segunda-feira, 18 de setembro de 2017



FÉRIAS DA COMPANHIA.
Até 10 de outubro.


PRIMAVERA DE MUSEUS

Um bom programa para o início da nova estação: o diretor cultural do Instituto Histórico e Geográfico de São Vicente, Edson Santana do Carmo, fará palestra sobre "A História que os livros não contam". Será dia 21 às 16 horas. Endereço: Rua Frei Gaspar, 280, Centro, São Vicente (SP). 




domingo, 17 de setembro de 2017



Santos, 16 de setembro de 2017. Foi um dia muito especial. Reunião dos ex-funcionários do jornal CIDADE DE SANTOS (1967-1987) no Petit Verdot, a adega gourmet de José Rodrigues, grande jornalista que comandou durante anos a sucursal do Estadão em Santos. Muito bom reencontrar dois pioneiros – Flávio Ribas GAZETINHA e Itamar Miranda para contar histórias do início do jornal há 50 anos. E haja história. 



           Já vou dizendo que não sou saudosista, mas as lembranças são importantes para se ter parâmetros para o presente e para o futuro, para definirmos o que mudar ou o que manter em nossa vida. Hoje faz 30 anos que o jornal CIDADE DE SANTOS fechou e quis escrever alguma coisa no blog sobre o diário. A memória, entretanto, costuma pregar peças e mistura muitas vezes fatos e cria outros que nos surpreendem de forma assustadora ao percebermos que não foi bem assim que as coisas se sucederam. Então, se alguém discordar do que escrevi, não foi por querer, mas talvez um truque da memória. Devo confessar que nos últimos anos enjoei do jornalismo, como marinheiro de Mishima que enjoou do mar, mas de forma alguma me arrependo da escolha que fiz e a experiência no jornal CIDADE DE SANTOS foi fundamental na minha vida pessoal e profissional. Muitos colegas daquelas duas décadas já se despediram e entre eles minha homenagem especial a João Sampaio, Argemiro de Paula, Eduardo Leite, Roberto Peres e Reinaldo Sassi – grandes amigos, profissionais e mentores.Enfim, tudo tem o seu tempo e o do nosso querido diário passou. (Publicado no Facebook, 15 de setembro de 2017.)

HOMENAGEM 

Rubens Fortes ERRE é uma personalidade única na história do jornal. Assinava A TOCA, uma coluna com críticas bem humoradas dos fatos políticos e esportivos do momento. Ia à redação no final da tarde e seu bom humor, sua inteligência ágil sempre surpreendiam até os mais escolados com as peripécias que o tornaram famoso no CIDADE DE SANTOS. Continua afiado como sempre. Uma das vítimas foi Fernando Allende – repórter, cronista social e de automobilismo.  Mantinha em sua mesa um arquivo pessoal guardado a sete chaves. Numa folga, Allende fez uma limpeza geral e quando foi embora a lixeira estava repleta de material velho, inclusive um livro de patologias médicas ilustrado. ERRE recolheu parte dos rejeitos. “Depois, quando ele deixava a gaveta aberta, pastas, relises, livretos voltavam para a gaveta, discretamente” – conta o brincalhão, que observava as reações da vítima. “Dava para perceber quando achava a velharia, olhava, olhava... Sabe quando a pessoa tem a sensação estranha, pô, já não tinha jogado isso fora? Aí rasgava bem rasgado o material que teimava em sair do lixo e descartava. Algumas vezes, guardava de novo, carinhosamente!”. Allende percebeu a brincadeira, quando o office-boy lhe entregou o tal livro de patologias médicas. O que o garoto não esperava foi o palavrão... HELOISA COIMBRA, repórter novata, foi quem conseguiu enfrentar ERRE com muito garbo. Numa festa de fim de ano em que sorteou como amigo secreto o ilustre colunista, deu-lhe um presente inspirado. Teve o trabalho de recortar várias edições da TOCA e colar numa longa tira, formando um rolo de papel higiênico. ERRE jura que guarda até hoje para casos de emergência. 

sexta-feira, 15 de setembro de 2017


PAUTEIROS E PAUTAS

 Repórter vive de pautas de pautas que ele recebe, cria ou que outros sugerem, inclusive o público (leitor, ouvinte e telespectador). Evidentemente, grandes matérias podem simplesmente cair no colo dele.
Assim, o dia do repórter pode ser bom ou mau de acordo com a pauta. Quando comecei no jornal CIDADE DE SANTOS (1967), eu era brindada quase todos os dias com pautas sobre casas de benemerência. Mas logo passei a repórter especial, com missões mais importantes, inclusive uma coluna sobre os bairros da cidade que dava grande visibilidade ao jornal. Subi morros, frequentei favelas, ouvi queixas e reivindicações de todos os tipos da população desafortunada. Recebi pautas de todos os tipos. Entrevistei políticos, artistas, atletas, intelectuais e, principalmente, gente anônima que me deu muito mais prazer do que “celebridades”.
Havia aquelas pautas fatídicas que saltavam da gaveta quando o calendário marcava 1º de Janeiro, Dia das Mães, Finados e Natal.  (O primeiro bebê do ano, a mãe do ano, limpeza dos cemitérios e os velhinhos dos asilos.)
Minha primeira cobertura de enchente foi no Vale do Ribeira, onde a chuva intensa provocara deslizamentos e o fechamento da “rodovia da banana”. Estávamos eu e Mário Taddei, o repórter fotográfico, em uma F-100 que não conseguia chegar ao local em que os motoristas se encontravam atolados. Foi a primeira e única vez em que hesitei, mas só até ouvir Mário resmungar que o jeito era ir andando. Então tirei as sandálias e, com nojo, mergulhei os pés na lama. Depois disso cobri inúmeras enchentes na Zona Noroeste de Santos e em Cubatão – com água na cintura em plena Avenida Nove de Abril ou na Vila Parisi, à margem da rodovia Piaçaguera – Guarujá, acompanhando bombeiros ou o pessoal da Defesa Civil. Ercília Feitosa, grande repórter e amiga, foi parceira dessas matérias aquáticas. O que me aborrecia mais era ouvir as declarações de autoridades sobre a situação que se repetia sempre. Algumas vezes, no final do dia, os socorristas ofereciam um copinho de cachaça para espantar o frio e esquecer as roupas encharcadas. (Acho que foi um bom remédio porque nunca tive sequelas por causa daquelas águas contaminadas.)

