domingo, 7 de maio de 2023

RECUPERAÇÃO DA PRAÇA DA SÉ

Nas minhas andanças pela cidade, não deixei de passar pela Praça da Sé nos últimos anos, quando foi se tornou o cenário triste e lamentável da sociedade em que vivemos. Uma multidão de pessoas ocupou a praça: moradores de rua, usuários e dependentes de drogas, desempregados, doentes e desocupados. O lugar perfeito para ladrões e receptadores agirem. Homens e mulheres, jovens e velhos. Não era fácil ou agradável entrar no metrô. Os lugares preferidos para aglomerações eram na parte superior da entrada da estação e ao lado das escadas rolantes. As escadarias da catedral também eram ocupadas. 

            No restante do espaço, eles dormiam ou ficavam jogados, sem esperança. Era possível observar que havia quem tentasse manter a autoestima, lavando as roupas que estendiam nas grades dos jardins aproveitando o sol. Quantas vezes passei por lá na hora em que os funcionários da prefeitura chegavam para a limpeza, quando as pessoas eram encaminhadas para o lado da praça em frente à Caixa para que o trabalho pudesse ser realizado.

Havia também uma pequena feira – gente em rodinhas conversando, alguns tentando vender coisas que espalhavam pela calçada. Era a “feira de rolo” em que o pessoal vendia objetos de procedência duvidosa (roubo). No ano passado, numa operação da Guarda Civil Metropolitana foram apreendidos celulares, máquinas caça-níquel (?), entorpecentes e R$ 7.607,00 em espécie. Nos dois primeiros meses de 2023, foram registrados mais de 950 roubos pelo 1º Distrito Policia, um aumento de 63% em relação ao mesmo período do ano passado.  

            O que ocorria na superfície da praça tinha sérias consequências no subsolo: a saída da estação do metrô de acesso ao Poupatempo ficou irrespirável porque a fonte, que enfeita o corredor com uma cortina de água corrente, estava sendo usada como banheiro. O cheiro já era insuportável antes da pandemia e em 2022, quando voltei por lá, preferi passar pela parte externa.

Pior mesmo é ouvir os comentários de passageiros de ônibus que transitam no entorno da praça. Comentários infelizes, permeados todo tipo de preconceitos. A situação dessa multidão é angustiante. Não tenho ideia qual seja a solução para o problema que é gigantesco e inclui vários setores da administração pública – desde o combate ao tráfico de drogas, questões de saúde pública e o atendimento das pessoas sem-teto, desempregadas e doentes.

Este mês as autoridades iniciaram a remoção de praticamente todas as pessoas – ficaram bem poucas. A praça passou por uma limpeza rigorosa, foram instalados canteiros de obras divididos por cercas para que os operários trabalhem sem a interferência de pedestres. Essas obras incluem limpeza dos jardins, recuperação do pavimento, troca de luminárias. A ação da prefeitura se estenderá pelo Triângulo, abrangendo 23 ruas.

Importante é que a ação social se estenda às outras regiões da cidade que enfrentam o mesmo problema. 







Moradores de rua, desempregados e dependentes de droga dividem suas tragédias 
e tristezas no mesmo espaço.


Visitantes voltaram e admiram o entorno.

A Praça ganhou uma limpeza profunda, o piso está sendo refeito e a iluminação trocada.

Muitas pessoas ainda continuam vivendo por lá. Vivendo?


Quinta-feira, 4 de maio de 2023, ao entardecer.



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sábado, 6 de maio de 2023

COVID19 EM MOMENTO DE TRANSIÇÃO

A Organização Mundial da Saúde, OMS, declarou nesta sexta-feira, 5 de maio, que o Covid-19 não constitui mais uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. “O momento é de transição do modo de emergência para o gerenciamento da Covid-19 ao lado de outras doenças infecciosas.” A doença estava sob o mais alto nível de alerta desde janeiro de 2020 e o fim da Emergência Internacional só foi alcançado por causa da dedicação de profissionais de saúde, pesquisadores, cidadãos, governantes (nem todos) e todo o corpo técnico da OMS.

A decisão tomada pelo Comitê de Emergência do Regulamento Sanitário Internacional e acatada pelo diretor-geral da OMS, Tedros Ghebreyesus, foi baseada na tendência decrescente nas mortes pela pandemia e o declínio nas hospitalizações e internações em unidades de terapia intensiva. Os altos níveis de imunidade da população ao vírus causador da doença também foram levados em conta.” Tedros Ghebreyesus ressaltou que, no entanto, o Covid-19 não deixou de ser uma ameaça global à saúde, pois o vírus chegou para ficar e continua matando – na semana passada, o vírus matou uma pessoa a cada três minutos. “Milhares de pacientes seguem lutando contra a morte em unidades de terapia intensiva” e milhões continuam a viver com os efeitos debilitantes da condição pós-Covid-19.

