quinta-feira, 19 de julho de 2018

A CORRESPONDENTE




Cresci lendo a revista O CRUZEIRO (1928-1975), dos Diários Associados, que reuniu grandes jornalistas e repórteres fotográficos brasileiros, além de cronistas e intelectuais excelentes. Um dos nomes importantes na publicação foi Dulce Damasceno de Brito (1926-2008), a primeira brasileira a ser correspondente em Hollywood. Fui leitora da coluna dela na revista, mas naturalmente não me lembro de nada. Afinal, quase nada era relevante como pude avaliar lendo o livro “Hollywood nua e crua. Parte II”. Editora Best Seller, 1992.
       
Leitura agradável. Ideal para férias. A jornalista embarcou para os Estados Unidos aos 26 anos de idade com um contrato de seis meses, que se prolongaram por 16 anos. Quando chegou a Hollywood, havia seis outros jornalistas representando as mais diversas publicações. Dulce assinava uma coluna diária, publicada em 28 jornais associados, mais uma entrevista exclusiva por semana e uma reportagem completa para O CRUZEIRO, como ela conta no livro.
        Tempos diferentes. Não bastava o jornalista aparecer ou marcar hora com o artista que desejava entrevistar. Era preciso ser credenciada pelos estúdios e nada era feito sem se passar pelos agentes dos atores. Dulce era bem comportada e os estúdios gostavam dela, assim como as estrelas que encontrou ao longo da trajetória profissional.
Fez alguns amigos – como Kim Novak e Carmen Miranda; foi a jantares íntimos na casa de Jane Mansfield, Doris Day e Rock Hudson... Sem contar que entrevistou mais de uma vez Marilyn Monroe, Elizabeth Taylor, Montgomery Clift, Marlon Brando, Charlton Heston entre muitos e muitos outros. No livro, Dulce não esconde que era fã das estrelas, dos mitos, de Hollywood. “Admito minha futilidade em preferir conversar com os ídolos da tela, que realmente me emocionavam, ignorando os que ficavam por detrás das câmeras, verdadeiros responsáveis pelo cinema como técnica.”  
Para mim muita coisa que ela conta (ou reconta porque o livro foi uma atualização do primeiro) foi uma surpresa, mas em se tratando desse mundo de fantasia, ora sombrio ora brilhante, vivi muito bem sem descobrir a verdade, seja ela qual for.


quarta-feira, 18 de julho de 2018

AMO TRENS




“Viajantes são considerados pessoas ousadas, mas nosso segredo indecoroso é que viajar é uma das formas mais preguiçosas do mundo de matar o tempo. Viajar não se restringe apenas ao ócio inato, engloba ainda uma esmerada vadiagem escapista que possibilita chamar a atenção para nós mesmos por meio da ausência conspícua, enquanto nos intrometeremos na vida alheia – uma atividade tão ultrajante quanto viver à custa dos outros. O viajante é o tipo mais ávido de voyeur romântico, e se oculta nas profundezas de sua personalidade um nó cego formado por vaidade, presunção e mitomania que beira o patológico. Por isso o pior pesadelo do viajante não é a polícia secreta, o feiticeiro ou a malária, e sim a possibilidade de encontrar outro viajante.” (TREM FANTASMA PARA A ESTRELA DO ORIENTE, Rio de Janeiro, Objetiva: 2011.)

Embarco mais uma vez no trem conduzido por Paul Theroux, autor de "O Grande Bazar Ferroviário".



terça-feira, 17 de julho de 2018

MOOCA: A TRILHA DO SAGRADO

Um bom paulistano já ouviu falar da Igreja de São Januário mesmo que não seja cristão, afinal, suas festas são parte do calendário de eventos de São Paulo. A Igreja de São Januário, ou em italiano San Gennaro, é a mais antiga da Mooca. Ela foi fundada em 2 de fevereiro de 1914 pelo arcebispo de São Paulo, D. Duarte Leopoldo e Silva. A primeira festa aconteceu em setembro de 1974 para levantar fundos para obras na igreja e foi um sucesso enorme, repetindo-se nos anos seguintes e atraindo cada vez mais pessoas. O segredo: a tradicional comida italiana – caponata de berinjela, sardella, alichella fogazza, pizza e todos os embutidos e queijos possíveis entre muitas outras iguarias. E não falta música, claro. Um dos grandes incentivadores do evento foi o Maestro Záccaro (1948-2003). No dia 19 de setembro ocorre a procissão luminosa que lembra o martírio de San Gennaro. (Rua da Mooca, 950.)

A Paróquia de São Rafael Arcanjo (Largo São Rafael) foi fundada em 1935 e a igreja começou a funcionar em 1938, antes de estar concluída. Em 1940, foi criada a igreja de Nossa Senhora do Bom Conselho (Rua da Mooca, 3911). Em 1959 o bairro ganhou mais duas igrejas: São Pedro Apóstolo (Rua Ibitinga, 838) e Nossa Senhora Aparecida dos Ferroviários (Rua Almirante Brasil, 125). A antiga capela do Hipódromo, erguida por uma família do bairro, foi doada à Cúria Metropolitana de São Paulo e em 1960 tornou-se a Igreja São Miguel Arcanjo (Rua Taquari, 1100).

Naturalmente, há igrejas de outras confissões – evangélica, metodista, batista, presbiteriana, mórmon, Seicho-Mo-Yê e Testemunhas de Jeová; centros espíritas e templo budista.

