sábado, 25 de fevereiro de 2023
ROTEIRO DE IGREJAS HISTÓRICAS
terça-feira, 21 de fevereiro de 2023
CARNAVAL: RIO DE JANEIRO, 1955.
domingo, 19 de fevereiro de 2023
RIMBAUD, O POETA ANDARILHO
NO CABARÉ
VERDE
(às cinco da
tarde)
Oito dias de
estrada, as botas esfoladas
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
– Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.
Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. – Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,
– Essa, não há de ser um beijo que a afugente! -
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,
Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.
Arthur Rimbaud
Outubro de 1870.
O poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891)
foi um enfant terrible. Viveu pouco, mas intensamente. E caminhou muito
pela vida afora. Fugiu de casa aos 15 anos com destino a Paris, depois de
vender os livros que ganhara como prêmio na escola para pagar o trem, mas como
a quantia não cobriu o itinerário todo foi preso ao desembarcar na estação de
Estrasburgo. Resgatado por um professor, passa uns tempos com a família do
protetor até que a mãe o chame. Rimbaud não fica muito tempo em casa. Foge
novamente – desta vez faz uma parte do percurso de trem e inicia suas caminhadas;
vai para em Bruxelas e, no retorno para casa, traz poesia como bagagem. Entre
idas e vindas, ele retorna a Paris em 1871, quando encontra o poeta Paul-Marie Verlaine
(1844-1896) com quem mantém por três anos uma relação amorosa tempestuosa.
Não li uma biografia de Rimbaud, mas deve ser bem interessante conhecer melhor esse jovem inquieto para o qual a falta de dinheiro não é um empecilho para viajar. Afinal sempre pode ir a pé. "Sou um pedestre, nada mais." Em 1875, por exemplo, na Suíça, sobe a pé o Monte São Gontardo para chegar a Milão, na Itália. Foram anos de andanças até que em 20 de fevereiro de 1891, na Etiópia, ele reconhece: “Vou mal agora”. Um dos joelhos estava muito inchado e com o passar do tempo piora consideravelmente até que em abril parte para Marselha numa viagem de dor e agonia. Ao ser internado no hospital, teve a perna amputada na altura do joelho. Ele não desiste. Encomenda uma perna de pau de dois quilos com a esperança de voltar a caminhar em breve. Volta para a família, a irmã cuida dele com dedicação.
Rimbaud não
desiste apesar de todo sofrimento e parte com a ajuda da irmã com destino a
Argel, mas em Marselha é internado em estado crítico. Em setembro ele ainda
aguarda a perna artificial. Em 20 outubro completa 37 anos e no dia 10 de
novembro morre, após um longo sofrimento. “Vejo em Rimbaud o sentido de
caminhar como sendo fugir. (...) Sabe-se sempre porque se está caminhando. Para
avançar, partir, atingir, tornar a partir.” Afirmação do filósofo Fredéric Gros.
Como poeta influenciou o
modernismo.
sábado, 18 de fevereiro de 2023
SEMANA DO CAMINHANTE
Nunca houve tantos idosos no mundo como nos tempos atuais: 1,1 bilhão de pessoas com mais de 60 anos em 2022 de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). A expectativa é de que até 2050 o número de pessoas com 60 anos ou mais duplique e mais do que triplique até o final do século XXI, alcançando os 3,1 mil milhões em 2100!
Se por um lado o fato é alvissareiro, por
outro, é bastante preocupante pelos impactos sociais que causará em vários
setores da sociedade. O mais urgente, do meu ponto de vista, diz respeito aos
preparativos para o envelhecimento, que devem começar bem cedo cuidando tanto
do “pé-de-meia” para os dias chuvosos como da saúde, adotando um estilo de vida
saudável para que possa usufruir no futuro sua merecida aposentadoria, colocar
em prática planos elaborados em dias de correria, quando costuma bater o
desânimo, dar aquela vontade de sair correndo para uma praia ou campo e
esquecer o chefe e as obrigações.