Os dados da OMD indicam que sete milhões pessoas morreram de COVID19, mas que os números reais podem ser de pelo menos 20 milhões, de acordo com o diretor-geral da OMS. Ghebreyesus ressaltou que a pandemia foi “muito mais que uma crise sanitária”: ela causou “graves convulsões econômicas, interrompendo viagens e comércio, fechando empresas e mergulhando milhões na pobreza. Ela expôs as desigualdades gritante do mundo, com as comunidades mais pobres e vulneráveis sendo as mais atingidas e as últimas a receber acesso a vacinas e outros recursos. (Fonte: ONU NEWS.)


Os primeiros avisos de alerta: março de 2020. (SP).

As máscaras tentando dar ânimo às pessoas.

                                     Metrô de São Paulo durante a pandemia, 2020.


Vale do Anhangabaú, 2020.



quinta-feira, 4 de maio de 2023

VILA ITORORÓ. APROVEITEM.

 

“Fui ao Itororó beber água e não achei” diz a cantiga de roda. Em São Paulo não achará mesmo o riacho que leva esse nome. Ele foi canalizado durante a expansão da cidade, assim como outros ribeirões e córregos.  A nascente do Itororó fica nas escarpas da avenida Vinte e Três de Maio, nas proximidades da rua Maestro Cardim, onde se localiza o Hospital da Beneficência Portuguesa. O lugar era conhecido como Vale do Itororó, ligado ao ribeirão Anhangabaú; mas em meados do século XIX, já poluíamos nossas águas: o córrego do Itororó recebia as águas usadas do antigo matadouro de São Paulo e por isso era conhecido como córrego da Limpeza.

            Da época em que o riacho corria a céu aberto resta uma lembrança que se esgarça com o passar do tempo e que a prefeitura vem resgatando lentamente. Trata-se da Vila Itororó. Definir essa Vila, construída na década de 1920 é bem difícil, ainda mais porque os imóveis principais estão quase em ruínas. O empreiteiro e comerciante Francisco de Castro, filho de portugueses, parece ter sido o autor do “projeto”. A característica marcante do prédio principal, um palacete de três andares da rua Maestro Cardim, é a falta de estilo. Colunas com capitéis gregos e modestas cariátides fazem parte do exótico edifício que domina a vila, situada entre as ruas Maestro Cardim (entrada), Monsenhor Passaláqua e Martiniano de Carvalho, na Bela Vista. No princípio, a área de 6 mil metros quadrados tinha 37 casas – a maioria das quais se diluiu no tempo. Nos anos 1940 a área foi invadida e a reintegração só ocorreu décadas depois. Agora, conta com dez edificações – algumas já foram restauradas e dão vida ao Centro Cultural que a Prefeitura reativou em 2019. O que chama atenção nesse espaço é a piscina – a primeira de São Paulo.

            A Vila é tombada desde 2002 pelo Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e desde 2005 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico e Arquitetônico. A restauração começou em 2013. O Centro promove feiras gastronômicas e de artesanato, shows; e várias oficinas de dança de salão, crochê, sobre meio ambiente e sustentabilidade entre muitas outras. Funcionamento: de terça a domingo das 10h às 19h. Entrada gratuita. Estação São Joaquim do Metro, Linha Azul. 

https://vilaitororo.prefeitura.sp.gov.br/programacao/oficinas/









sábado, 29 de abril de 2023

DIA MUNDIAL DA DANÇA

Hoje é sábado. Um sábado perfeito para ver ou rever “Embalos de sábado à noite”, filme de 1977 com John Travolta (1954), afinal hoje é Dia Mundial da Dança. O filme fez um grande sucesso e Travolta virou um astro internacional. Melhor ainda: ir a um dos bons bailes que há em São Paulo.

Grandes pintores celebraram a dança em suas obras: Heitor dos Prazeres (1898-1966), Degas Edgard Degas (1834/1917), Toulouse-Lautrec (1864-1901), Fernando Botero (1932) e Pablo Picasso (1881-1973).

“A linguagem corporal é a forma de comunicação mais instintiva da Humanidade”, escreveu a coreógrafa chinesa Yang Liping. Lançada em 1989, a data homenageia Jean-Georges Noverre (1727-1810), considerado o fundador do ballet moderno, que nasceu em 29 de abril. Para Klauss a dança “deixa de ser uma profissão, uma diversão, uma ginástica, deixa até de ser uma arte no sentido mais e restrito do termo, para ser entendida e vivida como um caminho de autoconhecimento, de comunhão com o mundo e de expressão do mundo”.



https://www.youtube.com/watch?v=tyJDYTG5leQ 


Heitor dos Prazeres.

Fernando Botero.

Edgar Degas. 

Pablo Picasso.