        Como ir à Mooca? Para pedestres exploradores de lugares da cidade (como eu), basta tomar o metrô e descer na Estação Bresser-Mooca e no terminal de ônibus pegar qualquer um que cruze a Rua da Mooca ou desça a Avenida Paes de Barros. Rápido e eficiente. Com calçadas bem cuidadas a Rua da Mooca é bem interessante. O bairro tem vários restaurantes, lanchonetes e cafeterias à escolha do freguês. Há também o Shopping Mooca (Capitão Pacheco e Chaves, 313). Quando chegar à Rua dos Trilhos imagine que ali havia um antigo ramal que ligava a ferrovia Santos/Jundiaí ao Hipódromo – este pode ser visto no mapa da cidade de 1895. A prefeitura manteve a denominação popular.



segunda-feira, 16 de julho de 2018

MUITO TRABALHO E DIVERSÃO




No final do século XIX já funcionavam no bairro da Mooca fábricas do porte de Biscoitos Duchen, Fiat Lux, a Cervejaria Bavária – que em 1904 foi comprada pela Companhia Antártica Paulista, cuja sede na Avenida Presidente Wilson, 307, foi construída no início do século passado; a Tecelagem Três Irmãos Andraus, Linhas Correntes entre muitas outras. O empresário italiano Egidio Pinotti Gamba, que começou seus negócios na Mooca, se uniu em 1934 aos Grandes Moinhos Gamba (empreendimento fechado em 1960). Na empresa havia uma capela dedicada a Santo Antônio, daí ser conhecida também como Moinho Santo Antônio. (Rua Borges de Figueiredo, 300 e 510.) depois de muitos usos o prédio parece abandonado.

O crescimento continuou no século XX. A fábrica de Calçados Clark (1904) fechou suas portas na década de cinquenta e o prédio foi desapropriado em 1968 e, atualmente, é sede da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo

Em 1907, em meio a tantos nomes e sobrenomes italianos chegou à Mooca um Fraser. Robert Fraser era um empresário escocês e instalou no bairro a Fábrica Brasileira de Alpargatas e Calçados. Ele já criara, com um sócio inglês, fábricas similares na Argentina e no Uruguai. Dois anos depois a empresa mudou a denominação para São Paulo Alpargatas Company. Em 1930, a Alpargatas passou para o controle argentino até que em 1982, quando Grupo Camargo Correa assumiu o controle do negócio.

Em 1910 os irmãos Giuseppe e Nicola Puglisi Carbone conseguiram unir os pequenos refinadores de açúcar de São Paulo e criaram a Companhia União dos Refinadores, que mais tarde incluiu o café, o que levou à mudança do nome para Companhia União dos Refinadores – Açúcar e Café. O engenheiro italiano Alessandro Lorenzetti conheceu Carlo Toninni e em 1923 fundaram a empresa Tonanni & Lorenzetti para fabricar parafusos de precisão para várias utilidades. Quem hoje não conhece a Lorenzetti? Continua no mesmo endereço.

            Mas havia tempo para diversão também. Os funcionários fábrica de Rodolfo Crespi, que jogavam futebol de várzea formaram dois clubes que acabaram se unindo em 1924 para formar o Cotonifício Rodolfo Crespi Futebol Clube. No ano seguinte, o conde Crespi cedeu uma área de sua propriedade entre as Ruas Javari e dos Trilhos para a construção do campo de futebol. A entidade nasceu modesta, mas se destacou nas competições e em 1930 mudou o nome para Clube Atlético Juventus – uma homenagem ao clube italiano. Cresceu e continua firme e forte na mesma Rua Javari. Nem é preciso dizer que o clube da Mooca é um dos mais queridos da cidade até hoje.

Em 1922 chegou o primeiro cinema do bairro “Palácio Moderno”, mais tarde Cine Teatro Moderno. Foi o primeiro de uma longa lista: São João, Internacional (ambos de vida curta), Santo Antônio, Icaraí/Ouro Verde, Imperial (resistiu até os anos 1960), Bertioga, Patriarca e Safira! Os amantes de teatro tiveram que esperar mais tempo. O Teatro Arthur de Azevedo (Av. Paes de Barros, 955) foi inaugurado em 1952 e tombado em 1992. A casa passou por obras de modernização e está em pleno funcionamento. (17/07/18)

 (Atualizado em 11/05/2024.)


sábado, 14 de julho de 2018

RUA DO LIRISMO


  