ZOOLÓGICO – Os animais tiveram um papel interessante na história do jornal, que era a menina dos olhos de Carlos Caldeira Filho. Caldeira tinha outra paixão: cães pastores alemães. Muitas vezes as chefias tinham que atender requisições de veículo da empresa para levar os pastores para algum concurso canino. As notícias que esperassem. E, claro, um repórter era destacado para cobrir o evento. O diretor do jornal adorava curiós e, pasmem, coberturas especiais para os concursos de cantoria das aves. 
No arquivo, Eduardo Leite e companhia viviam às voltas com pombos que arrulhavam e faziam ninhos junto à janela, o que obrigava a manter os vidros fechados. Na redação a situação era diferente. Havia uma população clandestina que se movimentava à noite, quando as luzes se apagavam, deixando vestígios de sua passagem quando novo dia clareava. Eram os ratos, figuras típicas de casarões antigos. Certo dia (contam-me), um líder sindical da região, conhecido pela falta de caráter, foi ao jornal e, no momento em que ele entrava, um roedor (ignorando as regras sobre tráfego diurno) atravessou o salão calmamente. O repórter gaiato não deixou por menos e foi avisando “Rato na redação!”. A bem da verdade eram dois.  

Enfim, vivemos grandes emoções, como disse uma vez um compositor que não muda de penteado há 50 anos.  

domingo, 10 de setembro de 2017

O BAILE COR-DE-R0SA
Viúvo, D. Pedro I continuava suas conquistas de alcova. Mais uma vez acharam que a solução seria casamento. Felisberto Caldeira Brant, marquês de Barbacena, foi encarregado de encontrar uma esposa para o Imperador. O imperador entregou-lhe três cheques em branco contra os Rothchilds para encontrar uma noiva que “por seu nascimento, formosura, virtudes e instrução venha a fazer a minha felicidade e a do Império”. Se o marquês não conseguisse alguém com as quatro qualidades, ele admitia “alguma diminuição na primeira e na quarta, contanto que a segunda e a terceira sejam constantes” – escreve Paulo Setúbal.
Barbacena gastou a soma de três mil contos de réis! Para se ter uma ideia dessa quantia, na época, comprava-se a melhor casa da Rua do Ouvidor por um conto de réis, segundo Setúbal. Apesar de o Imperador aprovar as contas do marquês, mais tarde esses gastos foram usados para promover a desgraça de Barbacena junto a D. Pedro I.
         As circunstâncias obscuras da morte de D. Leopoldina não ajudaram muito a tarefa. Após receber várias negativas às pretensões do imperador, indicaram ao marquês a sobrinha do Rei da Baviera, D. Amélia Eugênia Napoleona de Leuchtemberg (1812-1873), neta de Josefina de Beauharnais, a mulher de Napoleão Bonaparte. Dizem as más línguas que estava longe de ser o melhor partido para um príncipe, mas foi o melhor que a diplomacia nativa conseguiu.
Finalmente, no dia 16 de outubro de 1829, desembarcou no Rio de Janeiro, a segunda esposa de D. Pedro I. Dois dias depois os salões do Paço de São Cristóvão abriram-se para o “baile cor-de-rosa”. Paulo Setúbal conta (no mesmo livro) que “foi o mais rutilante, o mais famoso da época”.

“D. Amélia, ao chegar ao Rio de Janeiro, trouxera um soberbo vestido cor-de-rosa. Era a cor da sua paixão. E a corte por gentileza, ofereceu à Imperatriz um baile cor-de-rosa. O próprio D. Pedro, por uma galanteria principesca, criara nesse dia a “Ordem da Rosa” cujo lema era Amor e Fidelidade. (A amante Domitila de Castro fora banida da corte assim que o casamento fora acertado.)
Nem é preciso dizer que todos os tecidos cor-de-rosa desapareceram da cidade. “Na Rua do Ouvidor, em frente ao Wallenstein, grandes caleches envidraçadas. Nas oficinas da casa elegante, entre modistas que alinhavam e chuleiam, vai um formigante entra e sai de damas fidalgas.”
Quando os imperadores entram no salão, “a corte inteira vibra. É uma apoteose. Mas aquilo dura um instante. D. Pedro, sem tardar, faz um gesto ao mestre-sala. A música rompe. É a quadrilha! Os pares agitam-se para a velha, a clássica, a queridíssima quadrilha. Tudo a postos! D. Pedro e D. Amélia vão dançar. Os marqueses de Barbacena têm a honra de ser os vis-à-vis dos soberanos. E o mestre-sala, quando as filas cor-de-rosa se estendem ao comprido do salão, grita com entono:
- Atténcion!
Há um relâmpago de silêncio. E o mestre-sala, alto e solene:
- En avant, tous!”
E o baile começou.

O casal teve apenas uma filha: Maria Amélia do Brasil, que nasceu em Paris em 1831.  

