar o que havia antes naquele espaço. Enquanto matuto, vejo que a casa argentina de lanches, além de alfajores, agora oferece tango ao vivo uma vez por semana.  

Praça Jorge Cury,

Terça é dia de feira, dia de comer pastel e
tomar água de coco, observando a freguesia passar apressada para as compras. (Acho que há mais pombos do que gente na feira.) Nesses quase quarenta anos vivendo na Vila Mariana, garanto que a feira encolheu muito à medida que muitas casas foram substituídas por enormes condomínios. Nessa destruição da história do bairro foi também a casa de saúde indígena. O fechamento da garagem de ônibus da antiga Companhia Municipal de Transportes Coletivos (CMTC) contribuiu para a diminuição das barracas. No lugar da garagem, foi implantada a praça Rosa Alves da Silva que, pouco antes da pandemia, passou por requalificação, e já teve até um campo de rúgbi. Lembro que há tempos fiquei curiosa com uma placa em uma casa: Bukan School of Krav Magá – Unidade Aclimação. Afinal, descobri que se trata de uma escola de defesa pessoal, criada e dirigida por um professor israelense.

Por falar em praça, o bairro tem algumas bem diferentes: como a Jorge Cury (será o jogador do Santos Futebol Clube e político paulista?) em frente ao Parque da Aclimação, com suas escadarias que levam à Rua. Outra praça de referência é a Alex Freua Neto, que eu sempre achei que era Lyons até que recentemente vi a placa. A mais famosa, entretanto, é a General Polidoro, que é pequena e funciona como rotatória para o trânsito que é bem intenso nas redondezas. O general fica no meio de um lago seco (era um espelho d’água) e se tornou grande amigo dos cães desde que os moradores da redondeza passaram a levar seus animais para passear na praça, que é cercada e bem agradável. Felizmente, vivemos em um bairro de pessoas inteligentes e ninguém reclama da nudez de Polidoro.

Praça General Polidoro.

Lembro que há tempos fiquei curiosa com uma placa em uma casa: Bukan School of Krav Magá – Unidade Aclimação. Afinal, descobri que se trata de uma escola de defesa pessoal, criada e dirigida por um professor israelense.

A ciclovia implantada durante a pandemia continua às moscas. Raros ciclistas são vistos pedalando sobre essa nesga vermelha no asfalto. Muitas vezes cruzamos com eles nas calçadas.

sábado, 13 de maio de 2023

GOETHE E AS CORES




“De tudo que faço como poeta, não tenho a menor vaidade. Bons poetas viveram ao mesmo tempo em que eu, outros melhores ainda antes de mim, outros virão mais tarde. Mas que no meu século eu seja o único que conheça a difícil ciência das cores disso me vanglorio um pouco, e é por isso que tenho o sentimento de uma certa superioridade.”  



Johann Wolfgang Goethe (1749-1832) é o autor de "Um esboço da Teoria das Cores" – 1810. De acordo com o professor e pesquisador Israel Pedrosa (1916-2016), “os princípios levantados pela ‘Teoria das Cores’ – em que pese seus conhecidos equívocos – são as bases das artes visuais do século XX” (“Da cor à cor inexistente”. Editora Senac/SP). Goethe era formado em direito e estudou ciências naturais; o interesse pelas cores começou ainda na juventude, quando começou a desenhar e a pintar. Foi como escritor, dramaturgo e poeta que se destacou, sendo o iniciador do romantismo na Alemanha.

Crítico

Eis que me veio uma visita
do tipo (achei) que não me irrita.
O meu jantar não era chique,
mas ele comeu tanto ali que
não sobrou nada em casa e, quando
parou, já quase arrebentando,
o demo o fez sair só para
cuspir no prato em que jantara:
“A sopa estava um arremedo;
a carne, crua; o vinho, azedo.”
Que morra paralítico!
Com mil demônios! Era um crítico!

Johann Wolfgang von Goethe. “Da Atualidade de Goethe”. Tradução de Haroldo de Campos. In:_____. “O arco-íris branco”. Rio de Janeiro: Imago 1997

Ilustração: Goethe, retratado por Gerhard von Külgelgen em 1809.





sexta-feira, 12 de maio de 2023

VAN GOGH

 

“No momento, meu espírito está inteiramente tomado pelas leis das cores. Ah! se elas nos tivessem sido ensinadas em nossa juventude!” Van Gogh.

