quinta-feira, 16 de março de 2023

CAMINHOS PAULISTANOS

 

Quantas vezes escolho um novo caminho e logo me canso; penso em um ônibus, em como teria sido bom ter escolhido outro roteiro, quem sabe, mais curto... Descobri, recentemente, que vários podem ser os motivos dessas sensações. Pode não se tratar de um caminho longo, mas não dispor de atrativos.  Ruas com um comércio agitado, muitas portinhas; ruas com casas ajardinadas e fachadas diferenciadas ou iguais, porém, coloridas e atraentes, e gente se movimentando para lá e para cá em seus afazeres ou ócios, tudo isso contribui para a sensação de que o caminho é mais curto e agradável. O caminhante não se cansa, seus olhos não param e sua mente vai recolhendo as informações, tecendo uma rede sutil que reduz o tempo, o espaço e mexe com sua imaginação.  

            Gosto de mudar de caminho, ver coisas diferentes, mas faço alguns com regularidade e, frequentemente, descubro pormenores novos ou coisas surpreendentes – como sapatos esquecidos nas calçadas, um jogo de amarelinha cheio de graça, um galo enfrentando um cãozinho, uma pedra gigante no caminho, passarinhos que nos olham desconfiados... sem contar as flores que atapetam o caminho. Nas casas, o encanto pode estar no pequeno jardim, no portão onde um cão faz seu papel de guarda e dá uns latidos nada ameaçadores ou na arquitetura simples que lembra outras épocas. E as lojas de rua tão simpáticas? Lojas de rua são um atrativo à parte e suas vitrines expõem, além dos produtos, a imaginação do dono. Ali fica o Bar do Zé Quebrado, que também é restaurante. Quebrado física ou economicamente?

Numa esquina, o rapaz distribui folhetos anunciando o novo café que funciona na garagem de uma casa antiga – um espaço simpático que também tem restaurante. Prometo voltar à tarde. Outra esquina. Um senhor me pergunta onde fica a lotérica. Explico que não conheço bem a região. Quando chego às imediações da Praça João Mendes, uma senhora me aborda: quer saber onde fica a Avenida Rio Branco. Ih! Muito longe. Explico que o endereço é nos Campos Elíseos e, por acaso conheço um ônibus que passa ali perto e vai até lá. Mal eu paro no farol para atravessar a rua, vejo ao meu lado o jovem – deve ter uns 20 anos, usa camiseta (que já foi branca, mas está entre o cinza e o preto), bermuda surrada e calça havaianas. Ele também quer uma informação: onde é a rua Vinte e Cinco de Março. Disse que era longe e apontei para a Praça da Sé: “atravessa a praça e lá na frente desce a Ladeira General Carneiro...” Mas nem continuei porque ele achou o lugar perigoso. O semáforo ainda estava no vermelho, quando ele perguntou se o prédio “ali atrás” era da polícia. Eu comecei a responder: “É (olhei para o semáforo e me voltei para concluir) o Tribunal de Justiça”. Mas ele se deu por satisfeito ou ficou preocupado com o É e desapareceu.

Enfim, verde para pedestres e eu me pus a caminho...Nem sinal de chuva. Uma ótima quinta-feira, a penúltima deste verão.

Os pássaros, de Felícia Lerner, Praça da Sé.

Praça João Mendes.


domingo, 12 de março de 2023

DIA DO BIBLIOTECÁRIO

 

“O bibliotecário (...) é o profissional que, aos poucos, vai desbravando a alma dos leitores. É ele que coabita com todos os autores, com todas as suas obras e com as expectativas e anseios de todos os leitores.” – Site do IBGE. Bibliotecários são persistentes. Quando você desiste de procurar um título ou um livro sobre determinado tema, ele continua a busca até achar alguma coisa que pode ajudar no seu trabalho. Você frequenta bibliotecas? Então dê um sorriso especial para os bibliotecários porque hoje é o dia deles. A data homenageia Manuel Bastos Tigre, que se formou em engenharia em 1906 e foi fazer um curso de aperfeiçoamento em eletricidade nos Estados Unidos, onde conheceu o bibliotecário Melvil Dewey, criador do Sistema de Classificação Decimal. Foi quando Manuel Bastos Tigre descobriu que sua vocação era a biblioteconomia e em 1915 abandonou a engenharia, prestou concurso para bibliotecário do Museu Nacional do Rio de Janeiro e se classificou em primeiro lugar com estudo sobre a Classificação Decimal. Em 1945, foi transferido para a Biblioteca Nacional, onde ficou até 1947, assumindo em seguida a direção da Biblioteca Central da Universidade do Brasil. Tigre nasceu no dia 12 de março de 1882.

Nas minhas andanças, quase sempre visito bibliotecas. Em São Paulo, já frequentei várias bibliotecas da USP; já pesquisei nas bibliotecas do Ministério Público e do Tribunal de Justiça e sou cadastrada no sistema de Bibliotecas da Prefeitura. Sempre muito bem atendida pelos bibliotecários. No exterior, visitei a Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos; em Portugal, a da Universidade Coimbra; a do Vaticano e em Praga a de um mosteiro medieval...

Biblioteca de Coimbra, 2010.

Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro. 2015.

Biblioteca de São Paulo, Parque da Juventude.

Biblioteca Parque Villa-Lobos.

Biblioteca do Mosteiro de Strahov, Sala Teológica, em Praga. Estilo barroco, século XVII.
Proibido tirar fotos: reprodução de postal .