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

BAILES BRASILEIROS (I)

Era uma vez um príncipe de 17 anos, bonitinho apesar de ser bochechudo (traço que herdara do pai). Ele era do tipo esportivo. Adorava a vida ao ar livre, mas gostava muito de música e até fazia algumas composições (é verdade que só uma faria sucesso). O príncipe, que tinha o fantástico nome de Pedro de Alcântara Francisco Antônio João Carlos Xavier de Paula Miguel Rafael Joaquim José Gonzaga Pascoal Cipriano Serafim de Bragança e Bourbon (ufa!), era imbatível apenas nas conquistas amorosas. Não ficaria famoso pelo bom gênio. Era temperamental e irascível como a mãe – que, aliás, preferia o filho mais novo, que não primava pelo bom caráter como ela.
D. Pedro e D. Leopoldina, tela de
Simplício Rodrigues de Sá.
Preocupado com o futuro do herdeiro e na esperança de aquietá-lo, o pai decidiu que era tempo de casar o rapaz e garantir a sucessão do reino. Assim, mandou um embaixador percorrer as cortes mais importantes da época em busca de uma princesa para o seu rapaz.  Uma tarefa difícil porque todas as boas casas europeias queriam o melhor (do ponto de vista político, naturalmente) para suas filhas e o obscuro príncipe em questão vivia em terras longínquas e estranhas. Após longas negociações a escolhida foi a arquiduquesa Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda Beatriz de Habsburgo-Lorena, 19 anos, com esmerada educação. Ela era  filha do segundo casamento do imperador Francisco I, da Áustria.
Paulo Setúbal conta no livro As Maluquices do Imperador (SP. Saraiva Livreiros Editores. 1926) que D. João determinou que o Marquês de Marialva, Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho (1775-1823), embaixador português em Paris, fosse a Viena tratar das núpcias com as pompas adequadas à casa imperial austríaca.
O marquês de Marialva não se limitou a “gastar as grossas ordens que vieram de D. João”. Ele dissipou em um baile em honra da princesa toda a herança que herdara do pai! O casamento do príncipe brasileiro, herdeiro do trono de Portugal, do Brasil e Algarves, foi marcado por um baile excêntrico e milionário.
Nesse baile, o embaixador recebeu a toda a corte de Viena. “Às nove horas, ao som do hino, entraram os Imperadores. Vieram com Suas Majestades todos os arquiduques e todas as arquiduquesas. Vieram também o Príncipe Real da Baviera e o Duque de Saxe. Metternich, com o fardão recamado de crachás, compareceu em grande gala. (...) Rompeu o baile a Senhora D. Leopoldina. Sua Alteza dançou uma polonaise com o Senhor Marquês de Marialva. Os monarcas não dançaram. Mas Suas Majestades felicitaram rasgadamente o Embaixador pelo deslumbramento da festa. Aquilo era um conto de fadas!”         


quinta-feira, 7 de setembro de 2017

 INDEPENDÊNCIA OU MORTE

Nos 195 anos da Independência do Brasil, uma homenagem à mulher por trás do trono: Carolina Josefa Leopoldina Francisca Fernanda (1797-1926), a arquiduquesa da Áustria, que atravessou o Atlântico para se casar no Brasil com o príncipe português Pedro de Alcântara. Ela foi mais que esposa. Teve papel político importante e tinha a confiança do segundo homem mais poderoso do Brasil: José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1829). Antes de partir para Santos no dia 13 de agosto de 1822, D. Pedro nomeou Leopoldina chefe do Conselho de Estado e Princesa Regente Interina do Brasil, com poderes legais para governar o país durante a sua ausência. Em setembro em meio a uma crise, Paulo Beregaro partiu do Rio de Janeiro encarregado de entregar três cartas a D. Pedro. Uma delas era de Leopoldina incentivando o marido a dar o passo decisivo para a independência do Brasil. As outras duas eram de José Bonifácio e de Antonio Carlos (1773-1845), que se encontrava em Lisboa. Bregaro encontrou o príncipe no alto do Ipiranga de volta para o Rio. 
. As outras duas eram de José Bonifácio e de Antonio Carlos (1773-1845), que se encontrava em Lisboa. Bregaro saíra do Rio de Janeiro em direção a Santos e encontrou o príncipe no alto do Ipiranga de volta para o Rio.
Leopoldina era inteligente e educada. Tinha 19 anos quando se casou com D. Pedro. O casal sete filhos entre eles D. Maria que foi rainha de Portugal e D. Pedro, o segundo imperador do Brasil. Sempre foi querida pelos brasileiros e se interessou pelas questões da terra. Os historiadores se dividem sobre a causa da morte dela. A versão de violência doméstica cujas únicas testemunhas teriam sido ela, o marido e a amante dele, Maria Domitila de Castro Canto e Melo, foi contrariada em 2012 com a exumação do corpo que não revelou fraturas.
A arqueóloga Valdirene do Carmo Ambiel em seu trabalho de mestrado na Universidade de São Paulo (Museu de Arqueologia e Etnologia), declarou que “Com base em fontes primárias, vimos que a morte dela não foi consequência de uma agressão de Dom Pedro I. Não podemos falar que ela nunca tenha sido agredida, mas podemos garantir que nunca houve ato que levasse a alguma fratura, menos ainda que a pudesse levar à morte”. (Veja, fevereiro, 2013.)
Leopoldina era irmã de Maria Luísa da Áustria (1791-1847), segunda esposa de  Napoleão Bonaparte.  