Com a carta de aposentado na bolsa, siga o conselho do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Ficar ‘chumbado na cadeira’, repito-o, é o verdadeiro pecado contra o espírito”. Sempre é bom começar com um checkup para pôr em prática atividades físicas. Todo idoso vai ouvir do seu médico mais cedo ou mais tarde a ordem para praticar exercícios – coisa de que fujo desde os tempos da escola, quando Educação Física fazia parte do curriculum. Assim, por uns tempos optei pela dança (atividade aeróbica) e mais tarde por caminhadas e passeios pela cidade.
Para caminhar ou passear, além de disposição, basta um calçado confortável, roupa adequada ao clima, chapéu e água. Na sacola ou mochila, o mínimo indispensável: levo um anoraque, o celular para eventuais fotos, água, uma maçã verde e identificação. Na minha cidade, costumo caminhar duas ou três horas, mas quando viajo perco totalmente o sentido do tempo e costumo caminhar o dia todo sem cansaço. O professor francês de filosofia, Frédéric Gros (1965), é taxativo: “Caminhar não é um esporte”. Gros afirma que “quando se anda a pé, só há um desempenho que de fato conta: a intensidade do céu, o viço das paisagens”. Para mim há também as surpresas do caminho, acontecimentos inesperados que obrigam o caminhante a improvisar, enfrentar desafios... É fundamental prestar atenção aos obstáculos para não cair e se machucar.
O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau
(1712-1778) depois de uma existência bastante agitada, nos seus últimos anos resolveu
dedicar o tempo a caminhadas por Paris. “(...)
não vi maneira mais simples e mais segura de realizar essa empresa do que
manter um registro fiel de minhas caminhadas solitárias e dos devaneios que as
preenchem quando deixo minha mente livre por inteiro e minhas ideias seguirem
suas inclinações, sem resistência e sem dificuldade. Essas horas de solidão e
de meditação são as únicas do dia em que sou eu mesmo por inteiro e pertenço a mim
sem distração, sem obstáculo, e em que posso dizer de verdade que sou o que a
natureza quis.”
Na segunda
caminhada, realizada no dia 24 de outubro de 1776, o ilustre francês após o
jantar passava pela área que hoje pertence ao 20º arrondissement, quando
houve o incidente: viu as pessoas se afastarem para a lateral da rua e logo
avistou um enorme cão dinamarquês que corria à frente de uma carruagem. Nem o
cão nem Rousseau conseguiu se desviar. O filósofo, com 64 anos, achou que evitaria
a queda dando um grande e preciso salto, permitindo que o cão passasse por
baixo dele enquanto ele estivesse no ar. Na verdade, Rousseau não sentiu nem o
golpe nem a queda: desmaiou.
Jovens o acudiram e quando voltou a si, contaram-lhe que a queda fora violenta, caíra de cabeça. Rousseau não lembrava de nada: nem país, cidade ou bairro. Aos poucos foi se recuperando até chegar em casa. No dia seguinte, um exame minucioso mostrou o rosto inchado, lábios e nariz extremamente machucados, mãos feridas, braço esquerdo deslocado, joelho esquerdo inchado e muito contundido. “Mesmo com todas essas repercussões, nada de quebrado” – escreveu ele.
Todo cuidado é pouco...
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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023
DIA MUNDIAL DO RÁDIO
A minha infância e juventude foram embaladas pelas
ondas do rádio. Nas noites santistas, a família na sala ao pé do rádio ouvindo músicas
maravilhosas, programas inesquecíveis, novelas, notícias e, naturalmente, a voz
do governo – “A voz do Brasil” e seus alertas aos navegantes... Neste dia de ótimas
lembranças, a obra-prima de Woody Allen sobre esses tempos tão especiais: “A
Era do Rádio” (1987), que revi tantas vezes e sempre com o mesmo prazer. Contextos
sociais diferentes, experiências tão semelhantes... Adoro esse filme.