Toulouse-Lautrec. 


sexta-feira, 28 de abril de 2023

JORNADA CULTURAL REALEJO


Abril chega ao fim com um fim de semana prolongado. Programa para quem vai a Santos ou não planeja vir ao Planalto. 



 

quarta-feira, 26 de abril de 2023

ADEUS A HARRY BELAFONTE

Morreu Harry Belafonte (1927-2023), um novaiorquino que foi muito mais que um cantor e ator de grande sucesso: teve importante ativista pelos direitos civis. Ele usou o seu carisma e sua influência para mobilizar e arrecadar fundos para o movimento. Amigo e apoiador do reverendo Martin Luther King Jr., atraiu celebridades para a Marcha da Liberdade em Washington em 1963, quando King proferiu seu histórico discurso "Eu tenho um sonho" e participou da marcha de Selma a Montgomery, no Alabama; idealizou a gravação da música “We Are The World” para levantar fundos para combater a fome e doenças na África e que foi entoada por um coral formado pelas principais celebridades de 1985 entre os quais Bob Dylan, Michael Jackson, Lionel Ritchie, Tina Turner, Kenny Rogers e Bruce Springsteen. O single, o álbum e o videoclipe renderam 55 milhões de dólares.

A imprensa dedicou-lhe várias e merecidas páginas nesta quarta-feira, reconhecendo o importante trabalho que ele desenvolveu paralelamente à carreira artística, muitas vezes pondo em risco a própria segurança. Harry Belafonte foi, reconhecidamente, um rebelde. Respondendo à pergunta “Onde mora o coração rebelde?” ele disse:

 “Sem o coração rebelde, sem as pessoas que entendem que não há sacrifício que possamos fazer que seja grande demais para recuperar o que perdemos, estaremos para sempre distraídos com posses, bugigangas e títulos.”  

Filho de família pobre de origem jamaicana, Belafonte lutou na II Guerra, na volta apaixonou-se por o teatro para pagar os estudos cantava em night clubs. O sucesso como cantor aconteceu em 1956 quando seu álbum Calypso vendeu mais de um milhão de cópias, algo inédito. Ele fez teatro, televisão e cinema – ganhou um prêmio Tony por seu trabalho na Broadway. Foi embaixador da Boa Vontade da UNICEF.

Em 2013, ele recebeu a maior honraria da NAACP (Associação Nacional para o Progresso de Pessoas de Cor), a Medalha Spingarn, o Kennedy Center Honor em 1989, a National Medal of Arts em 1994 e o Grammy Lifetime Achievement Award em 2000. 

Entre tantas músicas que ele gravou, escolhi “Matilda”.



https://www.youtube.com/watch?v=jBd0YqO_-2I

sábado, 22 de abril de 2023

VIDA DE REPÓRTER

Para quem não é do ramo, foca é todo jornalista no início da profissão. Comecei a estagiar em abril de 1970, quando ainda cursava o quarto ano da faculdade. Tudo novidade. Na redação, havia vários colegas da faculdade e alguns conhecia de vista desde os tempos do colégio Canadá, como Tomás de Aquino, que devia estar com uns 23 anos e já se destacava no jornalismo.  Na época, havia uma pedreira no bairro do Marapé que causava grandes transtornos para a vizinhança e, vira e mexe, os moradores iam até o jornal reclamar, pedindo que as autoridades tomassem providências contra a empresa extratora de pedras. 

Foi por isso que a secretaria de saúde informou ao jornal que em tal dia faria uma operação surpresa e eventual interdição da pedreira caso a empresa estivesse infringindo a lei. Não sei o motivo que levou a chefia a escalar uma foca para cobrir o evento. Talvez os experientes estivessem ocupados com coisas muito mais importantes. O fato é que me deram todas as orientações possíveis e avisaram que, eu e o fotógrafo, só deveríamos aparecer quando a fiscalização chegasse. Em outras palavras: deveríamos ficar na moita até a hora H. Fomos cedinho para o local e abandonados nas imediações da pedreira. E assim passaram-se os minutos e as horas, e a manhã chegou ao fim sem que ninguém da Secretaria de Saúde se materializasse. Na pedreira, o trabalho seguia o ritmo, como pudemos constatar a cada explosão, seguida de nuvens de poeira. Meu horário de trabalho era de 8 às 13 horas. O repórter fotográfico já estava irritado, queria ir embora; munida de uma ficha telefônica, fui procurar um telefone para ligar para o jornal. Atendeu Tomás de Aquino. Expliquei a situação e concluí, como boa foca, que meu horário de saída era às 13 horas. Ele era um gentleman. “Hilda, jornalista não tem hora para sair, mas se você quiser mesmo vir embora eu envio um carro e um jornalista para o local.” Uma lição inesquecível dada com toda classe.