"A noite estrelada", 1889.

Campo de trigo com corvos, 1890.


quarta-feira, 10 de maio de 2023

PABLO PICASSO

 

“Em realidade, trabalha-se com poucas cores. O que ilude seu número é terem sido colocadas no lugar justo.” Pablo Picasso.


"Três músicos".

"A dança".

PAUL KLEE

“A cor apoderou-se de mim: não tenho mais necessidade de persegui-la. Sei que ela me tomou para sempre. Tal é o significado deste momento abençoado. A cor e eu somos um só. Sou pintor.” Paul Klee 

A vida de Paul Klee (1879-1940) daria um belo romance, se é que já não o escreveram. Filho de pais alemães – ele músico e ela cantora, Paul nasceu na Suíça e iniciou a vida artística como músico: começou a estudar violino e aos doze anos já tocava numa orquestra; desenhava desde criança, preenchendo cadernos e mais cadernos com seus desenhos. Gostava de poesia e, embora reconhecesse que não era a sua melhor qualidade, escreveu poesias durante toda a vida. Entre tantos talentos a pintura predominou e ao morrer deixou dez mil obras de arte. Ele sofreu influencias do expressionismo, cubismo, surrealismo; foi um dos pioneiros do abstracionismo e explorou profundamente a teoria das cores sobre a qual escreveu. Paul Klee foi principais mestres da Bahaus, fechada em 1933 pelos nazistas, mesmo ano em que ele perdeu o emprego na Academia de Düsseldorf, onde lecionava e logo depois partia para a Suíça.  Ele teve dezessete obras classificadas como “arte degenerada” pelos nazistas.

            Klee morreu de esclerodermia, uma doença autoimune, que causa alterações na pele, músculos e órgãos internos, sem ter conseguido  a cidadania suíça, apesar de ter nascido no país, o que lhe foi concedida três a sua morte.

"Mesmo se você não tivesse me contado que ele toca violino, eu teria adivinhado isto em várias ocasiões em que seus desenhos eram transcrições da música." Poeta e romancista austríaco Rainer Maria Rilke. Em 1938 fábrica de pianos Steinway criou uma série de 500 pianos em homenagem a Paul Klee por ele ter reunido a a
rte visual à musical.

"Um motivo de Hamamet;"  Têmpera (1914).

"Aventura de uma jovem."  Aquarela (1921).

domingo, 7 de maio de 2023

RECUPERAÇÃO DA PRAÇA DA SÉ

Nas minhas andanças pela cidade, não deixei de passar pela Praça da Sé nos últimos anos, quando foi se tornou o cenário triste e lamentável da sociedade em que vivemos. Uma multidão de pessoas ocupou a praça: moradores de rua, usuários e dependentes de drogas, desempregados, doentes e desocupados. O lugar perfeito para ladrões e receptadores agirem. Homens e mulheres, jovens e velhos. Não era fácil ou agradável entrar no metrô. Os lugares preferidos para aglomerações eram na parte superior da entrada da estação e ao lado das escadas rolantes. As escadarias da catedral também eram ocupadas. 

            No restante do espaço, eles dormiam ou ficavam jogados, sem esperança. Era possível observar que havia quem tentasse manter a autoestima, lavando as roupas que estendiam nas grades dos jardins aproveitando o sol. Quantas vezes passei por lá na hora em que os funcionários da prefeitura chegavam para a limpeza, quando as pessoas eram encaminhadas para o lado da praça em frente à Caixa para que o trabalho pudesse ser realizado.

Havia também uma pequena feira – gente em rodinhas conversando, alguns tentando vender coisas que espalhavam pela calçada. Era a “feira de rolo” em que o pessoal vendia objetos de procedência duvidosa (roubo). No ano passado, numa operação da Guarda Civil Metropolitana foram apreendidos celulares, máquinas caça-níquel (?), entorpecentes e R$ 7.607,00 em espécie. Nos dois primeiros meses de 2023, foram registrados mais de 950 roubos pelo 1º Distrito Policia, um aumento de 63% em relação ao mesmo período do ano passado.  