Bem pertinho da Alta Floresta. Nesses tempos de muita pressa, difícil reconhecer o lirismo ou se perder em altas florestas que resistem como ruas da Mooca, tradicional bairro paulistano rodeado pelo Brás e Belém (Norte), Belém e Água Rasa (Leste), Vila Prudente (Sul) e Ipiranga e Cambuci (Oeste). O nome é quatrocentão. Remonta aos tempos em que os silvícolas viviam pelo planalto e, observando os jesuítas construindo casas, diziam Moo-Ka (Moo-oca)– o que significa “eles estão fazendo casas”, segundo alguns; de acordo com outros, a expressão seria  mũoka, que significa "casa de parente". Enfim, as construções se fizeram primeiro de vagar; no final do século XIX se deu a expansão da cidade graças à ferrovia inaugurada em 1867, à industrialização que se seguiu e a chegada dos imigrantes que se estabeleceram pela região. Em 1958 Adoniran Barbosa revelava o sonho de um trabalhador: “Lá no alto da Mooca, eu comprei um lindo lote, dez de frente dez de fundo, construí minha maloca*.” A verdade é que a Mooca cresceu, modernizou-se e está muito longe de ser abrigo de desocupados. Vivem no bairro de 7,70 km² cerca de setenta e seis mil pessoas (2017) e o comércio mantém-se ativo.
Alguns fatos históricos do bairro podem ser recuperados pela denominação das ruas. A Rua do Oratório, por exemplo, marca o local da antiga Fazenda do Oratório. O nome foi oficializado em 24 de agosto de 1916. Antes da urbanização da Mooca, Rafael Aguiar Paes de Barros (1835-1889), filho de barão de Itu, fundou em sua fazenda um clube de corridas de cavalos nos mesmos moldes dos clubes ingleses. Reuniu 73 sócios e um capital de nove mil e novecentos e noventa réis fundou em 14 de março de 1875 o Hipódromo da Mooca ou Club de Corridas Paulistano com capacidade para 1200 pessoas. A primeira corrida aconteceu em 29 de outubro de 1876 e estavam inscritos apenas dois cavalos: Macaco e Republicano. Vencedor: Macaco. Logo o Hipódromo tornou-se uma atração e as pessoas que visitavam a cidade iam conhecer o “Prado”. A iniciativa incentivou o comércio da Mooca. Foi do Hipódromo da Mooca que Edu Chaves fez o histórico voo para o Rio de Janeiro em 21 de abril de 1912.
Em 25 de janeiro de 1941 foi inaugurada a nova sede do Jockey Club de São Paulo em Cidade Jardim e aos poucos a velho hipódromo foi se adaptando aos novos usos: primeiramente como escola e oficina de preparação de cadetes da Aeronáutica e mais tarde a Prefeitura de São Paulo assumiu a área onde funciona a Subprefeitura Mooca.
Um dos marcos do bairro é o Museu da Imigração do Estado de São Paulo (Rua Visconde de Parnaíba, 1316), que funciona na antiga Hospedaria dos Imigrantes, inaugurada em 1887. Os imigrantes de diversas procedências desembarcavam em Santos e eram transportados de trem para a hospedaria de onde eram encaminhados para as cidades do interior a fim de trabalhar na lavoura, especialmente cafeeira.
Rodolfo Crespi (1874-1939), filho de tradicional família italiana, imigrou para o Brasil em 1893 e estabeleceu-se no ramo de cotonifício na Mooca, já reduto de imigrantes italianos. Cinco anos depois sua fábrica já funcionava em um prédio de três andares na esquina da Rua Taquari com Rua dos Trilhos (atualmente funciona um supermercado). O título de conde foi dado a Crespi pelo governo Italiano em 1928 quando Benito Mussolini já estava no poder. Rodolfo Crespi foi o idealizador do Clube Atlético Juventus e apoiou a fundação do Colégio Dante Alighieri.
Um dos marcos do bairro é o Museu da Imigração do Estado de São Paulo (Rua Visconde de Parnaíba, 1316), que funciona na antiga Hospedaria dos Imigrantes, inaugurada em 1887. A Hospedaria recepcionava, registrava e organizava os imigrantes que chegavam de trem de Santos, onde haviam desembarcado procedentes de diferentes países europeus. Dali eles eram encaminhados para as cidades do interior a fim de trabalhar na lavoura, especialmente cafeeira.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

O RUSSO, O BRITÂNICO E O BRASILEIRO.


Uma tarde de inverno muito agradável. Céu acinzentado. Gente agasalhada, encolhida a caminho de algum lugar. Um ou outro mais ousado passeia de braços de fora imune à temperatura baixa. Boa ocasião para conhecer a obra de três artistas de origem bem diversa – um russo, um britânico e um mineiro, que a Caixa Cultural reuniu em São Paulo. Um ótimo programa.
O trabalho do britânico Mac Adams pode ser visto em duas mostras em São Paulo. O Centro Cultural FIESP apresentou “Mens Rea: a cartografia do mistério” e a Caixa exibe até o final de julho “Sombras e Mistérios”. Quem não viu a primeira, não deve perder a segunda que aprofunda a visão sobre o trabalho do artista. Como diz o catálogo de apresentação da mostra, “a arte de Mac Adams nos alerta para a necessidade de enxergar o que não se vê”. 
O fotógrafo russo Serguei Maksimishin (1954) percorreu a Rússia de ponta a ponta, registrando imagens do país após o fim do regime comunista. “O último império” reúne 65 fotografias com cenas do cotidiano e como as pessoas comuns reagiram à chegada do capitalismo e os resquícios do antigo regime.
A casa recoberta de quadros no saguão da Caixa é intrigante. “A casa dos meus sonhos” é o título da obra e uma boa olhada revela a intenção do artista: todos os quadros populares têm como tema vários tipos de casas e paisagens – de castelos a casebres. Esse é o primeiro contato com o trabalho do mineiro Jorge Luiz Fonseca (54 anos). Difícil dizer qual o material que Jorge Luiz Fonseca usa – na verdade, tudo que lhe cai nas mãos. Ele pinta, borda, constrói, faz colagens, esculpe, escreve, enfim, um artesão que materializa sua criatividade de múltiplas formas e todas muito inteligentes, com uma fina ironia. Um prazer enveredar por esse “Labirinto de Amor”. Ah! “She loves you” (esmalte sintético sobre madeira) é um poema em azul e branco. “Quando você passa eu fico assim” (esmalte sintético, fios de eletricidade sobre recorte de madeira), muito expressivo...

Jorge Luiz Fonseca nasceu em Conselheiro Lafaiete (MG) e é maquinista de trem, como o pai, e transportava minério de ferro.

CAIXA CULTURAL – Praça da Sé, 111. Terça-feira a domingo, das 9 às 19 horas. Entrada gratuita. Estação Sé do Metrô.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

QUANDO SÃO PAULO SE TORNOU CIDADE

Foto: mirante do edifício Altino Arantes, 2011. 
Há 307 anos a vila de São Paulo foi elevada à categoria de cidade por carta régia de D. João V. No mesmo dia 11 de julho de 1711, o arraial de Minas de Ouro Preto foi elevado à categoria de vila, recebendo a denominação de Vila Rica de Nossa Senhora do Pilar. São Paulo foi a sétima povoação a merecer o título. Antes dela apenas Bahia, Rio de Janeiro, Olinda, Paraíba, São Luis e Cabo Frio tinham merecido do reino essa categoria administrativa.
São Vicente, apesar de decadente, ainda era a capital da capitania, que incluía Santos e São Paulo. No final do século XVII, o marquês de Cascais, donatário da capitania, resolveu mudar a capital para  São Paulo e a Câmara de São Vicente não gostou nada da história, como deixou claro aos camaristas de São Paulo, e ainda apelou para a interferência do governador geral na Bahia, Antônio de Sousa Meneses, que acabou com a alegria geral de Cascais e companhia. Meneses informou que o donatário não tinha poderes para mudar a capital da capitania.
Tudo ficou como estava até 1709 quando a capitania passou a se chamar São Paulo e Minas do Ouro e o primeiro governador foi Antônio Albuquerque Coelho de Carvalho (1655-1725), que tomou posse em Santos e escolheu São Paulo como capital. Com esse status nada mais justo que ele elevar a vila à condição de cidade.