Lembre-me dessa história porque hoje é dia de Tiradentes. Ainda cursava o colegial no colégio Canadá, quando assisti no anfiteatro do colégio a uma montagem do julgamento de Tiradentes feita pelos estudantes. Tomás de Aquino fazia o papel de advogado do inconfidente e, observando seu desempenho, imaginei que ele faria Direito. Foi uma surpresa encontrá-lo no jornal, onde já se destacava. Inteligente, bonito e elegante, dirigia um jipe descoberto. Faleceu no mesmo ano num acidente automobilístico em Guarujá.

    Por falar em pedreira... Eu já não era foca. Estava trabalhando um sábado à noite cobrindo folga ou férias de algum colega. A reportagem geral é bem abrangente, pode até incluir um show, normalmente atribuição do pessoal de Variedades, ou um crime, setor da equipe de polícia. Naquele sábado, entre várias outras coisas, eu tinha que ir conferir uma assembleia do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Extrativas de Santos, cuja sede era na Vila Mathias, numa região repleta de hotéis de “curta permanência”, botecos e casas, por assim dizer, suspeitas, embora todo mundo soubesse o que acontecia por lá. Quanto a isso nenhum problema porque o jornal ficava nas imediações da velha “boca do lixo” de Santos. Minha missão naquela noite era conversar com o presidente da entidade sobre as reivindicações e combinar para pegar no dia seguinte o resultado assembleia e seguir com o fotógrafo para a próxima reportagem.

O sindicato funcionava num sobrado – subi as escadas, localizei o salão, abri a porta e lá estavam dezenas de trabalhadores esperando sentados que a reunião começasse. A mesa que conduziria os trabalhos ficava de frente para a porta e, ao me ver, um dos líderes gritou indignado:

– A senhora queira se retirar imediatamente! Esta é uma casa de respeito!

Todas as cabeças se viraram para ver a indigna senhora que ousara invadir o local. Suspirei fundo e respondi que eu era jornalista e estava ali por causa da assembleia. Risadas da plateia e constrangimento do presidente que tratou de se desculpar e me deu toda atenção tentando remediar a situação.

A NOITE DAS VAIAS

O jornal planejara um caderno especial sobre a história do Carnaval de Santos. Uma equipe de repórteres foi atrás dos diretores dos blocos e escolas de samba mais antigos para entrevistá-los e localizar velhos foliões para narrassem suas aventuras “momísticas”. Isso foi em meados dos anos 1970. Na minha lista, constava o “Agora vai...”, bloco que desfilava apenas uma vez por ano no sábado anterior ao Carnaval. Não gosto de Carnaval. Quando era criança, a rua em que eu morava fazia parte do trajeto dos blocos e minhas tias me levaram algumas vezes para assistir “Dona Dorotéia, vamos furar aquela onda?” – um desfile que acontecia na orla da praia.

Na época da entrevista o “Agora vai...” estava em decadência. O diretor da agremiação marcou a entrevista à noite, na sede da Tricanas de Coimbra, que era num sobrado no centro da cidade, onde aconteciam os ensaios. Como sempre os repórteres dividiam a viatura do jornal e nessa ocasião estávamos eu, o fotógrafo e cronista social. Na porta do sobrado, me identifiquei, mas o leão de chácara me impediu de subir; expliquei que tinha entrevista marcada com a diretoria do bloco. Ele estava irredutível. O cronista social resolveu intervir e, para minha surpresa, teve permissão para entrar. Furiosa, aguardei o retorno dele e fui autorizada a subir. Como a maioria dos sobrados, o térreo é um espaço destinado a comércio com uma entrada lateral com a escada de acesso ao piso superior.  No prédio em questão, a escada terminava num amplo salão com as janelas abrindo-se para a rua à esquerda e à direita uma série de portas para os demais cômodos. Assim que pisei no salão fui recepcionada por uma estrondosa vaia dos foliões que só pararam com a gritaria quando uma porta se abriu e uma pessoa aos berros disse que eu era jornalista e ia entrevistá-lo. Artistas, políticos e atletas costumam amargar vaias em suas carreiras, mas jornalistas.? A pessoa era o diretor da agremiação, que me introduziu na sala, pediu desculpas pelo comportamento dos foliões e explicou que o “Agora vai...” se tornara um bloco gay e mulheres não eram admitidas nos ensaios. Na saída, todos se comportaram e ainda ganhei adeusinhos que ignorei solenemente.

De acordo com J. Muniz, colaborador do jornal CIDADE SANTOS, a agremiação teria surgido no antigo Café d’Oeste na Praça José Bonifácio em 1947. A partir de 1952 o bloco incluiu carros alegóricos com críticas e teve seu apogeu em 1958. Naquele ano, estava em completa decadência. Lembro que as mulheres já desfilavam em escolas de samba, mas eram poucas ainda em blocos e ranchos.