OSCAR

Qualquer jornal ou site que abro tem uma chamada imensa para a entrega do prêmio americano para melhores filmes e profissionais de cinema do ano passado. O Oscar, bonequinho assexuado criado em 1928 e cujo valor não passa de US$ 500, foi entregue pela primeira vez em 1929. A cerimônia (por assim dizer, pois de vez em quando há bofetada no palco) acontece em Hollywood, naturalmente. Há muitos anos tentei assistir a uma transmissão, o âncora brasileiro era o jornalista e crítico de cinema Rubens Ewald Filho (1945-2019), mas achei uma chatice absoluta e nunca mais perdi horas preciosas de sono por causa de algo que não mudará minha vida e sobre o qual poderei ter todos os detalhes no dia seguinte.

            Nem sempre prêmios são justos. Já a assisti a filmes excelentes que sequer foram lembrados. Não me preocupo em ir correndo ao cinema assistir ao vencedor do Oscar. “Titanic” (1998) dirigido por James Cameron é o campeão de indicações (catorze) e recebeu onze prêmios – não vi, mas assisti ao vice-campeão: “Ben-Hur” (1960), de William Wyler, teve doze indicações e ficou também com onze prêmios! Enfim, pensando no assunto, resolvi homenagear os amigos nascidos em 1945, com a lista dos vencedores nas categorias de melhor filme e melhores atores (homens e mulheres). Assisti à maioria na velha “Sessão da Tarde”.

            Nem sempre prêmios são justos. Já a assisti a filmes excelentes que sequer foram lembrados. Não me preocupo em ir correndo ao cinema assistir ao vencedor do Oscar. Titanic (1998) é o campeão de indicações (catorze) e recebeu onze prêmios – não vi, mas assisti ao vice-campeão: Ben-Hur (1960) teve doze indicações e ficou também com onze prêmios! Enfim, pensando no assunto, resolvi homenagear os amigos nascidos em 1945, com a lista dos vencedores nas categorias de melhor filme e melhores atores (homens e mulheres).

O Oscar de melhor filme foi para “Farrapo Humano” (The Lost Weekend), dirigido por Billy Wilder (1906-2002), estrelado por Ray Milland (1907-1986) e Jane Wyman. Milland ficou com o Oscar de Melhor Ator. O filme é um clássico. 




Joan Crawford (1904-1977) recebeu o Oscar de melhor atriz pelo papel em “Alma em Suplício” (Mildred Pierce), dirigido por Michael Curtiz. Outro clássico: o filme faz parte da lista do American Film Institute como um dos cem maiores filmes americanos de todos os tempos. 





James Dunn (1906-1967) ficou com o Oscar de melhor ator coadjuvante por sua interpretação em Laços Humanos (A tree grows in Brooklyn), dirigido por Elia Kazan. Parece que 1945 foi um ano em que o alcoolismo estava em pauta. Duun foi premiado por sua atuação como um pai alcoólatra.


Melhor atriz coadjuvante: Anne Revere (1903-1990), por “A Mocidade é Assim Mesmo” (National Velvet), com Elizabeth Taylor e Mickey Rooney. Um filme delicioso. Em 2003, este filme foi selecionado para preservação no Registro Nacional de Cinema dos Estados Unidos pela Biblioteca do Congresso por ser “cultural, historicamente ou esteticamente significativo”. O filme ganhou o Oscar por melhor montagem ou edição.

Os demais premiados foram:

Melhor história original: “A casa da rua 92” (The House on 92nd Street), de Charles G. Booth.

Melhor fotografia em cores: “Amar foi minha ruína” (Leave her to heaven), de John Stahl, com Gene Tierney. O filme arrecadou mais de US $ 5.000.000, a maior bilheteria de Fox da década de 1940.

Melhor fotografia em preto e branco: “O retrato de Dorian Gray”, direção de Albert Levin, com George Sanders e Hurd Hatfield. 

Direção de arte (cores): “Gaivota negra”, direção de Mitchell Leisen, com Joan Fontaine.

Direção de arte (preto e branco): “Sangue sobre o sol”, dirigido por Frank Loyd, com James Cagney.

Efeitos especiais: “Um rapaz do outro mundo” (Wonder Man), dirigido por H. Bruce Humberstone e estrelado por Danny Kaye .

Melhor trilha sonora: “Marujos do Amor”, dirigido por George Sidney, com Gene Kelly e Frank Sinatra.

Melhor trilha sonora original: compositor Miklos Rozsa para o filme “Quando fala o coração”, dirigido por Alfred Hitchcock, com Gregory Peck e Ingrid Bergman. Rozsa é também o autor da trilha de “Farrapo Humano”.


quinta-feira, 9 de março de 2023

UMA COMPETIÇÃO TOLA

Leio em algum lugar que a prefeitura de Santos aprovou a construção de duas torres de 155 metros de altura – 45 andares, na Ponta da Praia. O lançamento depende do aval da Justiça. Mais uma aberração na orla santista. Considero uma competição estúpida essa de ter o maior prédio da cidade, da região, do Estado, do Brasil ou de qualquer outro lugar... O único benefício é dos poucos (milionários) moradores que terão uma vista panorâmica da costa. 

Coisa de gente imatura, ansiosa por aparecer. Sugiro que coloquem no cartão de visitas,  “a maior torre do pedaço”, como referência após o endereço.