SATURNINO DE BRITO
A cidade de Santos (SP) deve muito ao engenheiro Saturnino de Brito (1864-1929).


terça-feira, 10 de julho de 2018

HOMENAGENS
9 DE JULHO 2018

Início da solenidade promovida pela Associação Capacetes de Aço
de São Vicente, na Praça Heróis de 32.



Praça José Bonifácio, Santos: a coroa de flores em memória dos soldados constitucionalistas.

domingo, 8 de julho de 2018


Dia Nacional da Ciência e Dia Nacional do Pesquisador

O químico francês Antoine-Laurent Lavoisier (1743-1794) morreu na guilhotina durante a Revolução Francesa. É considerado o pai da química moderna. Todos nós sabemos (ou deveríamos saber) o que significa H2O graças a Lavoisier que descobriu que a água é composta por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. Ele é responsável por vários outros estudos que permitiram o desenvolvimento da química. O que muita gente desconhece é que sua esposa Marie-Anne Pierrette Paulze (1758-1836) se interessou pelo trabalho dele, estudou química, colaborou ativamente com Lavoisier e tornou-se uma pesquisadora importante. Além de cientista, Marie-Anne foi ilustradora e tradutora. Ela lutou bravamente para salvar Lavoisier e o pai da execução, mas não conseguiu livrá-los da guilhotina. Anos depois ela se casou com um físico americano Benjamin Thompson (1753-1814).

Marie-Anne Pierrette Paulze foi quem encomendou o quadro a Jacques-Louis Davi. 
 
Portrait d'Antoine-Laurent Lavoisier et de sa femme (1788). 
Óleo sobre tela do pintor francês Jacques-Louis Davi (1748-1825).
Acervo: Metropolitan Museum of Arte, Nova Iorque.





sexta-feira, 6 de julho de 2018

OS DEZOITO DO FORTE

OS DEZOITO DO FORTE

Rio de Janeiro, novembro de 2015.
No dia, 6 de julho de 1924 terminava a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, iniciada na véspera e que não alcançara as proporções almejadas porque os revoltosos não tinham programa nem objetivos políticos. No dizer do general Aristides Leal, eles eram “jovens sonhadores que agiam mais impulsionados pelo entusiasmo da juventude”. O presidente do Brasil era Epitácio Pessoa (1865-1942) e estava em fim de mandato. Uma série de acontecimentos políticos gerou o movimento de insubordinação entre os militares, que em princípio contavam com a adesão dos Fortes de Copacabana e do Vigia além de outras guarnições do Distrito Federal, mas que no momento combinado não ocorreu. Os homens da Escola Militar de Realengo chegaram a sair do quartel, mas foram detidos e desarmados sem resistir; a guarnição de Campo Grande, Mato Grosso,  capitulou diante da superioridade numérica das forças legais e o Forte do Vigia não se manifestou. O capitão Euclides da Fonseca (filho do Marechal Hermes da Fonseca), no comando do Forte de Copacabana, levou o plano avante e ameaçou o palácio do Catete durante dois dias.
Ao tentar negociar com o governo no Catete, Euclides da Fonseca foi preso e telefonou para o tenente Siqueira Campos determinando a rendição. Siqueira Campos convidou os companheiros a marchar sobre o Catete. Apenas 18 aderiram à marcha e tornaram-se uma lenda, pois quando se recusaram a obedecer às ordens de rendição foram atingidos por tiros de fuzil que mataram uns e feriram outros. O número de resistentes varia de 28, segundo o general Abílio de Noronha, 18 de acordo com a imprensa e 12 conforme o Brigadeiro Eduardo Gomes, sobrevivente do episódio. O outro sobrevivente foi Siqueira Campos. Um dos participantes da marcha foi o civil Otávio Correia, morto na ação. 

A revolta marcou o início do movimento tenentista que teve presença marcante no período da ditadura de Getúlio Vargas (1930-1945).

Mural do Forte de Copacabana: homenagem aos 18. 

terça-feira, 3 de julho de 2018

A MAGIA DO CINEMA

Cabaret (1972), o filme dirigido por Bob Fosse e estrelado por Lisa Minelli e Joel Grey é um clássico. Tive o prazer de rever quinta-feira passada, quarenta e seis anos depois, após restauro. O que foi melhor na tela grande de um cinema. O filme continua ótimo. Ah! O maravilhoso Joel Grey, que já completou 86 anos, é inesquecível no papel de mestre de cerimônia do cabaré em que trabalha Sally Bowles, uma aspirante a estrela, interpretada por Liza Minelli, no frescor dos 26 anos.

























Sábado foi a vez de relembrar o melhor do cinema através da música do compositor italiano Nino Rota (1911-1979), autor da trilha sonora dos filmes de Federico Fellini (1920-1993), graças à iniciativa muito boa do Teatro Municipal de São Paulo de reunir música e cinema.  Enquanto a orquestra sinfônica municipal de São Paulo tocava, cenas dos filmes do diretor italiano eram exibidas numa tela no fundo do palco.
E assim a tarde se passou ouvindo boa música e revendo trechos de “Abismo de um sonho” (1952) – um dos meus filmes favoritos de Fellini, “Os boas-vidas” (1953), “A estrada” (1954) “Amarcord” (1973), “8 ½” (1963) e “La Dolce Vita” (1960) – todos maravilhosos. Marcello Mastroianni e Anita Ekberg naquela doce vida são um prazer que se renova sempre.  Lembrei-me de “Entrevista”, que Fellini rodou em 1987 em que Marcello e Anita se reencontram – ele com 63 anos e ela já com 56.
Saí do Teatro querendo muito rever a obra de Fellini, uma vontade que já vinha de algumas semanas quando assisti “As noites de Cabíria” (1957), na USP. Clássicos nunca envelhecem.

segunda-feira, 2 de julho de 2018

CENAS SANTISTAS



"Morro da Penha", Santos, 1944.