"Baco", tela de Caravaggio, 1596.


terça-feira, 18 de abril de 2023

A DIFÍCIL ARTE DE VENDER SEU PEIXE

Todos os dias passam sob minha janela os vendedores de frutas fresquinhas, ovos, pamonha e o padeiro, além do amolador de facas, tesouras e alicates oferecendo seus serviços. O padeiro usa moto e uma buzina azucrinante para vender os pães acomodados em uma caixa gigante, enquanto o amolador usa a tradicional gaita, que não ofende os ouvidos de ninguém. Os demais aparecem de carro e com um sistema de som capaz de levantar defuntos. Pensava eu com meus botões se a publicidade não teria nascido com o comércio, afinal, na feira cuja origem se perde no tempo, quem não grita não vende sua mercadoria.

            Os primeiros anúncios de que me lembro eram transmitidos pelas ondas do rádio, pois cresci ouvindo rádio que ocupava um lugar de destaque na sala. Nas revistas e jornais, havia propagandas em preto e branco, pois publicações em cores eram raras até mesmo em CRUZEIRO, a principal revista brasileira que circulava em casa. Na edição de 13 de janeiro de 1945, que encontrei em um sebo anos atrás, a atriz americana Evelyn Keyes* (quem lembra dela?) recomenda “PAN CAKE MAKE UP BATON TRU-COLOR ROUGE E PÓ em Harmonia de cores, a criação exclusiva da Max Factor em preto e branco”. O anúncio, entretanto, não é colorido.

Sabonetes, cremes, remédios, material de limpeza movimentavam as páginas das publicações. Na mesma edição encontro o tradicional sabonete Lifebuoy, o creme Rugol (‘20, 30 ou 40 primaveras... sempre conquistando corações – graças a Um Só Creme!”), Eno “sal de fructa” entre tantos outros. A velha e boa Guaraná Antárctica... E as canetas tinteiro Parker 51, um sonho de consumo...

         Havia ainda os anúncios da Cera Parquetina – naquela época ainda se encerava a casa que brilhava lindamente, quando se terminava de passar a enceradeira. (A fábrica foi comprada nos anos 1990 pela Reckitt Benckiser e desapareceu do mercado.) O anúncio do Biotônico Fontoura, único remédio que eu gostava de tomar, dizia que “Todo mundo lá em casa tem saúde por isso toma Biotônico Fontoura. Quem não toma Biotônico Fontoura é um só Au Au Au, o tadinho do Totó.” Em casa só eu tomava o biotônico porque era muito magrinha e não gostava de comer. O reforço era a detestável colherada do “óleo de fígado de bacalhau”.

E para terminar o jingle da Auris-Sedina que também era muito bom para os ouvidos dos ouvintes de rádio, pois a intérprete era ninguém menos que Dircinha Batista (1922-1999), considerada patrimônio nacional nos anos 1940.



https://www.youtube.com/watch?v=sVGdHiCOTII

*Evelyn Keyes (1916-2008) fez o papel de irmã da Scarlett O’Hara em “...E o vento levou” entre muitos outros filmes e casamentos.



 










domingo, 16 de abril de 2023

FEIRA DE LIVROS

Sábado chuvoso. A agenda informa que ainda acontece a Feira de Livros da Unesp na Barra Funda – termina amanhã (hoje). Vou cedo porque imagino que o público prefira dormir até mais tarde. O local é em frente à estação do Metrô, mas uma faixa me deixa confusa embora seja enorme. Faltou apenas um item nela – e fundamental: a seta indicando a direção da entrada. O espaço está lotado. Leitores de todos os tipos e tribos. Queria tanto passear entre os estandes tranquilamente para descobrir novos livros e autores, mas entre um empurrão e outro vou abrindo caminho pelas ruas estreitas da feira. Afinal, é uma feira.

Aqui estão os infantis; ali os de autoajuda; acolá uns que me parecem de terror (pelo menos as capas). Lá estão os clássicos – os que não tenho, li e leio emprestados das bibliotecas... Foi então que vi alguns livros de autores japoneses – entre os quais Mishima (1925-1970) – e ao espiar as publicações da editora que, aliás, não conhecia, um título me atraiu: “Afirma Pereira”, do escritor italiano Antonio Tabucchi (1943-2012), editora Estação Liberdade. (Uma das minhas grandes falhas é sempre esquecer de colocar na mini bolsa os óculos de perto e o jeito é apelar para a boa vontade das pessoas.) Sou atendida por uma pessoa muito bem preparada. Muito mais que um vendedor. Um leitor que vende livros. Ele me introduz à obra de Tabucchi, um professor italiano apaixonado por Portugal, conta a trama do livro escolhido e ainda me fala de outro: “Os últimos três dias de Fernando Pessoa” cujo tema é o encontro do poeta português com seus heterônimos – Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Infelizmente esgotado.