sexta-feira, 1 de setembro de 2017

BRANCA DE NEVE


          Primeiro foi no livro de histórias dos irmãos Grimm e depois no filme da Disney. A história da Branca de Neve certamente deu encanto à minha infância. Na fase adulta, inevitável a descoberta das múltiplas interpretações que a história permite, especialmente, usando a psicanálise como instrumento. O enredo é simples: a beleza da princesa adolescente desperta a inveja da madrasta e a rainha, que contrata um caçador para matar a enteada. A princesa foge e perde-se na floresta, onde encontra o apoio dos animais e a amizade de um grupo de anões. Eles a protegem até que a rainha a localiza e vai até a cabana onde lhe oferece a maçã envenenada. Branca de Neve cai em sono profundo do qual só despertará tempos quando um príncipe a encontra e, encantado com a sua beleza da moça, a beija.
          Grimm usou a versão comum no século XIX, mas há outras versões na tradição alemã e como sempre a história sofreu várias alterações ao longo do tempo. Walt Disney escolheu “Branca de Neve e os Sete Anões” para fazer o primeiro desenho animado em cores da história do cinema.  O lançamento ocorreu em 21 de dezembro de 1937. Que presente de Natal!
          Enfim, tudo isso para dizer que esta semana assisti a “Branca de Neve”, do diretor espanhol Pablo Berger. Maravilhoso. A fotografia, a música, as duas atrizes, a inserção da história na cultura espanhola, a religião e a magia, a crítica ao mau jornalismo; a visão politicamente (quase) correta para as touradas... Um conto para adultos, sem preconceitos e falsos pudores.

          Um bom filme nos leva a ansiar pela próxima cena, especialmente, se já se conhece a história. Berger nos manipula. Ali, estão a princesa, a madrasta, o caçador, a maçã, o príncipe, beijo e todos aqueles sentimentos ruins que movem a humanidade contra aqueles seres bons, ingênuos e desprotegidos... E a história vai se tornando cada vez mais densa, curiosa e mesmo fantástica. Não faltam nas cenas finais daquele misto do culto ao morto com um toque de necrofilia, que longe de ser chocante abre uma infinidade de interpretações.
O filme me remeteu a muitas outras obras – desde o original de Grimm até cenas da “Carmen”, de Saura (“las manos como palomas”, dizia a mestra), de Luis Buñuel (A Bela da Tarde), de “O encontro marcado”, de Fernando Sabino (a ave de estimação servida para a criança), passando pela crítica ao mau jornalismo que aciona a tragédia e por aí vai. E não poderia terminar de forma mais fascinante: só uma lágrima e que daria um tratado sobre os possíveis significados.
Detalhe: o filme é em preto e branco e mudo.
Esta Branca de Neve está entre os meus filmes favoritos.
 
Plaza de Toros de Sevilha (2010).
Branca de Neve (2012), de Pablo Berger. Elenco: Maribel Verdú, Macarena Garcia e Angela Molina. 

terça-feira, 29 de agosto de 2017

UM SÁBADO RECHEADO DE CRIMES.



Você gosta de Agatha Christie (1890-1976)? Li alguns livros dela no século passado. Não mais que uns cinco e lembro-me de que gostei apenas de “O caso dos dez negrinhos”, que acabo de saber teve o nome alterado para atender à moda do politicamente correto. Minha opinião pouco vale diante do fato de que a velha senhora escreveu 80 livros e vendeu algo em torno de quatro bilhões de exemplares. Só Shakespeare e a Bíblia superam esses números.  
Quem aprecia a obra de Agatha Christie, pode aproveitar para participar da oficina que a Biblioteca Parque Villa-Lobos realizará no próximo sábado, dia 2 de setembro: uma viagem gastronômica baseada na obra da escritora inglesa. Afinal, como diz o convite, na obra dela “a comida não só alimenta os personagens como também os liquida”. As responsáveis pelo encontro, que promete suspense e degustação de algumas receitas que aparecem nas histórias, são Dolores Freixa e Solange Botura, que certamente não liquidarão os participantes do encontro que parece ser divertido.
A oficina acontecerá das 15h30 às 17 horas e as inscrições serão feitas por ordem de chegada. Recomendado para maiores de 16 anos.
Endereço: Avenida Queirós Filho, 1205. Tel. 11-3024-2500.
Em 2015, quando se comemorou os 125 anos do nascimento de Agatha Christie, foi realizado um festival gastronômico na casa de veraneio da autora (Greenway, Inglaterra), na própria cozinha da escritora, onde foram preparadas as principais comidas apreciadas (nem sempre) pelos personagens criados pela escritora.

 (FOTO: internet.)

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

 JORNALISMO 
O jornalismo mexe com a imaginação das pessoas. Afinal, o jornalista é a pessoa que está mais próxima dos acontecimentos, sejam eles quais forem. Num mundo movido a mexerico, saber dos fatos em primeira mão parece excitante; o jornalista encontra-se com gente importante, famosa ou vistosa e, se tudo der certo, pode conceder ao anônimo os tão esperados quinze minutos de fama. 
Assim, não é por acaso que, no mundo dos quadrinhos, até Clark Kent (Super-Homem) é jornalista e Peter Parker (Homem Aranha), repórter fotográfico. Nem mesmo a deusa Vênus escapou da sina: quando chegou a Terra foi ganhar a vida como jornalista. Bom, pelo menos a deusa criada por Stan Lee e Lin Streeter nos anos de 1950.
A realidade, entretanto, é bem outra. Em alguns setores até há um certo glamour, mas na maioria das vezes as reportagens e entrevistas são feitas sob estresse e nem sempre nas condições ideais.  
Segue uma lista de alguns filmes sobre jornalismo e jornalistas. Os meus preferidos foram dirigidos por Billy Wilder (1951), de Michelangelo Antonioni e Peter Weir.