(O dia mundial do rádio foi criado pela UNESCO
em 2011 a partir de uma proposta inicial da Espanha e reporta-se à data de
criação da emissora das Nações Unidas, em 13 de fevereiro de 1943.)
domingo, 12 de fevereiro de 2023
A BUSCA DE UM LIVRO
Os
funcionários da livraria Martins Fontes não deixam o leitor a ver navios (o que
até seria difícil ali na Paulista). O jovem que me atendeu encontrou
rapidamente um dos livros que eu queria, mas os outros dois estavam esgotados
na editora. Quando soube do assunto do meu interesse, logo sugeriu um autor que
também tratou do tema e, como me interessei, ele procurou o nome do livro que,
infelizmente, também estava fora de catálogo. Anotou o título em um papel para
que eu procurasse em um sebo.
Ontem,
pesquisei na internet e achei o livro num sebo na Liberdade. Com a informação
de que a loja estaria aberta até as 18 horas, anotei o endereço e fui até lá. O
roteiro era simples: descer na altura da rua da Glória e descobrir a tal praça
de que nunca ouvira falar. A moça da banca de jornal era uma versão simpática e
em carne e osso do Guia 4 Rodas. Batia papo com uma senhora que devia estar
varrendo a calçada – pelo menos a vassoura que empunhava indicava essa
intenção. “Vire aqui à direita e na próxima também à direita, mas lá não tem
livraria nenhuma. Lá só tem um hospital. Deve ser na Praça da Liberdade” –
informou, cética. Expliquei que pegara o endereço na internet. A senhora da
vassoura já foi acrescentando que o lugar era muito perigoso. “Não vá lá, não.”
Falei que tomaria cuidado, agradeci e lá fui eu. Era ali pertinho. Há uma placa
indicando a praça que, na verdade, é uma rua de uma quadra só. Área em
decadência, vários moradores de rua instalados no lado ímpar. Numa oficina, o
mecânico também ignorava a existência de um sebo. Os seguranças do hospital
também, mas um deles consultou o Google e confirmou a existência do sebo. Outro
sugeriu que eu fosse ao Sebo do Messias. (O pessoal é bem informado.) Fui até o
final da quadra e... Nada! Olhando aquele casario decadente, deduzi que o sebo
deve ser virtual. A informação correta seria: em funcionamento e não aberto. Na
volta, agradeci aos seguranças e resolvi seguir o conselho deles e fui
caminhando até a Praça João Mendes.
O Sebo do Messias, que comemorou 50 anos em plena pandemia, está cheio. Peço ajuda a um funcionário. Ele consulta o terminal e não tem nenhum deles. “Devem ser livros raros” – comenta e me indica a seção onde posso encontrar outros do mesmo assunto. Apesar da preguiça, vou na direção indicada, mas vejo a prateleira dedicada à história de São Paulo e fico por ali bisbilhotando... e não é que acho um livro sobre o tema que procuro e que desconhecia? Ganhei o dia!
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
ADEUS, SAURA...
Um dos meus cineastas preferidos se despediu hoje (10) aos 91 anos: o espanhol Carlos Saura. Creio que o primeiro filme dele a que assisti foi "Mamá cumple cien años" (1979). Filmes europeus eram difíceis de aparecer no circuito comercial de Santos e foi em São Paulo que o descobri. Sua trilogia flamenca – “Bodas de sangre”, “Amor Bruxo” e “Carmen” – é maravilhosa. Revi “Carmen” várias vezes e e nunca me canso... Para o jornal espanhol EL PAÍS, Saura foi o “último diretor clássico do cinema espanhol”.
segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023
AMIZADE
Fãs de
bom cinema certamente conhecem o cineasta alemão Werner Herzog (1942),
que entre outros filmes dirigiu “Fitzcarraldo” (1982) cujo elenco, encabeçado
por Klaus Kinski, seu ator preferido, conta com José Lewgoy, Grande Otelo e
Milton Nascimento. Herzog foi um grande amigo da escritora, crítica de cinema
franco-alemã e cofundadora da Cinémathèque
Française, Lotte Eisner (1896-1983), que vivia em Paris. No final de 1974,
ele soube que Lotte – Eisnerin, como a chamava, estava muito doente. A notícia
foi um choque. “Eisnerin não pode morrer, não vai morrer, não permitirei. Não
vai morrer, não vai. Não agora, não tem o direito.” Naquele momento, ele imaginou
que a amiga se salvaria, se ele fosse a Paris a pé para visitá-la. Herzog vive
em Munique. “Quando eu chegar a Paris, ela estará viva” – escreveu em seu
diário de viagem, que anos depois ele editou e publicou.