A história de “Afirma Pereira” acontece em Portugal, e o protagonista é o editor da seção cultural de um jornal lisboeta às voltas com um foca contratado para escrever, antecipadamente, obituários de pessoas importantes porque “um bom necrológio não se improvisa”. Corre o ano de 1936 – quando a fina flor da ditadura na Europa está no poder: em Portugal Antônio Salazar há quatro anos; a vizinha Espanha enfrenta a Guerra Civil, enquanto Mussolini (Itália) e Hitler (Alemanha) parecem dominar solidamente seus países. Nesse quadro político, o jornalista novato, entretanto, não se conforma em fechar os olhos à realidade e... Bem, é melhor ler o livro para saber o que acontece. “Afirma Pereira” recebeu o Prêmio Super Campiello, Scanno e Jean Monnet de Literatura Europeia e, em 1995, ganhou uma versão cinematográfica, dirigida por Roberto Faenza (1943), com Marcello Mastroianni no papel de Pereira. Agradeço as informações do leitor que me atendeu e deixo a feira feliz com este novo amigo.



Local da Feira da UNESP: 
Rua Dr. Bento Teobaldo Ferraz, 271, ao lado da Estação Palmeiras - Barra Funda do Metrô.

sábado, 15 de abril de 2023

JORNADA CULTURAL

 Um programa especial em Santos.

Neste sábado o bate-papo será com o jornalista Moacir Assunção, autor de "Os homens que mataram o facínora" sobre Lampião e "Nem heróis nem vilões" sobre a guerra do Paraguai. 

A Livraria REALEJO fica na Av. Mal. Deodoro, 2 - Gonzaga.



sexta-feira, 14 de abril de 2023

DESCULPE, FOI ENGANO!

Sala de espera da clínica. Aguardo com outras pessoas minha vez para um exame ergométrico para fazer atividades físicas. Nada interessante em volta. Uma porta se abre e aparece uma moça de touca, máscara e avental que vem em minha direção, se inclina e, pondo o rosto bem perto do meu, mostra uma folhinha de caderneta e me diz baixinho, toda atenciosa:

– Senhora, fiz uma lista dos hospitais e...

Hospitais? E eu nem fiz o teste? Que eficiência!

– Hospitais? Não preciso de hospital.

Ela “repara” o erro rapidamente:

– Desculpe, pro seu marido.

– Marido? Não tenho marido!

Ela ainda não se convenceu:

– A senhora não é dona Elisa?

– Não, você está enganada.

– Ih! Acho que errei de paciente.

E a atrapalhada sai em busca da dona Elisa.

Bem, pelo menos foi divertido e, logo em seguida, me chamaram. Fui tranquila para a esteira porque pelo menos sabia que já tinham uma lista de hospitais para emergência. 



domingo, 2 de abril de 2023

APRIL LOVE

Pat Boone (1934) é um cantor e ator norte-americano que foi bastante popular em meados do século passado. Tinha uma carinha bonita, uma voz agradável e totalmente olvidável. Lembrei-me dele por causa de uma canção – April Love, tema do filme "Primavera de Amor" (1957) que fez sucesso por aqui. Continua na ativa aos 88 anos.

https://www.youtube.com/watch?v=VGkOLdzW-0E




segunda-feira, 27 de março de 2023

MOMENTOS PARA O CHÁ

Sugestões de Lin Yutang (1875-1976, filósofo chinês que em 1936 se radicou nos Estados Unidos, para se deliciar com uma xícara de chá. Em tempo: não consegui saber que instrumento é ch’in. 

MOMENTOS PRÓPRIOS PARA TOMAR CHÁ

Quando se tem o coração e as mãos ociosos.

Quando se está cansado depois de ler poesia.

Quando estão perturbados os pensamentos.

Escutando canções.

Quando termina uma canção.

Encerrado em casa num dia festivo.

Tocando o ch’in e olhando pinturas.

Conversando altas horas da noite.

Ante uma clara janela e uma mesa limpa.

Com amigos encantadores e gráceis concubinas.

Ao regressar de uma visita com amigos.

 Quando o dia é claro e suave a brisa.

Em um dia de leves chuvas.

Num bote pintado junto a uma pequena ponte de madeira.

Num bosque de altos bambus.

Num pavilhão que dá sobre flores de lótus, num dia de verão.

Depois de haver queimado incenso em um pequeno gabinete.

Depois que terminou uma festa e os convidados se foram.  

Quando as crianças estão na escola.

Em um oculto e tranquilo templo.

Perto de famosas fontes e belos rochedos.


"A importância de Viver",  Lin Yutang - Círculo do Livro. 


Salão do palácio Azay-le-Rideau no Vale do Loire (Tours, França), 2010.