Sublime devoção (1948), de Henry Hathaway, com James Stewart e Lee J. Cobb.   
A montanha dos sete abutres (1951), filme de Billy Wilder com Kirk Douglas, Jan Sterling, Porter Hall, Frank Cady. Albuquerque, Novo México.
Embriaguez de sucesso (1957), de Alexander Mackendrick, com Tony Curtis e Burt Lancaster.
Síndrome da China (1971), de James Bridges, com Jane Fonda, Jack Lemmon e Michael Douglas.
Primeira Página (1974), de Billy Wilder, com Jack Lemmon e Walter Matthau.  
Profissão repórter (1975) Michelangelo Antonioni, com Jack Nicholson e Maria Schneider.  
Rede de Intrigas (1976), de Sidney Lumet, William Holden, Faye Dunay e Peter Finch. 
Todos os homens do presidente (1976) Alan Pakula Robert Redford e Dustin Hoffman,
Ausência de malícia (1981), de Sydney Pollack, com Sally Fields e Paul Newman.
O ano em que vivemos em perigo (1982), Peter Weir, com Mel Gibson e Linda Hunt (Oscar de coadjuvante).
Os gritos do silêncio (1984), de Roland Joffé, com Sam Waterston e Haing S. Ngor. Oscar de ator coajuvante.
Salvador, o martírio de um povo (1986), Oliver Stone.
Boa noite e boa sorte (2005), de e com George Clooney.

O jornalismo romântico fica com "A princesa e o plebeu" (1953), de William Willer, com Gregory Peck e Audrey Hepburn. “Primeira página”, por sua vez, é uma versão do filme “Jejum de amor”, sucesso de 1940, dirigido por Howard Hawks, com Cary Grant.
Linda Hunt, no papel do fotógrafo Billy Kwan.

Kirk Douglas, perfeito como o jornalista inescrupuloso.
Jack Nicholson: "Profissão repórter".

domingo, 27 de agosto de 2017

TRÊS HISTÓRIAS

          Todas aconteceram há alguns anos em um programa da TV Record no início da noite. Na verdade, era uma revista ao vivo: jornalismo local, entrevistas, culinária ligeira etc. e um segmento, claramente publicitário, dedicado a novos produtos cujas qualidades eram mostradas por uma jovem versão das antigas garotas propaganda. Os fatos ocorreram em ocasiões diferentes. Além de engraçados, os fatos me lembraram dos primórdios da TV, quando não havia tecnologia para a gravação dos programas e era um salve-se quem puder.

A NOITE EM QUE OLIVIER FOI ABATIDO POR UM COCO. O cozinheiro brindava os telespectadores com uma receita fácil e rápida. Alegre e faceiro ele pegou da bancada um coco nos informando que era muito fácil abrir. Nada de coco ralado de pacotinho! Assim, empunhou um martelo e atacou o fruto que resistiu bravamente. Olivier sorriu, tentou de novo. E de novo. E de novo. Em vão. O coco não cedeu. Evidentemente, ele tentou levar a situação da melhor forma possível, mas a produção o salvou substituindo o rebelde... Não tenho a menor ideia do que ele cozinhou aquela noite, mas foi deliciosamente divertido ver o cozinheiro famoso abatido por um simples coco.

SAUDADE DE IDALINA DE OLIVEIRA. A moça responsável pelos novos produtos anunciou um tira-manchas fantástico que acabara de chegar ao mercado. Ela mostrou a embalagem e falou das vantagens, sem se esquecer da praticidade de aplicação. Num gesto de autoconfiança no produto, ela pediu a gravata do editor para fazer a demonstração. A expressão de surpresa foi impagável. Percebia-se que a gravata era cara e ele não estava animado para o experimento. A moça o convenceu (acho que não precisou muito já que se tratava também de um anunciante e o anunciante sempre tem razão). Ele tirou e entregou a gravata que ela sujou com alguma coisa antes de aplicar o tira-manchas. Em dois minutos a tragédia: a mancha não só continuou impávida e até se ampliou destruindo o tecido delicado da peça. Constrangimento geral, mas muito divertido para o telespectador. (Para quem não sabe: Idalina de Oliveira, 80 anos, foi uma garota-propaganda que atuou no início da implantação da TV em São Paulo, quando os anúncios eram ao vivo e o videotape ainda não havia sido inventado.)

FUGA ALUCINADA. Ela é uma ótima jornalista e muito simpática. A entrevista era com um adestrador de animais. O convidado falou sobre suas atividades, seus clientes e “alunos”. Uma beleza. Até que pediram que ele mostrasse um dos animais adestrados e o assistente entrou com o bicho. O que aconteceu em seguida foi tão inesperado que eu esqueci qual foi o animal ele apresentou. A jornalista simplesmente deu um salto da cadeira, saiu correndo como louca, passando pelas câmeras e desaparecendo no estúdio. Caras de espanto explícito. Entrevistado e o entrevistador que sobrou perguntavam “O que aconteceu?” Passaram-se alguns segundos gastos com expressões de pasmo até alguém informar que a jornalista tinha pavor daquele bicho e não retornaria. O adestrador garantiu que o animal era inofensivo, mas não teve jeito. Embora tenha rido muito com a cena da fuga, entendo perfeitamente a situação da repórter. Afinal, se aparecessem borboletas no local de uma entrevista, eu faria a mesma coisa. 



sábado, 26 de agosto de 2017


SÁBADO COM ARTE


COM PÓ E MISTÉRIO
A MULHER AO ESPELHO
RETOCA O ADULTÉRIO.