A Pinacoteca do Estado de São Paulo tem um ótimo acervo nacional e é um dos lugares mais agradáveis da cidade. A cada visita descobre-se algo diferente, uma obra que devia estar em repouso na reserva técnica e volta a ser exibida.  Ou que passou desapercebida em visitas anteriores. Quem sabe? Semana passada vi uma paisagem que me pareceu familiar e logo a identifiquei: a Casa do Trem de Santos e ao lado uma tela retratava uma cena santista: um dia de feira no sopé do Morro da Penha. O artista é um campineiro que eu desconhecia. Trata-se de Dario Villares Barbosa (1880 - 1952).
Barbosa estudou em São Paulo com Oscar Pereira da Silva (1867-1939) e em 1901 foi para Paris com o irmão gêmeo Mário Villares Barbosa, onde estudaram na Académie Julian e na École des Beaux-Arts. Dario retornou brevemente ao Brasil em duas ocasiões em 1910 e em 1916, quando participou de exposições no Rio e em São Paulo. Só em 1934 se estabeleceu definitivamente em São Paulo e nesse mesmo ano foi agraciado com a medalha de ouro no salão paulista de Belas Artes e recebeu o 3º Prêmio de Aquisição pela tela “Feiticeiro Sudanês”.
O artista doou todas as suas obras para a Pinacoteca do Estado de São Paulo e para o Museu Nacional de Belas Artes (Rio de Janeiro). (Fonte: Itaú Cultural)
Casa do Trem, Santos (SP), 1940.

domingo, 1 de julho de 2018

EFEMÉRIDES DE JULHO



Julho, o mês homenageia o imperador romano Júlio César. O sétimo mês do ano marca a criação de algumas entidades culturais brasileiras muito importantes.
No dia 2 de julho de 1819, inaugurou-se a Casa da Ópera de Sabará em Minas Gerais, o segundo teatro do Brasil. Felizmente, resistiu e, atualmente, chama-se Teatro Municipal de Sabará e o prédio é tombado.
No final do século XIX ocorreram dois fatos importantes.
Rua do Ouvidor, Rio de Janeiro, 8 de julho de 1896. Uma plateia curiosa reuniu-se para assistir à exibição de uma novidade recém-chegada de Paris e muita gente se assustou, o que não impediu o grande sucesso da iniciativa. Um aparelho chamado “omniographo” mostrava uma série de fotografias de ondas do mar em movimento. Foi a primeira sessão de cinema no Brasil, realizada na Rua do Ouvidor e promovida pelo JORNAL DO COMMERCIO (1827-2016). O jornal O PAIZ publicou uma crítica do filme, assinada por Artur de Azevedo (1855-1908), nosso primeiro crítico de cinema.  

O segundo acontecimento ocorreu no ano seguinte. Desde o Império havia a ideia de se criar uma academia de letras nacional “para conservar, no meio da federação política, a unidade literária”*. Assim, depois de muitas reuniões fundou-se no dia 20 de julho de 1897, numa sala do Museu Pedagogium (Rua do Passeio, Rio de Janeiro), a Academia Brasileira de Letras, que teve como primeiro presidente Machado de Assis (escolha unânime). Ela foi concebida nos moldes da entidade francesa, composta por quarenta membros. Sede atual da Associação: Avenida Presidente Wilson, 203, Castelo, Rio de Janeiro.



Em meados do século XX nasceu outra academia: a Academia Brasileira de Música (Rua da Lapa, 120, Rio de Janeiro), fundada por Heitor Villa-Lobos no dia 14 de julho de 1945. A Academia tem entre seus quarenta patronos os padres José de Anchieta e José Maurício, D. Pedro I, Carlos Gomes, Ernesto de Nazaré, Alberto Nepomuceno, Francisco Braga e Mário de Andrade. 



Três anos depois, no dia 15, o Museu de Arte Moderna de São Paulo abria suas portas em seu primeiro endereço: Rua Sete de Abril, Centro. O industrial Francisco Matarazzo Sobrinho e sua mulher Yolanda Penteado foram os fundadores da prestigiosa instituição cuja sede atual é no Parque do Ibirapuera.  

*Discurso de Machado de Assis ao assumir a presidência da ABL.
Fonte: Revista de História da Biblioteca Nacional.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

HERANÇA PORTUGUESA




Festa portuguesa sem comida não existe. E os festejos juninos que se encerram hoje são uma herança portuguesa com certeza. Junho, mês dedicado aos santos do povo: Santo Antônio (13), São João (24) e São Pedro (29). As festas são ecos das antigas comemorações pagãs do solstício de verão no hemisfério Norte. No ambiente urbano dos tempos atuais, as comemorações foram transferidas do arraial para as escolas e igrejas e entidades afins. Sem balão nem fogueira, as mesas enchem-se com milho verde, caldo verde, sardinha na brasa, batata doce, pipoca, pé de moleque, canjica, bolo de fubá, maçãs do amor e outras guloseimas que o patrocinador da festança ache bom incluir.
Como dizem os portugueses “sardinha de são João já pinga no pão”. Não escapa nem o carneiro do santo: “O são João do convento/ tem aos pés um carneirinho;/ Vamos comê-lo assado,/ que S. João paga o vinho”. Enquanto a criançada fica com os sucos, os adultos se empapuçam de quentão ou vinho quente. Naturalmente, a música é componente importante e sanfoneiros e violeiros fazem parte do cenário tradicional, mas nos dias de hoje na falta dos artistas, um aparelho de som resolve o problema.
Lamartine Babo (1904-1963) é o autor da marchinha que reúne os três santos e que Carmem Miranda (1909-1955) e Mário Reis (1907-1981) gravaram em 1934.