Gosto de chá preto sem açúcar. A cor é linda.


sábado, 25 de março de 2023

O LIVREIRO ESCRITOR

O editor e livreiro José Luiz Tahan faz sua estreia como escritor com o lançamento do livro de crônicas hoje em Santos (SP) na Livraria Realejo (Avenida Marechal Deodoro, 2). O evento contará com cantor e compositor Murilo Lima às 15h, músico Julinho Bittencourt às 16h e o tradicional Choro de Bolso, às 17h. 



sexta-feira, 24 de março de 2023

OS CINCO SENTIDOS

 

No meu tempo de escola, tínhamos aulas de biologia e sabíamos direitinho quais e quantos eram os nossos sentidos e para que serviam. Ao perambular por pelas ruas usamos quase todos – especialmente a visão, a audição, o olfato – às vezes o tato e em certas ocasiões até degustamos algum petisco que agradam ao paladar. Ao caminhar nossos olhos vão captando o cenário, os personagens, os perigos eventuais, a beleza, a tristeza... Na cidade, nossos ouvidos são bem maltratados pelo ruído do trânsito intenso, pelas obras em andamento, pelos autofalantes muitos decibéis acima do normal... As narinas também padecem com os cheiros mais estranhos, acho que alguns até peculiares aos nossos tempos – escapamentos de carro – ou que se perdem na história – esgoto vazando nas calçadas...

            Mas nem tudo é desagradável. Quantas vezes somos brindados com um delicioso perfume de pão assado, do cheiro de terra que emana de um jardim sendo regado ou de frutas maduras de uma frutaria, de pão fresquinho da padaria, de uma carne assada que escapa pela janela de uma cozinha oculta e que excita nossas papilas gustativas... Ah! Os sons! Lembro de um sábado distante em que os CDs eram novidade e a Casa Brenno Rossi ainda existia. Ficava na rua Vinte e Quatro de Maio, no Centro Histórico. Quando passei por lá ouvi Nana Mouskouri (1934) cantando “Je chante avec toi liberté” (NABUCO, Verdi). Que gravação maravilhosa! Um canto de sereia: parei, ouvi mais um pouco, voltei e comprei o CD.

            Não esqueci do tato – como esquecer da sensação do sol, da chuva num dia de verão ou do vento frio numa esquina qualquer? O sol quente nos empurra em direção a uma sombra – sob uma marquise, uma árvore, um ponto de ônibus.... Sou avessa a guarda-chuvas e, surpreendida pela chuva, posso continuar o caminho ou buscar guarida em algum estabelecimento comercial – de preferência onde sirvam cafezinho. Correr? Não faz mais parte do meu show.

            Os estudiosos explicam que é por tudo isso que os grandes espaços e grandes edifícios tornam o ambiente urbano impessoal, formal e frio. “Edifícios e espaços urbanos ficam cada vez maiores, mas as pessoas, que deveriam usá-los, permanecem iguais.” (Urbanista dinamarquês Jan Gehl.)

Rua do Itaim, vendedor de flores, 2012.


Zona Cerealista do Mercado da Cantareira.

O novo Anhangabaú, setembro de 2022.

Rio Tamanduateí, 2016.






quinta-feira, 23 de março de 2023

BOM DIA!

 

Quantos “bons dias” você distribui ou retribui no seu cotidiano? A pergunta banal me ocorreu manhã dessas depois de vários cumprimentos logo na primeira quadra. A sequência pode começar no elevador ou com o porteiro; na calçada é a vez dos motoristas de táxi, porteiros dos prédios vizinhos, o jornaleiro, os garis, o sapateiro, o borracheiro (às vezes ele responde), os manobristas da padaria... Os vizinhos e conhecidos dos arredores. E há ainda aqueles que desconhecemos, mas que cumprimentam ou nos dão um sorriso simpático. Essas são as pequenas (e muito importantes) gratificações dos moradores do mesmo bairro ou prestadores de serviços contínuos, que tornam a vida no bairro tão aprazível, faz com que todos se sintam, reconhecidos e até estimados. Gérard Vincent (1922-2013), sociólogo e historiador francês, afirma que o bairro é “espaço de conhecimento mútuo”. De acordo com ele o “bairro se define subjetivamente, para seu morador, pelo conjunto dos itinerários percorridos a partir de sua casa” e a pé, “pois a área do bairro é a do pedestre” e que o espaço da aglomeração pertence aos “’meios de transporte’.

            Os vizinhos se encontram em padarias, supermercados, mercadinhos, lavanderias, salão/hotel/veterinário para pets, alguns cabelereiros e barbearias (acho que por aqui só tem duas), academias e muitas farmácias. Por falar em farmácias, a Vila Mariana, onde está inserida a Aclimação, está na 19ª colocação na lista de percentual de idosos com 75 anos ou mais de idade de 2019. Eles representam 29,7 da população do Distrito, segundo dados da Prefeitura.