            O que ocorria na superfície da praça tinha sérias consequências no subsolo: a saída da estação do metrô de acesso ao Poupatempo ficou irrespirável porque a fonte, que enfeita o corredor com uma cortina de água corrente, estava sendo usada como banheiro. O cheiro já era insuportável antes da pandemia e em 2022, quando voltei por lá, preferi passar pela parte externa.

Pior mesmo é ouvir os comentários de passageiros de ônibus que transitam no entorno da praça. Comentários infelizes, permeados todo tipo de preconceitos. A situação dessa multidão é angustiante. Não tenho ideia qual seja a solução para o problema que é gigantesco e inclui vários setores da administração pública – desde o combate ao tráfico de drogas, questões de saúde pública e o atendimento das pessoas sem-teto, desempregadas e doentes.

Este mês as autoridades iniciaram a remoção de praticamente todas as pessoas – ficaram bem poucas. A praça passou por uma limpeza rigorosa, foram instalados canteiros de obras divididos por cercas para que os operários trabalhem sem a interferência de pedestres. Essas obras incluem limpeza dos jardins, recuperação do pavimento, troca de luminárias. A ação da prefeitura se estenderá pelo Triângulo, abrangendo 23 ruas.

Importante é que a ação social se estenda às outras regiões da cidade que enfrentam o mesmo problema. 







Moradores de rua, desempregados e dependentes de droga dividem suas tragédias 
e tristezas no mesmo espaço.


Visitantes voltaram e admiram o entorno.

A Praça ganhou uma limpeza profunda, o piso está sendo refeito e a iluminação trocada.

Muitas pessoas ainda continuam vivendo por lá. Vivendo?


Quinta-feira, 4 de maio de 2023, ao entardecer.



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sábado, 6 de maio de 2023

COVID19 EM MOMENTO DE TRANSIÇÃO

A Organização Mundial da Saúde, OMS, declarou nesta sexta-feira, 5 de maio, que o Covid-19 não constitui mais uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. “O momento é de transição do modo de emergência para o gerenciamento da Covid-19 ao lado de outras doenças infecciosas.” A doença estava sob o mais alto nível de alerta desde janeiro de 2020 e o fim da Emergência Internacional só foi alcançado por causa da dedicação de profissionais de saúde, pesquisadores, cidadãos, governantes (nem todos) e todo o corpo técnico da OMS.

A decisão tomada pelo Comitê de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional e acatada pelo diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, foi baseada na tendência decrescente nas mortes pela pandemia e o declínio nas hospitalizações e internações em unidades de terapia intensiva. Os altos níveis de imunidade da população ao vírus causador da doença também foram levados em conta.” Tedros Ghebreyesus ressaltou que, no entanto, o Covid-19 não deixou de ser uma ameaça global à saúde, pois o vírus chegou para ficar e continua matando – na semana passada, o vírus matou uma pessoa a cada três minutos. “Milhares de pacientes seguem lutando contra a morte em unidades de terapia intensiva” e milhões continuam a viver com os efeitos debilitantes da condição pós-Covid-19.

Os dados da OMD indicam que sete milhões pessoas morreram de COVID19, mas que os números reais podem ser de pelo menos 20 milhões, de acordo com o diretor-geral da OMS. Ghebreyesus ressaltou que a pandemia foi “muito mais que uma crise sanitária”: ela causou “graves convulsões econômicas, interrompendo viagens e comércio, fechando empresas e mergulhando milhões na pobreza. Ela expôs as desigualdades gritante do mundo, com as comunidades mais pobres e vulneráveis sendo as mais atingidas e as últimas a receber acesso a vacinas e outros recursos. (Fonte: ONU NEWS.)


Os primeiros avisos de alerta: março de 2020. (SP).

As máscaras tentando dar ânimo às pessoas.

                                     Metrô de São Paulo durante a pandemia, 2020.


Vale do Anhangabaú, 2020.



quinta-feira, 4 de maio de 2023

VILA ITORORÓ. APROVEITEM.