Desde que iniciei minhas caminhadas diárias por São Paulo tenho procurado entender melhor as cidades, lendo sobre arquitetura e urbanismo, e gostei muito das lições do arquiteto e urbanista dinamarquês Jan Gehl (1936). “Da rua temos dificuldade para perceber eventos que ocorrem nos andares mais altos” – ele nos explica. “Quanto mais alto, maior a dificuldade de enxergar. Temos de recuar cada vez mais para ver, as distâncias se tornam cada vez maiores e o que vemos e percebemos diminui. Gritos e gestos não ajudam muito. De fato, a conexão entre o plano das ruas e os edifícios altos efetivamente se perde depois do quinto andar”. Talvez deva-se incluir privacidade aos benefícios que as torres oferecem. Os moradores da torre estarão interessados em se conectar com pedestres ou residentes em prédios de míseros 25 andares? Não sei. Desfrutarão melhor a visão da futura torre os trabalhadores marítimos nos navios que aguardam na barra a vez para atracar no Porto de Santos.

“Olhar para baixo é bem mais simples, mas olhar para cima é outra história: precisamos, literalmente, esticar o pescoço”, explica Jan Gehl.

(Na falta de fotos dos prédios da orla santista, selecionei uma do bairro do José Menino e outra panorâmica tirada do Monte Serrat.)

Santos, São Paulo .


segunda-feira, 6 de março de 2023

AS ATREVIDAS

 Não sou feminista nem machista. O importante na vida das pessoas é fazer das dificuldades um desafio e trabalhar para conquistar aquilo que desejam, sempre com ética e respeito ao outro. Se as convenções sociais de épocas passadas mantinham as mulheres em atividades domésticas e submissas, muitas atreveram-se a mostrar seu talento, arcando com as consequências. Umas tinham aptidão para escrever, outras para pintar, muitas para ir à guerra para lutar por seus ideais, algumas buscaram na ciência respostas para os segredos do Universo. E se saíram muito bem. Importa trabalhar para mudar as leia e, na minha opinião, o exemplo é a melhor lição. Minha avó Maria Luísa foi meu exemplo: viúva com cinco filhos pequenos, ela trabalhou, estudou e, como sempre valorizou a educação, proporcionou a todos educação, fundamental no desenvolvimento de cada um.

PINTORA

SOFONISBA ANGUISSOLA (1532-1625) foi uma pintora renascentista italiana, filha de família nobre e pobre de Cremona. Dizem que o talento da jovem foi reconhecido por Michelangelo (1475-1564) e Antoon van Dyck (1599-1641). Esteve em Roma e mais tarde foi convidada pelo rei Filipe II da Espanha para ser dama de honra da rainha Isabel de Valois e se tornou pintora oficial da corte. Após a morte da rainha retornou à Itália, onde continuou a pintar com sucesso. 

ESCRITORAS

Nada como iniciar com a história da Anônima Ilustre, uma distinta senhora paulistana que em 1797 escreveu o drama Tristes Efeitos do Amor, em redondilhas. Essa obra só foi descoberta em Lisboa, em 1953, pelo pesquisador da USP Antônio Soares Amora. Ela também se manifestou sobre o afastamento de São Paulo do Morgado de Mateus no Diálogo entre Prudência e a Pauliceia.

A paulistana Yde Schloenbach Blumenschein (1882-1963) ficou conhecida pelo pseudônimo de COLOMBINA e publicou seus primeiros trabalhos em A Tribuna, de Santos. Ela estudou na Alemanha, era poliglota, pianista e cantora. Casou-se, teve dois filhos e desquitou-se para horror da família e amigos. Vivia sozinha, fumava, organizava saraus literários em casa e frequentava os meios literários, além de escrever poesia erótica, o que só fez aumentar o preconceito contra ela. O seu último livro foi Rapsódia Rubra: Poemas à Carne.

Quando completou 20 anos, ALEXINA MAGALHÃES PINTO (1870-1921) deixou Além Paraíba (MG) e foi descobrir a Europa. Sozinha. Aproveitou a viagem para fazer vários cursos e, quando voltou, trouxe na bagagem uma bicicleta. O veículo só deu aborrecimentos a Alexina, que pedalava por São João Del Rey, usando calças compridas – o que a cidade considerou uma afronta e o bispo de Mariana caso de excomunhão. Ela ingressou no magistério e escreveu vários livros sobre as raízes brasileiras – cantigas de roda e brinquedos.

GUERREIRAS

Século XV. A França guerreia contra a Inglaterra há quase cem anos pelo domínio da área que corresponde à Normandia, sob o domínio inglês.  A jovem Joana D’Arc, camponesa, católica e provavelmente analfabeta, acredita que poderá salvar a França do inimigo e precisa encontrar-se com o delfim (o futuro rei). A idade é incerta, provavelmente, 16 anos. Ela alega que ouve vozes e é guiada por elas. Consegue convencer um oficial que providencia o transporte para a viagem da moça. Não me interessa o lado religioso da questão. O que importa nessa história trágica é a coragem da moça, que vai muito além do campo de batalha. Para realizar a sua missão, ela enfrenta o mundo, tanto laico como religioso, masculino. Veste roupas masculinas, o que a Igreja condena; levada ao príncipe, comporta-se com segurança, defende suas ideias, passa por testes e, enfim, a aceitam nas fileiras do exército francês. Por que não? Certamente, acharam que na situação presente não faria grande diferença.

A juventude, a ingenuidade, aliada à coragem da moça, certamente tiveram um papel psicológico importante nos soldados e, confiantes, as forças francesas ganharam batalhas importantes que levaram à coroação de Carlos VII em Reims. A luta ainda continuou porque o objetivo era a tomada de Paris, mas na primavera de 1430, Joana foi presa e mais tarde vendida aos ingleses. Era o início do martírio que terminou com a condenação à morte na fogueira em 30 de maio de 1431. (Ela foi considerada inocente em 1456, após revisão do processo. Em 1920 foi canonizada.)  