Hai-Kais de Millôr Fernandes (1923-2012) e tela de Georges Seurat (1859-1891).

terça-feira, 22 de agosto de 2017

TICO-TICO NA ACLIMAÇÃO



Não é exatamente uma praça, mas uma das muitas sobras de terreno da urbanização do Morro da Aclimação, que a Prefeitura ajardinou e os vereadores aproveitaram para homenagear algum personagem da vida da cidade. Então, por acaso, outro dia vi a placa meio escondida entre as folhagens e reconheci um nome importante do jornalismo brasileiro: José Carlos de Moraes (1922-1999), conhecido também como Tico-tico.
Tico-tico nasceu em Angatuba, fez Direito no Largo de São Francisco e nessa época participou da Caravana Artística XI de Agosto, cantando emboladas. Começou a trabalhar na Agência Nacional, atuou em várias emissoras de rádio importantes e fez parte da primeira equipe jornalística de televisão ao lado de Maurício Loureiro Gama (1912-2004), quando a TV Tupi de São Paulo foi inaugurada em 18 de setembro de 1950.
A lista de personalidades entrevistadas por ele é invejável – de Dwight Eisenhower, John Kennedy, Fidel Castro, Che Guevara a todos os papas eleitos ao longo dos seus 54 anos de atividade jornalística de acordo com a pequena biografia do Museu da TV. As viagens de avião a trabalho transformadas em horas de voo equivaleriam a 13 voltas ao mundo. Era ágil, entusiasmado e comprometido com a informação.
Muito bom reconhecer um nome tão importante do jornalismo brasileiro numa esquina aqui do bairro. Boas lembranças. 


segunda-feira, 21 de agosto de 2017

PAULA NEY



Será que alguém sabe quem foi Paula Ney (1858-1897) que empresta o nome a uma rua no bairro da Aclimação? Paula Ney nem é citado na enciclopédia popular da internet entre os conterrâneos ilustres da cidade natal. Lembro bem que ao mudar para o bairro paulistano fiquei intrigada com o salão de beleza que ostentava o nome dele na placa, quando um colega de trabalho me esclareceu que se referia ao nome da rua.
Soube da existência de Paula Ney ainda adolescente, quando achei na estante de minha tia o livro de Ciro Vieira da Cunha premiado pela Academia Brasileira de Letras em 1949: “No tempo de Paula Ney” (Edição Saraiva, São Paulo, 1950). Cunha não escreveu uma simples biografia, ele faz uma narrativa rica e agradável de uma época em que fervilhava na corte um punhado de jovens que fariam muita diferença na história do país – tanto na literatura, no jornalismo como na política. Ney foi jornalista, poeta e boêmio, ora mais jornalista, ora mais boêmio.
Francisco de Paula Ney nasceu em Aracati, Ceará, em 1858, onde cresceu e estudou até que o pai o enviou para um seminário. Grave erro paterno: o jovem fez um discurso contra a falta de liberdade e as injustiças da instituição. Resultado: a expulsão do seminário e uma surra tão violenta, que levou Francisco a se queixar do pai para o Delegado de Polícia. Matriculado no Liceu Cearense, arranjou uma briga com o professor de inglês e foi reprovado. Mais tarde, como todo jovem, não sabia que rumo tomar – direito, medicina, engenharia? O pai o despachou para o Rio de Janeiro, onde Francisco desembarcou em 1877.
As dúvidas o acompanhavam. Bem que gostaria de atender aos desejos da mãe e estudar medicina, mas tinha horror a sangue. Enquanto se decidia, foi trabalhar na GAZETA DE NOTÍCIAS, em que pontificava José Carlos do Patrocínio (1854-1905). Era assíduo frequentador do Pascoal, uma confeitaria da Rua do Ouvidor com uma distinta clientela. Enfim, Paula Nei matriculou-se na Escola de Medicina, onde aparecia de vez em quando “para promover manifestações ou aliciar entusiasmos em favor da campanha abolicionista”. Foi levando o curso, graças à simpatia que conquistara entre professores e colegas; porém, foi a Obstetrícia que salvou a Medicina de um mau profissional. Na verdade, ele só queria o diploma. Quando o professor lhe fez uma pergunta a que não conseguiu responder com a usual criatividade humorística, o mestre ironizou:
- Senhor Paula Ney... Então não sabe isso? É incrível... coisa tão fácil. Olhe, o que lhe estou perguntando é coisa que sei desde que nasci.
-Se o senhor sabe isso desde que nasceu, então a senhora sua mãe devia ter uma biblioteca dentro do ventre.
Paula Ney estava livre para dedicar-se ao o jornalismo. E à boemia. A carreira foi tumultuada, cultivando muitos amigos e admiradores e vários desafetos. Foi ele, por exemplo, quem propôs que se concretizasse a ideia de Visconti Coroaci para erigir uma estátua ao grande ator João Caetano. Ele levantou a questão durante uma ceia em homenagem ao empresário Jacinto Heller. O ator Francisco Correa Vasques ficou encarregado de levantar os fundos e ficou com as glórias desde que o monumento foi inaugurado em 3 de maio de 1891.
A biografia de Cunha relata as lutas políticas, especialmente, a abolicionista em que ele se empenhou. Paula Ney morreu pobre. “Não se sabe de ninguém que tenha guardado dele um ressentimento ou uma queixa: sabe-se de muita gente que abençoa sua memória” – escreveu Olavo Bilac sobre o jornalista. 
Monumento a João Caetano, Praça Tiradentes, RJ.
(Foto: Hilda Araújo, 2015.)

domingo, 20 de agosto de 2017

FOTOGRAFIA



Com atraso, o registro do Dia Internacional da fotografia, que marca a invenção do aparelho criado por Louis Daguerre (1787-1851), com base nas pesquisas do francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833). O daguerreótipo antecedeu as câmeras fotográficas. Em 19 de agosto de 1839, a Academia Francesa de Ciências anunciou a invenção do equipamento; entretanto, a busca pelo registro de imagens é muito antiga, mas o responsável por uma das primeiras fotografias duradouras foi Niépce, pois até 1793 as imagens conseguidas desapareciam rapidamente. Ao lado a primeira foto de Niépce. 
      