 

Fui ao Itororó beber água e não achei” diz a cantiga de roda. Em São Paulo não achará mesmo o riacho que leva esse nome. Ele foi canalizado durante a expansão da cidade, assim como outros ribeirões e córregos.  A nascente do Itororó fica nas escarpas da avenida Vinte e Três de Maio, nas proximidades da rua Maestro Cardim, onde se localiza o Hospital da Beneficência Portuguesa. O lugar era conhecido como Vale do Itororó, ligado ao ribeirão Anhangabaú; mas em meados do século XIX, já poluíamos nossas águas: o córrego do Itororó recebia as águas usadas do antigo matadouro de São Paulo e por isso era conhecido como córrego da Limpeza.

            Da época em que o riacho corria a céu aberto resta uma lembrança que se esgarça com o passar do tempo e que a prefeitura vem resgatando lentamente. Trata-se da Vila Itororó. Definir essa Vila, construída na década de 1920 é bem difícil, ainda mais porque os imóveis principais estão quase em ruínas. O empreiteiro e comerciante Francisco de Castro, filho de portugueses, parece ter sido o autor do “projeto”. A característica marcante do prédio principal, um palacete de três andares da rua Maestro Cardim, é a falta de estilo. Colunas com capitéis gregos e modestas cariátides fazem parte do exótico edifício que domina a vila, situada entre as ruas Maestro Cardim (entrada), Monsenhor Passaláqua e Martiniano de Carvalho, na Bela Vista. No princípio, a área de 6 mil metros quadrados tinha 37 casas – a maioria das quais se diluiu no tempo. Nos anos 1940 a área foi invadida e a reintegração só ocorreu décadas depois. Agora, conta com dez edificações – algumas já foram restauradas e dão vida ao Centro Cultural que a Prefeitura reativou em 2019. O que chama atenção nesse espaço é a piscina – a primeira de São Paulo.

            A Vila é tombada desde 2002 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e desde 2005 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Arquitetônico. A restauração começou em 2013. O Centro promove feiras gastronômicas e de artesanato, shows; e várias oficinas de dança de salão, crochê, sobre meio ambiente e sustentabilidade entre muitas outras. Funcionamento: de terça a domingo das 10h às 19h. Entrada gratuita. Estação São Joaquim do Metro, Linha Azul. 

https://vilaitororo.prefeitura.sp.gov.br/programacao/oficinas/









sábado, 29 de abril de 2023

DIA MUNDIAL DA DANÇA

Hoje é sábado. Um sábado perfeito para ver ou rever “Embalos de sábado à noite”, filme de 1977 com John Travolta (1954), afinal hoje é Dia Mundial da Dança. O filme fez um grande sucesso e Travolta virou um astro internacional. Melhor ainda: ir a um dos bons bailes que há em São Paulo.

Grandes pintores celebraram a dança em suas obras: Heitor dos Prazeres (1898-1966), Degas Edgard Degas (1834/1917), Toulouse-Lautrec (1864-1901), Fernando Botero (1932) e Pablo Picasso (1881-1973).

“A linguagem corporal é a forma de comunicação mais instintiva da Humanidade”, escreveu a coreógrafa chinesa Yang Liping. Lançada em 1989, a data homenageia Jean-Georges Noverre (1727-1810), considerado o fundador do ballet moderno, que nasceu em 29 de abril. Para Klauss a dança “deixa de ser uma profissão, uma diversão, uma ginástica, deixa até de ser uma arte no sentido mais e restrito do termo, para ser entendida e vivida como um caminho de autoconhecimento, de comunhão com o mundo e de expressão do mundo”.



https://www.youtube.com/watch?v=tyJDYTG5leQ 


Heitor dos Prazeres.

Fernando Botero.

Edgar Degas. 

Pablo Picasso.

Toulouse-Lautrec. 


sexta-feira, 28 de abril de 2023

JORNADA CULTURAL REALEJO


Abril chega ao fim com um fim de semana prolongado. Programa para quem vai a Santos ou não planeja vir ao Planalto. 