 

Paris: Place des Pyramides, maio de 2012. 



A catarinense Ana Maria de Jesus Ribeiro (1821-1849) ficou conhecida como a “guerreira de dois mundos”. Ela era adolescente quando estourou a Revolução Farroupilha ou Guerra dos Farrapos, promovida pelos republicados. A guerra contou com a participação de Giuseppe Garibaldi (1807-1882), que depois de ser condenado à morte por participar de uma revolta em Gênova acabou no Brasil e envolvendo-se na Guerra dos Farrapos ao lado dos republicanos. Foi quando conheceu Ana que, abandonada pelo marido monarquista lutava no exército imperial, juntou-se a Garibaldi.  Começa em 1839 sua vida de amante e guerreira. Em 1841, quando a situação se tornou insustentável, Garibaldi parte para Montevidéu (Uruguai), onde se casa com Anita, que já tem um filho. No Uruguai nascem outros três. Em 1848, Anita e as crianças vão para Nice onde ficaram com a família do marido, até que ele mais tarde se reúna a eles. Em 1849 o casal assiste à proclamação da República italiana, mas logo se vê envolvido em nova guerra. Anita (grávida) e Giuseppe lutam pela Itália, só que a saúde dela vai piorando até que ela e a criança morrem perto de Ravena, em 4 de agosto de 1849.  Garibaldi não pôde comparecer ao enterro da mulher. Logo depois partiria para novo exílio. O corpo de ANITA GARIBALDI está sepultado no Janículo, em Roma, onde há um belo monumento em sua homenagem.


CIENTISTAS

Marie-Anne Pierrette Paulze (1758-1836) pertencia à nobreza francesa; quando a mãe morreu foi mandada para um convento e incentivada a estudar. Saiu aos 13 anos para casar com um senhor de 50 anos, mas recusou-se. O pai conseguiu fazer um acordo, sugerindo que o casório fosse com um jovem da família do idoso. Ela gostou da ideia, casaram-se. O jovem era Antoine Lavoisier (1743-1794), o pai da química moderna. Marie Lavoisier não viveu à sombra do marido. Interessou-se pelo trabalho de Lavoisier, estudou e tornou-se assistente dele, participou dos trabalhos e das experiências. Estudou inglês e latim – para fazer traduções de obras para o francês – e pintura com Jacques-Louis David, grande pintor da época, para ilustrar as publicações de Lavoisier. 

Embora Lavoisier fosse um grande cientista. a Revolução Francesa (1789) acabou por atingi-lo: em novembro de 1793 ele foi preso junto com o sogro. Marie lutou bravamente para libertar o marido. Em vão. Os dois foram guilhotinados em maio do ano seguinte. Após a morte dele, ela continuou a trabalhar para preservar o nome do marido: publicou com recursos próprios obras, inclusive as que ele produziu na prisão.

         

Retrato de Lavoisier e sua esposa  (1788). Acervo: Metropolitan Museum of Art, NY.


CAROLINE HERSHELL (1750-1848) brilhou como astrônoma. Nasceu em Hanover, Alemanha, mas aos 22 anos mudou para a Inglaterra onde vivia o irmão, o músico e astrônomo William Hershell (1738-1822). Aprendeu matemática com o irmão e astronomia sozinha, passando a atuar como assistente dele – com o cargo tornou-se a primeira mulher a ser remunerada por um trabalho científico. (O salário era pago pela Coroa.) Caroline, entretanto, envolveu-se com o trabalho, iniciou suas próprias observações e, entre 1786 e 1797, ela descobriu oito cometas. Em 1797, William Hershell notou várias discrepâncias no catálogo estelar do astrônomo real John Flamsteed, fundador de Greenwich publicou um catálogo, e propôs a elaboração de um index para explorar as diferenças e recomendou que a tarefa fosse atribuída à Caroline. O novo catálogo incluiu as observações de Flamsteed, a lista de errata e mais 560 estrelas não incluídas no relatório anterior. O trabalho foi publicado pela Royal Society no ano seguinte. Em 1828 Caroline Herschel recebeu uma medalha de ouro da Astronomical Society of London por catalogar as 2.500 nebulosas descobertas por seu irmão e em 1835 ela foi eleita membro honorário da Royal Astronomical Society e da Academia Real Irlandesa, em Dublin. Na verdade, 1828 foi o ano das mulheres, pois, além de Caroline Herschel, Royal Astronomical Society abriu suas portas para a cientista e escritora escocesa Mary Sommerville, (1780-1872), que também remunerada pelo trabalho. (Ilustração: Wikipedia.)


  

sábado, 25 de fevereiro de 2023

ROTEIRO DE IGREJAS HISTÓRICAS

São oito igrejas situadas no Centro Histórico de São Paulo que merecem uma visita. O roteiro pode ser feito a pé. Que eu saiba apenas a visita à cripta da Catedral da Sé é paga.

Catedral da Sé, Marco Zero de São Paulo. Inaugurada sem as torres em 1954.

Igreja e Museu José de Anchieta: Pátio do Colégio. Marco da fundação de São Paulo.
                                               O conjunto atual data de 1979.


 Igreja da Ordem Terceira do Carmo – Rua Rangel Pestana, 230.Data de 1676, a configuração atual data de meados do século XVIII.

Igreja Nossa Senhora da Boa Morte – Rua do Carmo. Edificação do século XVIII.