Ah! As bancas de jornais, que vêm perdendo espaço na cidade, também são pontos de encontro da vizinhança para compra de doces, água e refrigerantes – jornais e revistas desaparecem aos poucos. Muitos jornaleiros mantêm um banquinho para os clientes que sempre têm uma história para contar; entretanto, no país do faz-de-conta, onde o jogo de azar é proibido, muitas bancas recebem apostas, o que sempre causa um discreto movimento. O jogo do bicho é uma contravenção que gera multa e prisão, mas resiste à lei e à ordem há 131 anos. Coisas do Brasil.

            Vamos em frente. As feiras cuja origem se perde no tempo já foram um ponto importante de encontro. A Aclimação tem várias: terça-feira na rua Guimarães Passos, que encolheu à medida que as casas foram substituídas por prédios; quarta-feira nas imediações da Praça General Polidoro; sexta, na rua Pedra Azul – a mais movimentada; e sábado na Loureiro da Cruz. Nas barracas de pastel, água de coco e garapa (detesto), há banquinhos para os consumidores saborearem os quitutes com tranquilidade, que é relativa, pois sempre passam conhecidos que param para uma prosinha.         

Meu bairro, constituído em um morro no início do século passado, tem quase todas as qualidades preconizadas por urbanistas: pode-se percorrê-lo todo a pé sem sentir tédio; alguns lugares, entretanto, exigem coragem e esforço dos maiores de 70 anos que não tenham um bom preparo físico. Explico: ladeiras íngremes e calçadas com escadas. Algumas ruas até são ligadas por escadarias desafiadoras que, no auge da pandemia, serviram para muitas pessoas se exercitarem. Uma delas se tornou ponto de encontro de jovens que usam os corrimãos para praticarem manobras radicais com skates.

            Enfim, hora de dizer boa tarde...

Loja nova no bairro.


General Polidoro, uma das raras esculturas do bairro.


segunda-feira, 20 de março de 2023

A CHEGADA DO OUTONO

 A nova estação chega às 18h25. Se no Hemisfério Norte o outono proporciona um festival de cores, por aqui a natureza muda pouco. As árvores continuam viçosas e muitas, florindo. Fotos de Berlim, Bonn (2008) e Rio de Janeiro (2015).

Platz der Republik, Berlim, 2008. 

Bonn, Alemanha, cidade natal de Beethoven. Foto: 2008.

Praça da República, Rio de Janeiro, 2015.





sexta-feira, 17 de março de 2023

HORA DO ALMOÇO

 A comida na literatura brasileira é o tema escolhido pela Biblioteca do SESC-Carmo para animar os leitores.

“...digo-lhe que é melhor você criar juízo e comer o arroz com feijão, picadinho de carne e tomate que estão no seu prato – é comida muito gostosa, especialmente quando comida com um pouquinho de pimenta e amor”. “Concerto para Corpo e Alma” – Rubem Alves (1933-2014).

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“O pai entra carregando um prato coberto por uma lâmina de papel alumínio.

 – Acorda pra cuspir! – grita, ao ver o filho inconsciente.

– Pai?

– Olha aqui.

– Ela fez aquelas sardinhas fitas que eu te falei, estão uma delícia. Tem arroz, feijão e tomate.

– Obrigado, pai.

– Tem bacon no feijão, está uma delícia!”

“A arte de produzir efeito sem causa” – Lourenço Mutarelli (1964).

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“Certa manhã, arrumadas para a viagem a São Caetano, tomávamos café, eu, mamãe e Vera, a outra viajante escalada. A cesta de vime levada sempre nessas visitas, com alças, boa para ser carregada por duas pessoas, já estava pronta, superlotada: com dois litros de vinho, linguiça de porco fresca, linguiça calabresa, salames e queijos, ‘para ajudar o almoço de tia Joana’, dizia mamãe.”

"Anarquistas graças a deus"– Zélia Gattai (1916-2008).

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“Pulou da cama: como perder os enterros? Saiu do banheiro já vestido, Gabriela acabava de pôr na mesa os bules fumegantes de café e leite. Sobre a alva toalha cuscuz de milho com leite de coco, banana-da-terra frita, inhame, aipim.

“Gabriela cravo e canela” – Jorge Amado (1912-2001).

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“É vem tutu

Por detrás do murundu

Pra cumê sinhozinho

Cum bucado de angu.”

 

“O triste fim de Policarpo Quaresma” – Lima Barreto (1881-1922)

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Jigué viu que a maloca estava cheia de alimentos, tinha pacova tinha milho tinha macacheira, tinha aluá e cachiri, tinha maparás e camorins pescados, maracujá-michira ata abio sapota sapotilha, tinha paçoca de viado e carne fresca de cutiara, todos esses comes e bebes bons...”

“Macunaíma” – Mário de Andrade (1893-1945).

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É uma galinha assada e um queijo-do-reino! Vê que beleza, Nevinha! Vamos esconder o queijo para comermos depois, numa hora de aperto!

“A farsa da boa preguiça” – Ariano Suassuna (1927-2014).