 

quarta-feira, 26 de abril de 2023

ADEUS A HARRY BELAFONTE

Morreu Harry Belafonte (1927-2023), um novaiorquino que foi muito mais que um cantor e ator de grande sucesso: teve importante ativista pelos direitos civis. Ele usou o seu carisma e sua influência para mobilizar e arrecadar fundos para o movimento. Amigo e apoiador do reverendo Martin Luther King Jr., atraiu celebridades para a Marcha da Liberdade em Washington em 1963, quando King proferiu seu histórico discurso "Eu tenho um sonho" e participou da marcha de Selma a Montgomery, no Alabama; idealizou a gravação da música “We Are The World” para levantar fundos para combater a fome e doenças na África e que foi entoada por um coral formado pelas principais celebridades de 1985 entre os quais Bob Dylan, Michael Jackson, Lionel Ritchie, Tina Turner, Kenny Rogers e Bruce Springsteen. O single, o álbum e o videoclipe renderam 55 milhões de dólares.

A imprensa dedicou-lhe várias e merecidas páginas nesta quarta-feira, reconhecendo o importante trabalho que ele desenvolveu paralelamente à carreira artística, muitas vezes pondo em risco a própria segurança. Harry Belafonte foi, reconhecidamente, um rebelde. Respondendo à pergunta “Onde mora o coração rebelde?” ele disse:

 “Sem o coração rebelde, sem as pessoas que entendem que não há sacrifício que possamos fazer que seja grande demais para recuperar o que perdemos, estaremos para sempre distraídos com posses, bugigangas e títulos.”  

Filho de família pobre de origem jamaicana, Belafonte lutou na II Guerra, na volta apaixonou-se por o teatro para pagar os estudos cantava em night clubs. O sucesso como cantor aconteceu em 1956 quando seu álbum Calypso vendeu mais de um milhão de cópias, algo inédito. Ele fez teatro, televisão e cinema – ganhou um prêmio Tony por seu trabalho na Broadway. Foi embaixador da Boa Vontade da UNICEF.

Em 2013, ele recebeu a maior honraria da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), a Medalha Spingarn, o Kennedy Center Honor em 1989, a National Medal of Arts em 1994 e o Grammy Lifetime Achievement Award em 2000. 

Entre tantas músicas que ele gravou, escolhi “Matilda”.



https://www.youtube.com/watch?v=jBd0YqO_-2I

sábado, 22 de abril de 2023

VIDA DE REPÓRTER

Para quem não é do ramo, foca é todo jornalista no início da profissão. Comecei a estagiar em abril de 1970, quando ainda cursava o quarto ano da faculdade. Tudo novidade. Na redação, havia vários colegas da faculdade e alguns conhecia de vista desde os tempos do colégio Canadá, como Tomás de Aquino, que devia estar com uns 23 anos e já se destacava no jornalismo.  Na época, havia uma pedreira no bairro do Marapé que causava grandes transtornos para a vizinhança e, vira e mexe, os moradores iam até o jornal reclamar, pedindo que as autoridades tomassem providências contra a empresa extratora de pedras. 

Foi por isso que a secretaria de saúde informou ao jornal que em tal dia faria uma operação surpresa e eventual interdição da pedreira caso a empresa estivesse infringindo a lei. Não sei o motivo que levou a chefia a escalar uma foca para cobrir o evento. Talvez os experientes estivessem ocupados com coisas muito mais importantes. O fato é que me deram todas as orientações possíveis e avisaram que, eu e o fotógrafo, só deveríamos aparecer quando a fiscalização chegasse. Em outras palavras: deveríamos ficar na moita até a hora H. Fomos cedinho para o local e abandonados nas imediações da pedreira. E assim passaram-se os minutos e as horas, e a manhã chegou ao fim sem que ninguém da Secretaria de Saúde se materializasse. Na pedreira, o trabalho seguia o ritmo, como pudemos constatar a cada explosão, seguida de nuvens de poeira. Meu horário de trabalho era de 8 às 13 horas. O repórter fotográfico já estava irritado, queria ir embora; munida de uma ficha telefônica, fui procurar um telefone para ligar para o jornal. Atendeu Tomás de Aquino. Expliquei a situação e concluí, como boa foca, que meu horário de saída era às 13 horas. Ele era um gentleman. “Hilda, jornalista não tem hora para sair, mas se você quiser mesmo vir embora eu envio um carro e um jornalista para o local.” Uma lição inesquecível dada com toda classe.