Assim, no dia 23 de novembro, iniciou
essa caminhada mágica para salvar a amiga. “Peguei um casaco, uma bússola e uma
sacola com o indispensável. Minhas botas estavam tão sólidas e novas que me
inspiravam confiança. Pus-me a caminho de Paris pela rota mais curta (...).” Final
de outono, mas nessa época o frio já é intenso na região, sujeita à muita neve.
A narrativa de Herzog é ágil, feita de belas imagens da natureza, de pequenos
fatos bizarros e das dificuldades que enfrentou no caminho. Quase como um filme
e o leitor vai montando as cenas como fotogramas.
“A
barriga da perna direita pode me causar problemas e também a bota esquerda, no
bico. Tanta coisa passa pela cabeça de quem caminha. O cérebro vira uma fera.”
“Arrasto-me
mais do que ando. As pernas doem tanto, que mal posso colocar uma na frente da
outra. Quanto medem um milhão de passos?”
“Andei,
andei, andei, andei. Um belo castelo com fortes muralhas recobertas de hera, se
erguia ao longe. As vacas nem se espantavam mais comigo, mas com o castelo.”
Herzog
caminhou quase mil quilômetros em 22 dias, enfrentando frio, chuva e neve,
dormindo em lugares estranhos e desconfortáveis, para encontrar a amiga viva.
Uma reação insólita a um choque emocional. A jornada terminou num sábado, 14 de
dezembro: “(...) fui ver Eisnerin que ainda estava cansada e marcada pela
doença. (...) Fiquei embaraçado e estiquei minhas pernas doloridas sobre uma
segunda cadeira que ela me empurrou. Naquele embaraço, uma palavra me
atravessou o espírito, e como a situação por si já era estranha, eu a disse.
Juntos, falei, vamos cozinhar um fogo e deter os peixes. Então ela me olhou com
um fino sorriso e, como sabia que eu era um homem a pé e, portanto, sem defesa,
me compreendeu. Por um instante fino e breve, algo suave atravessou meu corpo
exausto. Eu disse: abra a janela, há alguns dias aprendi a voar”.
Um belíssimo livro. Para mim a mais
bela história verdadeira sobre amizade. Lotte Eisner, que foi mentora de Herzog
e da nova geração de diretores alemães – entre os quais Winn Wenders e Volker
Schlöndorff –, morreu nove anos depois.
terça-feira, 31 de janeiro de 2023
DIA DO MÁGICO
Há dias para tudo. Hoje é o dia mundial do mágico. Atualmente, acho que todos somos
mágicos para sobreviver em mundo cada vez mais maluco – ou com mais malucos do
que o usual. É possível até que nem tenha aumentado tanto o número deles – só ganharam
mais visibilidade e influência. Mas voltando aos mágicos. Mandrake, personagem
de histórias em quadrinhos, é o único mágico que me ocorre quando o assunto é
levantado. Fez parte da minha infância e tinha uma namorada chamada Narda. Minha
tia Gel, lá pelos idos de 1950, comprava a revista e lia as histórias e eu via
os quadrinhos enquanto acompanhava a leitura. A primeira história de Mandrake,
criação de Lee Falk e desenho de Phil Davies, foi publicada em junho de 1934
nos Estados Unidos. Não sou fã de mágica.
segunda-feira, 30 de janeiro de 2023
CADEIRA DE BALANÇO
Em
casa havia duas cadeiras de balanço. Uma de vime ficava na área externa e outra de madeira e palhinha, na sala. Carlos Drummond de Andrade diz que cadeira de balanço “é móvel da tradição brasileira que não
fica mal em apartamento moderno. Favorece o repouso e estimula a contemplação
serena da vida, sem abolir o prazer do movimento”. Das casas grandes em que
vivi em Santos até a mudança para o apartamento em São Paulo em que moro,
sempre encontrei um espaço para a cadeira de palhinha de minha avó. Raramente a
uso, pois a coluna reclama, indiferente às razões que me levam até ela.