  En 23 de agosto celebram-se os 51 anos da primeira foto da  Terra tirada por uma sonda  da NASA a partir da Lua.     

A bola de gude azul (Blue Marble). Foto da Terra tirada pela 
tripulação  da  Apollo 17 em 7 de dezembro de 1972. 

Sérgio Jorge: Prêmio ESSO de Fotojornalismo (1960) com o "Homem da Carrocinha".

sábado, 19 de agosto de 2017

SÁBADO COM SHAKESPEARE 
(1564-1616)

"Oh! nunca o sol verá esse amanhã!... Teu rosto, meu barão, é um livro em que os homens podem ler estranhas coisas... Para enganar o mundo é preciso ser semelhante ao mundo." (Lady Macbeth, ato primeiro, cena V da peça MACBETH, c. 1606.)

Lady Macbeth, óleo sobre tela do belga 
Charles Soubre (18211895).  

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

CURSOS JURÍDICOS: 190 ANOS.


No dia 11 de agosto de 1827, criavam-se os Cursos Jurídicos no Brasil, nas cidades de São Paulo e em Olinda (Pernambuco). Até aquela data os advogados brasileiros formavam-se em Portugal, mas com a Independência era natural que se instalasse aqui, finalmente, um curso jurídico. O deputado José Feliciano Fernandes Pinheiro, Visconde de São Leopoldo, foi quem levou a ideia à Assembleia Constituinte em 1823 e, após muitos debates sobre currículo e corpo docente, levantou-se a questão da localização.
A capital do Império, Rio de Janeiro, era a escolha lógica, mas os deputados reivindicavam a honra para outras cidades. São Paulo, por exemplo, enfrentou objeções bizarras, como a levantada pelo deputado Silva Lisboa: "Sempre, em todas as nações, se falou melhor o idioma nacional nas cortes. Nas províncias há dialetos, com os seus particulares defeitos. É reconhecido que o dialeto de S. Paulo é o mais notável. A mocidade do Brasil, fazendo ali os seus estudos, contrairia pronúncia muito desagradável". No entanto, as ponderações do deputado Luís José de Carvalho e Mello, Visconde de Cachoeira foram consideradas pelos constituintes: "A cidade de S. Paulo é muito próxima ao porto de Santos, tem baratos viveres, tem clima saudável e moderado e é muito abastecida de gêneros de primeira necessidade, e os habitantes das Províncias do sul, e do interior de Minas, podem ali dirigir os seus jovens filhos com comodidade. (§) O estabelecimento da outra em Olinda apresenta semelhantes circunstâncias, e é a situação apropriada para ali virem os estudantes das Províncias do Norte".
Olinda, por sua vez, tinha a seu favor desde o início o Seminário, criado pelo Bispo Azeredo Coutinho, em 1789, que se destacava pela excelência do ensino.
          Mas o projeto de lei sancionado em 1823 teve fim trágico com a dissolução da Assembleia Constituinte por D. Pedro I, que outorgou em seguida a Constituição em 25 de março de 1824. Mas os esforços não foram em vão, pois em 1826 o deputado Lúcio Soares Teixeira de Gouveia propôs a revisão do projeto de lei do Visconde de São Leopoldo, reacendendo as discussões sobre localização, entretanto, prevaleceu a ideia de Francisco de Paulo Souza e Mello e, no dia 11 de agosto de 1827, foi assinada a lei criando os cursos jurídicos em Olinda e São Paulo.
          O curso jurídico foi instalado em São Paulo em 1º de março de 1828 no convento de São Francisco – havia apenas cinco frades na cidade e estavam no Recolhimento da Luz. A escolha do diretor recaiu sobre José Arouche de Toledo Rendon (1756-1836), militar e político, formado em Ciências Jurídicas em Coimbra. A festa de inauguração foi relatada pelo jornal O Farol Paulistano, propriedade do futuro Regente José da Costa Carvalho, depois Marquês de Monte Alegre: “A sala destinada para aula, que mede 90 palmos de cumprimento, estava apinhada de gente, até muitas das principais senhoras desta cidade, tendo sido convidadas, assistiram esse ato brilhantíssimo”. O professor português José Maria de Avelar Brotero (1798-1873), que causou muito dor de cabeça a Arouche, fez um discurso, depois todos foram à igreja para um Te Deum e em seguida foram convidados para os comes e bebes “doces e refrescos, que para isso estavam preparados numa esplêndida mesa”.
          A academia mudou a vida da cidade de São Paulo, que era um vilarejo pacato e sem graça. Foi uma mudança econômica e cultural conduzida pelos jovens e suas estudantadas. A primeira turma do curso jurídico tinha 33 alunos matriculados e apenas dez eram paulistanos; os demais eram das províncias do Rio, Bahia e Minas. Nos primeiros 25 anos, formaram-se na Academia 138 paulistas, 181 cariocas ou fluminenses, 100 mineiros, 56 baianos, 48 gaúchos, 11 maranhenses e nove mato-grossenses.  
Ao longo desses 189 anos de funcionamento, estudantes e egressos da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco participaram dos principais movimentos políticos da História do Brasil – como o Abolicionista, o Republicano e pelas Diretas-Já. Nove presidentes da República saíram do Largo de São Francisco, além de vários governadores e prefeitos não apenas de São Paulo.  