Lembre-me dessa história porque hoje é dia de Tiradentes. Ainda cursava o colegial no colégio Canadá, quando assisti no anfiteatro do colégio a uma montagem do julgamento de Tiradentes feita pelos estudantes. Tomás de Aquino fazia o papel de advogado do inconfidente e, observando seu desempenho, imaginei que ele faria Direito. Foi uma surpresa encontrá-lo no jornal, onde já se destacava. Inteligente, bonito e elegante, dirigia um jipe descoberto. Faleceu no mesmo ano num acidente automobilístico em Guarujá.

    Por falar em pedreira... Eu já não era foca. Estava trabalhando um sábado à noite cobrindo folga ou férias de algum colega. A reportagem geral é bem abrangente, pode até incluir um show, normalmente atribuição do pessoal de Variedades, ou um crime, setor da equipe de polícia. Naquele sábado, entre várias outras coisas, eu tinha que ir conferir uma assembleia do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas de Santos, cuja sede era na Vila Mathias, numa região repleta de hotéis de “curta permanência”, botecos e casas, por assim dizer, suspeitas, embora todo mundo soubesse o que acontecia por lá. Quanto a isso nenhum problema porque o jornal ficava nas imediações da velha “boca do lixo” de Santos. Minha missão naquela noite era conversar com o presidente da entidade sobre as reivindicações e combinar para pegar no dia seguinte o resultado assembleia e seguir com o fotógrafo para a próxima reportagem.

O sindicato funcionava num sobrado – subi as escadas, localizei o salão, abri a porta e lá estavam dezenas de trabalhadores esperando sentados que a reunião começasse. A mesa que conduziria os trabalhos ficava de frente para a porta e, ao me ver, um dos líderes gritou indignado:

– A senhora queira se retirar imediatamente! Esta é uma casa de respeito!

Todas as cabeças se viraram para ver a indigna senhora que ousara invadir o local. Suspirei fundo e respondi que eu era jornalista e estava ali por causa da assembleia. Risadas da plateia e constrangimento do presidente que tratou de se desculpar e me deu toda atenção tentando remediar a situação.

A NOITE DAS VAIAS

O jornal planejara um caderno especial sobre a história do Carnaval de Santos. Uma equipe de repórteres foi atrás dos diretores dos blocos e escolas de samba mais antigos para entrevistá-los e localizar velhos foliões para narrassem suas aventuras “momísticas”. Isso foi em meados dos anos 1970. Na minha lista, constava o “Agora vai...”, bloco que desfilava apenas uma vez por ano no sábado anterior ao Carnaval. Não gosto de Carnaval. Quando era criança, a rua em que eu morava fazia parte do trajeto dos blocos e minhas tias me levaram algumas vezes para assistir “Dona Dorotéia, vamos furar aquela onda?” – um desfile que acontecia na orla da praia.

Na época da entrevista o “Agora vai...” estava em decadência. O diretor da agremiação marcou a entrevista à noite, na sede da Tricanas de Coimbra, que era num sobrado no centro da cidade, onde aconteciam os ensaios. Como sempre os repórteres dividiam a viatura do jornal e nessa ocasião estávamos eu, o fotógrafo e cronista social. Na porta do sobrado, me identifiquei, mas o leão de chácara me impediu de subir; expliquei que tinha entrevista marcada com a diretoria do bloco. Ele estava irredutível. O cronista social resolveu intervir e, para minha surpresa, teve permissão para entrar. Furiosa, aguardei o retorno dele e fui autorizada a subir. Como a maioria dos sobrados, o térreo é um espaço destinado a comércio com uma entrada lateral com a escada de acesso ao piso superior.  No prédio em questão, a escada terminava num amplo salão com as janelas abrindo-se para a rua à esquerda e à direita uma série de portas para os demais cômodos. Assim que pisei no salão fui recepcionada por uma estrondosa vaia dos foliões que só pararam com a gritaria quando uma porta se abriu e uma pessoa aos berros disse que eu era jornalista e ia entrevistá-lo. Artistas, políticos e atletas costumam amargar vaias em suas carreiras, mas jornalistas.? A pessoa era o diretor da agremiação, que me introduziu na sala, pediu desculpas pelo comportamento dos foliões e explicou que o “Agora vai...” se tornara um bloco gay e mulheres não eram admitidas nos ensaios. Na saída, todos se comportaram e ainda ganhei adeusinhos que ignorei solenemente.