 Capela Santa Luzia e Menino Jesus – Rua Tabatinguera, 104.

.      

        Igrejas de S. Gonçalo (séc. XIX) e de S. Francisco. (séc. XVIII).  Largo de São Francisco.


Igreja de Santo Antônio, Largo do Patriarca. O restauro já terminou.
A igreja já existia em 1591 e passou por várias reformas.




terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

domingo, 19 de fevereiro de 2023

RIMBAUD, O POETA ANDARILHO

 

NO CABARÉ VERDE

(às cinco da tarde)

Oito dias de estrada, as botas esfoladas
De tanto caminhar. Em Charleroi, desvio:
– Entro no Cabaré Verde: peço torradas
Na manteiga e presunto; que não seja frio.

Despreocupado estiro as pernas sobre a mesa
Verde e me esqueço a olhar os temas primitivos
Sobre a tapeçaria. – Adorável surpresa,
A garota de enormes tetas, olhos vivos,

– Essa, não há de ser um beijo que a afugente! -
Rindo, vem me trazer meu pedido numa
Bandeja multicor: pão com presunto quente,

Presunto rosa e branco aromado de um dente
De alho, e o chope bem gelado, boa espuma,
Que uma réstea de sol doura tardiamente.

Arthur Rimbaud

Outubro de 1870.

O poeta francês Arthur Rimbaud (1854-1891) foi um enfant terrible. Viveu pouco, mas intensamente. E caminhou muito pela vida afora. Fugiu de casa aos 15 anos com destino a Paris, depois de vender os livros que ganhara como prêmio na escola para pagar o trem, mas como a quantia não cobriu o itinerário todo foi preso ao desembarcar na estação de Estrasburgo. Resgatado por um professor, passa uns tempos com a família do protetor até que a mãe o chame. Rimbaud não fica muito tempo em casa. Foge novamente – desta vez faz uma parte do percurso de trem e inicia suas caminhadas; vai para em Bruxelas e, no retorno para casa, traz poesia como bagagem. Entre idas e vindas, ele retorna a Paris em 1871, quando encontra o poeta Paul-Marie Verlaine (1844-1896) com quem mantém por três anos uma relação amorosa tempestuosa.

Não li uma biografia de Rimbaud, mas deve ser bem interessante conhecer melhor esse jovem inquieto para o qual a falta de dinheiro não é um empecilho para viajar. Afinal sempre pode ir a pé. "Sou um pedestre, nada mais." Em 1875, por exemplo, na Suíça, sobe a pé o Monte São Gontardo para chegar a Milão, na Itália. Foram anos de andanças até que em 20 de fevereiro de 1891, na Etiópia, ele reconhece: “Vou mal agora”. Um dos joelhos estava muito inchado e com o passar do tempo piora consideravelmente até que em abril parte para Marselha numa viagem de dor e agonia. Ao ser internado no hospital, teve a perna amputada na altura do joelho. Ele não desiste. Encomenda uma perna de pau de dois quilos com a esperança de voltar a caminhar em breve. Volta para a família, a irmã cuida dele com dedicação.

Rimbaud não desiste apesar de todo sofrimento e parte com a ajuda da irmã com destino a Argel, mas em Marselha é internado em estado crítico. Em setembro ele ainda aguarda a perna artificial. Em 20 outubro completa 37 anos e no dia 10 de novembro morre, após um longo sofrimento. “Vejo em Rimbaud o sentido de caminhar como sendo fugir. (...) Sabe-se sempre porque se está caminhando. Para avançar, partir, atingir, tornar a partir.” Afirmação do filósofo Fredéric Gros.

Como poeta influenciou o modernismo.

"O par de sapatos" (1886), óleo sobre tela de Van Gogh. Acervo: Museu Van Gogh.


sábado, 18 de fevereiro de 2023

SEMANA DO CAMINHANTE

 Nunca houve tantos idosos no mundo como nos tempos atuais: 1,1 bilhão de pessoas com mais de 60 anos em 2022 de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU). A expectativa é de que até 2050 o número de pessoas com 60 anos ou mais duplique e mais do que triplique até o final do século XXI, alcançando os 3,1 mil milhões em 2100! 

Se por um lado o fato é alvissareiro, por outro, é bastante preocupante pelos impactos sociais que causará em vários setores da sociedade. O mais urgente, do meu ponto de vista, diz respeito aos preparativos para o envelhecimento, que devem começar bem cedo cuidando tanto do “pé-de-meia” para os dias chuvosos como da saúde, adotando um estilo de vida saudável para que possa usufruir no futuro sua merecida aposentadoria, colocar em prática planos elaborados em dias de correria, quando costuma bater o desânimo, dar aquela vontade de sair correndo para uma praia ou campo e esquecer o chefe e as obrigações.

Com a carta de aposentado na bolsa, siga o conselho do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900): “Ficar ‘chumbado na cadeira’, repito-o, é o verdadeiro pecado contra o espírito”. Sempre é bom começar com um checkup para pôr em prática atividades físicas. Todo idoso vai ouvir do seu médico mais cedo ou mais tarde a ordem para praticar exercícios – coisa de que fujo desde os tempos da escola, quando Educação Física fazia parte do curriculum. Assim, por uns tempos optei pela dança (atividade aeróbica) e mais tarde por caminhadas e passeios pela cidade. 