ISTO É LÁ COM SANTO ANTÔNIO

Eu pedi numa oração
Ao querido são João
Que me desse um matrimônio
Matrimônio! Matrimônio!
Isto é lá com santo Antônio!

Implorei a são João
Desse ao menos um cartão
Que eu levava a santo Antônio
São João ficou zangado
São João só dá cartão
Com direito a batizado

São João não me atendendo
A são Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Disse o velho, num sorriso:
- minha gente, eu sou chaveiro!
Nunca fui casamenteiro!

São João não me atendendo
A são Pedro fui correndo
Nos portões do paraíso
Matrimônio! Matrimônio!
Isto é lá com santo Antônio

Balões são bonitos, mas fazem parte do passado. 
Soltar balões é crime. Eles são também um sério risco para a aviação.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

GOSTEI MUITO, EMBORA SEJA OUTRA PESSOA.

Rua da Consolação. Depois de uma visita à Chácara Lane, que frequentei bastante, desci até o farol e, enquanto esperava o verde, eis o que encontrei! Amei, embora seja outra Hilda,naturalmente. Provavelmente, Hilda Hist (1930-2004), já que Hilda Maia Valentim (1930-2014) dedicava-se a outras escritas que a fizeram famosa como Hilda Furacão.


segunda-feira, 25 de junho de 2018

INVERNO FLORIDO
Praça da Liberdade


Não gosto de fotografar pessoas, mas quando saí da estação do metrô, os dois jovens conversavam sob esse buquê natural e deixei para fotografar a árvore na volta; entretanto, meia hora depois eles continuavam no mesmo lugar, talvez indiferentes ao belo cenário. Assim, resolvi incluí-los sem identificá-los. 

domingo, 24 de junho de 2018

SONHO DE PAPEL
Carlos Braga e Alberto Ribeiro

E o balão vai subindo, vem caindo a garoa
O céu é tão lindo e a noite é tão boa
São João, São João!
Acende a fogueira no meu coração!
E o balão vai subindo, vem caindo a garoa
O céu é tão lindo e a noite é tão boa
São João, São João!
Acende a fogueira no meu coração!

Sonho de papel a girar na imensidão
Soltei em seu louvor, um sonho multicor
Oh, meu São João!

Meu balão azul foi subindo devagar
O vento que soprou meu sonho carregou
Não vai mais voltar!
  
Festa de São João, óleo sobre tela de Heitor dos Prazeres (1898-1966).


Balões são bonitos, mas fazem parte do passado. Soltar balões é crime. Eles são também um sério risco para a aviação.

Lei de Crimes Ambientais
Lei nº 9.605/1998
Art. 42. Fabricar, vender, transportar ou soltar balões que possam provocar incêndios nas florestas e demais formas de vegetação, em áreas urbanas ou qualquer tipo de assentamento humano:
Pena - detenção de um a três anos ou multa, ou ambas as penas cumulativamente.


sábado, 23 de junho de 2018

Quando Está Frio no Tempo do Frio

QUANDO ESTÁ FRIO no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável, 
Porque para o meu ser adequado à existência das cousas 
O natural é o agradável só por ser natural. 

Aceito as dificuldades da vida porque são o destino, 
Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno — 
Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita, 
E encontra uma alegria no fato de aceitar — 
No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável. 

Que são para mim as doenças que tenho e o mal que me acontece 
Senão o Inverno da minha pessoa e da minha vida? 
O Inverno irregular, cujas leis de aparecimento desconheço, 
Mas que existe para mim em virtude da mesma fatalidade sublime, 
Da mesma inevitável exterioridade a mim, 
Que o calor da terra no alto do Verão 
E o frio da terra no cimo do Inverno. 

Aceito por personalidade. 
Nasci sujeito como os outros a erros e a defeitos, 
Mas nunca ao erro de querer compreender demais, 
Nunca ao erro de querer compreender só corri a inteligência, 
Nunca ao defeito de exigir do Mundo 
Que fosse qualquer cousa que não fosse o Mundo. 


Alberto Caeiro, in "Poemas Inconjuntos", heterônimo de Fernando Pessoa. 


"Le Boulevard de Clichy, par un temps de neige" (1876). de Norbert Goeneutte (1854-1894).

sexta-feira, 22 de junho de 2018

MATARAZZO, ANDRAUS E SCHAUMANN.