De acordo com J. Muniz, colaborador do jornal CIDADE SANTOS, a agremiação teria surgido no antigo Café d’Oeste na Praça José Bonifácio em 1947. A partir de 1952 o bloco incluiu carros alegóricos com críticas e teve seu apogeu em 1958. Naquele ano, estava em completa decadência. Lembro que as mulheres já desfilavam em escolas de samba, mas eram poucas ainda em blocos e ranchos.

"Baco", tela de Caravaggio, 1596.


terça-feira, 18 de abril de 2023

A DIFÍCIL ARTE DE VENDER SEU PEIXE

Todos os dias passam sob minha janela os vendedores de frutas fresquinhas, ovos, pamonha e o padeiro, além do amolador de facas, tesouras e alicates oferecendo seus serviços. O padeiro usa moto e uma buzina azucrinante para vender os pães acomodados em uma caixa gigante, enquanto o amolador usa a tradicional gaita, que não ofende os ouvidos de ninguém. Os demais aparecem de carro e com um sistema de som capaz de levantar defuntos. Pensava eu com meus botões se a publicidade não teria nascido com o comércio, afinal, na feira cuja origem se perde no tempo, quem não grita não vende sua mercadoria.

            Os primeiros anúncios de que me lembro eram transmitidos pelas ondas do rádio, pois cresci ouvindo rádio que ocupava um lugar de destaque na sala. Nas revistas e jornais, havia propagandas em preto e branco, pois publicações em cores eram raras até mesmo em CRUZEIRO, a principal revista brasileira que circulava em casa. Na edição de 13 de janeiro de 1945, que encontrei em um sebo anos atrás, a atriz americana Evelyn Keyes* (quem lembra dela?) recomenda “PAN CAKE MAKE UP BATON TRU-COLOR ROUGE E PÓ em Harmonia de cores, a criação exclusiva da Max Factor em preto e branco”. O anúncio, entretanto, não é colorido.

Sabonetes, cremes, remédios, material de limpeza movimentavam as páginas das publicações. Na mesma edição encontro o tradicional sabonete Lifebuoy, o creme Rugol (‘20, 30 ou 40 primaveras... sempre conquistando corações – graças a Um Só Creme!”), Eno “sal de fructa” entre tantos outros. A velha e boa Guaraná Antárctica... E as canetas tinteiro Parker 51, um sonho de consumo...

         Havia ainda os anúncios da Cera Parquetina – naquela época ainda se encerava a casa que brilhava lindamente, quando se terminava de passar a enceradeira. (A fábrica foi comprada nos anos 1990 pela Reckitt Benckiser e desapareceu do mercado.) O anúncio do Biotônico Fontoura, único remédio que eu gostava de tomar, dizia que “Todo mundo lá em casa tem saúde por isso toma Biotônico Fontoura. Quem não toma Biotônico Fontoura é um só Au Au Au, o tadinho do Totó.” Em casa só eu tomava o biotônico porque era muito magrinha e não gostava de comer. O reforço era a detestável colherada do “óleo de fígado de bacalhau”.

E para terminar o jingle da Auris-Sedina que também era muito bom para os ouvidos dos ouvintes de rádio, pois a intérprete era ninguém menos que Dircinha Batista (1922-1999), considerada patrimônio nacional nos anos 1940.



https://www.youtube.com/watch?v=sVGdHiCOTII

*Evelyn Keyes (1916-2008) fez o papel de irmã da Scarlett O’Hara em “...E o vento levou” entre muitos outros filmes e casamentos.



 










domingo, 16 de abril de 2023

FEIRA DE LIVROS

Sábado chuvoso. A agenda informa que ainda acontece a Feira de Livros da Unesp na Barra Funda – termina amanhã (hoje). Vou cedo porque imagino que o público prefira dormir até mais tarde. O local é em frente à estação do Metrô, mas uma faixa me deixa confusa embora seja enorme. Faltou apenas um item nela – e fundamental: a seta indicando a direção da entrada. O espaço está lotado. Leitores de todos os tipos e tribos. Queria tanto passear entre os estandes tranquilamente para descobrir novos livros e autores, mas entre um empurrão e outro vou abrindo caminho pelas ruas estreitas da feira. Afinal, é uma feira.