Para caminhar ou passear, além de disposição, basta um calçado confortável, roupa adequada ao clima, chapéu e água. Na sacola ou mochila, o mínimo indispensável: levo um anoraque, o celular para eventuais fotos, água, uma maçã verde e identificação. Na minha cidade, costumo caminhar duas ou três horas, mas quando viajo perco totalmente o sentido do tempo e costumo caminhar o dia todo sem cansaço. O professor francês de filosofia, Frédéric Gros (1965), é taxativo: “Caminhar não é um esporte”. Gros afirma que “quando se anda a pé, só há um desempenho que de fato conta: a intensidade do céu, o viço das paisagens”. Para mim há também as surpresas do caminho, acontecimentos inesperados que obrigam o caminhante a improvisar, enfrentar desafios... É fundamental prestar atenção aos obstáculos para não cair e se machucar.

O filósofo francês Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) depois de uma existência bastante agitada, nos seus últimos anos resolveu dedicar o tempo a caminhadas por Paris.   “(...) não vi maneira mais simples e mais segura de realizar essa empresa do que manter um registro fiel de minhas caminhadas solitárias e dos devaneios que as preenchem quando deixo minha mente livre por inteiro e minhas ideias seguirem suas inclinações, sem resistência e sem dificuldade. Essas horas de solidão e de meditação são as únicas do dia em que sou eu mesmo por inteiro e pertenço a mim sem distração, sem obstáculo, e em que posso dizer de verdade que sou o que a natureza quis.”

Na segunda caminhada, realizada no dia 24 de outubro de 1776, o ilustre francês após o jantar passava pela área que hoje pertence ao 20º arrondissement, quando houve o incidente: viu as pessoas se afastarem para a lateral da rua e logo avistou um enorme cão dinamarquês que corria à frente de uma carruagem. Nem o cão nem Rousseau conseguiu se desviar. O filósofo, com 64 anos, achou que evitaria a queda dando um grande e preciso salto, permitindo que o cão passasse por baixo dele enquanto ele estivesse no ar. Na verdade, Rousseau não sentiu nem o golpe nem a queda: desmaiou.

Jovens o acudiram e quando voltou a si, contaram-lhe que a queda fora violenta, caíra de cabeça. Rousseau não lembrava de nada: nem país, cidade ou bairro. Aos poucos foi se recuperando até chegar em casa. No dia seguinte, um exame minucioso mostrou o rosto inchado, lábios e nariz extremamente machucados, mãos feridas, braço esquerdo deslocado, joelho esquerdo inchado e muito contundido. “Mesmo com todas essas repercussões, nada de quebrado” – escreveu ele.

Todo cuidado é pouco...

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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2023

DIA MUNDIAL DO RÁDIO

A minha infância e juventude foram embaladas pelas ondas do rádio. Nas noites santistas, a família na sala ao pé do rádio ouvindo músicas maravilhosas, programas inesquecíveis, novelas, notícias e, naturalmente, a voz do governo – “A voz do Brasil” e seus alertas aos navegantes... Neste dia de ótimas lembranças, a obra-prima de Woody Allen sobre esses tempos tão especiais: “A Era do Rádio” (1987), que revi tantas vezes e sempre com o mesmo prazer. Contextos sociais diferentes, experiências tão semelhantes... Adoro esse filme.


https://www.youtube.com/watch?v=YO4aNhgmwp8

(O dia mundial do rádio foi criado pela UNESCO em 2011 a partir de uma proposta inicial da Espanha e reporta-se à data de criação da emissora das Nações Unidas, em 13 de fevereiro de 1943.)


domingo, 12 de fevereiro de 2023

A BUSCA DE UM LIVRO

 

Os funcionários da livraria Martins Fontes não deixam o leitor a ver navios (o que até seria difícil ali na Paulista). O jovem que me atendeu encontrou rapidamente um dos livros que eu queria, mas os outros dois estavam esgotados na editora. Quando soube do assunto do meu interesse, logo sugeriu um autor que também tratou do tema e, como me interessei, ele procurou o nome do livro que, infelizmente, também estava fora de catálogo. Anotou o título em um papel para que eu procurasse em um sebo.

    Ontem, pesquisei na internet e achei o livro num sebo na Liberdade. Com a informação de que a loja estaria aberta até as 18 horas, anotei o endereço e fui até lá. O roteiro era simples: descer na altura da rua da Glória e descobrir a tal praça de que nunca ouvira falar. A moça da banca de jornal era uma versão simpática e em carne e osso do Guia 4 Rodas. Batia papo com uma senhora que devia estar varrendo a calçada – pelo menos a vassoura que empunhava indicava essa intenção. “Vire aqui à direita e na próxima também à direita, mas lá não tem livraria nenhuma. Lá só tem um hospital. Deve ser na Praça da Liberdade” – informou, cética. Expliquei que pegara o endereço na internet. A senhora da vassoura já foi acrescentando que o lugar era muito perigoso. “Não vá lá, não.” Falei que tomaria cuidado, agradeci e lá fui eu. Era ali pertinho. Há uma placa indicando a praça que, na verdade, é uma rua de uma quadra só. Área em decadência, vários moradores de rua instalados no lado ímpar. Numa oficina, o mecânico também ignorava a existência de um sebo. Os seguranças do hospital também, mas um deles consultou o Google e confirmou a existência do sebo. Outro sugeriu que eu fosse ao Sebo do Messias. (O pessoal é bem informado.) Fui até o final da quadra e... Nada! Olhando aquele casario decadente, deduzi que o sebo deve ser virtual. A informação correta seria: em funcionamento e não aberto. Na volta, agradeci aos seguranças e resolvi seguir o conselho deles e fui caminhando até a Praça João Mendes.