Na
minha infância, ela já era antiga. Imagino que deve beirar os cem anos. Nela
sentaram-se todas as pessoas importantes em minha vida, além daquelas que nem
cheguei a conhecer – o avô, uma tia que deixou uma marca tão forte na família
que é como se eu tivesse convivido com ela... A cadeira de palhinha ficava num
canto da sala – misto de sala de jantar e visita – ao lado do relógio cuco à
disposição da família e das visitas. Com o tempo, minha avó deu preferência à
cadeira de vime, onde lia as orações, o jornal e algum livro ou cochilava;
ouvia o rádio à tarde fazendo crochê e assistia à televisão à noite. Era uma
espécie de trono: em torno dela reuniam-se as amigas para longas conversas sobre
a vida, a política e muitas histórias. A imagem recorrente, entretanto, é a da
minha avó, acomodada em sua cadeira preferida, crochetando colchas, toalhas de
mesa, pertences para enfeitar a casa ou para presentear pessoas especiais.
Tudo tem história, mesmo quando não se tem um registro preciso. Caso das cadeiras de balanço que surgiram em meados do século XVIII, mas foi na Áustria que Michel Thonet (1796-1871) criou um design que conquistou o mundo: estrutura de madeira arqueada e encosto de palha de cana ou de folha de palmeira trançada. Passei toda a vida sem saber desses detalhes que não me tornam mais feliz, pois o que me faz mesmo feliz são as lembranças que a cadeira de balanço, hoje objeto de atração das raras visitas, me proporciona.
https://www.youtube.com/watch?v=hrqJkxQbPGM
A música para embalar esta lembrança, que tem um espaço especial em minha sala, é interpretada pela dupla sertaneja Sebastião Franco (Craveiro) e João Franco (Cravinho). Eles são irmãos, nascidos respectivamente em 1931 e 1939, em Pederneiras, município de São Paulo. Composição de José Caetano Erba (1937-2009), também de Pederneiras.
domingo, 29 de janeiro de 2023
JANEIRO DE 2023
Se
você falar de São Paulo para alguém de fora, a primeira imagem que o forasteiro
fará é de trânsito congestionado, pessoas apressadas, perdendo um belo final de
tarde de verão. Sampa sempre surpreende. Quinta-feira, 17 horas. Praça
Alexandre de Gusmão – acesso pela Alameda Santos (paralela à avenida Paulista) –
Cerqueira César.
sábado, 28 de janeiro de 2023
AGRURAS JORNALÍSTICAS
O editor do jornal (anos 1970) criou uma coluna sobre bairros, abordando principalmente os problemas e as reclamações da população – a princípio de Santos e depois de São Vicente também. Tarefa que atribuiu a mim. Eu escolhia o bairro onde levantava problemas, ouvia população e cobrava do poder público uma resposta. As reclamações se concentravam principalmente nas áreas mais novas da cidade – Zona Noroeste ou ainda pouco habitadas, como a Ponta da Praia que, pasmem! – ainda era um matagal nos anos de 1970.
Conheci quase todos os presidentes de sociedades de amigos de bairros, muitos dos quais tinham algum vínculo com políticos e eram muito criticados pelos moradores. As queixas não mudavam muito: ruas esburacadas, esgoto a céu aberto, terrenos abandonados, lixo, ratos, falta de iluminação pública etc. e tal. Uma das reclamações recorrentes era a infestação de ratos provocada pela falta de limpeza de valas, terrenos abandonados e lixo acumulado a céu aberto. Havia quase sempre indignadas senhoras se queixando, alarmadas com a dimensão do problema. (nos depois a rataria até se expandiu para os jardins da praia, o que motivou o prefeito Oswaldo Justo (1923-2003) a requisitar um batalhão de gatos para enfrentar o problema que, pelo menos, lhe rendeu publicidade.