Aqui estão os infantis; ali os de autoajuda; acolá uns que me parecem de terror (pelo menos as capas). Lá estão os clássicos – os que não tenho, li e leio emprestados das bibliotecas... Foi então que vi alguns livros de autores japoneses – entre os quais Mishima (1925-1970) – e ao espiar as publicações da editora que, aliás, não conhecia, um título me atraiu: “Afirma Pereira”, do escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), editora Estação Liberdade. (Uma das minhas grandes falhas é sempre esquecer de colocar na mini bolsa os óculos de perto e o jeito é apelar para a boa vontade das pessoas.) Sou atendida por uma pessoa muito bem preparada. Muito mais que um vendedor. Um leitor que vende livros. Ele me introduz à obra de Tabucchi, um professor italiano apaixonado por Portugal, conta a trama do livro escolhido e ainda me fala de outro: “Os últimos três dias de Fernando Pessoa” cujo tema é o encontro do poeta português com seus heterônimos – Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Infelizmente esgotado.

A história de “Afirma Pereira” acontece em Portugal, e o protagonista é o editor da seção cultural de um jornal lisboeta às voltas com um foca contratado para escrever, antecipadamente, obituários de pessoas importantes porque “um bom necrológio não se improvisa”. Corre o ano de 1936 – quando a fina flor da ditadura na Europa está no poder: em Portugal Antônio Salazar há quatro anos; a vizinha Espanha enfrenta a Guerra Civil, enquanto Mussolini (Itália) e Hitler (Alemanha) parecem dominar solidamente seus países. Nesse quadro político, o jornalista novato, entretanto, não se conforma em fechar os olhos à realidade e... Bem, é melhor ler o livro para saber o que acontece. “Afirma Pereira” recebeu o Prêmio Super Campiello, Scanno e Jean Monnet de Literatura Europeia e, em 1995, ganhou uma versão cinematográfica, dirigida por Roberto Faenza (1943), com Marcello Mastroianni no papel de Pereira. Agradeço as informações do leitor que me atendeu e deixo a feira feliz com este novo amigo.



Local da Feira da UNESP: 
Rua Dr. Bento Teobaldo Ferraz, 271, ao lado da Estação Palmeiras - Barra Funda do Metrô.

sábado, 15 de abril de 2023

JORNADA CULTURAL

 Um programa especial em Santos.

Neste sábado o bate-papo será com o jornalista Moacir Assunção, autor de "Os homens que mataram o facínora" sobre Lampião e "Nem heróis nem vilões" sobre a guerra do Paraguai. 

A Livraria REALEJO fica na Av. Mal. Deodoro, 2 - Gonzaga.



sexta-feira, 14 de abril de 2023

DESCULPE, FOI ENGANO!

Sala de espera da clínica. Aguardo com outras pessoas minha vez para um exame ergométrico para fazer atividades físicas. Nada interessante em volta. Uma porta se abre e aparece uma moça de touca, máscara e avental que vem em minha direção, se inclina e, pondo o rosto bem perto do meu, mostra uma folhinha de caderneta e me diz baixinho, toda atenciosa:

– Senhora, fiz uma lista dos hospitais e...

Hospitais? E eu nem fiz o teste? Que eficiência!

– Hospitais? Não preciso de hospital.

Ela “repara” o erro rapidamente:

– Desculpe, pro seu marido.

– Marido? Não tenho marido!

Ela ainda não se convenceu:

– A senhora não é dona Elisa?

– Não, você está enganada.

– Ih! Acho que errei de paciente.

E a atrapalhada sai em busca da dona Elisa.

Bem, pelo menos foi divertido e, logo em seguida, me chamaram. Fui tranquila para a esteira porque pelo menos sabia que já tinham uma lista de hospitais para emergência. 



domingo, 2 de abril de 2023

APRIL LOVE

Pat Boone (1934) é um cantor e ator norte-americano que foi bastante popular em meados do século passado. Tinha uma carinha bonita, uma voz agradável e totalmente olvidável. Lembrei-me dele por causa de uma canção – April Love, tema do filme "Primavera de Amor" (1957) que fez sucesso por aqui. Continua na ativa aos 88 anos.

https://www.youtube.com/watch?v=VGkOLdzW-0E