    O Sebo do Messias, que comemorou 50 anos em plena pandemia, está cheio. Peço ajuda a um funcionário. Ele consulta o terminal e não tem nenhum deles. “Devem ser livros raros” – comenta e me indica a seção onde posso encontrar outros do mesmo assunto. Apesar da preguiça, vou na direção indicada, mas vejo a prateleira dedicada à história de São Paulo e fico por ali bisbilhotando... e não é que acho um livro sobre o tema que procuro e que desconhecia? Ganhei o dia!

Praça João Mendes, fevereiro de 2023.

Praça João Mendes, fevereiro de 2023.



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

ADEUS, SAURA...

Um dos meus cineastas preferidos se despediu hoje (10) aos 91 anos: o espanhol Carlos Saura. Creio que o primeiro filme dele a que assisti foi "Mamá cumple cien años" (1979). Filmes europeus eram difíceis de aparecer no circuito comercial de Santos e foi em São Paulo que o descobri. Sua trilogia flamenca – “Bodas de sangre”, “Amor Bruxo” e “Carmen” – é maravilhosa. Revi “Carmen” várias vezes e e nunca me canso... Para o jornal espanhol EL PAÍS, Saura foi o “último diretor clássico do cinema espanhol”. 


https://www.youtube.com/watch?v=gBska8EAM8Q 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

AMIZADE

Fãs de bom cinema certamente conhecem o cineasta alemão Werner Herzog (1942), que entre outros filmes dirigiu “Fitzcarraldo” (1982) cujo elenco, encabeçado por Klaus Kinski, seu ator preferido, conta com José Lewgoy, Grande Otelo e Milton Nascimento. Herzog foi um grande amigo da escritora, crítica de cinema franco-alemã e cofundadora da Cinémathèque Française, Lotte Eisner (1896-1983), que vivia em Paris. No final de 1974, ele soube que Lotte – Eisnerin, como a chamava, estava muito doente. A notícia foi um choque. “Eisnerin não pode morrer, não vai morrer, não permitirei. Não vai morrer, não vai. Não agora, não tem o direito.” Naquele momento, ele imaginou que a amiga se salvaria, se ele fosse a Paris a pé para visitá-la. Herzog vive em Munique. “Quando eu chegar a Paris, ela estará viva” – escreveu em seu diário de viagem, que anos depois ele editou e publicou.

            Assim, no dia 23 de novembro, iniciou essa caminhada mágica para salvar a amiga. “Peguei um casaco, uma bússola e uma sacola com o indispensável. Minhas botas estavam tão sólidas e novas que me inspiravam confiança. Pus-me a caminho de Paris pela rota mais curta (...).” Final de outono, mas nessa época o frio já é intenso na região, sujeita à muita neve. A narrativa de Herzog é ágil, feita de belas imagens da natureza, de pequenos fatos bizarros e das dificuldades que enfrentou no caminho. Quase como um filme e o leitor vai montando as cenas como fotogramas.

“A barriga da perna direita pode me causar problemas e também a bota esquerda, no bico. Tanta coisa passa pela cabeça de quem caminha. O cérebro vira uma fera.”

“Arrasto-me mais do que ando. As pernas doem tanto, que mal posso colocar uma na frente da outra. Quanto medem um milhão de passos?”

“Andei, andei, andei, andei. Um belo castelo com fortes muralhas recobertas de hera, se erguia ao longe. As vacas nem se espantavam mais comigo, mas com o castelo.”

Herzog caminhou quase mil quilômetros em 22 dias, enfrentando frio, chuva e neve, dormindo em lugares estranhos e desconfortáveis, para encontrar a amiga viva. Uma reação insólita a um choque emocional. A jornada terminou num sábado, 14 de dezembro: “(...) fui ver Eisnerin que ainda estava cansada e marcada pela doença. (...) Fiquei embaraçado e estiquei minhas pernas doloridas sobre uma segunda cadeira que ela me empurrou. Naquele embaraço, uma palavra me atravessou o espírito, e como a situação por si já era estranha, eu a disse. Juntos, falei, vamos cozinhar um fogo e deter os peixes. Então ela me olhou com um fino sorriso e, como sabia que eu era um homem a pé e, portanto, sem defesa, me compreendeu. Por um instante fino e breve, algo suave atravessou meu corpo exausto. Eu disse: abra a janela, há alguns dias aprendi a voar”.

            Um belíssimo livro. Para mim a mais bela história verdadeira sobre amizade. Lotte Eisner, que foi mentora de Herzog e da nova geração de diretores alemães – entre os quais Winn Wenders e Volker Schlöndorff –, morreu nove anos depois. 

                  Não foi exatamente esta rota. É apenas uma ilustração da distância. Mapa Google.


terça-feira, 31 de janeiro de 2023

DIA DO MÁGICO

Há dias para tudo. Hoje é o dia mundial do mágico. Atualmente, acho que todos somos mágicos para sobreviver em mundo cada vez mais maluco – ou com mais malucos do que o usual. É possível até que nem tenha aumentado tanto o número deles – só ganharam mais visibilidade e influência. Mas voltando aos mágicos. Mandrake, personagem de histórias em quadrinhos, é o único mágico que me ocorre quando o assunto é levantado. Fez parte da minha infância e tinha uma namorada chamada Narda. Minha tia Gel, lá pelos idos de 1950, comprava a revista e lia as histórias e eu via os quadrinhos enquanto acompanhava a leitura. A primeira história de Mandrake, criação de Lee Falk e desenho de Phil Davies, foi publicada em junho de 1934 nos Estados Unidos. Não sou fã de mágica.



segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

CADEIRA DE BALANÇO

Em casa havia duas cadeiras de balanço. Uma de vime ficava na área externa e outra de madeira e palhinha, na sala. Carlos Drummond de Andrade diz que cadeira de balanço “é móvel da tradição brasileira que não fica mal em apartamento moderno. Favorece o repouso e estimula a contemplação serena da vida, sem abolir o prazer do movimento”. Das casas grandes em que vivi em Santos até a mudança para o apartamento em São Paulo em que moro, sempre encontrei um espaço para a cadeira de palhinha de minha avó. Raramente a uso, pois a coluna reclama, indiferente às razões que me levam até ela.