O trabalho tinha um grande apelo popular – havia uma senhora que mobilizava as moradoras do bairro para fazer reivindicações na redação. Houve um tempo em que o secretário de Obras chamava a reportagem para acompanhar visitas de inspeção a alguma região. Ia tudo muito bem até que um dia, em visita à redação, nosso colega e amigo Perito ao me ver abriu os braços e todo sorridente gritou: “Dona Ratazana! Quanto tempo!” Muito meigo! Não fiquei feliz, claro, mas relevei em nome da amizade. (Mais tarde me tornei "rata" de biblioteca.) Outra querida amiga, Elaine – que nas poucas horas vagas adorava pregar peças – lançou en petit comité minha candidatura à vereadora e até fez umas cédulas (naquele tempo tinha isso) em que eu aparecia como Hilda Amarante (sobrenome do coronel secretário de Serviços Públicos). Não gostei da ideia, o que não me impediu de guardar uma dessas relíquias. Elaine, infelizmente, faleceu ano passado.
quinta-feira, 26 de janeiro de 2023
SAUDADE DE SANTOS
Santos comemora 477 anos.
Uma garota...
Saudade da cidade, do jardim e da praia.
terça-feira, 24 de janeiro de 2023
UMA CAMINHADA ESPECIAL
Hoje,
o passeio é com o jornalista Frederico Branco (1927-2001), um dos ótimos
cronistas paulistanos. Creio que entenderia a caminhada porque foi um bom
andarilho desde criança. Começamos pela região da Paulista, pois em uma de suas
crônicas lembra-se do fantasma que assombrava uma casa ao lado do Parque
Trianon –, isso na época em que o parque ocupava a área onde hoje se situa o
MASP, que existia apenas nos sonhos de Chateaubriand e de Lina. Olho em torno e
observo que a única casa que sobrou naquele quadrilátero é sede de um bar
famoso e fico imaginando se o fantasma se refugiou ali... Com Branco aprendi
que a arborização da Rua Bela Cintra vai comemorar 100 anos em 2024 – ano em
que recebeu calçamento. O jornalista, que morava nas imediações, baseia a
informação na obra de Alcântara Machado, outro cronista paulista.
Branco fez um roteiro dos bares da sua vida e
dos amigos com quem proseava – Cervejaria Franciscano (Líbero Badaró), Picadilly
(Marconi), Barzinho do Museu (Sete de Abril), Harmonia (Xavier de Toledo), Paribar
(Praça Dom José Gaspar), Jaraguá (Martins Fontes), Clubinho (porão do Instituto
dos Arquitetos). “E assim, íamos de mesa em mesa de bar” – conclui ele. Eu mal me lembro do primeiro bar que visitei
ao chegar a Sampa: o Riviera (Paulista com Consolação).
O Centro Histórico não foi esquecido. Eu, por exemplo, garanto ao cronista em dúvida que a Rua Três de Dezembro – mero quarteirão entre a Boa Vista e a XV de Novembro – ainda existe. Ali encontram-se três belos prédios – um deles é o banco alemão na esquina com a rua XV.
O jornalista me proporciona uma excursão pelo Edifício Martinelli. “(...) uma das primeiras
palavras que consegui ler por inteiro ficava encarapitada em seu topo, entre as
nuvens. Era ODOL” – conta ele. Já crescido, Frederico Branco começou a explorar
o Martinelli pelo Cineteatro Rosário, no térreo; no subsolo, funcionava um dos
maiores salões de sinuca e bilhar da cidade e que ele frequentou. “Era uma
imensa e encardida caverna, malcheirosa, com dezenas de mesas maltratadas,
desniveladas e em geral cobertas de poeira grossa entranhada no pano verde.” Já
repórter do CORREIO PAULISTANO, ele desbravou a intimidade do prédio que foi o
orgulho de Giuseppe Martinelli (1870-1946) e é um dos cartões postais da
cidade. “Havia literalmente tudo nesse mundo vertical ligado pelos elevadores:
dezenas de escolas disto e daquilo, de idiomas à estenografia, antros de
carteado que funcionavam dia e noite, respeitáveis escritórios de profissionais
liberais, clínicas nada reputáveis, academias de ginástica e de outras artes e
artimanhas, pedicuros, arapucas diversas, dancings em que o menos que se
fazia era dançar, tocas de agiotas, domicílios de famílias bem ou mal
constituídas (...) Era uma reprodução vertical do mundo dentro do mundo da
cidade.”