Na Avenida Paulista.
O segundo morador da Avenida Paulista foi Francesco Antônio Maria Matarazzo (1854-1937), imigrante italiano que se tornou o homem mais rico do Brasil, graças ao seu talento empreendedor. Manteve-se nesse patamar por várias décadas. Francisco Matarazzo comprou em 1896 o lote 83 na esquina com a Rua Pamplona, contratou o engenheiro Giulio Saltini e o mestre de obras Luigi Mancini, ambos italianos, para fazer o projeto da casa. Com o passar dos anos ele foi adquirindo lotes vizinhos para ampliar a propriedade. Quando Francesco, mais conhecido como Francisco Matarazzo morreu, assumiu o comando da família Francisco Matarazzo Jr. (1900-1977), que comandou a grande reforma da casa. 
Depois de avaliar vários trabalhos apresentados, Francisco Matarazzo Jr. (Chiquinho Matarazzo) aprovou o projeto do arquiteto italiano Tomaso Buzzi (1900-1981), que ele conheceu durante uma visita de Buzzi ao Brasil. A reforma se processou durante o período da II Guerra e a comunicação entre ambos ocorreu por cartas. Assim, em 1940 em pleno conflito mundial o novo palacete em estilo neoclássico ficou pronto: tinha 4.400 metros quadrados de área construída em terreno de doze mil metros quadrados. Eram dezenove quartos, dezessete salas, uma biblioteca – em que se destacavam livros raros –, refeitórios e três adegas (Evoé Baco!). Havia ainda piscina e adega. O acabamento e a pintura combinavam com o mármore travertino, que revestia alguns cômodos da mansão – parte dele, sobras do edifício Matarazzo do Anhangabaú. O mobiliário incluía móveis venezianos, mesas chinesas e todas as preciosidades que o dinheiro dos Matarazzo podia comprar.
        Em 1917 Francesco recebeu do rei Vitor Emanuel III o título de conde como agradecimento pela ajuda financeira à Itália durante a I Guerra (1914-1918). Chiquinho Matarazzo herdou o título. Assim, nada mais natural que a família tivesse um brasão. E a mansão da Avenida Paulista ostentava no pórtico de entrada o brasão esculpido em mármore de Carrara. Pesava 150 kg.
        Com as grandes transformações econômicas e sociais, a família deixou o palacete e o destino da propriedade gerou muita discussão na cidade, o que não impediu a demolição da Vila Matarazzo em 1996. Uma polêmica que, na verdade, se repetia: na década anterior a “Casa Mourisca” já fora demolida.
O campineiro Henrique Schaumann (1856-1922) formou-se em Farmácia na Alemanha, país de origem de sua família, fundadora da famosa Botica “Ao Veado d’Ouro” (Rua São Bento) que ele ao retornar assumiu e anos depois vendeu, dedicando-se especialmente à política. Em 1906 Henrique Schaumann foi morar perto do cunhado Von Büllow à Avenida Paulista, esquina com a Alameda Joaquim Eugênio de Lima. O projeto era dos engenheiros Augusto Fried e Carlos Ekman. Em 1934, o empresário Abraão Andraus, imigrante libanês e um dos sócios da Casa Três Irmãos, na Rua Direita, perto do Largo da Misericórdia, comprou o imóvel, contratou o construtor José Câmara para realizar o projeto de uma grande reforma que o transformou na famosa “Casa Mourisca”. O Oriente estava em todos os lugares do palacete: salas, quartos e banheiros. Uma visão europeizada do Oriente.
José Câmara já havia feito a reforma da casa 63a da Paulista, entre 1933 e 1934, introduzindo a moda do orientalismo na avenida. O cliente era o irmão de Abraão e sócio da Casa Três Irmãos: Amin Andraus. Amin foi mais comedido. O casarão tinha como destaque no interior um fumoir com pinturas ornamentais orientais e o mobiliário com incrustações de madrepérola, proveniente de Beirute, como narra Renato Brancaglionere Cristofi em sua dissertação de mestrado*, apresentada na FAU/USP em 2016.
Cristofi reuniu em seu trabalho várias fotos do interior da residência de Amin Andraus: “Nessas fotografias (...) percebemos como era novamente diversificado o conjunto de resultados criativos do que seria um palacete mourisco, concebido nessa tênue fronteira entre os elementos e sentidos da representação do Oriente e as expectativas  do viver à francesa’”. A “Casa Mourisca” encantava a todos, mas em 1982 os proprietários (família Lotaif) não se comoveram com a repercussão negativa da decisão de demolir a mansão antes que ela fosse tombada pelo patrimônio histórico como um marco da arquitetura paulistana. Na calada de uma noite de julho de 1982, foi posta abaixo.

* “O orientalismo arquitetônico em São Paulo – (1895-1937)”, disponível para leitura na Internet.

domingo, 17 de junho de 2018

O QUE NÃO SE VÊ MAIS NA PAULISTA



Os palacetes dos primórdios da Avenida Paulista garantiram o prestígio do endereço paulistano e, mesmo depois de vendidos e demolidos, continuam pairando por lá, acendendo a imaginação de várias gerações. A Vila de Horácio Belfort Sabino (1869-1950), por exemplo, no final da avenida, ocupava o quarteirão da Rua Augusta, Alameda Santos e Rua Padre João Manoel (Conjunto Nacional). Sabino contratou o arquiteto francês Victor Dubugras (1868-1933) para a realização do projeto de sua casa de campo, pois residia com a família na Rua General Jardim.
A casa em estilo art nouveau ficou pronta em 1904. As visitas entravam por uma varanda lateral com vitrais que dava acesso ao jardim de inverno e ao escritório. No térreo, ficavam as salas de jantar e de visitas – destaque para o piano de cauda Pleyel, a sala de almoço das crianças e de costura; um corredor conduzia à copa e à escada de serviço. A cozinha ficava separada, um anexo em que se encontravam também a despensa e o quarto de empregada. O porão abrigava adega, lavanderia, despensa, quarto de brinquedos e respiradouro. No piso superior, havia três quartos, três toilettes, um banheiro completo e dois terraços. A entrada de serviço era pela Alameda Santos, onde se achavam as edículas destinadas às famílias do copeiro japonês e do motorista, que conduzia um Mercedes-Benz. O luxo, naturalmente, estendia-se ao mobiliário, que era importado da França. Na sala de visitas, móveis dourados, mas no resto da casa imperava o estilo art nouveau. A tapeçaria era Aubusson. Sabino apreciava a natureza e gostava especialmente de carvalhos – havia plantado um na entrada principal (Avenida Paulista) e as folhas e frutos dessa árvore eram o principal ornamento dos lambris, escadas e móveis da propriedade. Sabino, antes de iniciar a construção do palacete, cuidara de formar o parque, a horta e um pomar, afinal, seria uma casa de campo.
A fortuna de Horacio Sabino, formado em Direito (Largo de São Francisco), foi consolidada por meio de transações imobiliárias – foi o primeiro a vender terrenos a prestações em São Paulo; herdou da sogra terras, que loteou formando o Jardim América em homenagem à esposa. A área foi negociada com a Cia. City da qual mais tarde tornou-se sócio. Ele era casado com América Milliet e o casal tinha quatro filhas – América, Marina, Helena e Sylvia.
O casarão foi o primeiro a ser demolido, dando início à nova avenida, no final da primeira metade do século passado.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