            Na minha infância, ela já era antiga. Imagino que deve beirar os cem anos. Nela sentaram-se todas as pessoas importantes em minha vida, além daquelas que nem cheguei a conhecer – o avô, uma tia que deixou uma marca tão forte na família que é como se eu tivesse convivido com ela... A cadeira de palhinha ficava num canto da sala – misto de sala de jantar e visita – ao lado do relógio cuco à disposição da família e das visitas. Com o tempo, minha avó deu preferência à cadeira de vime, onde lia as orações, o jornal e algum livro ou cochilava; ouvia o rádio à tarde fazendo crochê e assistia à televisão à noite. Era uma espécie de trono: em torno dela reuniam-se as amigas para longas conversas sobre a vida, a política e muitas histórias. A imagem recorrente, entretanto, é a da minha avó, acomodada em sua cadeira preferida, crochetando colchas, toalhas de mesa, pertences para enfeitar a casa ou para presentear pessoas especiais.

            Tudo tem história, mesmo quando não se tem um registro preciso. Caso das cadeiras de balanço que surgiram em meados do século XVIII, mas foi na Áustria que Michel Thonet (1796-1871) criou um design que conquistou o mundo: estrutura de madeira arqueada e encosto de palha de cana ou de folha de palmeira trançada. Passei toda a vida sem saber desses detalhes que não me tornam mais feliz, pois o que me faz mesmo feliz são as lembranças que a cadeira de balanço, hoje objeto de atração das raras visitas, me proporciona.

https://www.youtube.com/watch?v=hrqJkxQbPGM 

    A música para embalar esta lembrança, que tem um espaço especial em minha sala, é interpretada pela dupla sertaneja Sebastião Franco (Craveiro) e João Franco (Cravinho). Eles são irmãos, nascidos respectivamente em 1931 e 1939, em Pederneiras, município de São Paulo. Composição de José Caetano Erba (1937-2009), também de Pederneiras.


Mulher em cadeira de balanço (1897), de Victor Borissov Mussatov (1870-1905). Acervo Galeria Tretiakov. Moscou. 

domingo, 29 de janeiro de 2023

JANEIRO DE 2023

 


Se você falar de São Paulo para alguém de fora, a primeira imagem que o forasteiro fará é de trânsito congestionado, pessoas apressadas, perdendo um belo final de tarde de verão. Sampa sempre surpreende. Quinta-feira, 17 horas. Praça Alexandre de Gusmão – acesso pela Alameda Santos (paralela à avenida Paulista) – Cerqueira César. 

sábado, 28 de janeiro de 2023

AGRURAS JORNALÍSTICAS

 

O editor do jornal (anos 1970) criou uma coluna sobre bairros, abordando principalmente os problemas e as reclamações da população – a princípio de Santos e depois de São Vicente também. Tarefa que atribuiu a mim. Eu escolhia o bairro onde levantava problemas, ouvia população e cobrava do poder público uma resposta. As reclamações se concentravam principalmente nas áreas mais novas da cidade – Zona Noroeste ou ainda pouco habitadas, como a Ponta da Praia que, pasmem! – ainda era um matagal nos anos de 1970.

Conheci quase todos os presidentes de sociedades de amigos de bairros, muitos dos quais tinham algum vínculo com políticos e eram muito criticados pelos moradores. As queixas não mudavam muito: ruas esburacadas, esgoto a céu aberto, terrenos abandonados, lixo, ratos, falta de iluminação pública etc. e tal. Uma das reclamações recorrentes era a infestação de ratos provocada pela falta de limpeza de valas, terrenos abandonados e lixo acumulado a céu aberto. Havia quase sempre indignadas senhoras se queixando, alarmadas com a dimensão do problema. (nos depois a rataria até se expandiu para os jardins da praia, o que motivou o prefeito Oswaldo Justo (1923-2003) a requisitar um batalhão de gatos para enfrentar o problema que, pelo menos, lhe rendeu publicidade.

O trabalho tinha um grande apelo popular – havia uma senhora que mobilizava as moradoras do bairro para fazer reivindicações na redação. Houve um tempo em que o secretário de Obras chamava a reportagem para acompanhar visitas de inspeção a alguma região. Ia tudo muito bem até que um dia, em visita à redação, nosso colega e amigo Perito ao me ver abriu os braços e todo sorridente gritou: “Dona Ratazana! Quanto tempo!” Muito meigo! Não fiquei feliz, claro, mas relevei em nome da amizade. (Mais tarde me tornei "rata" de biblioteca.) Outra querida amiga, Elaine – que nas poucas horas vagas adorava pregar peças – lançou en petit comité minha candidatura à vereadora e até fez umas cédulas (naquele tempo tinha isso) em que eu aparecia como Hilda Amarante (sobrenome do coronel secretário de Serviços Públicos). Não gostei da ideia, o que não me impediu de guardar uma dessas relíquias. Elaine, infelizmente, faleceu ano passado.