A prefeitura desapropriou o prédio em
1975, reformou o imóvel que atualmente abriga as Secretarias Municipais de
Habitação e Planejamento, as empresas EMURB e COHAB-SP, além de
estabelecimentos comerciais no piso térreo.
Fim do passeio. Para
continuar embarquem no delicioso livro “Postais Paulistas”, de Frederico
Branco. São Paulo: Editora Maltese, 1993.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2023
ARRANHA-CÉU
Uma história de amor.
ARRANHA-CÉU
Sílvio Caldas e Orestes Barbosa
Cansei
de esperar por ela
Toda noite na janela
Vendo a cidade a luzir.
Nestes
delírios nervosos
Dos anúncios luminosos
Que são a vida a mentir,
E
cada vez que subia,
O elevador não trazia
Essa mulher. Maldição.
E
quando lento gemia
O elevador que descia,
Subia o meu coração.
Cansei
de olhar os reclames
E disse ao peito não ames
Que o teu amor não te quer.
Descansa,
feche a vidraça,
Esquece aquela desgraça,
Esquece aquela mulher.
Deitei-me
então sobre o peito,
Vieste em sonho ao meu leito
E eu acordei, que aflição.
Pensando
que te abraçava,
Alucinado apertava
Eu mesmo meu coração.
PAISAGEM URBANA
“Assim, onde quer que um homem esteja, encontrará algo que o agrade e o acalme. Na cidade, verá homens e mulheres de rostos agradáveis, lindas flores em uma janela, ouvirá um pássaro numa gaiola cantando na esquina da rua mais sombria. No interior, não há lugar sem encantos – basta procurá-lo no estado de espírito adequado, e certamente o encontrará.” Robert Louis Stevenson (1850-1894).
domingo, 22 de janeiro de 2023
OS MUROS DA CIDADE
Muros
protetores, ameaçadores, irrelevantes, feios, altos... Eles se espalham pela
cidade à medida que aumenta o número de condomínios, atraindo artistas de todos
os tipos ou meros pichadores especializados em degradar a cidade – uns poucos foram
transformados em um jardim vertical, refrescantes e coloridos. Há quem não
resista à tentação de deixar sua mensagem de passagem, criativas, engraçadas ou
simplesmente um desabafo anônimo. Na rua, ao pedestre cabe observá-los, imaginando
o que escondem e pensando no que revelam. Gosto de ver copas de árvores que superam
a altura dos muros e parecem ansiar pela liberdade das ruas.
sábado, 21 de janeiro de 2023
SONETO SENTIMENTAL
SONETO SENTIMENTAL À CIDADE DE SÃO PAULO
Ó cidade tão lírica e tão fria!
Mercenária, que importa - basta! - importa
Que à noite, quando te repousas morta
Lenta e cruel te envolve uma agonia
Não te amo à luz plácida do dia
Amo-te quando a neblina te transporta
Nesse momento, amante, abres-me a porta
E eu te possuo nua e fugidia.
Sinto como a tua íris fosforeja
Entre um poema, um riso e uma cerveja
E que mal há se o lar onde se espera
Traz saudade de alguma Baviera
Se a poesia é tua, e em cada mesa
Há um pecador morrendo de beleza?
Vinicius de Moraes, “Poemas esparsos”, Rio de Janeiro, 2008.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2023
ONDE É QUE MORA A ALEGRIA?
“Onde é que mora a amizade,
onde é que mora a alegria?