          A instalação do curso em Olinda ocorreu em 15 de maio de 1828 e a primeira turma formou-se em 1832. 
Largo de São Francisco e Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Os amantes salvos dos puritanos pelos estudantes de Direito.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

PEDAÇOS DE SÃO PAULO



Minhas visitas ao Bom Retiro começam pela Praça Coronel Fernandes Prestes (Estação Tiradentes do Metrô), que é muito bonita. Logo em frente à saída da estação vê-se o prédio da Faculdade de Tecnologia do Estado de São Paulo (FATEC). Um espaço histórico: naquele endereço morou o Marquês de Três Rios, Joaquim Egídio de Sousa Aranha (1821-1893), cujo solar foi adaptado em 1894 para acolher a Escola Politécnica, mas foi bombardeado durante a Revolução de 1924 e demolido em 1929, dando lugar alguns anos depois ao prédio atual.

Arborizada, fechada ao trânsito de veículos, a Praça é o endereço do Quartel do Comando Geral da Polícia Militar do Estado de São Paulo que fica em frente ao edifício Ramos de Azevedo, construído em 1920, e, desde 2000, sede do Arquivo Histórico Municipal “Washington Luís”. Entre os dois prédios, há dois monumentos: a estátua do coronel Fernando Prestes de Albuquerque (1855-1937), republicano e pai de Júlio Prestes (1842-1946), o presidente eleito derrubado por Vargas em 1930, e um memorial da participação da Força Pública (atual Polícia Militar) na Revolução de 1932. O que pouca gente sabe é que ali há um pequeno e belo jardim com um laguinho habitado por carpas coloridas. Ontem, o jardineiro cuidava das plantas, rodeado de passarinhos, enquanto pombos se divertiam num banho matinal, indiferentes aos peixes. 


 

domingo, 6 de agosto de 2017

TRÊS LOIRAS INESQUECÍVEIS

Os homens, realmente, preferem as loiras? Não importa qual seja a preferência mundial, o fato é que, no século passado, um punhado de atrizes louras (falsas ou verdadeiras) incendiaram as telas do cinema norte-americano. Uma das mais famosas foi Mae West (1893-1980), que se notabilizou também pelas frases maliciosas (para a época) tanto em roteiros de cinema e textos teatrais e como em entrevistas. O sucesso só aconteceu em 1932, quando ela estava com 39 anos! Era baixinha (1m56) e gordinha, mas nada disso impediu que ela se tornasse o maior sucesso de Hollywood. Ou melhor, uma lenda sexual. Lenda porque na vida privada era recatada. As fantasias sexuais que alimentava o público eram baseadas numa aparência falsa: o busto e os quadris de 110 cm eram à base de enchimentos. O jornalista Ruy Castro conta, na biografia da atriz, que o segundo filme  dela (“Uma loira para três”) salvou a Paramount Pictures da falência e no terceiro (“Uma dama do outro mundo”), o furacão Mae West escreveu o roteiro, escalou o galã e dirigiu o diretor nas sequências em que aparecia. Deixou o cinema aos 50 anos, mas continuou trabalhando até que em 1970 participou de “Homem e mulher até certo ponto”, com Raquel Welch, Farrah Fawcett e John Houston. 
Jean Harlow (1901-1936) foi outra loira que fez a cabeça das audiências mundo afora. Começou no cinema em 1930 (“Anjos do Inferno”), mas o sucesso só começou em 1932, quando filmou “Terra das Paixões”, dirigido por Victor Fleming. Logo, tornou-se uma estrela reconhecida mundialmente; entretanto, na vida pessoal não teve tanta sorte: teve escarlatina na adolescência, casou-se cedo com um empresário, mas logo divorciou-se. O segundo casamento, em 1932, não se consumou porque o marido, Paul Bern (1889-1932), produtor da MGM, era impotente e se suicidou dois meses depois. O terceiro casamento em 1933 também não deu certo e a atriz se divorciou oito meses depois. Em 1937, Jean Harlow adoeceu durante as filmagens de “Saratoga” e faleceu dias depois vítima de nefrite aguda. Apesar da morte prematura, Jean Harlow fez cerca de 40 filmes e ainda escreveu um livro (“Today is tonight) que só foi publicado em 1965.
        A terceira bombshell blond norte-americana é Norma Jean (1926-1962), que, aliás, era morena. Para quem não lembra ou não sabe, trata-se de Marilyn Monroe. Cresceu em lares adotivos e orfanatos; casou-se aos 16 anos e aos vinte já estava divorciada. Durante a II Guerra Mundial trabalhava em uma fábrica, quando conheceu um fotógrafo, se tornou modelo e logo conseguiu pequenos papeis em filmes até que no inicio da década de 1950 alcançou o estrelato. Se nas telas os personagens de Marylin sempre (ou quase) encontravam o príncipe encantado, na vida real a beleza e a sensualidade não lhe garantiram felicidade. Casou-se com Joe Dimaggio (1914-1999) e depois com Arthur Miller (1915-2005) – o primeiro, uma lenda do basebol, e o segundo, premiado dramaturgo. Morreu aos 36 anos, quando era amante do presidente John Kennedy (1917-1963), vítima de uma overdose de barbitúricos – um assunto que não se esgota. Gosto de me lembrar dela em “Quanto mais quente melhor”, “Bus stop”, “Os desajustados” ou “O Pecado mora ao lado”.
Um fato curioso é que a carreira destas três louras durou uma década, mas elas prosseguem bem vivas na memória dos fãs de cinema.