PIONEIRISMO PORTUGUÊS
Há 96 anos os militares portugueses Carlos Viegas Gago Coutinho (1869-1959) e Artur Sacadura Freire Cabral (1881-1924) concluíam com sucesso a primeira travessia aérea do Atlântico Sul ao amerissarem no Rio de Janeiro, procedentes de Lisboa, tornando-se heróis nos dois países. A viagem, que fazia parte das comemorações do centenário da independência do Brasil, não foi exatamente tranquila. A grande aventura começou, no dia 30 de março de 1922, às 7 horas da manhã, em Lisboa, onde eles embarcaram no “Lusitânia”, um hidroavião monomotor Fairey F III-D MKll, equipado com um motor Rolls-Royce. Sacadura Cabral pilotava enquanto Gago Coutinho se encarregava da navegação, com auxílio de um aparelho que ele inventara e denominara horizonte artificial. O invento revolucionou a navegação aérea que estava apenas no início.
Os aviadores e seu voo pioneiro. 
A dupla chegou no mesmo dia a Las Palmas (Ilhas Canárias); no dia 5 de abril partiu para a Ilha de São Vicente (Arquipélago de Cabo Verde), onde os dois ficaram para manutenção do hidroavião; os aviadores partiram para o Arquipélago de São Pedro e São Paulo, já em águas brasileiras, onde chegaram no dia 18. O hidroavião sofreu danos durante a amerissagem e Gago Coutinho e Sacadura Cabral foram recolhidos por um cruzador português que os levou até Fernando de Noronha. A marinha portuguesa enviou o “Pátria”, outro hidroavião Fairey para conclusão da viagem, entretanto, quando voltavam ao Arquipélago de São Pedro e São Paulo no dia 11 de maio para reiniciar o voo a partir do trecho interrompido, houve uma pane no motor que os obrigou a amerissar. Os dois ficaram 9 horas no mar até serem resgatados por um cargueiro inglês e levados novamente para Fernando de Noronha. Novo hidroavião foi enviado para o arquipélago. Desta vez, o “Santa Cruz”, que funcionou adequadamente, permitindo que os portugueses chegassem em segurança a Recife e, após escalas em Salvador, Porto Seguro, Vitória e, finalmente, chegaram Rio de Janeiro no dia 17 de junho, amerissando na Guanabara.
        Gago Coutinho e Sacadura Cabral percorreram 8.383 quilômetros em sessenta e duas horas e vinte e seis minutos na travessia, descontado o tempo com os imprevistos. O povo brasileiro homenageou os dois com muitas festas, que continuaram em Portugal, quando os aviadores retornaram. Eles estiveram em Santos e, na Praça Rui Barbosa, participaram do lançamento da pedra fundamental do monumento, em homenagem a outro pioneiro, o padre santista Bartolomeu de Gusmão (1685-1724), inventor da passarola e responsável por diversas experiências com balões.  

quarta-feira, 13 de junho de 2018

SANTOS, CAPITAL DE SÃO PAULO.




Não errei. Uma vez por ano, exatamente, dia 13 de junho, Santos é a capital simbólica do Estado de São Paulo. Trata-se de uma homenagem ao Patriarca da Independência, o santista José Bonifácio de Andrade e Silva, nascido no dia 13 de junho de 1763. A homenagem foi instituída por pelo decreto nº 50.872, de 12 de junho de 2006, assinado pelo governador Cláudio Lembo.
Praça do Patriarca, Centro, São Paulo, 2009.
José Bonifácio foi o mentor da independência do Brasil, proclamada pelo príncipe D. Pedro em 1822: “é a figura central numa formulação que o Brasil teria de si mesmo como nação” (historiador Jorge Caldeira). Além de estadista, ele foi um renomado cientista (mineralogista) e pesquisador; ele demonstrou já no século XIX preocupações com o meio ambiente.
O santista é considerado fundador da Marinha do Brasil, que atribuiu o nome dele a três embarcações: Iate José Bonifácio (incorporado em 1915 e em ação até 1923); Cruzador José Bonifácio ou Cruzador Andrada (1894-1923) e Navio Hidrográfico/Auxiliar José Bonifácio, em operação de 1923 a 1963. Os restos mortais do Patriarca da Independência, que morreu em 1838, encontram-se no Panteão dos Andradas, em Santos (Praça Barão do Rio Branco, 16), junto com os irmãos Antônio Carlos e Martim Francisco.




terça-feira, 12 de junho de 2018

DIA DOS NAMORADOS?

Com um pouco de humor.

“O amor é um não sei o quê, que vem de não sei onde e que acaba não sei como.” Mademoiselle (Madeleine) de Scudéry (1607-1701), escritora francesa.

 “Ama o teu próximo. Se ele for alto, moreno, bonitão, será mais fácil.” Atriz norte-americana Mae West (1893-1980).

“O amor é uma tragédia em dois atos: um civil e um religioso.” Barão de Itararé, pseudônimo de Apparicio Torelly (1895-1971).

“Eu te amarei para sempre – eu disse. Ela se virou para a parede e disse aoenas: Basta me amar todos os dias.” Escritor francês (nascido em Marrocos) Daniel Pennac (1943).

“Para ser amado seja amável.” Poeta romano Ovídio (43 a.C.-17/18 d.C.)

“Sabe o que é melhor que ser bandalho ou galinha? Amar. O amor é a verdadeira sacanagem.” Maestro Tom Jobim (192701994).


Terminando com a música de Dolores Duran (1930-1959) e Carlos Lyra (1939): “O negócio é amar”, na interpretação de Leny Andrade )1943). 

segunda-feira, 11 de junho de 2018


O AMOR ACABA
“O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão (...)” Paulo Mendes Campos, anos 1960.   


Vincent van Gogh:Agostina Segatori em Le Tambourin, 1887-1888.