É no Largo de São Francisco,
na velha Academia”
Quadrinha
dos alunos da Faculdade Direito do Largo de São Francisco, criada por decreto
imperial em 11 de agosto de 1827, junto com a Faculdade de Direito de Recife. A
instalação do curso jurídico foi decisiva para o futuro de São Paulo. “A cidade
(...) ganhou um novo sopro de vida. A Academia de Direito, por modesta que
fosse, viria a revitalizar-lhe a economia e trazer algum movimento às ruas”,
afirma Roberto Pompeu de Toledo em sua obra sobre São Paulo. O curso atraiu
estudantes de várias partes do país, muitos dos quais se instalavam em repúblicas
e são famosas as estudantadas, que promoviam. Mais importante o curso gerou
atividades culturais inexistentes na cidade. No mesmo ano em que foi criada a
Academia – nome que recebeu apenas em 1831 – começou a circular o Farol
Paulistano, primeiro jornal impresso da cidade que até então contava com O
Paulista, um bissemanário manuscrito. Ali, no prédio do antigo convento de Santo Antônio, no Largo
de São Francisco, onde se instalou o curso jurídico, entre uma aula e outra,
formou-se uma plêiade de poetas, escritores e jornalistas brasileiros, sem
contar advogados e políticos que tiveram importante papel na história do país.
Olavo
Bilac (1865-1918), poeta e jornalista carioca, passou por São Paulo no final do
século XIX a caminho de Poços de Caldas, e numa crônica lembrou da Faculdade de
Direito do Largo de São Francisco em 1887, onde passou um ano “a fingir que
estudava retórica”, época em que “a Pauliceia era uma calada cidade de estudo e
troça”.
“Na
ponte Grande, no fluxo das águas claras, ainda vibrava o eco abafado da canção
boêmia de Castro Alves: ‘Nini! Tu és o cache-nez desta alma!/ Ó
Pauliceia! Ó ponte Grande! Ó Glória!’.”
“Quando
caía a noite, começava a peregrinação de ‘república’ em república’, de café em
café, discutindo tudo, resolvendo todos os altos problemas da moral, da
filosofia, da religião, até a hora da ceiota ruidosa. Depois, o vagamundeio
pelas ruas mortas sob a garoa fina até o romper do dia, sem esquecer
(lembras-te, Paulo? Lembras-te, Pujol? Lembras-te, Machadinho?) a visita ao
‘eco da Academia’, um pobre eco mofino que já estava rouco de tanto repetir
blasfêmias e barbaridades... Tudo isso desapareceu, levado na enxurrada pela
pachorra dos anos.”
quarta-feira, 18 de janeiro de 2023
SÃO PAULO – 469 ANOS
No próximo
dia 25, a cidade de São Paulo vai comemorar 469 anos. Uma garota que padece de
gigantismo: ao completar 469 anos tem 12 milhões de habitantes, o que lhe dá o
título de cidade mais populosa do Brasil e da América do Sul e a oitava do
planeta. A região metropolitana, que congrega 39 municípios, tem 22 milhões de habitantes,
sendo a décima mais populosa do mundo. Apesar de ser um município com bom
Índice de Desenvolvimento Humano (0,805), problemas não lhe faltam,
especialmente, sociais – cerca de 11% da população vivem em favelas. A maior
favela da cidade tem cerca de 200 mil moradores. São Paulo pode não ser uma
cidade maravilhosa como o Rio de Janeiro, mas é constituída de lugares muito
bonitos como o Horto Florestal, o Parque da Luz, Jardim Botânico, Parque do Ibirapuera,
Parque da Independência, ruas arborizadas. Não faltam teatros, cinemas, museus,
centros culturais, pinacotecas, bibliotecas, galerias de arte, prédios e
monumentos históricos para conhecer e passar ótimos momentos. Atrações não
faltam e a gastronomia variadíssima atende a todos os gostos, bolsos e bolsas.
A cidade dispõe de um excelente serviço de transportes públicos (ônibus, metrô, trem e táxis).
Parabéns,
SÃO PAULO.



























